Charales

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Disambig grey.svg Nota: Se procura pelo(a) peixes conhecidos por Charales, veja Chirostoma.
Como ler uma infocaixa de taxonomiaCharales
Characeae
Classificação científica
Reino: Plantae
Divisão: Charophyta
Classe: Charophyceae
Ordem: Charales
Dumort., 1829
Família: Characeae
Rabenh., 1863
Géneros
Chara a olho nu.
Chara vista à lupa.
Prado submerso de Chara vulgaris.
Formação de encrustações calcárias sobre exemplares de Chara sp. numa lagoa sazonal (Alemanha).

Charales é uma ordem monotípica da classe Charophyceae da divisão Charophyta, que tem Characeae como única família. A ordem que agrupa cerca de 400 espécies de algas de água doce, plantas verdes que se acredita serem os parentes mais próximos dos embriófitos.

Descrição[editar | editar código-fonte]

A ordem Charales tem como género tipo Chara, um táxon estabelecido por Linnaeus em 1753, e agrega um grupo diversificado composto por cerca de 400 espécies de algas de água doce, embora algumas espécies possam por vezes ocorrer também em habitats de água salobra. O grupo tem distribuição natural do tipo cosmopolita, embora sendo mais frequente nas regiões temperadas e húmidas.

As espécies de Charales são algas macroscópicas que têm como característica mais distintiva a formação de longos talos multicelulares (o caule), que chegam a atingir 120 cm de comprimento, muito ramificados, compostos por células polinucleadas gigantes que usam clorofila como pigmento fotossintético. A morfologia do talo distingue os membros desta ordem das restantes algas por apresentar verticilos formados de curtas ramificações em torno de nós localizados ao longo da estipe, o que lhes confere um aspecto semelhante ao das espécies do género Equisetum.

Nas células que formam os nós base dos verticilos ocorre o fenómeno de ciclose, sendo que este processo nas espécies do género Chara é considerada a ciclose mais rápida de que se tem registo. A ciclose é causada pelos microfilamentos presentes no interior das células que formam os nós, pelo que a introdução de citocalasina B no protoplasma dessas células inibe o processo.

A única fase diploide do ciclo de vida destas plantas é o oósporo unicelular,[1] já que a fase macroscópica é haploide, correspondendo ao gametóforo na alternância de gerações que caracteriza estas algas.

Os membros desta ordem são conhecidos pelo nome comum em língua inglesa de stoneworts,[2] (stone = pedra), em resultado destas algas ficarem frequentemente petrificadas devido à incrustação dos seus talos pela deposição de calcário (carbonato de cálcio) sobre a sua superfície. Outros nomes comuns referem a fragilidade e o carácter quebradiço dos talos incrustados de calcificações quando secos. Outros ainda (como «skunkweed») são uma referência ao mau cheiro que estas espécies produzem quando pisadas.

Distribuição[editar | editar código-fonte]

As cerca de 400 espécies que integram esta ordem têm distribuição natural por todos os continentes, conferindo ao grupo uma distribuição natural do tipo cosmopolita. Na Europa Ocidental, onde o género tem o seu centro de diversidade, estão identificadas 33 espécies apenas nas Ilhas Britânicas,[3][4] embora outros autores reduzam este número para 21 espécies.[5]

As Characeae constituem o principal grupo de plantas presente em alguns dos lagos de cratera dos vulcões da Nicarágua, ocorrendo nalguns casos a mais de 20 metros de profundidade. Contudo, em alguns lagos, entre os quais o lago Apoyo, a introdução de peixes como a tilápia (Oreochromis niloticus) levou ao desaparecimento quase total das Characeae, vítimas da herbivoria dessas espécies.[6]

Ecologia[editar | editar código-fonte]

A maioria das Charales ocorre em habitats de água doce, embora algumas consigam sobreviver em águas salobras, preferindo as águas paradas (lênticas) e límpidas, ricas em sais de cálcio. Apesar disso, algumas espécies podem sobreviver em águas salobras e em hanitas marinhos, sendo conhecidas algumas espécies que ocorrem em lagos salinos efémeros da Austrália que apresentam uma salinidade que é dupla da que ocorre na água do mar.[7]

As espécies ocorrem na zona eufótica, agarradas ao substrato dos fundos por rizóides bem desenvolvidos e em geral muito ramificados.[8] São encontradas normalmente em águas com teor baixo a médio de nutrientes (águas oligotróficas a mesotróficas), tendendo a desaparecer de águas eutrofizadas.

Algumas espécies podem ser colonizadoras pioneiras ou ocorrer em massas de águas efémeras e sazonais (apenas presentes na época húmida ou em resultado da inundação ocasional de depressões.[9]

Ciclo de vida[editar | editar código-fonte]

Na fase madura, os anterídeos e oogónios são protegidos por uma camada de células estéreis. O oogónio é oblongo, constituído por um único ovo, enquanto os anterídeos, quase esféricos, são preenchido por células filiformes, longas e flexíveis, que produzem células espermáticas. Como resultado, as Charales possuem uma das mais complexas estruturas reprodutivas encontradas entre todas as algas verdes, se assim podem ser designadas.

