Cavaleiro Andante

Cavaleiro andante é um personagem central da literatura de cavalaria medieval, que rapidamente se tornou mais do que um guerreiro a cavalo. Símbolo idealizado na cultura europeia, foi frequentemente considerado um paladino do amor,[1] guiado por um código de ética que valoriza a lealdade, a justiça e a busca pela aventura.[1]
O espírito de cavalaria deu origem ao entusiasmo pelo combate singular,[2][3] ao gosto por vaguear em busca de aventuras[2][3] e à obrigação de proteger e vingar as damas.[2][3] A ordem de cavalaria era distinguida pelo amor à guerra e ao empreendimento,[4][5] unida a uma galanteria extravagante e à superstição.[4][5] As aventuras delineadas nas obras de cavalaria andante refletiam os princípios que, de fato, moviam a sociedade da época,[4] e as virtudes do cavaleiro andante eram, ostensivamente, direcionadas ao bem público.[6]
Apesar de ligada aos contos de fadas, a vida de andanças deste personagem nem sempre foi fácil, uma vez que muitos destes cavaleiros eram filhos mais novos de nobres — portanto, sem herança —, forçados a sair em busca do próprio sustento, fato que adiciona ao mito uma camada de realidade econômica.[7]
Origens
[editar | editar código]O cavaleiro medieval, que deu origem ao mito literário do cavaleiro andante, estava longe de praticar valores nobres como a fé em Deus, a defesa dos fracos, ou a lealdade ao rei. Quando esta figura surgiu, em meados do século XI, sua maior preocupação não era com tais valores, e sim perseguir a defesa ou a conquista de territórios, para ganhar dinheiro.[8] Os cavaleiros medievais eram guerreiros possessivos, cruéis e vingativos, que desprezavam as classes mais baixas da sociedade e saqueavam cidades. Ao prestarem serviços aos grandes senhores — como barões, príncipes e condes —, eram recompensados com feudos e, à medida em que suas posses aumentavam, os próprios cavaleiros ascendiam até se tornarem nobres.[8]
Foi através da Igreja e de seu desejo de reprimir esta brutalidade do cavaleiro medieval, ao mesmo tempo empregando sua força armada para finalidades próprias, que o guerreiro se converteu ao Cristianismo e foi posto a serviço da fé, como cavaleiro das Cruzadas.[8] Sua energia passou a ser direcionada para ações mais nobres, e os cavaleiros passaram a jurar lealdade a seus superiores, reverenciar a Deus, e defender os mais fracos e os mais pobres, as donzelas, as viúvas, e obviamente, a Igreja. Já durante o século XII, surge a cortesia, se ocupando do refinamento dos costumes, do controle das pulsões, da civilidade, da sociabilidade e da educação para com as mulheres. Ao adotar tais comportamentos, o antigo guerreiro que era o cavaleiro medieval passou a se tornar mais nobre e a expressar seu amor com gentileza.[8]

O ideal de amor cortês, ligado à elite medieval, também influenciou a criação dos cavaleiros andantes que ocuparam as novelas de cavalaria. Tal amor era espiritual, não carnal, e baseava-se na submissão do homem à sua dama, vista por ele não apenas como perfeita e virtuosa, mas também capaz de inspirar coragem e bondade.[8]
Diz Dom Quixote sobre sua dama, Dulcineia del Toboso:[9]
"[...] Magos me perseguiram, magos me perseguem e magos me perseguirão até dar comigo e com minha nobre cavalaria no profundo abismo do esquecimento, e me atacam e me ferem naquela parte que veem que mais sinto; porque tirar a dama de um cavaleiro andante é tirar os olhos com que ele olha, o sol com que se ilumina e o alimento com que se mantém. Disse muitas outras vezes e volto a repetir agora: o cavaleiro andante sem dama é como a árvore sem folhas, a casa sem alicerce e a sombra sem o corpo que a produz."
