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Cavaleiro Andante

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 Nota: Este artigo é sobre a figura da literatura de cavalaria medieval. Para outros significados, veja Cavaleiro Andante (desambiguação).
Nesta obra de 1860 do pintor francês Delacroix, Amadis de Gaula, renomado personagem dos romances de cavalaria, entrega uma donzela no Castelo de Galpan.

Cavaleiro andante é um personagem central da literatura de cavalaria medieval, que rapidamente se tornou mais do que um guerreiro a cavalo. Símbolo idealizado na cultura europeia, foi frequentemente considerado um paladino do amor,[1] guiado por um código de ética que valoriza a lealdade, a justiça e a busca pela aventura.[1]

O espírito de cavalaria deu origem ao entusiasmo pelo combate singular,[2][3] ao gosto por vaguear em busca de aventuras[2][3] e à obrigação de proteger e vingar as damas.[2][3] A ordem de cavalaria era distinguida pelo amor à guerra e ao empreendimento,[4][5] unida a uma galanteria extravagante e à superstição.[4][5] As aventuras delineadas nas obras de cavalaria andante refletiam os princípios que, de fato, moviam a sociedade da época,[4] e as virtudes do cavaleiro andante eram, ostensivamente, direcionadas ao bem público.[6]

Apesar de ligada aos contos de fadas, a vida de andanças deste personagem nem sempre foi fácil, uma vez que muitos destes cavaleiros eram filhos mais novos de nobres — portanto, sem herança —, forçados a sair em busca do próprio sustento, fato que adiciona ao mito uma camada de realidade econômica.[7]

O cavaleiro medieval, que deu origem ao mito literário do cavaleiro andante, estava longe de praticar valores nobres como a em Deus, a defesa dos fracos, ou a lealdade ao rei. Quando esta figura surgiu, em meados do século XI, sua maior preocupação não era com tais valores, e sim perseguir a defesa ou a conquista de territórios, para ganhar dinheiro.[8] Os cavaleiros medievais eram guerreiros possessivos, cruéis e vingativos, que desprezavam as classes mais baixas da sociedade e saqueavam cidades. Ao prestarem serviços aos grandes senhores — como barões, príncipes e condes —, eram recompensados com feudos e, à medida em que suas posses aumentavam, os próprios cavaleiros ascendiam até se tornarem nobres.[8]

Foi através da Igreja e de seu desejo de reprimir esta brutalidade do cavaleiro medieval, ao mesmo tempo empregando sua força armada para finalidades próprias, que o guerreiro se converteu ao Cristianismo e foi posto a serviço da fé, como cavaleiro das Cruzadas.[8] Sua energia passou a ser direcionada para ações mais nobres, e os cavaleiros passaram a jurar lealdade a seus superiores, reverenciar a Deus, e defender os mais fracos e os mais pobres, as donzelas, as viúvas, e obviamente, a Igreja. Já durante o século XII, surge a cortesia, se ocupando do refinamento dos costumes, do controle das pulsões, da civilidade, da sociabilidade e da educação para com as mulheres. Ao adotar tais comportamentos, o antigo guerreiro que era o cavaleiro medieval passou a se tornar mais nobre e a expressar seu amor com gentileza.[8]

Dulcinea del Toboso, de Charles Robert Leslie, 1839.

O ideal de amor cortês, ligado à elite medieval, também influenciou a criação dos cavaleiros andantes que ocuparam as novelas de cavalaria. Tal amor era espiritual, não carnal, e baseava-se na submissão do homem à sua dama, vista por ele não apenas como perfeita e virtuosa, mas também capaz de inspirar coragem e bondade.[8]

Diz Dom Quixote sobre sua dama, Dulcineia del Toboso:[9]

"[...] Magos me perseguiram, magos me perseguem e magos me perseguirão até dar comigo e com minha nobre cavalaria no profundo abismo do esquecimento, e me atacam e me ferem naquela parte que veem que mais sinto; porque tirar a dama de um cavaleiro andante é tirar os olhos com que ele olha, o sol com que se ilumina e o alimento com que se mantém. Disse muitas outras vezes e volto a repetir agora: o cavaleiro andante sem dama é como a árvore sem folhas, a casa sem alicerce e a sombra sem o corpo que a produz."

