Cemitério de São Francisco Xavier (Rio de Janeiro)

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Cemitério de São Francisco Xavier
Cemitério do Caju
Inauguração 18 de outubro de 1851 (165 anos)
Localização Caju, no Rio de Janeiro
País  Brasil
Tipo Público e multiconfessional
Área 441.000 m²
Proprietário Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro
Administração Concessionária Reviver

O Cemitério de São Francisco Xavier é a maior das diversas necrópoles que compõem o conjunto popularmente conhecido como Cemitério do Caju, localizado no bairro do Caju, na Zona Norte do Rio de Janeiro. É o maior cemitério do Estado do Rio de Janeiro, com 441 mil m², e um dos maiores do Brasil. Os demais cemitérios que formam o conjunto de necrópoles são o Cemitério da Ordem Terceira do Carmo, o Cemitério da Venerável Ordem Terceira de São Francisco da Penitência e o Cemitério Comunal Israelita do Caju. Foi oficialmente fundado em 18 de outubro de 1851, no mesmo local onde já existia um cemitério de escravos desde 1839, e é administrado pela Concessionária Reviver desde 2015[1], após mais de 150 anos de administração pela Santa Casa de Misericórdia[2].

História[editar | editar código-fonte]

Localizado originalmente fronteiro à praia de São Cristóvão, desaparecida em razão de aterros diversos. Era o antigo Campo da Misericórdia, usado desde 1839, quando foi em 2 de julho inumado o corpo de "Vitória, creola, filha de Thereza, escrava de Manoel Rodrigues dos Santos" (grafia arcaica da época) e sendo usado para sepultamentos de escravos até 1851, quando, pelo decreto nº 842, de 16 de outubro do mesmo ano, foram fundados os cemitérios públicos de São Francisco Xavier e o Cemitério de São João Batista.

O IMPERIAL DECRETO:

O Governo Imperial “ pelo decreto nº 842, de 16 de outubro de 1851, funda os Cemiterios publicos de S. Francisco Xavier e S. João Baptista nos suburbios do Rio de Janeiro. Convindo determinar o numero e localidade dos Cemiterios publicos, que, em virtude do Decreto Nº 583 de 5 de Setembro de 1850 se devem estabelecer nos suburbios da Cidade do Rio de Janeiro: Hei por bem que desde já se fundem dous, hum com a denominação de S. Francisco Xavier, no lugar da Ponta do Cajú, em que se acha estabelecido o Campo Santo da Misericordia, e no terreno das duas chacaras a este contiguas; e outro com a denominação de S. João Baptista, no lugar do Brequó em terrenos pertencentes á de Hutton, ao Doutor Francisco Lopes da Cunha e a Manoel Carlos Monteiro.

[ assinado pelo ] Visconde de Mont'alegre *, do Conselho d'Estado, Presidente do Conselho de Ministros, Ministro e Secretario d'Estado dos Negocios do Imperio, assim o tenha entendido, e faça executar. Palacio do Rio de Janeiro em dezeseis de outubro de mil oitocentos cincoenta e hum, trigesimo da Independencia e do Imperio. Com a Rubrica de Sua Magestade o Imperador”.

  • José da Costa Carvalho, o Visconde de Mont'Alegre que depois de 2 de dezembro de 1854 , por Ordem de Sua majestade Imperial passou a ser chamado de o Marquês de Mont' Alegre, (Salvador, 7 de fevereiro de 1796 — São Paulo, 18 de setembro de 1860) foi um político e magistrado brasileiro, membro da Regência Trina Permanente e Primeiro-ministro do Império do Brasil, de 8 de outubro de 1849 a 11 de maio de 1852. Está sepultado no Cemitério da Consolação em São Paulo.

O IMPERIAL DECRETO:

Pelo Decreto nº 843 do mesmo ano, esses cemitérios foram entregues para serem administrados pelo prazo de 50 anos pela Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro.