À medida que a cavalaria se tornou um grupo fechado, com normas rigorosas e acesso restrito a descendentes de cavaleiros a partir do século XIII, os cavaleiros passaram a buscar a superação através de feitos heroicos para ganhar respeito. Desta forma, surge também a figura do cavaleiro nobre, cortês e honrado, que luta pelo reino, pela fé e pela dama, e que vence o mal em nome do rei e da Igreja.[8]
Influência clássica e mitológica
[editar | editar código]O arquétipo do cavaleiro andante nos romances de cavalaria não se desenvolveu apenas a partir de modelos sociais europeus. Também incorporou e adaptou heróis e narrativas da Antiguidade Clássica. Muitos dos heróis gregos, como Aquiles, Jasão e Hércules, foram "alistados sob as bandeiras da cavalaria" para serem celebrados lado a lado com figuras medievais, como os Cavaleiros da Távola Redonda, integrando a linhagem ficcional de heróis como Amadis e Palmerin de Oliva.[10]
Crônicas latinas espúrias facilitaram tal integração, como as atribuídas a Dares Frígio e Díctis de Creta, que apresentavam a Guerra de Troia de forma mais histórica, expurgando grande parte da mitologia e das lutas entre deuses. Isso criou um espaço literário ideal para a introdução de "embasamento romântico".[11] A figura do cavaleiro andante se beneficiou imensamente disso, pois os romancistas puderam aplicar a "roupagem da cavalaria gótica" aos feitos da Antiguidade.[12]
Dentre os heróis antigos, o Vagus Hercules era considerado o que mais se assemelhava a um cavaleiro andante, tornando suas proezas extremamente atraentes para os romancistas.[12] Em vez de realizar seus famosos trabalhos por ordens divinas, Hércules, no contexto da cavalaria, passa a empreender seus feitos espontaneamente para se tornar merecedor do amor de uma princesa.[12]
Em tais adaptações, o mundo clássico é reinterpretado sob uma perspectiva medieval: Aquiles e Heitor são apresentados como "completos heróis de cavalaria".[13] A Esfinge é transformada em um gigante,[12] e personagens como Plutão são reduzidos a reis que habitam castelos sombrios.[12] As aventuras resultantes são descritas como quiméricas, mas atribuídas a mortais dotados de qualidades superiores ou sob a influência de encantamentos.[14]
O Cavaleiro Andante na Literatura de Cavalaria
[editar | editar código]O cavaleiro andante é o protagonista dos romances de cavalaria,[1][7] gênero literário que alcançou grande sucesso nos séculos XII e XIII na Europa.[7][15][16] Essencialmente sincrético,[7] o gênero mescla elementos sagrados e profanos,[7][15] mas seu enredo gira invariavelmente em torno das aventuras de um paladino impulsionado por um rigoroso código de conduta[1][7] e pelo amor cortês.[7][15][17]
O Herói Andante: função e motivação
[editar | editar código]O cavaleiro andante se divide entre seu papel idealizado e sua origem prática. Ele é o herói errante,[1] um justiceiro que viaja com o propósito de punir a injustiça e defender os fracos, como órfãos, mulheres e a Igreja,[1][7] sendo a virtude viril um elemento central de sua definição.[7] No entanto, o personagem era frequentemente um jovem nobre sem herança, forçado a buscar o próprio sustento através de feitos de armas e aventuras.[7]
As façanhas do cavaleiro eram alimentadas, principalmente, pela paixão.[7] O elemento de galanteria fomentava o desejo de agradar a figura feminina,[7][18][16] frequentemente retratada com beleza e pureza.[7][16][19] O amor cortês, baseado na submissão do homem à sua dama (vista como perfeita), servia de combustível para a coragem e a bondade do cavaleiro.[7][16][19] Como afirmou Dom Quixote, o cavaleiro andante sem dama "é como a árvore sem folhas".[9][19]
