Cassiopeia (filme)
Cassiopéia
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|---|---|
Cartaz original de lançamento do filme. | |
1996 • cor • 80 min | |
| Género | animação, aventura |
| Direção | Clóvis Vieira |
| Produção | Nello de'Rossi |
| Roteiro | Clóvis Vieira Aloisio de Castro José Feliciano Robin Geld |
| Elenco | Osmar Prado Jonas Mello Aldo César Marcelo Campos Cassius Romero Rosa Maria Barolli |
| Música | Vicent Salvia |
| Direção de arte | Clóvis Vieira |
| Edição | Marc de Rossi |
| Companhia produtora | NDR Filmes |
| Distribuição | PlayArte |
| Lançamento | 1 de fevereiro de 1996[1] |
| Idioma | português |
| Orçamento | R$ 1,5 milhão[1] |
Cassiopeia é um filme de animação digital brasileiro produzido e realizado pela NDR Filmes e lançado no ano de 1996 pela PlayArte, dirigido pelo animador Clóvis Vieira. O filme conta a história do planeta fictício Ateneia, localizado na constelação real de Cassiopeia, que um dia é atacado por invasores do espaço que começam a sugar sua energia vital. Um sinal de socorro é enviado para o espaço sideral pela astrônoma local, Liza, e recebido por quatro heróis que viajam através da galáxia para salvar o planeta.
Cassiopeia compete duramente com o estadunidense Toy Story (da Disney/Pixar) pelo título de primeiro longa animado totalmente feito em CGI do mundo.[1][2] Apesar de Cassiopeia ter sido lançado quase três meses depois de Toy Story[1], os estadunidenses usaram moldes de argila que foram escaneados digitalmente (o que não tornaria Toy Story 100% digital), enquanto a produção brasileira foi totalmente realizada em CGI, sem nenhum escaneamento exterior de imagens ou vetorização de modelos reais.[3][4][5] Os produtores do filme brasileiro chegaram a acusar a Disney de tentar sabotá-lo, planejando uma invasão nos estúdios da NDR para furtar CDs com o trabalho do filme e, consequentemente, atrasando o seu lançamento, mas os produtores brasileiros jamais apresentaram provas do que alegaram.[6]
O filme foi lançado em fevereiro de 1996 nos cinemas brasileiros.[1] Em 2017, a Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) realizou uma pesquisa para nomear as cem melhores animações brasileiras da história e Cassiopeia ocupou a décima quarta posição na lista final.[7][8]
Enredo
[editar | editar código]O planeta Ateneia, situado na constelação de Cassiopeia e habitado por seres robóticos, depende de um complexo sistema de captação da energia de sua estrela para manter sua população ativa. Quando a energia começa a diminuir repentinamente, a pesquisadora Dra. Liza e sua equipe identificam que o fenômeno é provocado por uma gigantesca nave pirata comandada por Shadowseat, cujo grupo está drenando a energia vital do planeta. Incapazes de localizar Ateneia com precisão, os invasores buscam rastrear a origem de sensores enviados pelo centro de controle do planeta, destruídos anteriormente pela nave inimiga.
À medida que o planeta enfraquece, Liza lança quatro cápsulas de resgate contendo mensagens codificadas em busca de auxílio externo. Três delas são interceptadas e adulteradas pelos capangas de Shadowseat, enquanto a quarta escapa com parte dos dados preservados. Com a população debilitada, Ateneia entra em estado de hibernação para reduzir o consumo de energia.
Em outra dimensão, no nono plano existencial da constelação de Pegasus, os robôs Chip, Chop, Feel e Thot, membros de uma equipe de guardiões galácticos, encontram a cápsula que escapou da nave pirata e, após analisar seus dados preservados, decidem localizar as demais. O grupo resgata a segunda cápsula em meio a um planeta de anéis cristalinos com gravidade instável, enquanto a terceira é localizada em um planeta isolado, onde conhecem o inventor Leonardo e seu mascote Galileu, que estavam em posse do objeto. A última cápsula é encontrada próxima a um buraco negro. A adulteração nas cápsulas feita pelos piratas fez com que o número de possíveis planetas que poderiam ter emitido o sinal de socorro saltasse para mais de 1.300, desolando os heróis. No entanto, após analisarem o padrão vibratório desses planetas, os guardiões descobrem que um deles apresenta o padrão adulterado, identificando Ateneia como a provável origem do sinal e partem para lá.