DECRETO Nº 843 - DE 18 DE OUTUBRO DE 1851

Commette a fundação e administração dos Cemiterios Publicos dos suburbios do Rio de Janeiro, e o fornecimento dos objectos relativos ao serviço dos enterros á Irmandade da Santa Casa da Misericordia da mesma Cidade, por tempo de cincoenta annos.

Hei por bem, Usando da Attribuição que Me confere o Art. 1º § 3º do Decreto Nº 583 de 5 de Setembro de 1850, commetter a fundação e administração dos Cemiterios Publicos dos suburbios do Rio de Janeiro estabelecidos pelo Decreto Nº 842 de 16 do corrente, e dos mais que, durante o tempo desta commissão Eu houver por bem crear, e bem assim o fornecimento dos objectos relativos ao serviço dos enterros da mesma Cidade, á Irmandade da Santa Casa da Misericordia com as seguintes condições:

1ª Entender-se-ha por Cidade do Rio de Janeiro e seus suburbios, para os effeitos da presente Commissão, o local comprehendido dentro dos districtos das Freguezias da mesma Cidade actualmente existentes, e que no futuro se crearem por desmembração de alguma ou algumas dellas.

2ª A Irmandade da Santa Casa da Misericordia he obrigada a cumprir exacta e escrupulosamente todas as obrigações, onus e encargos impostos no Decreto Nº 583 de 5 de Setembro de 1850, e no Regulamento nº 796 de 14 de Junho do corrente anno, tanto na parte relativa á fundação e administração dos Cemiterios publicos, e ao fornecimento dos objectos do serviço dos enterros, como na que diz respeito ao estabelecimento, manutenção e conservação das Enfermarias para tratamento da pobreza enferma. E em compensação das despezas que fizer com os referidos encargos, e do trabalho da sua administração, gozará de todos os proventos, direitos, acções e privilegios declarados nos sobreditos Decreto e Regulamento a beneficio da Irmandade, Corporação, ou Empresario, a quem a referida Commissão fosse commettida.

3º Todas as duvidas e questões que se suscitarem entre a sobredita Irmandade e as Ordens Terceiras e Irmandades sobre ajuste de terrenos para estabelecimento de Cemiterios particulares a que tenhão ou pertendão ter direito, e quaesquer outras que se moverem entre as mesmas Ordens e Irmandades, ou pessoas particulares sobre a execução dos referidos Decreto e Regulamento, ou sobre cumprimento de ajustes feitos ou que devão fazer-se na conformidade das suas disposições, serão decididas sem recurso por arbitros nomeados por ambas as partes; e quando estes discordarem, decidirá definitivamente o Governo.

4ª As tres Enfermarias mencionadas na condição 2ª serão estabelecidas dentro de seis annos, e collocadas: huma em lugar que possa prestar commodo soccorro á pobreza enferma das ruas de S. Diogo, Imperatriz, Gamboa, Saúde, Livramento, Sacco do Alferes, Praia Formosa e outras contiguas, e aos moradores das Ilhas adjacentes: outra em lugar favoravel á pobreza enferma da Freguezia de S. Francisco Xavier do Engenho Velho, tendo igual attenção aos moradores da rua de Mataporcos até á Tijuca, e lugares circumvisinhos, e aos que habitão o Campo de S. Christovão, Engenho novo, e Bemfica, e suas immediações: outra finalmente em lugar que preste soccorro á pobreza enferma da Freguezia de S. João Baptista da Lagoa, com attenção aos habitantes da Copa Cabana, e Botafogo: devendo preceder á fundação de cada huma das mesmas Enfermarias a approvação do Governo Imperial, tanto no que disser respeito ao local como á planta da obra.

5ª Em quanto as sobredita Enfermarias não puderem prestar serviço, a Administração da Santa Casa da Misericordia será obrigada a estabelecer e manter tres Enfermarias provisorias nos lugares acima mencionados, conservando em cada huma dellas trinta leitos pelo menos, e se concorrer maior numero de doentes, serão estes transportados para o Hospital geral á custa das mesmas Enfermarias. Em tempo de epidemia, será obrigada a estabelecer as Enfermarias provisorias, que forem necessarias para tratamento da pobreza enferma.

