Centro Acadêmico Visconde de Cairu

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CAVC
Centro Acadêmico Visconde de Cairu
Fundação 19 de junho de 1946
Localização São Paulo, SP
Afiliações UNE
UEE-SP
CCA USP [1]
Página oficial cavc.com.br
Organizações estudantis por país

O Centro Acadêmico Visconde de Cairu é a entidade política e acadêmica que representa os alunos da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo.[2]

Suas atividades se concentram na organização estudantil, na manutenção do seu espaço físico, na luta por demandas dos estudantes, na negociação com a instituição de ensino e na participação nos espaços estudantis. Tem seu nome em homenagem a José da Silva Lisboa, conselheiro econômico da monarquia portuguesa no Brasil. Seu símbolo é o Mercúrio envolto em uma roda dentada. Historicamente, a entidade foi responsável pela publicação de diversos periódicos, dentre eles Cairu, Vanguarda e O Visconde.[3][4][5][6]

As diretorias do Centro Acadêmico Visconde de Cairu são eleitas anualmente por sufrágio direto dos alunos de graduação e pós-graduação da FEA USP. Estatutariamente, a entidade é filiada ao Conselho de Centros Acadêmicos da Universidade de São Paulo e à União Nacional dos Estudantes.[1]

História[editar | editar código-fonte]

Fundação e primeiros anos[editar | editar código-fonte]

Fundado em 1946, no mesmo ano da criação da Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas (FCEA) da USP, o CAVC teve papel importante no processo de consolidação dos cursos de graduação que passavam a ser ministrados. Sua primeira sede, obtida em 1947, se localizava no subsolo da Faculdade de Arquitetura. Nesse mesmo ano, o Centro Acadêmico organizou sua primeira greve, contra a efetivação de docentes que não haviam realizado concurso de ingresso. O movimento, que prosseguiu pelo biênio seguinte, terminou com a conquista do primeiro concurso público de títulos e provas da faculdade.

Nesse período, também se destaca o papel do CAVC enquanto catalisador do convívio entre professores e estudantes, que juntos se engajavam na construção e aperfeiçoamento da nova escola.[2]

Na década de 1950, o CAVC acompanhou e promoveu debates sobre a situação política e acadêmica do país: participou de greves estudantis em 1954, realizou paralisações contra o aumento da passagem de ônibus em 1958 e, nesse mesmo ano, declarou apoio à eleição de Carvalho Pinto para o governo do Estado de São Paulo, de forma a citar apenas alguns atos políticos registrados pela mídia da época.[7][8][9] No ano de 1960, o agora governador Carvalho Pinto atenderia uma demanda pública dos estudantes e cederia para a faculdade o prédio da rua Dr. Vila Nova, no bairro da Vila Buarque, no centro da cidade.[10]

Em 1963, na gestão presidida por Paulo Sandroni, o CAVC instala um fogão industrial em sua sede, localizada então no porão da faculdade, e a partir daí passa a operar um restaurante universitário que se prestava igualmente a alimentar a comunidade da região, a ser fonte de renda complementar para a entidade, e a ser espaço de confraternização entre alunos e professores. Mesmo após a turbulenta mudança para a Cidade Universitária, ao longo de sua história o CAVC voltaria a operar o refeitório da FEA USP, perdendo-o em definitivo apenas nos anos 1990.

O ano de 1963 marca, também, a ascensão do chamado Grupo Independente (GI), de esquerda moderada e próximo ao Partido Comunista Brasileiro, à presidência do CAVC. Tal grupo se manteria à frente da entidade até pelo menos 1968.[11]

Existência sob o regime militar[editar | editar código-fonte]

Quando do golpe militar de 1964, o Centro Acadêmico teve sua sede invadida por estudantes simpáticos à política conservadora que se estabelecia e contrários à orientação política da presidência regimentalmente eleita. A solução encontrada para esse impasse foi a substituição da cúpula da entidade, em Assembleia presidida pelo diretor da FCEA. Tal fato, entretanto, não representou uma ruptura com a política estudantil até então adotada, reestabelecendo-se em seguida o processo eleições diretas estatutariamente previsto.

