Cinema de arte

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Cena da escadaria de Odessa de O Encouraçado Potemkin (1925), seminal obra de Sergei Eisenstein para o cinema de arte

O conceito de cinema de arte e sua história é um tanto vago. Conforme os historiadores do cinema, os primeiros filmes assim denominados surgiram na França em 1904, por iniciativa dos Irmãos Lafitte, que com a intenção de levar às classes intelectuais ao cinema, produziram adaptações de grandes romances da literatura francesa e mundial, como Victor Hugo, Charles Baudelaire, Émile Zola, Gustave Flaubert, Voltaire, Honoré de Balzac e Molière.

Embora seja bastante questionados os princípios que norteiam este movimento, alguns propõem que o cinema de arte consiste nas experimentações estéticas do cinema vanguardista, e no cinema em que predominam a reflexão em detrimento da ação, ao contrário dos ditos "filmes comerciais". O cinema comercial é frequentemente associado ao cinema estadunidense, enquanto o conceito de arte fica a cargo do cinema europeu, asiático, sul-americano e africano.

História[editar | editar código-fonte]

Antes dos irmãos Lafitte padronizarem o cinema de arte, Georges Méliès, ilusionista que trabalhava no vaudeville francês, diretor de Le Voyage dans la Lune (1902) entre tantos outros curtas-metragem, é considerado o precursor da narrativa de ficção, como criador do cinema de fantasia, que se opunha ao estilo Lumière de documentar em pequenos documentários excertos da vida cotidiana, conceito aprimorado por Edwin Stanton Porter com O Grande Roubo do Trem (1903). Apenas um ano mais tarde, os Lafitte filmariam uma adaptação de Notre-Dame de Paris, de Victor Hugo, obra considerada perdida.

Em 1916, David Wark Griffith lançaria Intolerância, filme de longa-metragem com três horas de duração que narra quatro histórias paralelas. Esta obra foi crucial para o desenvolvimento da montagem paralela, que mais tarde seria amplamente utilizada por Sergei Eisenstein e outros construtivistas russos em filmes marcantes como O Encouraçado Potemkin (1925). Narrando casos de intolerância através dos tempos, o longa foi pouco compreendido pelo público, não teve ressarcimento por sua dispendiosa produção, e foi considerado o primeiro fracasso comercial da história do cinema.

Em 1919, Robert Wiene lança na Alemanha as bases para o Expressionismo Alemão, movimento influenciado pela estética sombria e fantasmagórica do entreguerras mostrando uma Europa destruída, decadente e com sinais de esgotamento através de personagens perdidos e enigmáticas. Friedrich Wilhelm Murnau lançaria várias importantes obras desse movimento como Aurora, de 1927, considerado um dos melhores filmes de todos os tempos. Grande parte de sua obra é considerada perdida e não há cópias da maior parte de seus trabalhos cinematográficas.

Fritz Lang, dirigiria outros suntuosos e refinados filmes que criticam a sociedade de sua época como o monumental Metrópolis, filme reverenciado na cultura pop, estudado nos circuitos intelectuais e admirado por Adolf Hitler, que convidou o cineasta para ser o divulgador do nazismo no cinema. Lang recusou o convite e exilou-se nos Estados Unidos, onde produziria várias obras de cunho social e político.

Em 1922, Abel Gance lança o filme A Roda, de 1923 e Napoleon, de 1927, filme de quatro horas de duração que narra a ascensão e declínio de Napoleão Bonaparte. Era prevista uma série de continuações, mas por motivos financeiros os projetos não foram levados adiante. Germaine Dulac dirige A Sorridente Madame Beudet, que é considerado a primeira obra feminista do cinema. Este movimento foi chamado de impressionismo francês.

Luís Buñuel e Salvador Dalí dirigem Um Cão Andaluz e A Idade do Ouro, filme gravados na efervescência de Paris, que criticam a hipocrisia da sociedade burguesa da época e falam da psicanálise e socialismo, de forma não-linear e descomprometida com o resultado final das obras.

No Brasil, Mário Peixoto dirigiu Limite, filme passado em um barco com destino incerto onde um homem e uma mulher discutem durante todo o tempo. Humberto Mauro, dirigiu em 1933 Ganga Bruta, outro importante filme brasileiro.

O realismo poético francês, de Jean Renoir e Marcel Carné, critica com um humor cáustico os meandros sociais da Primeira Guerra Mundial com A Grande Ilusão, estrelado por Jean Gabin, famoso pelos inúmeros filmes policiais que protagonizou e A Regra do Jogo, filme que narra um misterioso assassinato em uma fazenda francesa enquanto acontece um jantar de gala na casa de campo de um aviador. Em O Boulevard do Crime, lançado em 1945, Carné faz um retrato da destacada vida da França, sendo considerado várias vezes pela crítica um dos melhores filmes da cinematografia universal.