Ao chegarem ao planeta, os heróis encontram Ateneia quase sem energia e prestes a ser atacado pelas forças de Shadowseat. Os guardiões transferem energia de sua nave para reativar estruturas essenciais, enquanto Leonardo e Galileu chegam inesperadamente pilotando naves que construíram graças a estudos na cápsula que estavam em posse deles antes de devolverem aos guardiões. Juntos, os aliados enfrentam os piratas espaciais em uma série de combates dentro e fora da atmosfera do planeta.
Com a ofensiva heroica, os invasores recuam momentaneamente para continuar drenando energia à distância. Tentativas de impedir o roubo são inicialmente ineficazes, levando Galileu a realizar um procedimento emergencial na debilitada Dra. Liza, transformando-a em uma espécie de satélite capaz de refletir energia solar diretamente para Ateneia. A intervenção restabelece o fluxo energético do planeta e encerra o estado de hibernação.
No desfecho, as frotas do Conselho Galáctico Central chegam ao quadrante onde a nave dos invasores está, capturam Shadowseat e sua tripulação e os condenam ao exílio em um planeta isolado. Com a energia normalizada, os habitantes de Ateneia despertam, e os heróis são formalmente homenageados. Leonardo presenteia o grupo com um quadro de Liza, em referência à “Mona Lisa”. O filme encerra-se com a visão de Ateneia, sua nova “lua” formada a partir de Liza e sua estrela.
Elenco (dublagem)
[editar | editar código]| Ator / Atriz | Personagem |
|---|---|
| Osmar Prado | Leonardo |
| Jonas Mello | Shadowseat |
| Aldo César | Comandante do Conselho Galáctico Central |
| Marcelo Campos | Chip |
| Cassius Romero | Chop |
| Fábio Moura | Feel |
| Hermes Barolli | Thot |
| Rosa Maria Baroli | Liza |
| Ezio Ramos | Conselheiro |
| Flávio Dias | Conselheiro |
| Francisco Bretas | Robô |
| Élcio Sodré | Capitão / Imediato |
| Carlos Silveira | Engenheiro |
| Cecília Lemes | Voz ambiental dos heróis |
Produção
[editar | editar código]A produção de Cassiopeia foi dirigida pelo animador Clóvis Vieira e contou com uma equipe de 3 diretores de animação e 11 animadores, trabalhando em uma rede de 17 microcomputadores 486 DX2-66. O primeiro modelo de personagem foi feito em um 386 SX de 20Mhz. O software utilizado foi o Topas Animator da Crystal Graphics, que já estava obsoleto na época da produção.[9]
O filme começou a ser produzido em janeiro de 1992 com a modelagem dos ambientes e dos personagens e com a criação da história e do roteiro. Os personagens e cenas foram concebidos a partir de figuras geométricas básicas, como esferas, cubos e cilindros, facilitando o processo de renderização.[10]
A partir de janeiro de 1993 foi iniciado o processo de animação. O trabalho de geração de imagens terminou em agosto de 1995. A trilha sonora foi completada em dezembro de 1995, e a primeira cópia ficou pronta em janeiro de 1996.[10]
Dificuldades na produção
[editar | editar código]Faltando apenas 6 meses para a conclusão do filme os estúdios da NDR foram invadidos e alguns CDs que arquivavam alguns processos já feitos de Cassiopeia foram roubados, obrigando a produtora a refazer diversas cenas, acarretando posteriormente no atraso de seu lançamento.[6]
Outra grande dificuldade foi arranjar uma empresa que distribuísse o filme. A PlayArte aceitou distribuir o filme na época, porém o período de divulgação coincidiu com as Olimpíadas de 1996, fazendo com que o filme perdesse muita atenção da mídia, que pouco divulgou sobre seu lançamento nos cinemas. Era muito difícil de se ver teasers do filme nas emissoras brasileiras (com exceção da TV Cultura, que na época estavam muito focadas no já citado evento desportivo.[6]
Repercussão
[editar | editar código]Lançamento
[editar | editar código]O filme entrou em cartaz nos cinemas do Brasil a partir de 1º de fevereiro de 1996.[1] O filme ainda fez parte de uma sessão especial para crianças no dia 11 de abril de 1996, na cidade de Curitiba capital do Estado do Paraná para 261 alunos do projeto PIÁ (projeto de educação integrado da prefeitura desta capital) num programa elaborado pela Fundação Cultural de Curitiba.