Dessa forma, durante todo o período de vigência do novo regime, o CAVC se posicionou no campo de oposição ao governo civil-militar, criticando e denunciando políticas arbitrárias, a Lei Suplicy de Lacerda, os Acordos MEC-USAID e medidas consideradas contrárias à soberania nacional.[12][13][14]

Em 1968, no desenrolar da chamada "crise universitária" e sob a presidência de Jacques Marcovitch, o CAVC esteve envolvido em duas sucessivas ocupações do prédio principal da faculdade. Na ocasião, questionava-se as estruturas acadêmicas dos cursos da FCEA e os mecanismos de tomada de decisão dentro da universidade.[15][16] No final desse mesmo ano, o CAVC atuou no que ficou conhecido como a Batalha da Maria Antônia, conflito no qual se digladiaram estudantes da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP e alunos da Universidade Presbiteriana Mackenzie, e que ceifou a vida do jovem secundarista José Carlos Guimarães. Marcou-se, nessa situação, o fato de os estudantes de Filosofia utilizarem o Instituto de Administração, ligado à FCEA, como rota de fuga durante as hostilidades.

Na esteira do AI-5, com a publicação do Decreto-lei 477, o CAVC e o Movimento Estudantil da faculdade se viram bastante fragilizados. O presidente do CAVC no ano de 1969, Paulo Roberto Beskow, foi preso e torturado por sua atividade política.[17] No período subsequente, a entidade perdeu sua principal fonte de financiamento, o Cairu Curso Pré-Vestibular (CCPV) e, por conta da transferência para o novo campus universitário, se viu também sem sede própria.[18]

Os primeiros anos da década de 1970 foram, com efeito, um período de reconstrução do CAVC em uma nova realidade. Em 1974, a associação engajou-se no chamado Comitê de Defesa dos Presos Políticos, crítico à Lei de Segurança Nacional e as prisões arbitrárias que ocorriam à época. Por conta dessa atuação, diversos diretores da entidade foram intimados pelo DEOPS a prestar depoimento, o que veio a resultar na detenção, dentre outros, do presidente Ricardo Oscar Komori e do diretor Evandir Vaz de Lima, acusados de patrocinar a subversão.[19]

Destaca-se, nesse momento, a presença por dois anos de militantes da Organização Socialista Internacionalista (OSI) à frente da entidade, nas gestões de Markus Sokol e Ricardo Melo.[20][21] Ligados ao trotskismo e engajados na construção da tendência Liberdade e Luta, braço estudantil de sua organização, esses dois mandatos foram intercalados pela presidência de Aloizio Mercadante, estudante que no ano de 1975 havia sido presidente da Associação Atlética Acadêmica Visconde de Cairu (AAAVC).[nota 1][22][24] Em sua gestão, no decorrer de 1976, Mercadante e outros colegas da FEA USP foram eleitos para a primeira diretoria do Diretório Central dos Estudantes Livre da USP, refundado naquele ano.[23][25] Nesse mesmo contexto de mobilização política, em 1978, a entidade participou ativamente da retomada de passeatas contra a ditadura.

Ao longo de toda essa época, e pelos anos subsequentes, o Centro Acadêmico também esteve engajado na construção da União Nacional dos Estudantes e da União Estadual dos Estudantes de São Paulo, mesmo nos períodos em que essas entidades foram postas na ilegalidade e politicamente perseguidas (1964-1979).

Redemocratização e atualidade[editar | editar código-fonte]

Nos anos finais do regime militar, havia acordo entre os alunos quanto ao engajamento do CAVC na campanha por Diretas Já (1983-1984).[26] No plano interno à universidade, contudo, vigorava uma divisão a respeito de como o Centro Acadêmico deveria atuar nos órgãos colegiados da faculdade, que a partir de 1981 começaram a se reabrir para a entidade. De um lado estavam estudantes mais radicais, ligados a grupos em processo de incorporação ao recém-fundado Partido dos Trabalhadores, como Liberdade e Luta e Convergência Socialista, que compunham as gestões do DCE Livre da USP e eram contrários à participação discente nessas instâncias.[20][27] Do outro lado, havia um grupo mais moderado, organizado por militantes do PCB, do PC do B, do MDB e independentes, que seguia as as deliberações do 32º Congresso da UNE e defendia uma maior participação do CAVC nos órgãos colegiados e na escolha dos dirigentes dos mesmos.[28] Vitoriosa, a segunda corrente conquistou alguns avanços: em 1985, criou-se o colégio eleitoral para a escolha das chefias departamentais, e em 1986 foi realizada uma consulta informal a toda a comunidade para a eleição da diretoria da faculdade.[27][29]

A partir de 1989, com a fundação do CAVC Idiomas, esse passou a ser a principal fonte de renda da associação.