1940[editar | editar código-fonte]

O cinema americano começa a engrenar para o cinema de arte.

Orson Welles produz Citizen Kane, um marco no cinema.

Casablanca de Michael Curtiz, lembra o cinema de Jean Renoir e tem iluminação típica do filme noir.

Na Itália, surge o Neorrelismo Italiano. Movimento que usa baixo orçamento e cenários reais para fazer o filme. Os destaques são Roberto Rosselini de Roma Cittá Aberta e Vittorio De Sica de Ladri di bicicletti.

Anos 50[editar | editar código-fonte]

O cinema japonês cumula produção de qualidade com nomes como Kenji Mizoguchi (Ugetsu Monogatari), Akira Kurosawa (Rashomon) e Yasujiro Ozu (Tokyo Monogatari).

Alguns musicais da era de ouro de Hollywood podem ser considerados filmes de arte como: Singin in the Rain.

Hitchcock muda-se para os Estados Unidos e faz grandes obras-primas do cinema de arte como: Rear Window e Vertigo.

Ingmar Bergman (Summultronstallet) e seu cinema intimista são o destaque da Suécia.

Na França, surge a Nouvelle Vague, seus maiores nomes são Claude Chabrol (Les Bonnes Femmes), François Truffaut (Les quatre cents coups) e Jean-Luc Godard (À Bout de Souffle).

O cinema de Robert Bresson, influencia a nouvelle vague com filmes como Pickpocket.

Anos 60[editar | editar código-fonte]

Federico Fellini, Michelangelo Antonioni, Pier Paolo Pasolini e Luchino Visconti seguem os passos da nouvelle vague com filmes importantíssimos como: L'Avventura, La Dolce Vita, Rocco i suo fratelli, La Notte, Mamma Roma, Otto e Mezzo, Il gattopardo e Giulietta Degli Spiriti.

Um novo movimento surge na Inglaterra, com nomes como Karol Reisz de Saturday Morning.

No Brasil, o Cinema Novo incorpora nomes como: Gláuber Rocha (Deus e o Diabo na Terra do Sol), Nelson Pereira dos Santos (Vidas Secas), Arnaldo Jabor (A Opinião Pública) e outros.

Anos 70[editar | editar código-fonte]

Algumas obras cult, conseguem grandes bilheterias como The Godfather, de Francis Ford Coppola e Taxi Driver de Scorsese.

Na Itália, volta-se a discussão existencial com nomes como Bernardo Bertolucci (Last Tango in Paris), Ettore Scola (Brutti, sporchi e cattivi) e novamente De Sica (I girasoli).

O Novo Cinema Alemão traz nomes como: Wim Wenders (Paris, Texas), Rainer Werner Fassbinder (Lola) e Werner Herzog (Fitzcarraldo).

Anos 80 e 90[editar | editar código-fonte]

O cinema americano volta ao cinema de arte com filmes como Raging Bull de Martin Scorsese.

Michael Mann (Collateral), Hal Hartley (Dogs), Quentin Tarantino (Reservoir Dogs), Steven Spielberg (Schindler's List), Woody Allen (Standart Memories) e outros se influenciam pelos movimentos de cinema de arte europeu.

Abbas Kiarostami (Tam e Guilles) leva o cinema de arte iraniano ao mundo. Makhmalbaf (Gabbeh) segue a linha de Kirostami. Jafar Panahi (Badkonake Sefid), Majid Majidi (Bacheha-Ye aseman) e Bahman Gobhadi (Lakposhtha Hâm Parvaz Mikonand), são os mais fiéis discípulos de Truffaut, Godard e Fellini.

Krystof Kieslowski produz a Trilogia das Cores, composta dos três filmes: Trois Coulours: Bleu, Trois Colours: Blanc e Trois Colours: Rouge.

Anos 2000 e 2010[editar | editar código-fonte]

O cinema europeu representa o novo cinema de arte com nomes que seguem a linha clássica como Pedro Almodóvar (Volver), Lars Von Trier (Dogville) e Abbas Kiarostami (Copie Conforme).

Apichatpong Weerasetakhul, produz filmes como Tropical Malady, e volta à tradição asiática.

O brasileiro Fernando Meirelles depois de produzir filmes comerciais de sucesso como Cidade de Deus, para a Globo Filmes, passa para um cinema de arte mais filosófico e existencial como em Ensaio Sobre a Cegueira e 360, ambos sobre a decadência humana.

Ashgar Farhadi, representa a nova geração iraniana, com o filme Jodaeiye Nader az Simin.