À medida que a cavalaria se tornou um grupo fechado, com normas rigorosas e acesso restrito a descendentes de cavaleiros a partir do século XIII, os cavaleiros passaram a buscar a superação através de feitos heroicos para ganhar respeito. Desta forma, surge também a figura do cavaleiro nobre, cortês e honrado, que luta pelo reino, pela fé e pela dama, e que vence o mal em nome do rei e da Igreja.[8]

Influência clássica e mitológica

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O arquétipo do cavaleiro andante nos romances de cavalaria não se desenvolveu apenas a partir de modelos sociais europeus. Também incorporou e adaptou heróis e narrativas da Antiguidade Clássica. Muitos dos heróis gregos, como Aquiles, Jasão e Hércules, foram "alistados sob as bandeiras da cavalaria" para serem celebrados lado a lado com figuras medievais, como os Cavaleiros da Távola Redonda, integrando a linhagem ficcional de heróis como Amadis e Palmerin de Oliva.[10]

Crônicas latinas espúrias facilitaram tal integração, como as atribuídas a Dares Frígio e Díctis de Creta, que apresentavam a Guerra de Troia de forma mais histórica, expurgando grande parte da mitologia e das lutas entre deuses. Isso criou um espaço literário ideal para a introdução de "embasamento romântico".[11] A figura do cavaleiro andante se beneficiou imensamente disso, pois os romancistas puderam aplicar a "roupagem da cavalaria gótica" aos feitos da Antiguidade.[12]

Dentre os heróis antigos, o Vagus Hercules era considerado o que mais se assemelhava a um cavaleiro andante, tornando suas proezas extremamente atraentes para os romancistas.[12] Em vez de realizar seus famosos trabalhos por ordens divinas, Hércules, no contexto da cavalaria, passa a empreender seus feitos espontaneamente para se tornar merecedor do amor de uma princesa.[12]

Em tais adaptações, o mundo clássico é reinterpretado sob uma perspectiva medieval: Aquiles e Heitor são apresentados como "completos heróis de cavalaria".[13] A Esfinge é transformada em um gigante,[12] e personagens como Plutão são reduzidos a reis que habitam castelos sombrios.[12] As aventuras resultantes são descritas como quiméricas, mas atribuídas a mortais dotados de qualidades superiores ou sob a influência de encantamentos.[14]

O Cavaleiro Andante na Literatura de Cavalaria

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O cavaleiro andante é o protagonista dos romances de cavalaria,[1][7] gênero literário que alcançou grande sucesso nos séculos XII e XIII na Europa.[7][15][16] Essencialmente sincrético,[7] o gênero mescla elementos sagrados e profanos,[7][15] mas seu enredo gira invariavelmente em torno das aventuras de um paladino impulsionado por um rigoroso código de conduta[1][7] e pelo amor cortês.[7][15][17]

O Herói Andante: função e motivação

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O cavaleiro andante se divide entre seu papel idealizado e sua origem prática. Ele é o herói errante,[1] um justiceiro que viaja com o propósito de punir a injustiça e defender os fracos, como órfãos, mulheres e a Igreja,[1][7] sendo a virtude viril um elemento central de sua definição.[7] No entanto, o personagem era frequentemente um jovem nobre sem herança, forçado a buscar o próprio sustento através de feitos de armas e aventuras.[7]

As façanhas do cavaleiro eram alimentadas, principalmente, pela paixão.[7] O elemento de galanteria fomentava o desejo de agradar a figura feminina,[7][18][16] frequentemente retratada com beleza e pureza.[7][16][19] O amor cortês, baseado na submissão do homem à sua dama (vista como perfeita), servia de combustível para a coragem e a bondade do cavaleiro.[7][16][19] Como afirmou Dom Quixote, o cavaleiro andante sem dama "é como a árvore sem folhas".[9][19]

