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Civilização Aquiry

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Área contendo (conforme indicado pelos pontos verdes) as construções de terra, descobertas até 2026, que são associadas à civilização Aquiry.[1]

A civilização Aquiry foi uma civilização indígena milenar, construtora de arquitetura monumental―com destaque a obras de terra com padrões geométricos (principalmente geoglifos) e estradas―ao longo de uma extensão do Acre, Rondônia, sul do Amazonas e extremo norte da Bolívia (em Pando e Beni), até às proximidades de Puerto Maldonado, no Peru. Ela foi caracterizada e se tornou famosa com o trabalho da equipe de Martti Pärssinen, que incluía o cientista acreano Alceu Razi, cujas descobertas dos chamados de geoglifos do Acre popularizaram e despertaram o interesse arqueológico internacional.[1][2][3][4] A evidência material é datada de entre o século VIII a.C. e o século IX, com a civilização tendo florescido até o Período Polícromo Tardio.[2][5]

Com base na estatística das cerca de 30 000 estruturas de terra (em uma área de aproximadamente 183 000 km²[6]), estima-se que a civilização Aquiry abrangia entre 1,6 e 3,8 milhões de membros (para os séculos II e III, como referência, uma população de 1,25 a 3 milhões).[1] Ela se organizava em cacicados ou chefaturas autônomas, que possivelmente também chegaram a criar ligas ou confederações para defesa própria. Além da cosmovisão e ideologia muito provavelmente compartilhadas (o que se evidencia pelo padrão dos geoglifos), eles também tinham em comum a tradição cerâmica denominada Quinari. As evidências apontam que eles eram falantes de línguas aruaques.[1][3]

Era uma civilização multiétnica, organizada em rede, não tão centralizada quanto outras culturas clássicas, mas, com seu uso organizado de terra que contava com domesticação de plantas, amplos sistemas de estradas e modificação monumental de paisagem, era tão sofisticada quanto as outras civilizações pioneiras no urbanismo. As suas escavações muito provavelmente, em maioria, delimitavam centros cerimoniais, que ocupavam funções e proporção de área comparáveis àquelas de espaços para uso cerimonial nas cidades-estado gregas. Nas praças desses centros com formatos geométricos, ocorria interação social, mercantil, política, ritual, religiosa e esportiva.[7]

Estudo acadêmico

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Os primeiros fossos no Acre foram descobertos em 1977 pela equipe de Ondemar Dias Júnior. Em 2002, a partir de um convite feito pelo professor catedrático Alceu Ranzi, houve a visita de um grupo de pesquisa finlandês cujo trabalho arqueológico se concentrava até então na Bolívia. Os resultados de seu trabalho, junto de brasileiros, apareceram em 2003 em publicações que tiveram repercussão internacional. O arqueólogo Martti Pärssinen, líder da equipe, figurou como autor principal. Posteriormente, eles descobriram cerca de 1 300 estruturas de terra por meio de imagens de satélites, bem como outros estudos foram realizados com o uso do LiDAR.[4][3] Exemplos que se destacam são os sítios arqueológicos Tequinho e Tumichucua, mas há vários outros.[7][3]

Em julho de 2026, resultados publicados na revista Nature, a partir da descoberta de 396 novos geoglifos com o auxílio de LiDAR e análises de sua distribuição, indicaram, em extensa área, a existência de milhares de obras de terra feitas e mantidas por uma população da ordem de milhões.[8][9] Tal estimativa populacional rompe a teoria de que a Amazônia seria habitada somente por pequenos grupos antes dos europeus.[10][11] Notícias desse achado foram veiculadas por várias mídias internacionalmente.[12]

O nome "civilização Aquiry" foi proposto por Pärssinen como referência à primeira expedição histórica feita na região do "Aquiry" por William Chandless, em 1866. É um nome indígena cuja etimologia, segundo Sidney da Silva Facundes, provavelmente é a palavra apurinã (k)aikyry, que significa jacaré e faz referência ao "Rio dos Jacarés" (atual Rio Acre). Não se sabe, porém, se os povos possuíam um nome compartilhado para chamar sua civilização.[2]

Características

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Imagens de geoglifos e vias da civilização Aquiry nos sítios Piloto e D. Schaan (Acre), obtidas com dados do LiDAR.[1]

Ao invés de vilarejos, o padrão era de assentamento disperso: as pessoas comuns se acomodavam em casas espalhadas pela grande extensão ao redor dos geoglifos (uma distribuição mais segura em relação a ataques-surpresa). Cada chefatura provavelmente tinha seu próprio centro cerimonial. Também se verifica que eram construídas casas comunitárias no centro ou lateral dos recintos de fossos, porém eram de uso temporário, não residencial.[7]