O filme foi lançado em DVD no ano de 2005 pela Cultura Marcas.[11]
Recepção crítica
[editar | editar código]Em abril de 2021, o filme possuía uma média de 2,9 numa escala que varia de 0 a 10 baseado em 7 críticas dos usuários do site AdoroCinema.[12] No IMDB o filme possuía uma nota de 6,7 estrelas baseado em 204 avaliações do público.[13]
A Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) classificou Cassiopeia como a décima quarta melhor animação brasileira da história numa lista com cem produções.[8]
Primazia e controvérsia
[editar | editar código]Cassiopeia, embora não goze do mesmo status ou projeção internacional, disputa com a animação norte-americana Toy Story o título de primeiro filme de animação totalmente digital.[14] A polêmica gira em torno dos critérios para se estabelecer o que é um filme inteiramente digital. Existe um argumento em favor da primazia de Cassiopéia, uma vez que a produção brasileira foi criada a partir de modelos inteiramente virtuais, sem uso de modelos físicos, da modelagem às texturas, enquanto a Pixar Studios criou os moldes para as cabeças dos personagens principais em argila, sendo posteriormente digitalizados com o Polhemus 3D.[15] Essa diferença de critérios é defendida pelos animadores brasileiros como argumento para considerar Cassiopeia o primeiro filme totalmente feito em CGI, mesmo tendo sido lançado meses após Toy Story.[3][4]
Segundo Clóvis Vieira, quando os produtores da Pixar souberam que Cassiopeia já estava com 40 minutos do filme prontos, aceleraram-se para produzir Toy Story, tendo, inclusive, usado rotoscopia para se agilizarem.[4][16] Em uma entrevista para o Risca Faca, Clóvis afirmou:
[...] A Disney soube que estávamos fazendo um filme totalmente digital. Quando perceberam que estávamos na frente, correram para a Pixar, de Steve Jobs, que tinha projetos na área. Então, a Disney jogou US$ 30 milhões no colo de Jobs para terminar antes que nós. Pessoalmente, fico feliz em fazer a Disney e Jobs terem corrido atrás de nós por algum tempo. Hoje, perdemos de mil a zero. Mas essa disputa fez bem a ambas as partes”.[6][17]
Segundo Patrícia De Rossi, filha do produtor Nello de Rossi, existe ainda uma suspeita que a Disney foi responsável pelo supracitado "assalto" aos estúdios da NDR para beneficiar os estadunidenses: "Foi proposital pra Disney dizer que lançou antes. Os americanos gostam de fazer primeiro. A gente acredita que foi uma sabotagem intencional".[6][17] Porém, nada foi provado até hoje sobre os autores do furto.
Legado
[editar | editar código]Ao contrário de seu principal rival, Cassiopeia caiu no esquecimento do público: enquanto que a produção norte-americana originou uma franquia com quatro sequências por conta de seu enorme sucesso, a produção brasileira é pouquíssimo lembrada. Os produtores do filme tentaram fazer uma sequência que utilizaria equipamentos e softwares de ponta, com o 3ds Max sendo a principal ferramenta, porém o projeto foi engavetado no ano de 2002 por falta de investimentos e a falência da NDR Filmes.