A busca pela glória e o confronto com o sobrenatural também definiam sua jornada.[7][20] Os romances frequentemente incorporavam o fantástico e o maravilhoso,[7][16][17][21][20] apresentando monstros, gigantes, espíritos e palácios encantados,[7][22][23] nos quais o herói deveria prevalecer.[7]

Raízes clássicas na imagem do cavaleiro

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O arquétipo do cavaleiro andante não se desenvolveu apenas a partir de modelos sociais europeus. Muitos dos heróis da Antiguidade Clássica, como Aquiles e Hércules, foram incorporados e adaptados sob a "roupagem da cavalaria gótica".[12]

Em muitas adaptações medievais, o mundo clássico foi reinterpretado: Aquiles e Heitor eram apresentados como "completos heróis de cavalaria",[13] e o Vagus Hercules (Hércules andarilho) era visto como o que mais se assemelhava a um cavaleiro andante, realizando seus feitos para merecer o amor de uma princesa em vez de por ordens divinas.[12] Tais crônicas, como as atribuídas a Dares Frígio, facilitaram a integração desses heróis clássicos na linhagem ficcional de figuras medievais.[11]

A evolução do arquétipo do Cavaleiro Andante

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A evolução do arquétipo do cavaleiro andante está intrinsecamente ligada ao desenvolvimento da ficção romântica na Europa, que, por sua vez, reflete as mudanças nos costumes, nos valores, nas tradições e no estado da sociedade ao longo do tempo.[24][3][16] A ficção, por ser uma narrativa selecionada e idealizada, naturalmente se voltava a temas de empreendedorismo e cavalaria em épocas de guerra, e a aventuras amorosas em tempos de galanteria.[24][25]

O arquétipo do cavaleiro andante surgiu diretamente do espírito de cavalaria na Idade Média.[3][26] Tal espírito deu origem ao ardor pelo combate singular, à paixão por vaguear em busca de aventuras, e à obrigação de proteger e vingar as damas.[3][5] O caráter do cavaleiro era marcado por honra elevada, galanteria terna e superstições solenes.[5]

A evolução do arquétipo do cavaleiro andante pode ser traçada através dos principais ciclos de romance, observando as mudanças em seus comportamentos, valores e ideais.

Romances gregos: precursores da antiguidade

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Embora não sejam cavaleiros andantes no sentido medieval, os heróis dos romances gregos estabeleceram um padrão de aventura e moralidade que seria contrastado mais tarde. Heróis como Teágenes (de "Teágenes e Caricleia") e Clitofonte (de "Clitofonte e Leucipe") são frequentemente virgens e puros em meio a inúmeros perigos e seduções.[27][28] Eles se esforçam para subjugar suas paixões e triunfam sobre as tentações, mantendo-se fiéis às suas amadas.[27][28]

Apesar de sua pureza heroica, as narrativas gregas tendem a ter uma imaginação libertina e descrições sensuais.[27] O protagonista Clitofonte é descrito como fraco e pusilânime, permitindo-se ser agredido duas vezes sem resistência, o que contrasta com o foco posterior na proeza marcial.[28]

Durante a matéria da França: o paladino guerreiro

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O ciclo Carolíngio, ou ciclo da Matéria da França, focado em Carlos Magno e seus pares, reflete guerras contra os sarracenos, o que permitiu a inclusão de magia oriental.[29][30] Aqui o cavaleiro andante é caracterizado como um herói épico, coletivo e mártir. O foco principal do cavaleiro, bem como os temas centrais das narrativas, são a defesa da fé cristã e a luta contra os sarracenos, considerados infiéis. As ações dos cavaleiros são subordinadas ao destino da comunidade nacional e cristã.[20]

