Cibernética

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A cibernética é o estudo interdisciplinar da estrutura dos sistemas reguladores. A cibernética está estreitamente vinculada à teoria de controlo e à teoria geral de sistemas. Tanto nas suas origens como na sua evolução, na segunda metade do século XX, a cibernética é igualmente aplicável aos sistemas físicos e sociais. Os sistemas complexos afetam o seu ambiente externo e logo se adaptam a este. Em termos técnicos, centram-se em funções de controlo e comunicação: ambos fenómenos externos e internos do/ao sistema. Esta capacidade é natural nos organismos vivos e tem sido imitado em máquinas e organizações. Presta-se especial atenção à retroalimentação e aos seus conceitos derivados.

História[editar | editar código-fonte]

A cibernética é uma ciência nascida em 1942 e foi impulsada inicialmente por Norbert Wiener e Arturo Rosenblueth Stearns e tem como objetivo “o controlo e comunicação no animal e na máquina” ou “desenvolver uma linguagem e técnicas que nos permitam abordar o problema do controlo e a comunicação em geral”. Em 1950, Ben Laposky, um matemático de Iwoa, criou os oscilões ou abstrações eletrónicas, por meio de um computador analógico: considera-se esta possibilidade de manipular ondas e registá-las eletronicamente como o despertar do que viria a ser denominado “computer graphics” e, depois, arte computacional e “infoarte”. Também, durante a década de 50, William Ross Ashby propõe teorias relacionadas com a inteligência artificial.

A cibernética deu um grande impulso à teoria da informação a meio dos anos 60; o computador digital substituiu o analógico na elaboração de imagens eletrónicas. Nesses anos aparece a segunda geração de computadores (com transístores em 1960) concretizando então os primeiros desenhos e gráficos de computador, e a terceira (com circuitos integrados, em 1964) assim como as linguagens de programação. Em 1965, teve lugar, em Estugarda, a exposição “Computer-Graphik”. Mas a mostra que consagrou a tendência foi a que teve lugar em 1968 sob o título “Cybernetic Serendipity” no Instituto de Arte Contemporânea de Londres. Também nesse ano destacou-se a exposição “Mindextenders” do Museum of Contemporary Crafts de Londres. Em 1969, o Museu Brooklyn organizou a amostra “Some more Beginnings”. Nesse mesmo ano, em Buenos Aires e noutras cidades da Argentina, apresentava-se “Arte e Cibernética” organizada por Jorge Glusberg. Com esta amostra inaugurar-se-iam os princípios da relação arte/imagem digital nesse país. Em Espanha, a primeira manifestação foi a de “Formas computáveis” em 1969, “Geração automática de formas plásticas” em 1970. Ambas organizadas pelo Centro de Cálculo da Universidade de Madrid. Nos primeiros meses de 1972, o Instituto Alemão de Madrid e de Barcelona apresentaram uma das amostras mais completas que alguma vez teve lugar em Espanha, intitulada de “<Impulso arte computador>”.

As primeiras experiências do que seria mais tarde chamado “net.art” remontam ao ano 1994. É importante aclarar que já nos anos 60 existiam alguns antecedentes. De todas a formas, pode-se estabelecer que as primeiras experiências onde a tecnologia informática posta ao serviço da comunidade funcionou como suporte estético decorreram naqueles anos e rompem com a ideia de leitura linear da obra.

A raiz da teoria cibernética[editar | editar código-fonte]

O termo cibernética vem do grego “Κυβερνήτης”. A palavra “cybernétique” também foi utilizada em 1834 pelo físico André-Marie Ampère (1775-1836) para se referir às ciências de governo num sistema de classificação dos conhecimentos humanos.