Taxonomia[editar | editar código-fonte]

As Charales são um possível grupo irmão das Embryophyta (as plantas terrestres), o que leva alguns botânicos a defender que o agrupamento taxonómico constituído por estas algas e pelos grupos que filogeneticamente lhe estão próximos deveria ser colocado ao nível taxonómico de divisão, sub-reino, ou mesmo reino, designando o grupo assim definido por Charophyta.[10][11] Em consequência, a classificação taxonómica deste agrupamento está presentemente sujeita a constante escrutínio cladístico.

Os resultados de análises de DNA e RNA subsequentes poderão vir eventualmente a provar que as charófitas são um verdadeiro fóssil de transição na evolução uma ligação importante na árvore filogenética da vida, representando um passo crítico na transição das algas para as plantas terrestres não vasculares e depois para as plantas vasculares.

A base de dados taxonómicos AlgaeBase lista os seguintes taxa subordinados à ordem Charales:[12][13]

Entre muitas outras, o grupo inclui as seguintes espécies:[5][14][15][14]

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. Charales - an overview | ScienceDirect Topics
  2. Kapraun DF (abril de 2007). «Nuclear DNA content estimates in green algal lineages: chlorophyta and streptophyta». Ann. Bot. 99 (4): 677–701. PMC 2802934Acessível livremente. PMID 17272304. doi:10.1093/aob/mcl294 
  3. Groves, J. and Bullock-Webster, G.R., 1920. The British Charophyta. Vol.1, Nitelleae. London, The Ray Society
  4. Groves, J. and Bullock-Webster, G.R., 1924. The British Charophyta. Vol.2, Characeae.. London, The Ray Society
  5. a b Stewart, N.F. and Church, J.M., 1992. Red Data Books of Britain and Ireland. The Joint Nature Conservation Committee, Peterborough. ISBN 1-873701-24-1
  6. McCrary JK, Murphy BR, Stauffer, Jr. JR, Hendrix SS (2007): Tilapia (Teleostei: Cichlidae) status in Nicaraguan natural waters; Env. Biol. Fishes 78:107-114 «Archived copy» (PDF). Consultado em 31 de maio de 2011. Arquivado do original (PDF) em 3 de outubro de 2011 
  7. Burne, R.V., Bauld, J. and de Decker, P. 1980. Saline lake charophytes and their geological significance. Journal of Sedimentary Petrology, 50, 281-293. https://doi.org/10.1306/212F79D2-2B24-11D7-8648000102C1865D
  8. John, D.M., Whitton, B.A. and Brook, A.J., 2002. The Freshwater Algal Flora of the British Isles. Cambridge University Press, London. ISBN 0 521 77051 3
  9. John, D.M., Whitton, B.A. and Brook, A.J., 2002. The Freshwater Algal Flora of the British Isles. Cambridge University Press, London. ISBN 0-521-77051-3
  10. Kenneth G. Karol, Richard M. McCourt, Matthew T. Cimino, Charles F. Delwiche (dezembro de 2001). «The Closest Living Relatives of Land Plants». Science Magazine 
  11. «CHARA (MUSKGRASS; STONEWORT) Chara spp.». Missouri Department of Conservation 
  12. AlgaeBase: Charales.
  13. Order: Charales.
  14. a b Morton, O., 1992 in Hackney, P. (Ed.) Stewart & Corry's Flora of the North-east of Ireland. Institute of Irish Studies and The Queen's University of Belfast ISBN 0-85389-446-9 (HB)
  15. Guiry, M.D., John, D.M., Rindi, F. and McCarthy, T.K, 2007. New Survey of Clare Island, Volume 6: The Freshwater and Terrestrial Algae. Royal Irish Academy. ISBN 978-1-904890-31-7
  16. «Tolypella intricata (Trentepohl ex Roth) Leonhardi». AlgaeBase 
  17. ITIS Standard Report Page: Chaetosphaeridiaceae
  18. Algaebase :: Species Detail

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Bryant, J. The stoneworts (Chlorophyta, Charales). In Guiry, M.D., John, D.M., Rindi, F. and McCarthy, T.K. 2007. New Survey of Clare Island. Royal Irish Academy. ISBN 978-1-904890-31-7.
  • Lloyd, James. 2007. "Cytoskeletal Structures Responsible for Cytoplasmic Streaming in Chara." St. Vincent-St. Mary High School in Accordance with Dr. Donald Ott of The University of Akron. (Science Inquiry)
  • Morton, O. 1992. Charophyta. pp. 91 – 94 in Hackney, P. (Ed) 1992 Stewart and Corry's Flora of the North-east of Ireland. Third edition. Institute of Irish Studies. The Queen's University of Belfast.
  • Schaible, R. & Schubert, H. 2008. The occurrence of sexual Chara canesces populations (Charophyceae) is not related to ecophysiological potentials with respect to salinity and irradiance. Eur. J. Phycol. 43: 309 - 316.
  • Desai, Udaysingh and Karande C.T. 2008. "Biodiversity of Charophytes from Kolhapur District, Maharashtra". Shivaji University, Kolhapur.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]