Os anos 1990, apesar de marcarem o fim do processo de redemocratização, se destacam por uma polarização ideológica dos estudantes. Estes passaram a se dividir claramente entre setores à esquerda, mais preocupados em discutir questões políticas, e grupos à direita mais interessados na vida cotidiana dos alunos.[30] Apesar de tal divisão, as gestões do Centro Acadêmico mantiveram-se globalmente alinhadas em relação a diversos temas, inclusive na crítica moderada à presença de fundações como FIA, FIPE e FIPECAFI na faculdade.[31][32] A questão da segurança nos campi universitários também foi um tema recorrente. Sobretudo no biênio de 2011 e 2012, após o assassinato do estudante Felipe Ramos de Paiva no estacionamento da FEA, o CAVC apoiou a assinatura de um convênio entre a USP e a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo e adotou uma postura de oposição aos setores do Movimento Estudantil que protagonizaram sucessivas ocupações de prédios administrativos da universidade no período.[33][34][35][36]

O Espaço de Vivência do Centro Acadêmico Visconde de Cairu leva o nome do economista Norberto Nehring, antigo estudante e professor da FCEA USP.[37][38] Militante da Ação Libertadora Nacional, Norberto Nehring foi preso, torturado e morto por agentes da ditadura em abril de 1970.[39]

Entidades Associadas[editar | editar código-fonte]

Associação Atlética Acadêmica Visconde de Cairu[editar | editar código-fonte]

Criada originalmente como Departamento de Desportos do CAVC, a Associação Atlética Acadêmica Visconde de Cairu ganhou sua autonomia administrativa em 1955. Apesar disso, seu processo eleitoral permaneceu ligado às eleições do Centro Acadêmico por mais de três décadas, sendo o presidente da Atlética indicado na chapa vencedora do CAVC. As gestões da AAAVC e do CAVC só se tornaram independentes, portanto, em período posterior.

Cursinho FEA USP[editar | editar código-fonte]

Fundado no ano 2000, o Cursinho FEA USP foi criado pelo CAVC para que o mesmo voltasse a oferecer cursos pré-vestibular para alunos de baixa renda. Atualmente sua gestão é juridicamente independente em relação ao Centro Acadêmico.[40]

Antigos diretores ilustres do CAVC[editar | editar código-fonte]

O CAVC teve dentre seus quadros, historicamente, nomes que posteriormente viriam a ter projeção e importância nacional, ocupando altos cargos na administração pública. Alguns de seus diretores tornaram-se ministros de Estado, como Antonio Delfim Netto, Affonso Celso Pastore, Eduardo Pereira de Carvalho, João Sayad, Aloizio Mercadante[41], além de figuras de relevo, a exemplo de Luciano Coutinho (presidente do BNDES), Jacques Marcovitch (reitor da USP), José Maria Arbex (presidente da Caixa Econômica do Estado de São Paulo) e Miguel Colasuonno (prefeito de São Paulo), entre outros.

Lista de Presidentes do CAVC[editar | editar código-fonte]

Notas

  1. Pelas regras estatutárias vigentes à época, Aloizio Mercadante Oliva fora eleito presidente da AAAVC enquanto membro da chapa candidata ao CAVC encabeçada por Markus Sokol. Dito isso, sublinha-se que Mercadante nunca compôs as fileiras da tendência Liberdade e Luta ou da Organização Socialista Internacionalista (OSI), e que ao contrário participava do grupo político Refazendo, tendência estudantil da Ação Popular.[22][23]
  2. Na esteira da tomada do poder pelos militares, em abril de 1964, a sede do Centro Acadêmico, no porão da faculdade, foi invadida por alunos ligados a setores conservadores, inviabilizando a continuidade da gestão de Alfredo Henrique Costa Filho, eleita nos últimos meses de 1963 para o mandato de 1964. Por conta disso, em Assembleia, os estudantes da FCEA chegaram a a uma "solução de compromisso"[2] e elegeram uma gestão interina, composta por alunos simpáticos à Juventude Universitária Católica e encabeçada por Nelson Gomes Teixeira.
  3. Preso em junho de 1969, pelos órgãos de repressão política do regime militar, no exercício de suas funções como presidente. Paulo Roberto Beskow é sócio-benemérito do Centro Acadêmico Visconde de Cairu.[42]
  4. Renunciou de facto à presidência em favor de seu vice, Ludwig Miguel Agurto Berdejo, em fevereiro de 1999.