Historicamente, os primeiros mecanismos a utilizar regulação automática (ainda que não se usasse a palavra cibernética na altura) foram desenvolvidos para medir o tempo, tal como as clepsidras. Nestes, a água fluía de uma fonte, como um tanque num depósito e desde o depósito aos mecanismos do relógio. Ctesibio usou um dispositivo flutuador em forma de cone para controlar o nível da água represada e ajustar a velocidade do fluxo da água para manter um nível constante de água represada, de modo a não transbordar nem a ficar em seco. Esta foi a primeira hipótese verdadeiramente automática de um dispositivo normativo que não requer a intervenção externa entre a retroalimentação e o controlo do mecanismo. Ainda que não se estivessem a referir a este conceito com o nome de Cibernética (era considerado um campo na Engenharia), Ktesibios e outros como Heron e Su Song são considerados alguns dos primeiros a estudar os princípios cibernéticos.

O estudo da cibernética no seu sentido atual começa com a teologia (do grego “telos” que significa meta ou propósito) em máquinas com datas de retroalimentação corretiva de fins de 1700 quando aparece o motor a vapor de James Watt. Este motor estava equipado com um limitador de velocidade, uma bomba centrífuga para o controlo da velocidade do motor. Alfred Russel Wallace identificou-o como o princípio da evolução no seu famoso artigo de 1858. Em 1868, James Clerk Maxwell publicou um artigo teórico sobre os limitadores de velocidade, um dos primeiros a discutir e aperfeiçoar os princípios da auto-regulação dos dispositivos.

Jakob von Uexküll aplica o mecanismo de retroalimentação através do seu modelo de ciclo de função (Funktionskreis) com o fim de explicar o comportamento dos animais e as origens do sentido em geral, e utiliza pela primeira vez a palavra Cibernética, referindo-se aos sistemas auto-regulados. No seu livro “Cybernetic”, dedicado ao seu companheiro de ciência, o Maestro Ilustre Don Arturo Rosenblueth, fisiólogo focado no sistema nervoso central, este desafia Norbert Wiener a utilizar os seus modelos matemáticos para reproduzir o sistema automático das redes neurais artificiais que governam o automatismo respiratório. De facto, o espaço virtual que existe nos dendritos da célula neural fê-lo imaginar a navegação num espaço virtual, pelo que a cibernautica ou os cibernautas traduzem o que ele queria dizer: navegar em algo que existe mas que ninguém vê.

Definições[editar | editar código-fonte]

Segundo o epistemólogo, antropólogo, cibernético e pai da terapia familiar, Gregory Bateson, a cibernética é o ramo da Matemática que se encarrega dos problemas de controlo, recursividade e informação. Bateson também afirma que a cibernética é “a maior dentada na fruta da árvore do conhecimento que humanidade já deu nos últimos 2000 anos”.

Stafford Beer, filósofo da gestão organizacional, de quem o próprio Wiener disse que devia ser considerado como o pai da cibernética de gestão, define a cibernética como “a ciência de organização efetiva”.

Segundo o Professor Doutor Stafford Beer, a cibernética estuda os fluxos de informação que rodeiam um sistema, e a forma em que esta informação é usada pelo sistema como um valor que o permite controlar-se a si próprio: ocorre tanto em sistemas animados como em inanimados. A cibernética é uma ciência interdisciplinar, e está tão ligada à Física como ao estudo do cérebro como ao estudo dos computadores, e tem também muito a ver com as linguagens formais da ciência, proporcionando ferramentas com as quais se pode descrever de maneira objetiva o comportamento de todos estes sistemas.

O próprio Staffors Beer afirmou: “Provavelmente a primeira e mais clara visão dentro da natureza do controlo… foi que este não trata de puxar alavancas para produzir os resultados desejados e inexoráveis. Esta noção de controlo aplica-se só a máquinas triviais.