Heróis como Rolando, embora bastardo como alguns arturianos,[31][32] são primariamente guerreiros, e seu caráter é notável pela sua bravura.[33] Possuem um sentido feroz de honra, lealdade vassálica incondicional e devoção sem limites à causa religiosa. A cavalaria aqui é a defensora da fé.[20] O poema La Chanson de Roland é um exemplo de epopeia nacional que exalta a bravura, a fé e a morte gloriosa,[20] e um aspecto importante do comportamento do protagonista é sua vontade de converter os pagãos através de debates teológicos, como o que ele trava com o sarraceno Ferrau.[34]

Já o personagem Maugis representa outra vertente, a do cavaleiro-mago.[35] Ele não depende apenas da proeza marcial, mas usa a magia — como personificar o diabo em seu primeiro experimento — para alcançar seus objetivos e auxiliar seus aliados.[35]

Há ainda Holger, o Dinamarquês, cavaleiro cujas façanhas reais ou fictícias foram transferidas para o universo de Carlos Magno.[36] Seu retorno à corte na França, após viver séculos em Avalon com Morgana, revela a mudança nos costumes e modos da sociedade francesa em relação ao estilo de vida cavalheiresco antiquado.[37][38]

Durante a matéria da Bretanha: o cavaleiro da Távola Redonda

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A tradição arturiana demonstra uma evolução temática marcante, passando por três fases distintas — a das crônicas pseudo-históricas, a dos romances de cavalaria e a das estórias exemplares.[39][40]

Durante a fase das crônicas pseudo-históricas, os textos se concentravam em guerras entre nações, em que o Rei Artur era o protagonista, retratado como um conquistador do mundo. O cavaleiro andante se manifesta, portanto, como um herói militar, que objetiva a glória bélica.[41]

A fase dos romances de cavalaria desloca o foco narrativo do Rei Artur para seus homens, que se tornaram protagonistas de aventuras motivadas por sentimentos e aspirações pessoais. O principal objetivo do cavaleiro andante passa a ser o serviço alegre às damas e donzelas desprotegidas, em conformidade com o ideal de amor cortês. As aventuras tornam-se repletas de elementos fantásticos, como lugares mágicos onde "tudo podia acontecer".[42]

Já a fase das estórias exemplares se caracterizou por missões mais sérias, frequentemente apresentadas como alegorias. O cavaleiro andante se torna primordialmente um buscador místico e idealista, e o tema central se torna a busca pelo Santo Graal, concentrada em missões elevadas e de superação espiritual. Nesta fase, cavaleiros como Galahad passam a representar o modelo de perfeição, e suas aventuras são elevadas ao plano da salvação moral e divina.[42]

De maneira geral, os cavaleiros andantes deste ciclo apresentam uma mistura de altos ideais cristãos e uma moralidade relaxada:

Cavaleiro Comportamento e Valores Chave Evolução e Ideal
Lancelote do Lago Seu princípio regente é a paixão por Genebra, a rainha de seu benfeitor e soberano, tornando o adultério um tema central.[43][44][45][46] Sua devoção é tão extrema que ele aceita a maior infâmia — subir em uma carroça — para persegui-la, o que demonstra a sobreposição do amor à honra social.[47] Representa o amante adúltero cuja devoção supera o código cavalheiresco de honra e lealdade ao seu rei, Artur.[44][45][46]
Tristão Semelhante a Lancelote, Tristão personifica o cavaleiro que conduz um caso amoroso com a rainha de seu benfeitor e tio, o Rei Marc.[45][46] Seu comportamento é marcado por frenesi e insanidade, causados pelo ciúme, que tem similaridades com a de Rolando.[48][49] Seu caráter é contrastado com o de Palamedes, seu rival, exibindo as lutas entre rivalidade e generosidade cavalheiresca.[50][51]
Perceval Inicialmente, ele é a personificação da ingenuidade e franqueza.[52][53] Ele demonstra falta de experiência, inclusive ao beijar à força uma donzela e roubar seu anel, alegando que sua mãe o havia instruído a tais atos.[54][55] Evolui da juventude inexperiente para um dos cavaleiros capazes de conquistar o Santo Graal, indicando uma progressão espiritual.[56][57] Retira-se para uma ermida.[57]
Guiron, o Cortês Um exemplo de honra pura dentro do ambiente moralmente complexo.[58] Embora atraído pela esposa de seu amigo Danayn, Gyron resiste a todas as tentações para não trair seu companheiro de armas.[58] Seu título (courtois) implica nobreza de mente, modos e nascimento.[58]

Durante a matéria Ibérica: o cavaleiro da Península

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Os quatro livros de Amadis de Gaula. Impressão de 1508, feita por Jorge Coci, em Saragoça.