6ª A mesma Administração da Santa Casa da Misericordia fica obrigada a indemnisar aos Armadores e fornecedores de carros e seges de enterro o valor dos objectos que possuirem proprios deste serviço, pelas avaliações dos mesmos objectos por elles assignadas, a que já se procedeo, na importancia total de cincoenta e oito contos setenta e seis mil oitocentos e setenta réis, mettendo em deposito as quantias pertencentes aos que não quizerem receber: e em quanto não fizer effectiva esta indemnisação, não poderá gozar do privilegio exclusivo que o Decreto Nº 583 de 5 de Setembro de 1850 lhe confere.

7ª A presente Commissão durará por tempo de cincoenta annos, que principiarão a contar-se do dia em que o Provedor da Santa Casa da Misericordia em Mesa e Junta fizer expressa acceitação da mesma Commissão, obrigando-se a desempenha-la rigorosamente com todas as condições aqui declaradas.

8ª Se antes de findar o referido tempo a Irmandade da Santa Casa da Misericordia for privada da sobredita Commissão por acto do Poder Legislativo, será previamente indemnisada da parte do capital e juros que houver empregado na fundação dos Cemiterios e no estabelecimento das Enfermarias, de que se não achar ainda reembolsada pelo producto liquido dos mesmos Cemiterios, e dos objectos relativos ao serviço dos enterros; fazendo-se a conta da dita indemnisação á vista das contas da receita e despeza, que, na conformidade do Art. 2º do Decreto Nº 583 de 5 de Setembro de 1850, he obrigada a dar annualmente ao Governo.

9ª Findos os cincoenta annos da presente Commissão, a Administração da Santa Casa da Misericordia será obrigada a fazer entrega dos Cemiterios Publicos, e das Enfermarias, no estado em que se acharem, sem direito a indemnisação alguma; com excepção do terreno em que actualmente se acha estabelecido o Campo Santo do Cajú, cuja propriedade, passado o referido tempo e em quanto o Cemiterio Publico no mesmo terreno estabelecido e nos das chacaras visinhas não for mudado, lhe ficará pertencendo bem como as obras que nelle existirem, com natureza de Cemiterio particular, para enterramento somente de seus irmãos, dos enfermos que fallecerem nos seus Hospitaes, e dos pobres, a todos os quaes, na conformidade do seu Compromisso e natureza da sua instituição, he obrigada a enterrar gratuitamente.

O Visconde de Mont'alegre, Conselheiro d'Estado, Presidente do Conselho de Ministros, Ministro e Secretario d'Estado dos Negocios do Imperio, assim o tenha entendido, e faça executar. Palacio do Rio de Janeiro em dezoito de Outubro de mil oitocentos cincoenta e hum, trigesimo da Independencia e do Imperio.

Com a Rubrica de Sua Magestade o Imperador.

Visconde de Mont'alegre.

Para a transformação em cemitério público, foram adquiridos diversos imóveis vizinhos e, desta forma, muito aumentada a superfície. Em 8 de novembro de 1851, informava o provedor da Santa Casa José Clemente Pereira, o Cemitério São Francisco Xavier se achava em estado para poder prestar serviços dentro dos 15 dias do regulamento n° 796. Com efeito, em 5 de dezembro, foi sepultada uma "africana livre n. 187, de Manguinhos, pertencente a Casa de Correção, falecida no Hospital da Misericórdia, de gastroenterocolite". O último corpo enterrado no Campo Santo da Misericórdia, em 1851, foi de um africano livre, enviado da Casa de Correção, sepultamento de nº 2.218.

Foram necessários diversos aterros e aplanamento do terreno ao longo dos anos para tornar a área toda plana e seca, visto ela ser pantanosa em razão da proximidade da Baía da Guanabara. Para os aterros, foi desbastado um morro que existia na parte norte da necrópole.

