Catatau (livro)

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Catatau
Autor(es) Paulo Leminski
Idioma Português
País  Brasil
Gênero Romance experimental
Localização espacial Nordeste brasileiro
Editora Ed. do Autor
Lançamento 1975

Catatau é um livro de prosa experimental escrito por Paulo Leminski, um dos mais famosos poetas brasileiros da segunda metade do século XX[1], e publicado pela primeira vez em 1975. Trata, supostamente, das alucinações do filósofo Descartes, caso ele tivesse vindo ao Brasil junto com a armada de Maurício de Nassau, durante as Invasões Holandesas. Foi classificado pelo autor como romance ideia. Faz parte da produção em prosa do poeta, menos conhecida que sua poesia. A prosa de Catatau é altamente experimental, tornando o livro não raro hermético ou ininteligível[2], e explorando o limite entre a prosa e a poesia. Inspirou-se sobretudo em obras de escritores como Haroldo de Campos (principalmente o de Galáxias[3]), de James Joyce e de Guimarães Rosa. Inspirou o filme Ex-isto, dirigido por Cao Guimarães[4].

Conteúdo[editar | editar código-fonte]

Tentar resumir Catatau é quase impossível. O enredo deste romance, no sentido tradicional, é mais que exíguo: supostamente René Descartes se encontra perdido na selva tropical brasileira, "cá perdido, aqui presente, neste labirinto de enganos deleitáveis"[5], e espera Articzewski ("Na boca da espera, Articzewski demora [...]"[6]), seu amigo polonês (supostamente o primeiro desta nacionalidade no Brasil[7]), o 'interlocutor ausente', que virá supostamente buscá-lo. O texto é apenas o monólogo de Descartes durante esta espera em que se misturam memórias e impressões do mundo, registrado continuamente sem marcações de diálogo nem parágrafos.

Concepção[editar | editar código-fonte]

Leminski levou aproximadamente oito anos para completar o livro[8]. Segundo depoimento do próprio poeta, o tema havia surgido durante uma aula de história do Brasil: Descartes havia servido na Holanda sob o comando de Nassau, não seria de todo impossível que ele viesse ao Brasil junto com o comandante[9]. O filósofo francês é assunto de outros dois poemas de Leminski: explicitamente em Minoração fúnebre para Descartes[10] e implicitamente em "Só ex isto ex ist"[11] (poema que deu o título à adaptação cinematográfica de Catatau).

O assunto serviria, em um primeiro momento, para um conto intitulado "Descartes com Lentes", enviado para o Concurso de Contos do Paraná. Ele não ganharia nenhuma menção neste concurso, o que desapontaria o autor, levando-o a considerar o júri desqualificado. Curiosamente, Leminski receberia mais tarde uma carta de um dos juízes afirmando que seu conto só não ganhara o primeiro lugar por causa de uma confusão de nomes[12]. Em 68, já gozando de certa fama, o poeta teve um 'perfil' publicado num jornal, em que já se anunciava a futura obra prima[13]. Em 4 de janeiro de 70, novamente uma publicação de uma nota no Diário do Paraná, com a manchete "No Marumbi Leminski terminará o Catatau"[14].

Por muito tempo, Catatau ficou como livro anunciado e esperado. Mas só sairia muitos anos depois daquela aula de história, na primeira edição de 1975, de 2000 exemplares, independente. Leminski distribuiu o livro para várias pessoas do meio intelectual a fim de "provocar a crítica"[15].

O título do livro tem uma anedota da época em que o poeta e sua família moravam na pensão do Solar da Fossa, quando se mudaram para o Rio de Janeiro. Os colegas viam o poeta andar de um lado pra o outro com os livros de referência e diziam "- Lá vem o Leminski com aquele catatau embaixo do braço"[16]. Este tornou-se o título definitivo. Antes seria Zagadka, 'segredo' em russo e polonês. No plano do Catatau, o autor anota: "Catatau quer dizer: -calhamaço/ - monstro (Bahia)/ - provinciano (Minas) / Da periferia, saem os monstros"[17].