Os romances de cavalaria presentes no ciclo da matéria ibérica foram obras de ficção extremamente populares e de grande disseminação na literatura espanhola e portuguesa do início da Idade Moderna.[59] As narrativas descreviam cavaleiros andantes perfeitos, cujo comportamento era construído em torno de códigos rígidos de honra e de amor cortês.[59] Com a exaustão dos temas arturianos, a série ibérica também introduz novos heróis e inimigos, os Turcos.[60]

Heróis como Amadis de Gaula alcançaram destaque inquestionável. O cavaleiro permanece fiel a Oriana, filha do Rei D. Lisuarte da Grã-Bretanha, apesar das complicações.[61] Comportava-se como o modelo de virtude da cavalaria, e sua enorme popularidade sugere que sua honra, amor e sofrimento, narrados em contextos de feitos heroicos, ressoavam profundamente com as aspirações dos leitores da época.[59] O resultado foi não apenas a publicação de doze livros sobre Amadis e seus descendentes no século XVI,[59] como também a abertura de caminho para satirizar o personagem, séculos depois, quando Miguel de Cervantes escreveria "Dom Quixote", onde a insanidade do protagonista decorre exatamente de ele ter lido um número excessivo de romances de cavalaria, e de ter interpretado as ações de Amadis e outros como realidade, e não como ficção, assumindo ele próprio o papel de um cavaleiro andante.[59]

Já Galaor, irmão de Amadis, é seu contraste arquetípico, o materialista oposto ao platônico.[62] Embora demonstre a mesma valentia de seu irmão, Galaor possui temperamento e vida amorosa diferentes.[61][63] Enquanto Amadis se mantém fiel a uma única dama,[63] Galaor altera constantemente o objeto de suas afeições, sendo mais licencioso em sua galanteria, isto é, mais sedutor e descompromissado do que o irmão.[61][63] A dinâmica de "irmãos opostos" acabou se tornando uma característica comum nos romances espanhóis posteriores.[62][61]

Palmeirim de Inglaterra, personagem do romance de cavalaria português, é retratado como amante fiel, corajoso, virtuoso e generoso.[64][65] Já seu irmão, Floriano do Deserto, é o homem de galanteria, caracterizado como mais do que usualmente licencioso.[65][66] Embora seu bom humor e sua valentia sirvam como atenuantes para seus erros, ele nunca alcança o mesmo prestígio de Galaor ou Palmeirim, sendo considerado um mau exemplo, além de dono de falhas de caráter.[65]

A sátira ao cavaleiro andante

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Dom Quixote e seu escudeiro, Sancho Pança, em composição fotográfica de 1916, criada por Luis de Ocharan para a revista espahola La Esfera.

A sátira ao ideal de cavalaria começou a surgir sutilmente, ainda durante o período em que o gênero dos romances de cavalaria estava em seu auge, refletindo o cansaço do público com a falta de elementos verossímeis das narrativa.[67][68][nota 1] Em "A Mula sem Freio" — obra do final do século XII ou início do século XIII, escrita ananonimamente por "Païen de Maisières" ("Pagão de Maisières"), provavelmente alguém satirizando Chrétien de Troyes[15] —, o personagem Gauvain enfrenta provas em um castelo para ganhar como prêmio um freio que fora roubado de uma donzela.[15][68][nota 2]