Características[editar | editar código-fonte]

O cemitério tem a parte fronteira fechada por alto muro de alvenaria, e na parte central deste muro, um monumental gradil de ferro, sobre embasamento de granito, iniciado e findado por dois portões também de ferro. Ao meio desse gradil, está o prédio usado como vestíbulo da necrópole, constituído de dois pavilhões com fachadas de granito que ladeiam o imponente pórtico. Esta construção foi, originalmente, planejada pelo engenheiro José Maria Jacinto Rebelo; foi, porém, executado com modificações que lhe deram maior grandiosidade pelo arquiteto Francisco Joaquim Béthencourt da Silva.

Em frente a esse portão, segue a rua principal, que media 22 metros de largura, indo da então Praia de São Cristóvão, num lance reto, até o local denominado Retiro Saudoso, do outro lado do bairro do Caju. Cortando esta alameda principal, existe o cruzeiro monumental de granito, obra de cantaria digna de admiração por, mesmo com a dificuldade da execução em tão duro material, os artífices terem feito uma escultura considerada tão graciosa e leve.

O cemitério fornecia, originalmente, sepulturas temporárias pelo prazo de sete anos e, conforme o desejo das famílias, vendia, também, as sepulturas perpétuas, motivo pelo qual existem ricas sepulturas e imponentes capelas construídas ao longo de todos os tempos.

Dentro do terreno do cemitério, na sua extremidade sudeste, existe, ainda, a Quadra dos Acatólicos, reservada para o sepultamento de judeus e protestantes. Foi usada antes da construção do vizinho Cemitério Comunal Israelita do Caju. Repleta de sepulturas antigas e históricas, já foi assunto de estudos, livros e teses diversas.

Uma outra área de 1.885 metros quadrados, cercada com gradil, tendo piso ladrilhado com cerâmica francesa, é o Cemitério de São Pedro, reservado para os padres católicos da ordem de mesmo nome. Foi adquirida em 1866 pela Irmandade do Príncipe dos Apóstolos de São Pedro, como produto do legado que recebeu do padre José Luís de Oliveira.

Originalmente, a maior parte dos sepultamentos era de moradores da região norte da cidade e, por ser junto ao bairro de São Cristóvão, muitas personalidades do império ali foram sepultadas ao longo de todo a metade do século XIX. Mas, curiosamente, foi um cidadão francês a primeira pessoa de reconhecida nobreza ali sepultada; Williers de l'Isle de Adam, o Visconde de l'Isle de Adan, um solteiro de 65 anos, falecido na Casa de Saúde do Morro do Livramento em 10 de julho de 1852.

Dentre as capelas e sepulturas mais notáveis, estão as do arquiteto Antonio Jannuzzi; do barão de Mangaratiba; do visconde do Rio Branco; da benfeitora da Santa Casa, Luísa Rosa Avondano Pereira; e do provedor José Clemente Pereira.

Um dos túmulos mais curiosos é o chamado "Mausoléu dos Integralistas" (na verdade, um ossuário), que abriga os restos dos militantes integralistas mortos durante o Putsch de 11 de maio de 1935.

O médico e memorialista Pedro Nava, que, ali, está sepultado, escreveu, no seu livro Balão Cativo, uma das mais belas e sentimentais descrições do cemitério do Caju e de suas sepulturas. A impressão da primeira visita que ele ali fez em menino foi que " transpondo o seu pórtico de pedra (ele teve) a percepção invasora (e para sempre entranhada e durável) de um impacto silencioso e formidando".

Sepultados ilustres[editar | editar código-fonte]

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Nava, Pedro - Balão Cativo/ memórias 2 - Livraria José Olympio Editora - Rio de Janeiro - 2ª edição - 1974 - pág. 41.
  • Santos, Antonio Alves Ferreira dos - A Archidiocese de S.Sebastião do Rio de Janeiro: subsídios para a historia ecclesiastica do Rio de Janeiro, capital do Brasil - Typographia Leuzinger - Rio de Janeiro - 1914.

Ver também[editar | editar código-fonte]

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Referências