Nunca se aplica um sistema total que inclui qualquer classe de elemento probabilístico – desde a meteorologia, até às pessoas: desde os mercados à política económica. Não: a característica de um sistema não-trivial que está sob controlo é que apesar de tratar com variáveis demasiados extensas para quantificar, demasiado incertas para ser expressadas, e até demasiado difíceis de compreender, algo pode ser feito para gerar um objetivo previsível. Wiener encontrou precisamente a palavra que queria na operação dos grandes barcos da antiga Grécia. No mar, os grandes barcos batalhavam contra a chuva, o vento e as marés – questões imprevisíveis. No entanto, se o homem, operando sobre o leme, podia manter o olhar sobre um farol longínquo, poderia manipular a cana do leme, ajustando-a constantemente em tempo real, até alcançar a luz. Esta é a função do timoneiro. Nos tempos rústicos de Homero, a palavra grega para designar o timoneiro era “kybernetes”, que Wiener traduziu para inglês como “Cybernetics”, em português: cibernética.

Numa reflexão muito poética dada por Gordon Pask, a cibernética é “a ciência das metáforas a ser defendidas.”

Cibernética e robótica[editar | editar código-fonte]

Muita gente associa a cibernética à robótica, aos robôs e ao conceito de “cyborg” devido ao uso que se tem dado em algumas obras de ficção científica, mas do ponto de vista estritamente científico, a cibernética trata de sistemas de controlo baseados na retroalimentação.

Certas aplicações da cibernética podem apresentar algumas desvantagens”, por exemplo:

  • A criação de máquinas complexas que substituem os trabalhadores provocaria uma redução de pessoal.
  • No futuro já não se contrataria pessoal “velho” e contratariam técnicos jovens para a manutenção das máquinas.
  • É uma tecnologia muito potente mas a sua grande limitação é encontrar a relação máquina-sistema nervoso, já que para isto devia conhecer-se o sistema nervoso perfeitamente.

Algumas vantagens são:

  • A redução das jornadas laborais, os trabalhos complexos ou rotineiros passariam a ser das máquinas. Além disso, a cibernética contribui muito para o campo medicinal.
  • Um conhecimento maior de como funcionam os sistemas complexos poderia levar à solução de problemas também complexos como a criminalidade em grandes cidades.

Algumas “desvantagens” são:

  • Substituição de mão-de-obra humana por mão-de-obra robótica.
  • Eventualmente aumentaria a desigualdade social, favorecendo quem tem recursos para adquirir e utilizar máquinas. Os ricos ficariam mais ricos e os pobres mais pobres.
  • Os países mais industrializados exerceriam um controlo ainda maior sobre os países com menos tecnologias, que ficariam perigosamente dependentes dos primeiros.

Transformação de “desvantagens” em vantagens:

  • A substituição da mão-de-obra “barata” por máquinas complexas emancipa o homom de trabalhos desagradáveis.
  • Ao aumentar cada vez mais e mais a cibernética e a automatização, o chamado “desemprego” converter-se-ia no que os gregos chamam “ocio” ou artes liberais (conjunto de estudos e disciplinas que provê conhecimentos, métodos e habilidades intelectuais "gerais" para seus estudantes, ao invés de focar em especializações ocupacionais).
  • Ao substituir-se a mão-de-obra humana por mão-de-obra robótica o homem ficaria por fim emancipado de trabalhos incómodos, rotineiros, alienantes, perigosos, nocivos, degradantes, etc.
  • Não haveria razão para continuar como o sistema de exploração “do homem por parte do homem”.

Cibernética e revolução tecnológica[editar | editar código-fonte]

A cibernética tem desempenhado um papel decisivo no surgimento da atual revolução tecnológica. Alan Turing, aluno de John von Neumann (outro pioneiro da cibernética), ambos precursores do computador e Claude Shannon, aluno de Norbert Wiener com a sua Teoria da Informação.

Educação[editar | editar código-fonte]

Os conceitos e princípios da cibernética também se aplicam na pedagogia conhecida como pedagogia cibernética.

Setor Cibernético no âmbito da Força Terrestre.[editar | editar código-fonte]

Setor de importância estratégica para a Defesa Nacional, o Setor Cibernético é introduzido no âmbito da Força Terrestre, tendo o Centro de Defesa Cibernética como órgão encarregado de coordenar e integrar os esforços dos vetores vocacionados para compor a defesa.

