Cintas-largas

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Os cintas-largas são um povo indígena, assim chamado pelos primeiros invasores dos seus territórios, por ostentarem uma espécie de cinturão, feito de entrecasca de uma árvore - o tauari. Este nome foi posteriormente adotado pela Fundação Nacional do Índio.

Embora a denominação cinta-larga seja usada para designar um conjunto de grupos indígenas caçadores, habitantes das terras que se estendem do leste de Rondônia ao noroeste do Mato Grosso, trata-se, na verdade, de grupos distintos que se autodenominam Kabã, Kakin ee que têm língua e cultura semelhante.[1] Antes do contato com a Fundação Nacional do Índio, esses grupos ocupavam territórios exclusivos. Os kabã não têm subdivisões; os kakin têm algumas subdivisões e os mam ou têm várias subdivisões (Dal Poz, 1991).

Falam uma língua do tronco tupi, da família conhecida como Tupi-Mondé, a qual compartilham, com pequenas variações, com seus vizinhos gaviões, suruís-paíteres e zorós. Assim como esses povos, os grupos cinta-larga tinham na caça a sua principal atividade de subsistência, combinada com uma pequena agricultura - de tubérculos (cará, mandioca e inhame) e milho –, atividade claramente depreciada frente àquela da caça.

As roças tradicionais eram sujas, pois os homens não se davam ao trabalho de limpá-las com capinas, dificultando o trabalho (feminino) de colheita. Quando as áreas propícias ao redor de uma aldeia se esgotavam, mudava-se seu local. Por conta disso, precisavam dispor de um território amplo e, por vezes, entravam em conflito com outros subgrupos ou povos, na disputa por áreas de caça e pesca.

O território ocupado pelos cintas-largas até o final dos anos 1950 compreendia as bacias dos rios Roosevelt, a oeste; Juruena, a leste; Rio Branco, afluente da margem esquerda do Rio Negro e Guariba, afluente do Aripuanã, ao norte, até o paralelo dez e os rios Iquê, 12 de Outubro, afluente esquerdo do alto Camararé e Juína, afluente esquerdo do Juruena, ao sul. Esse território limitava-se, ao sul e a oeste, com as terras dos enauenê-nawê e dos nambiquara; a leste, com os erikbatsa e, ao norte, com os suruís e os zorós. Em tempos passados, os grupos cintas-largas viviam em guerra permanente com esses outros povos, por disputas territoriais ou por vinganças de mortes anteriores.

Nos anos 1960, os cintas-largas, assim como vários outros grupos indígenas, foram vítimas da abertura da fronteira agrícola e das políticas de incentivo à exploração dos recursos naturais, que visavam principalmente a ocupação da região Norte do país. Nessa época, esses povos eram tidos como empecilhos ao desenvolvimento, o que motivou o extermínio de comunidades indígenas inteiras. Após o Massacre do Paralelo 11 (1963), como ficou conhecida a destruição de aldeias cinta-largas em Mato Grosso, a mando do seringalista Antonio Junqueira, o estado brasileiro foi, pela primeira vez, denunciado internacionalmente por genocídio.[2] [3] [4]

Em 2003, a população cinta-larga estimada era de 1 290 pessoas, segundo dados da Administração Regional da Fundação Nacional do Índio em Cacoal, em Rondônia. Em 2010, esse número teria passado para 1 567, segundo a Fundação Nacional de Saúde. A população distribui-se por, aproximadamente, 33 aldeamentos, a maioria deles localizados nas Terras Indígenas Serra Morena (quatro aldeias),[5] Aripuanã (nove aldeias),[6] Parque Aripuanã (sete aldeias) e Roosevelt (cinco aldeias). Essas terras, situadas no leste de Rondônia e no noroeste de Mato Grosso, constituem o Parque Indígena Aripuanã, cuja superfície total, demarcada de forma contínua, é de 2 732 567 hectares. Essas terras são tradicionalmente ocupadas pelos cinta-largas.[7]

Cosmologia[editar | editar código-fonte]

O mito de criação cinta-larga conta como Gorá criou todos os seres das diferentes tribos. Os animais teriam sido criados a partir de seres humanos.[2]

Referências

  1. JUNQUEIRA, Carmen 1985: 2. In Processo Funai nº 4982/78, fls. 340
  2. a b JUNQUEIRA,Carmen. Os diamantes do povo Cinta-Larga. Texto da conferência proferida em março de 2005.
  3. Senadora defende índios Cinta Larga relembrando o Massacre do Paralelo 11. 13 de novembro de 2003.
  4. A reportagem no meio do mato, por Montezuma Cruz. Observatório da Imprensa,4de maio de 2004 na edição 275.
  5. Caracterização Geral da TI Serra Morena
  6. Caracterização Geral da TI Aripuanã.
  7. CURI, Melissa Volpato. Mineração em terras indígenas: caso Terra Indígena Roosevelt, p. 121. Capítulo V - "O povo indígena cinta-larga e a exploração de diamantes na Terra Indígena Roosevelt". Campinas: Unicamp, 2005.

Fontes[editar | editar código-fonte]

  • Dal Poz, João. Dádivas e dívidas na Amazônia: parentesco, economia e ritual nos Cinta-Larga. Tese de doutorado. Campinas: UNICAMP, 2004.
  • Instituto Socioambiental. Cinta-larga