Cemitério de Perus

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Cemitério de Perus
Inauguração 1971
Localização São Paulo
País  Brasil
Tipo Público
Área 254.000 m²[1]
Sepulturas 45 mil[1]
Memorial aos desaparecidos políticos sepultados no Cemitério de Perus criado por Luiza Erundina e pela Comissão de Familiares de Presos Políticos Desaparecidos

O Cemitério de Perus (oficialmente Cemitério Dom Bosco) [1] atualmente renomeado como Colina dos Mártires, é uma necrópole localizada na zona norte da grande cidade de São Paulo (Brasil), no limite da subprefeitura homônima, próximo à divisa com a cidade de Caieiras. Criado em 1971, pelo até então prefeito Paulo Maluf[1], tem cerca de 254 mil metros quadrados de extensão.

Durante o período da ditadura militar (1964-1985), o cemitério foi utilizado para o sepultamento de pessoas mortas pelas forças de segurança do regime.[2] Em 1969, o prefeito paulistano Paulo Maluf e o diretor do Instituto Médico Legal da Capital, Harry Shibata, tentaram adquirir em uma empresa especializada britânica dois fornos crematórios para o cemitério[1][2]. Porém, a empresa não aceitou o negócio pois, consciente do momento de repressão violenta promovida pelo Estado, considerou suspeito o fato do projeto dos fornos não preverem capela ou qualquer lugar para velar publicamente os corpos a serem cremados[2].

O cemitério é conhecido por sepultar pessoas de origem humilde, pela sua localização e preço, foi construído para sepultar corpos de pessoas indigentes e não identificadas, atualmente são sepultadas 12 pessoas por dia em média e possuí quarenta e cinco mil sepulturas e conta com mais de cento e cinquenta mil sepultamentos por toda sua extensão[1]. Possui também espaço para velórios com seis salas bem conservadas e amplo estacionamento, realiza em média oito velórios por dia e possui uma Capela Ecumênica[1]

Ficou conhecido por abrigar mais de 1000 sepultamentos clandestinos de desaparecidos políticos da década de 1970. Onde foram sepultados em duas valas clandestinas. Nesta época a ditadura militar comandava o país e oprimia adversários políticos e pensadores contrários aos seus ideais.

No local em 1993, a então Prefeita Luiza Erundina inaugurou um memorial em homenagem a essas vítimas. Placa de Homenagem Idealizada pela Prefeita Luiza Erundina e Comissão de Familiares de Presos Políticos Desaparecidos, em homenagem aos desaparecidos políticos enterrados no Cemitério Perus.[1]

História[editar | editar código-fonte]

O Cemitério Municipal Dom Bosco (ou de Perus), situado no Distrito de Perus, São Paulo (SP), foi construído pela Prefeitura da Capital, sob a gestão de Paulo Maluf. Logo ao ser inaugurado, sofreu uma transformação que o tornou um cemitério exclusivo para corpos de indigentes.[3] Passou a receber cadáveres de vítimas do regime militar .[3]

O projeto do Crematório, que inicialmente era para ser realizado no Cemitério de Perus, foi transferido para o Cemitério de Vila Nova Cachoeirinha e, mais tarde, para o de Vila Alpina, onde foi construído.[3] Essa transferência deu-se por causa de suspeitas levantadas: havia impedimentos, do ponto de vista legal, para a existência de um crematório. Mais tarde, em 1976, este projeto foi abandonado.[3]

Neste mesmo ano, 1.049 ossadas foram jogadas em vala comum e clandestina do cemitério. Lá permaneceram até 1990, quando a vala foi aberta e investigada por ordem da Prefeita Luiza Erundina.[3] Essas ossadas são provas reais e atuais da violência que predominou no país nas três últimas décadas, além da violência policial contra as classes miseráveis de São Paulo[3]. Pesquisas mais recentes com a utilização de radares, mostram a possibilidade de haver uma segunda vala clandestina, onde ainda mais corpos devem estar enterrados, ou pode ser uma parte não escavada da primeira vala.[4]