Todavia, o diretor Clóvis Vieira se diz orgulhado do filme: "[..] Tiramos leite de pedra. [...] Fizemos o máximo que alguém no Brasil faria nas mesmas condições”, e conclui: “Não rendeu dinheiro, mas durmo feliz sabendo que um dia rivalizei com Steve Jobs e a Disney.”[18]
Cassiopeia pode ser visto integralmente no YouTube. O longa foi postado no site com a própria autorização do diretor Clóvis Vieira. [carece de fontes]
Exibição na TV
[editar | editar código]O filme foi exibido pela primeira na vez na televisão paga na TV Rá-Tim-Bum no dia 25 de agosto de 2005,[19] e na TV aberta pela TV Cultura no dia 12 de outubro de 2005, como parte das comemorações do Dia das Crianças.[20] Ambas as emissoras pertencem à Fundação Padre Anchieta.
Referências
- ↑ a b c d e f Camargo, Paulo (1 de fevereiro de 1996). «'Cassiopéia' disputa pioneirismo com 'Toy Story'». folha.uol.com.br. Folha de S.Paulo. Consultado em 25 de janeiro de 2019. Cópia arquivada em 26 de janeiro de 2018
- ↑ «Cinema digital made in Brasil». Superinteressante. 31 de outubro de 2016. Consultado em 25 de abril de 2021
- ↑ a b Sihan Felix (2 de Agosto de 2020). «25 filmes indispensáveis para quem quer aprender cinema». Canaltech. Consultado em 24 de Abril de 2021
- ↑ a b c «História de dez anos de produção digital inclui brasileiros». Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Consultado em 11 de abril de 2021
- ↑ Cassiopeia, o primeiro longa de animação do mundo é brasileiro - Inspiration Society
- ↑ a b c d e «Conheça Cassiopeia, o filme nacional que deveria ter entrado para a história no lugar de Toy Story». Sala Crítica. Consultado em 13 de Abril de 2021
- ↑ Abraccine (22 de dezembro de 2017). «ABRACCINE elege "O Menino e o Mundo" como a melhor animação brasileira». Abraccine. abraccine.org. Consultado em 24 de junho de 2020
- ↑ a b Renato Marafon. «Conheça as 100 Melhores Animações Brasileiras, segundo a Abraccine». Brasil: CinePOP Cinema. Consultado em 24 de junho de 2020
- ↑ Ricardo de Macedo (2016). «Esboço para uma história de animação brasileira» (PDF). Universidade Federal de São Paulo. Consultado em 11 de abril de 2021
- ↑ a b Gabriela Maria Garzon. «Estrutura de Produção dos Longas Metragens de Animação do Brasil». a Universidade Federal de Minas Gerais. Consultado em 14 de Abril de 2021
- ↑ «DVD de Jefferson é líder de vendas». Folha de S.Paulo. 4 de julho de 2005. Consultado em 14 de Abril de 2021
- ↑ «CASSIOPÉIA». AdoroCinema. Consultado em 14 de Abril de 2021
- ↑ «Cassiopéia». IMDB. Consultado em 14 de Abril de 2021
- ↑ «Cassiopéia: o primeiro filme de animação totalmente digital». Consultado em 12 de julho de 2015. Cópia arquivada em 31 de janeiro de 2010
- ↑ «Toy Story at Silicon Valley ACM Siggraph» (em inglês). Consultado em 12 de julho de 2015. Cópia arquivada em 1 de novembro de 2012
- ↑ [1]
- ↑ a b http://riscafaca.com.br/cinema/cassiopeia-filme-20-anos/
- ↑ Entrevista com alguns produtores do filmes
- ↑ TV Rá-Tim-Bum exibe "Cassiopéia" - TelaViva
- ↑ Anuncio da Internet sobre o filme - UOL Entretenimento: Televisão