Cerco de Nucéria Alfaterna

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Cerco de Nucéria
Segunda Guerra Púnica
Carte guerre latine trifanum 340.png
Mapa da região de Nucéria (que está na parte inferior do mapa) e vizinhança.
Data 216 a.C.
Local Nucéria Alfaterna, Campânia
Desfecho Vitória cartaginesa e destruição da cidade.
Beligerantes
  Nucerinos Cartago Cartago
Comandantes
Cartago Aníbal
Nucéria Alfaterna está localizado em: Itália
Nucéria Alfaterna
Localização de Nucéria Alfaterna no que é hoje a Itália

O Cerco de Nucéria foi uma campanha militar ocorrida por volta de setembro de 216 a.C. quando o exército cartaginês de Aníbal cercou e destruiu a cidade de Nucéria Alfaterna, aliada dos romanos na Campânia.

Contexto[editar | editar código-fonte]

Aníbal enviou por mar, até Brúcio, seu irmão, Magão Barca, com parte de suas forças, para recepcionar as cidades que abandonaram os romanos e ameaçar as que ainda se negavam a fazê-lo[1]. Com o grosso do exército, Aníbal marchou para a Campânia, onde aceitou a deserção da Cápua, que era, na época, a segunda mais importante cidade de toda a península Itálica, atrás apenas de Roma[2].

Depois, retomou as operações na Campânia, tentando, em vão, conquistar Neápolis. Seu objetivo era conquistar um porto seguro para receber os navios que vinham da África com reforços e suprimentos. Porém, quando soube que Neápolis estava sob o comando do prefeito romano Marco Júnio Silano, abandonou seus planos e marchou para Nucéria[3]. A cidade estava, na época, no comando da chamada "Confederação Samnita Meridional" ou "Liga Nucerina"[4][5], uma aliança samnita que compreendia ainda as cidades de Pompeia, Stabia e Herculano, todas em condições de oferecer um porto seguro ao general cartaginês.

Nucéria havia passado para o controle romano pelos termos de um tratado de aliança estipulado em 308 a.C. pelo cônsul Quinto Fábio Máximo Ruliano, que dava a Nucéria autonomia administrativa total, mas a obrigava a seguir as determinações de política externa vindas de Roma. Não por acaso, os "sarrastros", o "povo do Sarno", membros da Liga Nucerina, haviam participado da Batalha de Canas. Sílio Itálico, numa passagem em inspeção das tropas romanas antes desta batalha, relembra sua presença[6] e, depois da batalha, afirma: "Aqui e ali aparece, abandonada, uma bandeira levada pelos beligerantes samnitas e sarrastos e as coortes marsas"[7].

A derrota romana custou muito para o exército nucerino, que provavelmente estava muito enfraquecido quando Aníbal chegou.

Cerco[editar | editar código-fonte]

Segundo a tradição, Aníbal alcançou Nucéria por uma estrata que seria conhecida no futuro como Via Capua-Regium[nota 1].

Sendo a cidade "de muralhas inexpugnáveis"[8], Aníbal conseguiu subjugá-la pela fome[9]. Todavia, tendo em vista a independência de grande parte dos povos italianos e os ótimos resultados obtidos em Cápua, Aníbal tentou muitas vezes convencer o senado nucerino a passar para o seu lado[10].

Para compensar a falta de alimentos, os nucerinos expulsaram da cidade todos os que eram incapazes de portar uma arma. Aníbal, entendendo o plano nucerino, não apenas os obrigou a voltarem para o interior da muralha, mas facilitou também a entrada de todos os refugiados dos campos vizinhos na cidade[11]. Com o aumento da população no interior da muralha, o general cartaginês pretendia aumentar o sofrimento em Nucéria exaurindo muito mais rápido os estoques alimentares do senado.