A certeza da impunidade e o tratamento frequente de desrespeito para com os corpos de pessoas pobres na cidade, foram dois fatores a permitir que militantes mortos desaparecessem nos próprios cemitérios da nação.[3]

Ossadas encontradas que foram enterradas clandestinamente[editar | editar código-fonte]

Em 1990, foi encontrada uma vala clandestina no cemitério de Perus e as ossadas encontradas foram transferidas provisoriamente para a sede do Ministério Público Federal, na Bela Vista até serem levadas para análise na Unifesp.[4] Se teve a estimativa de que dentre os corpos enterrados nesta vala, vinte eram de presos políticos e inimigos do regime militar brasileiro que ocorreu entre 1964 e 1985 e os demais eram de vítimas de violência da época. Todos foram enterrados como indigentes.[4]

Para a análise, primeiro se identificam a faixa etária, sexo e estatura. Das 435 caixas de ossos que foram para a Unifesp, das 375 que foram abertas em 2015, 80% do conteúdo analisado correspondem a pessoas do sexo masculino,[4] 15% do sexo feminino e o restante eram crianças e adolescentes. Foram, também, identificados sinais de traumas que podem ser interpretados como tortura ou violência. A maioria das ossadas encontradas estavam intactas, mas o fato de estarem na mesma caixa dificultou a identificação.[4]

O ministro Pepe Vargas da Secretaria de Direitos afirmou que as ações de busca da verdade do que aconteceu na ditadura eram tarefas fundamentais de um estado democrático, sendo importante tanto para compreender a forma de repressão e prevenir que isso ocorra novamente, quanto para o significação da reparação simbólica das vítimas da ditadura.[4] O secretário municipal de Serviços, Simão Pedro, disse que com esta busca eles estavam "virando uma nova página" e construiu dois monumentos no cemitério de Perus e da Vila Formosa para confortar as famílias dos falecidos e para que possam homenageá-los.[4] Dentre esses monumentos, um deles é o grafite que foi feito com parceria do Perusferia de Graffitti.[5]

O Monumento aos Mortos e Desaparecidos Políticos[editar | editar código-fonte]

Devido é dimensão tomada juntamente com as organizações dos direitos humanos e a ação promovida por familiares, no lugar onde antes era a Vala Clandestina, foi inaugurado um monumento em homenagem aos desaparecidos recém encontrados, no dia 26 de agosto de 1993, durante o mandato da então Prefeita Luiza Erundina de Souza. Um muro com a seguinte frase "Aqui os ditadores tentaram esconder os desaparecidos políticos, as vítimas da fome, da violência do estado policial, dos esquadrões da morte e, sobretudo os direitos dos cidadãos pobres da cidade de São Paulo. Fica registrado que os crimes contra a liberdade serão sempre descobertos", de autoria de Ricardo Ohtake, foi construído. Passados alguns anos, o monumento (muitas vezes chamado de memorial) agora é tido como ponto de referência para atos públicos e ritos de memória, como por exemplo homenagem a indigentes.[6]

Grafitagem no muro do cemitério[editar | editar código-fonte]

Nos dias 12 e 13 de dezembro de 2015, ano em que foram encontradas as ossadas, cerca de 100 grafiteiros e coletivos do bairro de Perus se encontraram para dar uma nova cara nos muros externos do cemitério, contando,[5] em forma de desenhos, a história do regime militar e a história do bairro, ou seja, criaram um memorial. Organizaram esses grafites como uma linha do tempo, resgatando a memória de Perus, representando momentos históricos como as Queixadas, a Fábrica de Cimento, a Vala Clandestina e os movimentos contra o genocídio da juventude negra.[5] Este monumento foi feito também para dignificar e homenagear as pessoas desaparecidas ou enterradas como indigentes. Isso tudo, além de ser "sítio de memória" da luta da resistência na cidade de São Paulo e do contexto de agressão ao direitos civis durante o regime militar brasileiro.[5]

Referências