A busca pela glória e o confronto com o sobrenatural também definiam sua jornada.[7][20] Os romances frequentemente incorporavam o fantástico e o maravilhoso,[7][16][17][21][20] apresentando monstros, gigantes, espíritos e palácios encantados,[7][22][23] nos quais o herói deveria prevalecer.[7]
Raízes clássicas na imagem do cavaleiro
[editar | editar código]O arquétipo do cavaleiro andante não se desenvolveu apenas a partir de modelos sociais europeus. Muitos dos heróis da Antiguidade Clássica, como Aquiles e Hércules, foram incorporados e adaptados sob a "roupagem da cavalaria gótica".[12]
Em muitas adaptações medievais, o mundo clássico foi reinterpretado: Aquiles e Heitor eram apresentados como "completos heróis de cavalaria",[13] e o Vagus Hercules (Hércules andarilho) era visto como o que mais se assemelhava a um cavaleiro andante, realizando seus feitos para merecer o amor de uma princesa em vez de por ordens divinas.[12] Tais crônicas, como as atribuídas a Dares Frígio, facilitaram a integração desses heróis clássicos na linhagem ficcional de figuras medievais.[11]
A evolução do arquétipo do Cavaleiro Andante
[editar | editar código]A evolução do arquétipo do cavaleiro andante está intrinsecamente ligada ao desenvolvimento da ficção romântica na Europa, que, por sua vez, reflete as mudanças nos costumes, nos valores, nas tradições e no estado da sociedade ao longo do tempo.[24][3][16] A ficção, por ser uma narrativa selecionada e idealizada, naturalmente se voltava a temas de empreendedorismo e cavalaria em épocas de guerra, e a aventuras amorosas em tempos de galanteria.[24][25]
O arquétipo do cavaleiro andante surgiu diretamente do espírito de cavalaria na Idade Média.[3][26] Tal espírito deu origem ao ardor pelo combate singular, à paixão por vaguear em busca de aventuras, e à obrigação de proteger e vingar as damas.[3][5] O caráter do cavaleiro era marcado por honra elevada, galanteria terna e superstições solenes.[5]
A evolução do arquétipo do cavaleiro andante pode ser traçada através dos principais ciclos de romance, observando as mudanças em seus comportamentos, valores e ideais.
Romances gregos: precursores da antiguidade
[editar | editar código]Embora não sejam cavaleiros andantes no sentido medieval, os heróis dos romances gregos estabeleceram um padrão de aventura e moralidade que seria contrastado mais tarde. Heróis como Teágenes (de "Teágenes e Caricleia") e Clitofonte (de "Clitofonte e Leucipe") são frequentemente virgens e puros em meio a inúmeros perigos e seduções.[27][28] Eles se esforçam para subjugar suas paixões e triunfam sobre as tentações, mantendo-se fiéis às suas amadas.[27][28]
Apesar de sua pureza heroica, as narrativas gregas tendem a ter uma imaginação libertina e descrições sensuais.[27] O protagonista Clitofonte é descrito como fraco e pusilânime, permitindo-se ser agredido duas vezes sem resistência, o que contrasta com o foco posterior na proeza marcial.[28]
Durante a matéria da França: o paladino guerreiro
[editar | editar código]O ciclo Carolíngio, ou ciclo da Matéria da França, focado em Carlos Magno e seus pares, reflete guerras contra os sarracenos, o que permitiu a inclusão de magia oriental.[29][30] Aqui o cavaleiro andante é caracterizado como um herói épico, coletivo e mártir. O foco principal do cavaleiro, bem como os temas centrais das narrativas, são a defesa da fé cristã e a luta contra os sarracenos, considerados infiéis. As ações dos cavaleiros são subordinadas ao destino da comunidade nacional e cristã.[20]
Heróis como Rolando, embora bastardo como alguns arturianos,[31][32] são primariamente guerreiros, e seu caráter é notável pela sua bravura.[33] Possuem um sentido feroz de honra, lealdade vassálica incondicional e devoção sem limites à causa religiosa. A cavalaria aqui é a defensora da fé.[20] O poema La Chanson de Roland é um exemplo de epopeia nacional que exalta a bravura, a fé e a morte gloriosa,[20] e um aspecto importante do comportamento do protagonista é sua vontade de converter os pagãos através de debates teológicos, como o que ele trava com o sarraceno Ferrau.[34]
