Caso vocativo
O caso vocativo é um caso gramatical, usado no vocativo.[1] É uma referência à 2ª pessoa, um apelo, um chamado, e é usado para o nome que identifica a pessoa (animal, objeto etc.) a quem se dirige e/ou ocasionalmente os determinantes de tal nome.
Uma expressão vocativa é uma expressão de referência direta, em que a identidade da parte a quem se fala é expressamente declarada dentro de uma oração. Por exemplo, na oração "Não conheço, João", João é uma expressão vocativa que indica a quem a oração se dirige. Já na oração "não conheço João", "joão" é o objeto direto do verbo, em vez de a pessoa a quem a oração se dirige.
Tal como observado por Zwicky, o caso vocativo é usado para expressar pelo menos duas funções: (i) como um chamamento destinado a atrair a atenção de um ouvinte não ratificado e (ii) como forma de endereço para manter e performativizar a relação social com o ouvinte.[2][3][4]
Alguns autores, incluindo Gutzmann, assumem que os chamados vocativos expressivos constituem uma outra função vocativa distinta.[5]
Em português não há caso vocativo, isto é, as palavras não flexionam-se de maneira especial para indicar que elas estão numa expressão vocativa. Em vez de flexionar-se, para indicar o uso de uma palavra como vocativo, deve-se separá-la do restante da oração por vírgula.
Historicamente, o caso vocativo foi um dos elementos do sistema indo-europeu de casos, e existiu no latim, no sânscrito e e no grego clássico. Embora tenha sido perdido por muitas línguas indo-europeias modernas, algumas conservam o caso ainda hoje. Exemplos são a língua grega moderna (sucessora do grego antigo), várias línguas eslavas (polonês, checo, sérvio, croata, bósnio, ucraniano, búlgaro, etc.) e línguas célticas modernas como o gaélico escocês e o irlandês.
Entre as línguas românicas, o vocativo foi conservado apenas no romeno, possivelmente por influência eslavônica. Também ocorre em algumas línguas não indo-europeias, como o georgiano, o árabe e o coreano.
Línguas Indo-europeias
[editar | editar código]Latim
[editar | editar código]Em Latim, a forma do caso vocativo de um substantivo geralmente é a mesma do nominativo. As exceções incluem singular de segunda declinação que terminam em -us no caso nominativo. Um exemplo seria a famosa frase de Shakespeare, "Et tu, Brute?" (comumente traduzido como "E tu, Brutus?"): Brute é o caso vocativo e Brutus seria o caso nominativo.
Substantivos que terminam em "-ius" terminam com "-ī" em vez do esperado -ie. Assim, Julius se torna Julī e filius se torna filī. A redução não muda acento, de modo que o vocativo de Vergilius é Vergilī, com ênfase na segunda sílaba, mesmo que curta. Substantivos que terminam em -aius e -eius têm vocativos que terminam em "-aī" ou "-eī," mesmo que o "i" no caso nominativo seja consonantal
Os adjetivos de primeira e segunda declinação também têm formas vocativas distintas no singular masculino se o nominativo termina em -us, com a desinência "-e". Adjetivos que terminam em "-ius" têm vocacionais em "-ie", então o vocativo de eximius é eximie.
Substantivos e adjetivos que terminam em "-eus" não seguem as regras acima.Meus forma o vocacional irregularmente como mī ou meus, enquanto a palavra "Deus" não tem um vocativo distinto e mantém a forma Deus. "Mī Deus!" no latim, portanto, é "meus Deus"!, mas a Vulgata de Jerônimo sempre usou Deus meus como vocativo. O latim clássico também não usava um vocativo de deus (em referência aos deuses pagãos, os romanos usavam a forma suplementar de dive).
Bibliografia
[editar | editar código]- Dickey, Eleanor (1996). Greek Forms of Address: From Herodotus to Lucian. Oxford: Clarendon Press. ISBN 0-19-815054-7.
- Dickey, Eleanor (2002). Latin Forms of Address: From Plautus to Apuleius. Oxford: Oxford University Press. ISBN 0-19-924287-9.
- Daniel Gutzmann: The grammar of expressivity. Oxford University Press. ISBN 978-0-19-881212-8.
- Hill, Virginia (2014). Vocatives: How Syntax Meets with Pragmatics. Leiden, The Netherlands: Brill. ISBN 978-90-04-26079-5.
- Hill, Virginia (2007). "Vocatives and the Pragmatics–Syntax Interface". In: Lingua 117.12. pp. 2077–2105. doi:10.1016/j.lingua.2007.01.002.
- Ladd, Robert D. (1978). "Stylized Intonation". In: Language 54.3. pp. 517–540. .
- Geoffrey N. Leech. The distribution and function of vocatives in american an british english conversation. In Hilde Hasselg˚ ard and Signe Oksefjell, editors, Out of corpora: Studies in Honour of Stig Johansson, pages 107–118. Brill, Amsterdam, 1999. doi: 10.1163/9789004653689 013.
- Maché, Jakob (2025). "The Diversity of Vocative Formation Across Languages". In: Catalan Journal of Linguistics 24.1, pp. 211–271. doi:10.5565/rev/catjl.475.
- Portner, Paul (2007a). "Imperatives and Modals". In: Natural Language Semantics 15.4. pp. 351–383. doi:10.1007/s11050-007-9022-y.
- Portner, Paul (2007b). "Instructions for Interpretations as Separate Performatives". In: On Information Structure, Meaning and Form. Kerstin Schwabe and Susanne Winkler, ed. Amsterdam: John Benjamins Publishing Company. pp. 407–426. doi:10.1075/la.100.22por.
- Sonnenhauser, Barbara; Noel Aziz Hanna, Patrizia, eds. (2013). Vocative!: Addressing Between System and Performance. [S.l.]: De Gruyter. ISBN 978-3-11-030389-6. doi:10.1515/9783110304176
- Stavrou, Melita (2013). "About the Vocative". In: The Nominal Structure in Slavic and Beyond. Lilia Schürks, Anastasia Giannakidou, and Urtzi Etxeberria, ed. Studies in Generative Grammar 116. Berlin: Mouton de Gruyter, pp. 299–342. doi:10.1515/9781614512790.299.
- Zwicky, Arnold (1974). "Hey, Whatsyourname!" In: Papers from the Tenth Regional Meeting, Chicago Linguistic Society. April 19–21, 1974. Michael La Galy, Robert A. Fox, and Bruck Anthony, ed. Chicago: Chicago Linguistic Society, pp. 787–801.
Referências
[editar | editar código]- ↑ «Caso vocativo». Biblioteca Nacional da Alemanha (em alemão). Consultado em 23 de novembro de 2019
- ↑ Zwicky 1974, pp. 787--788.
- ↑ Leech 1999, pp. 108--109, 116--117
- ↑ Maché 2025, pp.212--217.
- ↑ Gutzmann 2019, S.172--260.