O Setor Cibernético contempla o emprego de modernos meios tecnológicos, enfaticamente as redes de computadores e de comunicações destinadas ao trânsito de informações, seja por meio de pessoas, no atendimento de suas necessidades individuais, seja por organizações diversas, inclusive aquelas dedicadas a setores estratégicos do País, como é o caso da Defesa Nacional. Com a finalidade de adequar-se a esta realidade, o Governo Brasileiro publicou, em dezembro de 2008, a Estratégia Nacional de Defesa (END), que estabeleceu o Setor Cibernético como um dos três setores de importância estratégica para a Defesa Nacional. No prosseguimento da implementação das diretrizes estabelecidas pela END, atendendo a determinação do Ministério da Defesa, o Exército Brasileiro (EB), em 2009, instituiu o Setor Cibernético no âmbito da Força Terrestre.

Nasceu, nesse momento, o Projeto Estratégico de Defesa Cibernética, e logo se percebeu a necessidade da existência de um órgão que fosse encarregado de exercer a governança, de forma colaborativa, entre os vetores naturalmente vocacionados para compor a defesa no campo cibernético. Essa necessidade foi atendida com a criação, em 2010, do Centro de Defesa Cibernética (CDCiber), por determinação do Comando do Exército. As premissas de trabalho deste novo órgão são coordenar e integrar os esforços dos vetores da defesa cibernética. Para atuar neste segmento tão específico, iniciou-se, entre outras atividades, o processo de capacitação de recursos humanos, possibilitando o domínio de temas multidisciplinares. Especial enfoque foi destinado ao desenvolvimento de doutrina de proteção dos próprios ativos, bem como na capacidade de atuar em rede, na de implementar pesquisa científica voltada ao tema e de coordenar relações com instituições civis acadêmicas e empresariais.

Produtos como sistemas de segurança da informação, programas de detecção de intrusão, hardware para a composição de laboratórios e simuladores de defesa e guerra cibernética, além de estímulo à produção de software nacional, como antivírus, a realização de seminários e programas de treinamento especializado são alguns exemplos das ações adotadas para a identificação e o desenvolvimento das capacidades mencionadas. Em virtude desse conjunto de ações, o Projeto Estratégico de Defesa Cibernética incluiu o Exército Brasileiro no restrito grupo de organizações, nacionais e internacionais, que possuem a capacidade de desenvolver medidas de proteção e mitigar ataques no campo cibernético. Como consequência da sua sedimentação, o Projeto Estratégico de Defesa Cibernética passou a ganhar forma por meio de dez projetos estruturantes, dos quais é possível assinalar o desenvolvimento de equipamento de Rádio Definido por Software (RDS), de uma Rede Nacional de Segurança da Informação e Criptografia (RENASIC) e a produção de doutrina específica para este tipo de atividade, entre outros. Estes projetos estruturantes são conduzidos, atualmente, por Organizações Militares ligadas ao setor, como o Instituto Militar de Engenharia, o Centro de Comunicações e Guerra Eletrônica do Exército, o Centro de Desenvolvimento de Sistemas do Exército, o Centro Tecnológico do Exército e o Centro de Inteligência do Exército.

A Escola Nacional de Defesa Cibernética (ENaDCiber) é um Projeto que integraria o Programa da Defesa Cibernética na Defesa Nacional e objetiva a capacitação de recursos humanos para atuar na Defesa Cibernética do País. Seria um centro polarizador de ensino e pesquisa da Defesa Cibernética Nacional. Cabe à Escola fomentar e disseminar as capacitações necessárias à Defesa Cibernética de interesse da Defesa Nacional, nos níveis de sensibilização, conscientização, formação e especialização, por meio do desenvolvimento de capacidades humanas que garantam a liberdade de ação no espaço cibernético, particularmente visando a defesa e a pronta resposta às ameaças e agressões cibernéticas, contribuindo, assim, com a garantia da soberania e integridade do patrimônio nacional

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

What is cybernetics, por Stafford Beer (em inglês)