Já o personagem Maugis representa outra vertente, a do cavaleiro-mago.[35] Ele não depende apenas da proeza marcial, mas usa a magia — como personificar o diabo em seu primeiro experimento — para alcançar seus objetivos e auxiliar seus aliados.[35]
Há ainda Holger, o Dinamarquês, cavaleiro cujas façanhas reais ou fictícias foram transferidas para o universo de Carlos Magno.[36] Seu retorno à corte na França, após viver séculos em Avalon com Morgana, revela a mudança nos costumes e modos da sociedade francesa em relação ao estilo de vida cavalheiresco antiquado.[37][38]
Durante a matéria da Bretanha: o cavaleiro da Távola Redonda
[editar | editar código]A tradição arturiana demonstra uma evolução temática marcante, passando por três fases distintas — a das crônicas pseudo-históricas, a dos romances de cavalaria e a das estórias exemplares.[39][40]
Durante a fase das crônicas pseudo-históricas, os textos se concentravam em guerras entre nações, em que o Rei Artur era o protagonista, retratado como um conquistador do mundo. O cavaleiro andante se manifesta, portanto, como um herói militar, que objetiva a glória bélica.[41]
A fase dos romances de cavalaria desloca o foco narrativo do Rei Artur para seus homens, que se tornaram protagonistas de aventuras motivadas por sentimentos e aspirações pessoais. O principal objetivo do cavaleiro andante passa a ser o serviço alegre às damas e donzelas desprotegidas, em conformidade com o ideal de amor cortês. As aventuras tornam-se repletas de elementos fantásticos, como lugares mágicos onde "tudo podia acontecer".[42]
Já a fase das estórias exemplares se caracterizou por missões mais sérias, frequentemente apresentadas como alegorias. O cavaleiro andante se torna primordialmente um buscador místico e idealista, e o tema central se torna a busca pelo Santo Graal, concentrada em missões elevadas e de superação espiritual. Nesta fase, cavaleiros como Galahad passam a representar o modelo de perfeição, e suas aventuras são elevadas ao plano da salvação moral e divina.[42]
De maneira geral, os cavaleiros andantes deste ciclo apresentam uma mistura de altos ideais cristãos e uma moralidade relaxada:
| Cavaleiro | Comportamento e Valores Chave | Evolução e Ideal |
| Lancelote do Lago | Seu princípio regente é a paixão por Genebra, a rainha de seu benfeitor e soberano, tornando o adultério um tema central.[43][44][45][46] Sua devoção é tão extrema que ele aceita a maior infâmia — subir em uma carroça — para persegui-la, o que demonstra a sobreposição do amor à honra social.[47] | Representa o amante adúltero cuja devoção supera o código cavalheiresco de honra e lealdade ao seu rei, Artur.[44][45][46] |
| Tristão | Semelhante a Lancelote, Tristão personifica o cavaleiro que conduz um caso amoroso com a rainha de seu benfeitor e tio, o Rei Marc.[45][46] Seu comportamento é marcado por frenesi e insanidade, causados pelo ciúme, que tem similaridades com a de Rolando.[48][49] | Seu caráter é contrastado com o de Palamedes, seu rival, exibindo as lutas entre rivalidade e generosidade cavalheiresca.[50][51] |
| Perceval | Inicialmente, ele é a personificação da ingenuidade e franqueza.[52][53] Ele demonstra falta de experiência, inclusive ao beijar à força uma donzela e roubar seu anel, alegando que sua mãe o havia instruído a tais atos.[54][55] | Evolui da juventude inexperiente para um dos cavaleiros capazes de conquistar o Santo Graal, indicando uma progressão espiritual.[56][57] Retira-se para uma ermida.[57] |