Quanto ao gênero, Leminski categorizou Catatau como um romance-ideia[18].

Linguagem[editar | editar código-fonte]

A principal dificuldade de leitura do Catatau se encontra no uso da linguagem, sobretudo por causa das experiências do poeta com as palavras e com diversas línguas estrangeiras incorporadas ao texto em português.

Formação de palavras[19][editar | editar código-fonte]

  • Composição: o poeta cria novos termos utilizando-se da justaposição ou da aglutinação. Exemplo de justaposição no texto: "engenhoenigma". Exemplo de aglutinação: "esgandaia" (esganado + gandaia).
  • Onomatopeia: isto é, a imitação escrita de sons ou ruídos produzidos por objetos ou animais. Exemplo no texto: "[...] ziz, roqueroque, crã, plim, zaspt!".
  • Palavra-valise: também conhecidas como portmanteau, usadas por escritores como Lewis Carroll, que são a fusão de duas ou mais palavras. Exemplo no texto: vetoninvelho (vento + inverno + velho).
  • Efeitos poéticos: são construções inusitadas através de recursos sonoros e gráficos que alteram os paradigmas da língua. Exemplo: "faz tantos tantofaz [...]".

Línguas estrangeiras[20][editar | editar código-fonte]

  • tupi: aparece no texto sobretudo na forma de vocábulos isolados, obedecendo a ordem do dicionário de tupi escrito por Gonçalves Dias. Exemplo: "[...] uma aiurucatinga, um tuim, uma tuipara, uma tuitirica, uma arara [...]".
  • latim: o latim utilizado em Catatau é o latim filosófico medieval, contudo, de forma deturpada, assim como o português, conforme os procedimentos acima anotados. Exemplo: "A assembabléia revida: si vis pacem, in corpore belli civilis, para babellum!".
  • japonês: também deturpada pelos mesmos procedimentos. Exemplo: "Barato é satori, biritamonogatari!".
  • italiano: usada com menos frequência, sobretudo na forma de vocábulos, como o tupi. Exemplo: "Ciascun lo miri, e gli occhi a cose grandi alzi e la mente!".
  • holandês: não é possível determinar com certeza qual dos 500 dialetos da língua o poeta utiliza, mas suas palavras estão próximas à língua batava do século XVI. Aqui também o poeta se utiliza dos recursos de modificação acima anotados, o que dificulta a tradução. Exemplo: "Noorderreus, brul nog zoo boos, ik zal slapen als een roos!".
  • francês: o emprego do francês se dá principalmente pelo transcrição da pronúncia como em português e não da ortografia oficial da língua. Exemplo: "[...] num selavi fedorento qualquer!".
  • grego: "Quaestio de Euphonia [...]"
  • espanhol: "[...] amargo pero nonmenos precioso!".
  • inglês: "[...] finders - goalkeepers, Jaspers - lousy whispers!".
  • alemão: "Ik kan nikt Brief sein, so ick lange Brief breit schreibrift!".

Recepção crítica[editar | editar código-fonte]

Como mencionado, a estratégia de Leminski para divulgar seu livro foi enviar cópias para muitos intelectuais, críticos, poetas e músicos. A recepção crítica por parte dos intelectuais foi em geral positiva, inclusive do exterior: Eduardo Milán, secretário pessoal de Octavio Paz afirmou que era "raro encontrar experimentos de formulação teórica tão precisa como Catatau"[21]. Julian Rios, escritor espanhol contemporâneo, transformou o próprio livro em personagem de um conto, intitulado Larva. Décio Pignatari considerava Catatau uma importante experiência de prosa representante do pluralismo linguístico no Brasil, ao lado de Galáxias. Flora Süssekind o lista como um exemplo de boa produção literária contemporânea, contrariando o que ela identifica como um "esgotamento e acomodação estética" geral das letras nacionais. É pouco conhecido, contudo, do público em geral[8].