Sua tradição artística se insere na cultura de cerâmica policromada amazônica.[2] Entre as estradas amazônicas pré-coloniais, a grande amplidão é uma característica exclusiva da civilização Aquiry.[13] As mais antigas estradas na região amazônica estão associadas a essa civilização e a datação aponta que sua construção se iniciou no Acre, entre o 763-399 a.C.[5]

As evidências indicam que as escavações não eram defensivas e não tinham paliçada, diferente das fortalezas redondas indígenas encontradas pelos colonizadores. Elas também não serviam para assentamentos: somente pouquíssimas delas continham construções permanentes. A evidência material, com presença de cerâmica cerimonial e ausência de indícios de atividades domésticas, aponta que elas tinham função cerimonial e festiva. Já em 1866, Chandless, passando pelo rio "Aquiry", descreveu um fosso que era utilizado pelos nativos para festas, e não para defesa, e isso pode estar em continuidade como uma tradição preservada da antiga civilização Aquiry, de mesma localidade.[4]

A evidência cerâmica indica que eles formavam uma sociedade independente que impactou sobre culturas amazônicas ao redor, por meio da adoção de seus estilos e técnicas, por exemplo os grupos Pano em Ucayali[2] e povos guaranis.[1] Alceu Ranzi destaca a longevidade da cultura e considerou impressionante a capacidade de medida geométrica nas construções monumentais.[6]

Houve abandono dos geoglifos no século IX. No século XII, uma nova tradição cultural substituiu o estrato material da civilização Aquiry e construiu por cima vilarejos do tipo montículo com padrões geométricos, estradas radiais e recintos sem fossos, porém é provável que alguns dos geoglifos antigos continuaram sendo utilizados em função ritual. Não houve substituição radical da população: a cerâmica e técnicas de cultivo eram similares.[1][7][5] As valas circulares fortificadas das planícies bolivianas e do alto Xingu e Tapajós, dos séculos XIII a XVII, não podem ser diretamente relacionadas à civilização Aquiry.[1]

Demografia

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Entre os séculos I e III, a densidade populacional calculada de 7.1–16.5 habitantes/km² que a civilização Aquiry tinha (podendo chegar até o total de 3 milhões de pessoas) supera aquela do atual estado do Acre (com 830 000 habitantes em 164 000 km², a 5,1 habitantes/km²). Na área central da civilização, podia chegar a 13,6–32,6 habitantes/km².[1] Esses dados podem ser mais proximamente comparáveis ao Uruguai, que possui população de cerca de 3,5 milhões,[14] área de 173 626 km² e densidade de 19,5 habitantes/km².[15]

Já dentre algumas civilizações clássicas: 3.5 milhões de habitantes é também uma das estimativas para a população na Itália Central e Sul da Itália em 225 a.C., durante o período médio da República Romana em ascensão.[16] Há também a estimativa de 3,3 milhões para a população urbana (excluindo-se habitantes fora das pólis) em todas as cerca de 1 000 cidades-estados do mundo grego no Período Clássico, por volta do século IV a.C.[17] Em um ápice dos povos maias no século IX (Período Clássico Tardio), as estimativas foram de 1,2 a 3 milhões de habitantes nas planícies maias central e do sul.[18] Para o Egito Antigo, populações entre 1,5 e 3,5 abrangem do período do Império Antigo (c. 2500 a.C.) ao Império Novo (1250 a.C.).[19]

Devido à quantidade de clareiras interconectadas que eles criaram naquele ambiente amazônico, pesquisadores afirmam que se pode aplicar conceitos como "urbanismo de floresta" ou "urbanismo de baixa densidade".[1]