Rendição[editar | editar código-fonte]

Sem esperança de qualquer ajuda por parte dos romanos, os nucerinos foram forçados a negociar a rendição da cidade. Nos termos de rendição e nos eventos que se seguiram, há uma discrepância entre as fontes. Aníbal garantiu aos nucerinos um salvo-conduto aos cidadãos que deixassem a cidade com uma (Lívio) ou duas (Apiano e Valério Máximo[12][13]) roupas pessoais. Aníbal então saqueou a cidade, apropriando-se de todos os bens de seus habitantes como butim de guerra, e incendiando-a depois. As divergências maiores são sobre o que aconteceu em seguida. Lívio conta que os senadores nucerinos pretendiam ser recebidos em Cápua, mas, sendo publicamente rejeitados, acabaram tendo que se dirigir a Cumas. Possivelmente os capuanos, aliados de Aníbal, estavam com medo de receber os nucerinos por causa de sua fidelidade a Roma. Os cidadãos, por sua vez, foram abrigados em várias cidades da Campânia, especialmente Nola e Neápolis[14].

As outras fontes (sobretudo Dião Cássio[15] e Zonaras) recontam que Aníbal não cumpriu sua parte e mandou assassinar os senadores nas termas e atacou os refugiados que deixavam a cidade[16]. Segundo Valério Máximo, Aníbal trucidou nas termas todos os cidadãos[17].

Terminada a destruição de Nucéria, Aníbal seguiu para Nola[18] e deu início ao primeiro cerco da cidade (216 a.C.).

Reconstrução[editar | editar código-fonte]

Apiano[19] e Lívio[20] contam que, depois da conquista de Cápua, o Senado Romano decretou que, enquanto esperavam pela construção da cidade, os nucerinos receberam permissão de viver em Atella.

Notas[editar | editar código-fonte]

  1. Esta estrada é conhecida ainda hoje como "Passo dell'Orco". Na acepção popular, o termo "orco" seria uma referência a Aníbal.

Referências

  1. Lívio Ab Urbe Condita XXIII, 1.4
  2. Políbio Histórias VII, 1, 1-2.
  3. Lívio Ab Urbe Condita XXIII, 15.
  4. Beloch J., Sulla confederazione nucerina, in Archivio Storico Napoletano, II, 1877 pp. 285-289 (em italiano)
  5. De Caro S., Lo sviluppo urbanistico di Pompei, in Atti e Memorie della Società della Magna Grecia, II serie, I, Roma, 1992 p. 82 (em italiano)
  6. Sílio Itálico, Púnicas VIII, 538-539
  7. Sílio Itálico, Púnicas X, 315-316.
  8. Valério Máximo, Nove Livros de Feitos e Dizeres Memoráveis IX, 6
  9. Lívio Ab Urbe Condita XIII, 15
  10. Teobaldo Fortunato (a cura di), Nucéria, scritti in onore di Raffele Pucci, Postiglione (SA), 2006 (em italiano)
  11. João Zonaras IX, 2
  12. Apiano, História de Roma VIII, 63
  13. Valério Máximo, Nove Livros de Feitos e Dizeres Memoráveis IX, 6
  14. Lívio Ab Urbe Condita XXIII, 15
  15. Dião Cássio História Romana XV, 30
  16. Apiano, História de Roma (Ῥωμαϊκά) VIII, 63
  17. Valério Máximo, Nove Livros de Feitos e Dizeres Memoráveis IX, 6
  18. Lívio Ab Urbe Condita XXIII, 16, 2
  19. Apiano, História de Roma (Ῥωμαϊκά) VIII, 49
  20. Lívio Ab Urbe Condita XXVII, 3, 6-7

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Fontes primárias[editar | editar código-fonte]

Fontes secundárias[editar | editar código-fonte]

  • Brizzi, Giovanni (1997). Storia di Roma. 1. Dalle origini ad Azio (em italiano). Bologna: Patron. ISBN 978-88-555-2419-3 
  • L. Dyson, Stephen (1985). The creation of the roman frontier (em inglês). [S.l.]: Princenton University Press 
  • Piganiol, André (1989). Le conquiste dei romani (em italiano). Milano: Il Saggiatore 
  • Scullard, Howard H. (1992). Storia del mondo romano. Dalla fondazione di Roma alla distruzione di Cartagine (em italiano). vol.I. Milano: BUR. ISBN 88-17-11574-6