Gauvain também aparece em outra obra anônima da mesma época de "A Mula sem Freio": "O Cavaleiro da Espada" narra como o herói é acolhido por um cavaleiro sinistro, cujo castelo induz hóspedes a se deitarem com sua filha, mas uma espada os fere mortalmente.[15] Gauvain consegue se casar com a jovem, mas acaba por abandoná-la, comparando a inconstância das mulheres à fidelidade dos cães.[15]

Entre o final do século XVI e o início do século XVII, os romances de cavalaria continuaram populares na Península Ibérica, apesar das novas tendências literárias.[17] No entanto, a vasta popularidade das obras que narravam as aventuras de Amadis pavimentou o caminho para a sátira do cavaleiro andante.[17]

A principal sátira à figura do cavaleiro andante surgiu com "Dom Quixote", de Miguel de Cervantes,[19] obra publicada em duas partes em 1605 e 1615.[19] Considerada o primeiro romance moderno,[17][19] é frequentemente descrita como um pastiche ou sátira das novelas de cavalaria medievais.[7][17][19] A premissa central é que a loucura de Alonso Quixano, que adota o pseudônimo Dom Quixote, resultou da leitura de um número extremamente grande de livros sobre cavalaria andante, e de sua interpretação de tudo o que leu como sendo verídico, e não como ficção.[19][59]

Cervantes fez uso do recurso da paródia a um gênero que gozou de grande prestígio para construir o que é considerado "o maior antimanual de cavalaria".[7] O livro surgiu num momento em que os romances de cavalaria estavam caindo em desuso[19] e o "espírito da cavalaria estava quase desaparecido.[68][nota 3] Cervantes, segundo o consenso crítico da época posterior, "havia sozinho expulsado um mal social contemporâneo, os romances de cavalaria".[59]

A transição para o romance heroico

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Capa da tradução castelhana de Tirante o Branco, datada de 1511.

No final do período da cavalaria, os valores e comportamentos dos cavaleiros andantes sofreram as maiores alterações, refletindo a decadência do espírito cavalheiresco genuíno entre o início do século XII e o final do século XIV,[69][70] provocado pela ascensão das monarquias europeias e pelo surgimento de novas técnicas militares, que transformaram o cavaleiro andante em uma relíquia do passado.[7] A falta de realismo dos antigos romances cansou o público, forçando os autores a buscarem algo novo, abandonando a extravagância e a ficção exageradas para criar composições mais interessantes e realistas, concentradas em novos ideais.[67]

Neste contexto, Tirante o Branco marca uma mudança crucial.[71] O herói não realiza nenhum feito inacreditável: tudo o que faz está dentro da esfera da capacidade humana.[71] Ele é menos um cavaleiro andante e mais um comandante habilidoso.[71] No romance, elementos mágicos, como o aparecimento de gigantes e monstros, é minimizado.[71]

Romances escritos a partir do século XVII, como "Polexandre", de Marin Le Roy de Gomberville, "Cassandre", de Gaultier de Coste e "Clelia", de Madeleine de Scudéry, baniram explicitamente gigantes, dragões e necromantes, embora tenham preservado o heroísmo e a galanteria.[72] Nestes romances heroicos, o amor se torna a paixão dominante, substituindo a honra, que era a mola mestra do romance de cavalaria. As façanhas militares são realizadas principalmente para a amante.[72]

Ver também

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Notas

  1. Neste vídeo, aos 32m10s.
  2. Neste vídeo, aos 54m13s.
  3. Neste vídeo, aos 52m17s.

Referências

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  40. Furtado 2002, A Matéria da Bretanha e a Távola Redonda (II)Na primeira, que chamaremos fase das crônicas pseudo-históricas, os textos tomavam a aparência de relatos verdadeiros. [...] Numa segunda fase, a dos romances de cavalaria, o foco se deslocou de Artur para seus homens, que se tornavam os protagonistas, [...]. Missões mais sérias vieram caracterizar uma terceira fase, a das estórias exemplares [...]
  41. Furtado 2002, A Matéria da Bretanha e a Távola Redonda (III)
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Bibliografia

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