Referências

  1. a b «Estatuto do Centro Acadêmico Visconde de Cairu» (PDF) 
  2. a b c Jacques Marcovitch (1981). «História da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo» (PDF) 
  3. «Jornal Cairu» (PDF). CAVC FCEA USP. 1967 
  4. «Jornal Vanguarda Edição Especial». CAVC FCEA USP. 1968 
  5. «Jornal Vanguarda». CAVC FCEA USP. 10 de maio de 1968 
  6. Revista O Visconde
  7. «A greve dos universitários». O Estado de S. Paulo. 9 de outubro de 1954 
  8. «Universitários paulistas estão com Carvalho Pinto». O Estado de S. Paulo. 2 de outubro de 1958 
  9. «Suspensa a paralisação dos transportes». O Estado de S. Paulo. 4 de novembro de 1958 
  10. «Cessão de metade do prédio à FCEA». O Estado de S. Paulo. 21 de abril de 1960 
  11. «Perfil: Roberto Macedo». FEA USP. 17 de setembro de 2012 
  12. «Lei Suplicy de Lacerda» (PDF). 9 de novembro de 1964 
  13. «Manifesto de Apoio à chapa "Renovação e Trabalho"». Estudantes da FCEA USP. Novembro de 1967 
  14. «Boletim de Centro Acadêmico apreendido pela ditadura». Documentos Revelados. 26 de fevereiro de 1969 
  15. «Lei Suplicy: a votação foi maciça». O Estado de S. Paulo. 17 de agosto de 1965 
  16. «Economia é reocupada». O Estado de S. Paulo. 8 de agosto de 1968 
  17. «Denunciados terroristas». O Estado de S. Paulo. 23 de dezembro de 1969 
  18. «Publicidade do Cairu Curso Pré-Vestibular». O Estado de São Paulo. 1 de novembro de 1968 
  19. «Prontuário: Comitê de Defesa dos Presos Políticos» (PDF). DEOPS. 1974 
  20. a b Mirza Pellicciotta (2012). «Liberdade e luta: considerações sobre uma trajetória política». Tese de Doutorado 
  21. «A Libelu ganhou o poder». Portal Fórum. 19 de outubro de 2011 
  22. a b Ricardo de Azevedo (1997). «Memória: Medo e liberdade» 
  23. a b Guido Mantega; José Marcio Rego (1999). Conversas com Economistas Brasileiros. São Paulo: Editora 34. p. 356 
  24. Laerte Coutinho (1976). «Cartaz para a chapa "Movimento"» 
  25. «Movimento estudantil está menos politizado que nos anos 'duros'». O Estado de S. Paulo. 16 de julho de 2007 
  26. «Jornal Trombone». CAVC FEA USP. Abril de 1984 
  27. a b Flavio A. M. Saes e Roney Cytrynowitz (2015). Tradição e Utopia: 70 Anos de História do CAVC. São Paulo: Narrativa Um. pp. 101–105 
  28. «Representação discente: chegou a hora». Boletim da Diretoria do CAVC. Maio de 1981.
  29. «Eleição para Diretor e Vice-Diretor: novidades no ar». Boletim da Representação Discente. Junho de 1986.
  30. Flavio A. M. Saes e Roney Cytrynowitz (2015). Tradição e Utopia: 70 Anos de História do CAVC. São Paulo: Narrativa Um. p. 123 
  31. «Plebiscito na FEA aprova fundações». Folha de S. Paulo. 9 de setembro de 2001 
  32. «Professores da USP criam graduação paga». Folha de S. Paulo. 23 de novembro de 2010 
  33. «Estudante é assassinado dentro da USP». Último Segundo. 19 de maio de 2011 
  34. «USP assina convênio com Secretaria de Segurança Pública». Portal USP. 9 de setembro de 2011 
  35. «CAs, DCE e UNE se posicionam quanto a greve dos estudantes». Jornal do Campus. 9 de novembro de 2011 
  36. «Qual é o inimigo?». Revista O Visconde. Novembro de 2011 
  37. «Centro Acadêmico da FEA completa 70 anos com livro sobre sua história». Sala de Imprensa da USP. 1º de dezembro de 2015 
  38. «Homenagem a Norberto Nehring». FEA USP. 4 de dezembro de 2015 
  39. «Norberto Nehring». Portal Memórias da Ditadura. 2015 
  40. «Diretoria da FEA USP estuda proibir cursinho popular dentro da faculdade». Portal G1. 14 de outubro de 2015 
  41. «'Mercadante Boys' ganham destaque no governo Dilma». O Estado de S. Paulo. 18 de fevereiro de 2014 
  42. «Paulo Roberto Beskow». Plataforma Lattes 
  43. Flavio A. M. Saes e Roney Cytrynowitz (2015). Tradição e Utopia: 70 Anos de História do CAVC. São Paulo: Narrativa Um. p. 176 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]