| Guiron, o Cortês | Um exemplo de honra pura dentro do ambiente moralmente complexo.[58] Embora atraído pela esposa de seu amigo Danayn, Gyron resiste a todas as tentações para não trair seu companheiro de armas.[58] | Seu título (courtois) implica nobreza de mente, modos e nascimento.[58] |
Durante a matéria Ibérica: o cavaleiro da Península
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Os romances de cavalaria presentes no ciclo da matéria ibérica foram obras de ficção extremamente populares e de grande disseminação na literatura espanhola e portuguesa do início da Idade Moderna.[59] As narrativas descreviam cavaleiros andantes perfeitos, cujo comportamento era construído em torno de códigos rígidos de honra e de amor cortês.[59] Com a exaustão dos temas arturianos, a série ibérica também introduz novos heróis e inimigos, os Turcos.[60]
Heróis como Amadis de Gaula alcançaram destaque inquestionável. O cavaleiro permanece fiel a Oriana, filha do Rei D. Lisuarte da Grã-Bretanha, apesar das complicações.[61] Comportava-se como o modelo de virtude da cavalaria, e sua enorme popularidade sugere que sua honra, amor e sofrimento, narrados em contextos de feitos heroicos, ressoavam profundamente com as aspirações dos leitores da época.[59] O resultado foi não apenas a publicação de doze livros sobre Amadis e seus descendentes no século XVI,[59] como também a abertura de caminho para satirizar o personagem, séculos depois, quando Miguel de Cervantes escreveria "Dom Quixote", onde a insanidade do protagonista decorre exatamente de ele ter lido um número excessivo de romances de cavalaria, e de ter interpretado as ações de Amadis e outros como realidade, e não como ficção, assumindo ele próprio o papel de um cavaleiro andante.[59]
Já Galaor, irmão de Amadis, é seu contraste arquetípico, o materialista oposto ao platônico.[62] Embora demonstre a mesma valentia de seu irmão, Galaor possui temperamento e vida amorosa diferentes.[61][63] Enquanto Amadis se mantém fiel a uma única dama,[63] Galaor altera constantemente o objeto de suas afeições, sendo mais licencioso em sua galanteria, isto é, mais sedutor e descompromissado do que o irmão.[61][63] A dinâmica de "irmãos opostos" acabou se tornando uma característica comum nos romances espanhóis posteriores.[62][61]
Palmeirim de Inglaterra, personagem do romance de cavalaria português, é retratado como amante fiel, corajoso, virtuoso e generoso.[64][65] Já seu irmão, Floriano do Deserto, é o homem de galanteria, caracterizado como mais do que usualmente licencioso.[65][66] Embora seu bom humor e sua valentia sirvam como atenuantes para seus erros, ele nunca alcança o mesmo prestígio de Galaor ou Palmeirim, sendo considerado um mau exemplo, além de dono de falhas de caráter.[65]
A sátira ao cavaleiro andante
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A sátira ao ideal de cavalaria começou a surgir sutilmente, ainda durante o período em que o gênero dos romances de cavalaria estava em seu auge, refletindo o cansaço do público com a falta de elementos verossímeis das narrativa.[67][68][nota 1] Em "A Mula sem Freio" — obra do final do século XII ou início do século XIII, escrita ananonimamente por "Païen de Maisières" ("Pagão de Maisières"), provavelmente alguém satirizando Chrétien de Troyes[15] —, o personagem Gauvain enfrenta provas em um castelo para ganhar como prêmio um freio que fora roubado de uma donzela.[15][68][nota 2]
Gauvain também aparece em outra obra anônima da mesma época de "A Mula sem Freio": "O Cavaleiro da Espada" narra como o herói é acolhido por um cavaleiro sinistro, cujo castelo induz hóspedes a se deitarem com sua filha, mas uma espada os fere mortalmente.[15] Gauvain consegue se casar com a jovem, mas acaba por abandoná-la, comparando a inconstância das mulheres à fidelidade dos cães.[15]