Referências

  1. A recente edição de suas poesias completas pela Companhia das Letras entrou para lista dos best-sellers, um feito surpreendente para um livro de poesia no mercado editorial brasileiro. Segundo notícia, o livro chegou a vender vinte e mil exemplares em apenas um mês e meio. Vide WISNIK, José Miguel. Link para Leminski. O Globo online. 27/04/2013. Consultado em 5/7/2013.
  2. O próprio poeta assumia esta característica do livro: "Me recuso a ministrar clareiras para a inteligência deste catatau que, por oito anos, passou muito bem sem mapas. Virem-se." – epígrafe de ao Catatau.
  3. "O Catatau verifica uma categoria de ilegibilidade. Os estatutos desta categoria não estão elaborados teórica e nem pragmaticamente: só depois de muitas Galáxias e Catataus é que se vai saber o que fazer com textos ilegíveis porém procedentes. Eu não sei para que servem. Só sei fazer." Paulo Leminski em entrevista para Diogo Bello, no artigo "O Catatau: um calhamaço gritante" de 30 de julho 73, transcrita em VAZ, Toninho. Paulo Leminski: o bandido que sabia latim. 3 edição. Rio de Janeiro, São Paulo: Record, 2009.
  4. Ex-isto no site oficial do diretor.
  5. LEMINSKI, Paulo. Catatau. 3 edição, crítica e anotada. Curitiba: Travessa dos Editores, 2004. p. 14.
  6. Catatau. op. cit., 2004, p. 17.
  7. Segundo a nota 3 do autor, em Catatau, op. cit., 2004, página 16.
  8. a b "[...] o Catatau não é algo extraordinário?!, um sujeito que passa oito anos escrevendo um livro que poucas pessoas conseguem ler - e aquelas que o fazem [a crítica especializada, em grande parte], chamam-no de obra-prima?..." - Alice Ruiz, apud VAZ, Toninho. op. cit., p. 13.
  9. LEMINSKI, Paulo. Descordenadas artesianas. In Catatau, op. cit., p. 270. No próprio texto de Catatau, o narrador faz referência à Olinda, chamada Vrijburg pelos holandeses (página 14, vide nota 2 do autor).
  10. "Repousa sob a laje/ o que viveu oculto/ Poupem-no do ultraje/ do tumulto", segundo nota do autor, inspirado no lema do filósofo "Bem viveu quem viveu oculto". La vie en close. in LEMINSKI, Paulo. Toda poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. p. 291.
  11. Em referencia ao famoso Cogito ergo sum (penso logo existo em português). La vie en close. in Toda poesia, op. cit., p. 299.
  12. VAZ, Toninho. op. cit., p. 345, apêndice I.
  13. VAZ, Toninho. op. cit., p. 104
  14. VAZ, Toninho. op. cit., p. 120.
  15. VAZ, Toninho. op. cit., p. 165
  16. VAZ, Toninho. op. cit., p. 109.
  17. Reproduzido na edição crítica de Catatau, op. cit., 2004, página 257
  18. Ele também chamaria seus poemas de ideias, em um fragmento de O ex-estranho: "meus poemas são ideias/ ontem, coisa inteira, hoje, apenas manchas" in Toda poesia, op. cit., p. 336.
  19. Catatau, op. cit., 2004, p. 338. Os exemplos aqui apresentados foram retirados do apêndice dos editores sobre o assunto incluído na edição crítica citada. Para maiores detalhes, vide a obra referenciada.
  20. Catatau, op. cit., 2004, p. 349.
  21. Apud Catatau, op. cit., 2004, p. 378. Todas as opiniões seguintes foram retiradas do apêndice dos editores sobre a fortuna crítica do livro, incluso na edição crítica mencionada. Para maiores detalhes, vide a obra referenciada.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • LEMINSKI, Paulo. Toda poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
  • LEMINSKI, Paulo. Catatau. 3 edição, crítica e anotada. Curitiba: Travessa dos Editores, 2004.
  • VAZ, Toninho. Paulo Leminski: o bandido que sabia latim'. 3 edição. Rio de Janeiro, São Paulo: Record, 2009.
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