Castro do Zambujal

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Vista aérea do Castro do Zambujal durante um período de escavações

O Castro do Zambujal, também designado por Povoado fortificado do Zambujal, é um povoado fortificado situado a 3 km de Torres Vedras, em Portugal, cujas origens remontam ao Terceiro milénio a.C., no início da Idade do Cobre na Europa Ocidental.[1]

Inserido num conjunto mais vasto de fortificações similares situadas na Estremadura (nas penínsulas de Lisboa e Setúbal), crê-se ter sido o mais importante centro de fundição e comércio de minério dessa zona.

Em 1946 foi elevado à categoria de Monumento Nacional pelo Estado português.[1]

Descoberta e escavações[editar | editar código-fonte]

A sua descoberta deve-se ao arqueólogo torriense Leonel Trindade em 1932.

As primeiras escavações sistemáticas decorreram sob a liderança do próprio Leonel Trindade, durante o período de 1959 a 1961. A partir de 1964 e até 1973 as escavações foram efectuadas e organizadas pela secção de Madrid do Instituto Arqueológico Alemão e foram novamente repetidas em 1994/95. A partir de 1996, as escavações periódicas resultaram de uma parceria entre aquele instituto e o Instituto Português de Arqueologia, com o apoio da Câmara Municipal de Torres Vedras.

Arquitectura e construção[editar | editar código-fonte]

O Castro do Zambujal constitui um dos mais paradigmáticos exemplos dos aspectos inovadores do Calcolítico estremenho, ou seja, a edificação de povoados fortificados, em consequência das profundas transformações sócio-económicas ocorridas durante este período.

Tendo o seu recinto interior cerca de 50 m – reforçado com bastiões circulares e semicirculares com uma espessura entre 5 a 10 m –, este sítio seria protegido de início apenas por uma fortaleza central com torres maciças e muros relativamente estreitos, tendo sido já numa segunda fase da sua ocupação que surgiu a necessidade de reforçar estas estruturas. Foi por essa razão que se ergueram mais duas imponentes linhas de muralhas, ao mesmo tempo que se procedeu à construção de uma barbacã adossada à fortaleza inicial, e em cujos alçados parecem abrir-se eventuais "seteiras", embora a sua finalidade ainda constitua uma incógnita.

Corredor de acesso ao núcleo central.

Está também identificada a uma terceira fase de reforço deste complexo sistema defensivo, numa altura em que a funcionalidade e finalidade da "barbacã" e das entradas correspondentes à segunda linha de muralhas foram claramente mitigadas, parecendo, ao invés, verificar-se uma certa tendência para autonomizar a logística defensiva de cada uma das muralhas. Por fim, assiste-se àquela que é considerada como a quarta e última fase de construção deste sistema, com o levantamento de torres ocas, até à destruição parcial do povoado, que ocorreu por volta de 1700 a.C.[2]

Localização[editar | editar código-fonte]

Não há certezas quanto aos motivos que levaram à escolha do local para a construção nem a razão da sua aparente predominância, nomeadamente, comercial e estratégica. No entanto, face aos dados disponíveis, é de supor que a morfologia do terreno e a existência naquela época de um porto natural na confluência da Ribeira de Pedrulhos e do rio Sizandro, que permitia o acesso navegável até ao mar, tenham influenciado essa escolha.

Cultura[editar | editar código-fonte]

Vista actual (Maio de 2010) da parede interior da muralha que constitui a barbacã construída na 2ª fase da ocupação.

A emergência deste tipo de povoados e o seu enquadramento histórico permitem supor a existência de um certo grau de estratificação social, destinando-se o recinto central aos habitantes de estatuto superior e à salvaguarda dos produtos resultantes da prática metalúrgica e comercial. A agricultura e a criação de gado, à qual se dedicava a maioria da população, exercia-se nos terrenos circundantes do povoado.

A acumulação de riqueza está patente nos ornamentos encontrados em pedras preciosas e numa indústria que se tornou paradigma cultural da época: a cerâmica campaniforme. De facto, foram encontrados nesta região dos mais antigos vestígios desta produção que se viria a estender um pouco por toda a Europa.

Projectos[editar | editar código-fonte]

Dada a importância e relevância do local no contexto da Pré-História europeia, pretende-se prosseguir as escavações até revelar toda a extensão do antigo povoado, para depois se constituir um centro interpretativo para a sua preservação e divulgação ao público em geral.

As autoridades locais ponderam propôr à UNESCO a classificação do Castro do Zambujal como Património Mundial.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Michael Kunst (Coord.): Origens, Estruturas e Relações das Culturas Calcolíticas da Península Ibérica. Actas das I Jornadas Arqueológicas de Torres Vedras, 3 a 5 de Abril de 1987. Trabalhos de Arqueologia Bd. 7. Instituto Português do Património Arquitectónico e Arqueológico, Lisboa 1995. ISSN 972-8087-15-2. S. 17-53.
  • Michael Kunst, Hans-Peter Uerpmann: Zambujal (Torres Vedras, Lisboa). Relatório das escavações de 1994 e 1995. In: Revista Portuguesa de Arqueologia 5, 1. Instituto Português de Arqueologia 2002. ISSN 0874-2782. S. 67-120.
  • Afonso do Paço, Vera Leisner, Leonel Trindade, Hermanfrid Schubart, Octávio da Veiga Ferreira: "Castro do Zambujal (Torres Vedras)". In: "Boletim da junta distrital de Lisboa" (II Série) 61-62, 1964, S. 279-306.
  • Edward Sangmeister, Hermanfrid Schubart, Leonel Trindade: Escavações no Castro Eneolítico do Zambujal (Torres Vedras - Portugal) 1964. Torres Vedras 1966.
  • Edward Sangmeister, Hermanfrid Schubart, Leonel Trindade: Escavações no Castro Eneolítico do Zambujal 1966. In: O Arqueólogo português N.S.. 3, Bd. 3, 1969, S. 71–114.
  • Edward Sangmeister, Hermanfrid Schubart, Leonel Trindade: "Escavações na fortificação eneolítica do Zambujal 1968. In: O Arqueólogo português N.S.. 3, Bd. 4, 1970, S. 65-114.
  • Edward Sangmeister, Hermanfrid Schubart, Leonel Trindade: "Escavações na fortificação da Idade do Cobre do Zambujal/Portugal 1970. In: O Arqueólogo português N.S.. 3, Bd. 5, 1971, S. 51-96.
  • Edward Sangmeister, Hermanfrid Schubart, Leonel Trindade: "Escavações na fortificação da Idade do Cobre do Zambujal/Portugal 1972/73. In: O Arqueólogo português N.S.. 3, Bd. 7-9, 1974-77, 1979, S. 125-140.

Notas

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Ligações externas[editar | editar código-fonte]