Entre o final do século XVI e o início do século XVII, os romances de cavalaria continuaram populares na Península Ibérica, apesar das novas tendências literárias.[17] No entanto, a vasta popularidade das obras que narravam as aventuras de Amadis pavimentou o caminho para a sátira do cavaleiro andante.[17]
A principal sátira à figura do cavaleiro andante surgiu com "Dom Quixote", de Miguel de Cervantes,[19] obra publicada em duas partes em 1605 e 1615.[19] Considerada o primeiro romance moderno,[17][19] é frequentemente descrita como um pastiche ou sátira das novelas de cavalaria medievais.[7][17][19] A premissa central é que a loucura de Alonso Quixano, que adota o pseudônimo Dom Quixote, resultou da leitura de um número extremamente grande de livros sobre cavalaria andante, e de sua interpretação de tudo o que leu como sendo verídico, e não como ficção.[19][59]
Cervantes fez uso do recurso da paródia a um gênero que gozou de grande prestígio para construir o que é considerado "o maior antimanual de cavalaria".[7] O livro surgiu num momento em que os romances de cavalaria estavam caindo em desuso[19] e o "espírito da cavalaria estava quase desaparecido.[68][nota 3] Cervantes, segundo o consenso crítico da época posterior, "havia sozinho expulsado um mal social contemporâneo, os romances de cavalaria".[59]
A transição para o romance heroico
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No final do período da cavalaria, os valores e comportamentos dos cavaleiros andantes sofreram as maiores alterações, refletindo a decadência do espírito cavalheiresco genuíno entre o início do século XII e o final do século XIV,[69][70] provocado pela ascensão das monarquias europeias e pelo surgimento de novas técnicas militares, que transformaram o cavaleiro andante em uma relíquia do passado.[7] A falta de realismo dos antigos romances cansou o público, forçando os autores a buscarem algo novo, abandonando a extravagância e a ficção exageradas para criar composições mais interessantes e realistas, concentradas em novos ideais.[67]
Neste contexto, Tirante o Branco marca uma mudança crucial.[71] O herói não realiza nenhum feito inacreditável: tudo o que faz está dentro da esfera da capacidade humana.[71] Ele é menos um cavaleiro andante e mais um comandante habilidoso.[71] No romance, elementos mágicos, como o aparecimento de gigantes e monstros, é minimizado.[71]
Romances escritos a partir do século XVII, como "Polexandre", de Marin Le Roy de Gomberville, "Cassandre", de Gaultier de Coste e "Clelia", de Madeleine de Scudéry, baniram explicitamente gigantes, dragões e necromantes, embora tenham preservado o heroísmo e a galanteria.[72] Nestes romances heroicos, o amor se torna a paixão dominante, substituindo a honra, que era a mola mestra do romance de cavalaria. As façanhas militares são realizadas principalmente para a amante.[72]
Ver também
[editar | editar código]- Amadis de Gaula
- Amor cortês
- Dom Quixote
- Dom Quixote (personagem)
- Galaaz
- Hércules
- Lancelote
- Miguel de Cervantes
- Ordem de cavalaria
- Rei Artur
- Rolando
- Romance de cavalaria
- Santo Graal
Notas
- ↑ Neste vídeo, aos 32m10s.
- ↑ Neste vídeo, aos 54m13s.
- ↑ Neste vídeo, aos 52m17s.
Referências
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- ↑ a b Dunlop 1876, p. 344.
Bibliografia
[editar | editar código]- Dunlop, John Colin (1876). The History of Fiction: Being a Critical Account of the Most Celebrated Prose Works of Fiction, from the Earliest Greek Romances to the Novels of the Present Day. Londres: Reeves and Turner.
- Dunlop, John Colin (1888). History of Prose Fiction: A New Edition. Londres: George Bell and Sons
- Furtado, Celso (2002). Furtado, Antonio L., ed. Aventuras da Távola Redonda. Petrópolis: Editora Vozes. ISBN 978-8532627995