Referências

  1. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Pärssinen, Martti; Kalliola, Risto; Ranzi, Alceu; Puttonen, Eetu; Lopes, Rhuan Carlos; Virtanen, Pirjo Kristiina; Apurinã, Francisco; Ruokolainen, Kalle; Hyyppä, Juha; Kukko, Antero; Campos, Mariana; de Novaes, Fabio; Oinonen, Markku; Barbosa, Antonia D.; Saunaluoma, Sanna (29 de julho de 2026). «Over 20,000 precolonial earthworks in the Southwest Amazonia». Nature (em inglês): 1–6. ISSN 1476-4687. doi:10.1038/s41586-026-10835-7
  2. 1 2 3 4 5 Parssinen, Martti (1 de novembro de 2021). «Tequinho Geoglyph Site and Early Polychrome Horizon BC 500/300 - AD 300/500 in the Brazilian State of Acre». Amazônica - Revista de Antropologia (em inglês). 13 (1): 177–220. ISSN 2176-0675. doi:10.18542/amazonica.v13i1.9095. Cópia arquivada em 29 de maio de 2026
  3. 1 2 3 4 Pärssinen, Martti; Kalliola, Risto; Ranzi, Alceu (2024). «Zanjas circundantes en el extremo norte de Bolivia (Pando y Beni) y sus relaciones con los llamados Geoglifos de Acre». arqueoantropológicas. 9 (9)
  4. 1 2 3 Muñoz, María de los Angeles (2024). «Presentación». arqueoantropológicas. 9 (9)
  5. 1 2 3 Kalliola, Risto; Pärssinen, Martti; Ranzi, Alceu; Barbosa, Antonia Damasceno (14 de abril de 2026). «Ancient Amazonian Earthwork Roads: Unveiling Ceremonial, Livelihood, and Networking Significances». Latin American Antiquity (em inglês): 1–16. ISSN 1045-6635. doi:10.1017/laq.2025.10168. Cópia arquivada em 15 de junho de 2026
  6. 1 2 Giannini, Alessandro (29 de julho de 2026). «Estudo liderado por finlandeses identifica geoglifos no sudoeste da Amazônia». VEJA. Consultado em 29 de julho de 2026
  7. 1 2 3 4 Pärssinen, Martti (2021). «Aquiry: um breve retrato de uma civilização amazônica». In: Ranzi, Alceu; Pärssinen, Martti. Os Geoglifos e a Civilização Aquiry (PDF). Florianópolis; Madri; Helsinque: Officio; Fundação Ibero-Americana da Finlândia/Instituto Ibero-Americano da Finlândia. Cópia arquivada (PDF) em 19 de junho de 2024
  8. «Hundreds of ancient, never-before-seen 'earthworks' discovered in the Amazon». Yahoo News (em inglês). 29 de julho de 2026. Consultado em 30 de julho de 2026
  9. «Hidden Amazonian structures point to lost civilization of 3 million» (em inglês). 30 de julho de 2026. Consultado em 30 de julho de 2026
  10. Reátegui, Selva Vargas (29 de julho de 2026). «Más de 20.000 geoglifos ocultos en la selva revelan una Amazonia precolonial densamente habitada». El País (em espanhol). Consultado em 30 de julho de 2026
  11. Killgrove, Kristina (29 de julho de 2026). Geggel, Laura; Mondragón, Laura, ed. «Lasers reveal hundreds of geoglyphs made by a mysterious civilization in the Amazon rainforest thousands of years ago». Live Science (em inglês). Consultado em 30 de julho de 2026. Cópia arquivada em 31 de julho de 2026
  12. «Lasers Reveal Hundreds of Geoglyphs Made by a Mysterious Civilization in the Amazon Rainforest Thousands of Years Ago». Ground News. 29 de julho de 2026. Consultado em 30 de julho de 2026
  13. Kalliola, Risto; Pärssinen, Martti; Ranzi, Alceu; Damasceno Barbosa, Antonia (14 de abril de 2026). «Ancient Amazonian Earthwork Roads: Unveiling Ceremonial, Livelihood, and Networking Significances». Latin American Antiquity: 1–16. ISSN 1045-6635. doi:10.1017/laq.2025.10168
  14. «Censo Nacional 2023 contabilizó 3.499.451 habitantes en Uruguay». Presidencia Uruguay (em espanhol). Consultado em 29 de julho de 2026. Cópia arquivada em 19 de junho de 2026
  15. «Uruguay». data.un.org. Consultado em 29 de julho de 2026
  16. Ligt, Luuk de (8 de fevereiro de 2010). «The Economy: Agrarian Change During the Second Century». In: Rosenstein, Nathan; Morstein-Marx, Robert. A Companion to the Roman Republic (em inglês). [S.l.]: John Wiley & Sons. ISBN 978-1-4443-3413-5. Consultado em 29 de julho de 2026
  17. Gagarin, Michael, ed. (2010). «Population and Demography, Greek». The Oxford Encyclopedia of Ancient Greece and Rome (em inglês). 5. [S.l.]: Oxford University Press. ISBN 978-0-19-517072-6. Consultado em 29 de julho de 2026
  18. Webster, David (13 de julho de 2018). The Population of Tikal: Implications for Maya Demography (em inglês). [S.l.]: Archaeopress Publishing Ltd. ISBN 978-1-78491-846-0
  19. Butzer, Karl W. (3 de novembro de 2005). «demography». In: Bard, Kathryn A. Encyclopedia of the Archaeology of Ancient Egypt (em inglês). [S.l.]: Routledge. ISBN 978-1-134-66524-2