Colônia Cecília

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Localização do município de Palmeira no estado do Paraná.
Disambig grey.svg Nota: Se procura minissérie da TV Bandeirantes de 1989, veja Colônia Cecília (minissérie).

Colônia Cecília foi uma comuna experimental baseada em premissas anarquistas. A Colônia foi fundada em 1890,[1] no município de Palmeira, no estado do Paraná,[2] por um grupo de libertários mobilizados pelo jornalista e agrônomo italiano Giovanni Rossi (1859-1943).[3][4]

A fundação da Colônia Cecília foi a primeira tentativa efetiva de implantação do ideário anarquista no Brasil (1889). Rossi, ideólogo e escritor anarquista, adepto da "acracia"[nota 1], foi instigado pelo músico brasileiro Carlos Gomes a procurar D. Pedro II com o propósito de instaurar uma comunidade capaz de propulsionar um "novo tempo", uma utopia baseada no trabalho, na vida e no amor libertário.[3]

Interessado na colonização do Brasil, D. Pedro II atendeu o pedido e escreveu ao Rossi oferecendo as terras a serem ocupadas pelos italianos (300 alqueires na região meridional brasileira). A doação, de fato, não aconteceu: logo depois da oferta pelo Imperador foi instaurada a República brasileira, que não reconheceu concessões de terras outorgadas pelo império deposto a estrangeiros. Rossi não desistiu. Comprou as terras por meio da "Inspetoria de Terras e Colonização".[3]

O Brasil recebeu uma grande quantidade de imigrantes, principalmente italianos, no final do século XIX. Se na Itália a condição de vida no campo fundamentou a emigração, aqui, tanto nas fazendas de café como nos núcleos coloniais a realidade não era muito diferente, e era distante de um processo de caráter inovador: o imigrante se inseria no Brasil como proletário em potencial. Foi nesse meio social que o anarquismo se propagou no Brasil.[5] [nota 2]

A vida na Colônia[editar | editar código-fonte]

Os primeiros colonos chegaram em 1890 e construíram um barracão coletivo que instalava, provisoriamente, as famílias para, em seguida, cada uma tratar de construir a sua própria casa. Nessa época, o contingente populacional na Colônia Cecília era de quase trezentas pessoas, inclusive o próprio Rossi. Ao final de 1891, a explosão populacional superava a estrutura disponível: 20 casas de madeira e um barracão comunitário. A lavoura, a pecuária não produziam o suficiente para a subsistência dos colonos, grande parte de origem operária e sem conhecimentos agrícolas para implementar uma produção em maior escala.[3] [nota 3]

O primeiro obstáculo enfrentado pelo núcleo anarquista foi o modo de organizar o trabalho. Aos artesãos, foram designadas tarefas semelhantes às que já realizavam. Mas quanto aos lavradores, Giovanni Rossi já pressentira que encontrariam dificuldades em razão da diferença entre o solo brasileiro e o italiano.[3]

Ao concluírem a construção das habitações coletivas e individuais e dividirem racionalmente o trabalho entre os 150 colonos, eles se depararam com um fato real: o milho, que era ideal para aquela região, não nasce do dia para a noite. Com o dinheiro que trouxeram conseguiram subsistir, comprar mantimentos, instrumentos para a lavoura e sementes. Contudo, viram-se obrigados a procurar por outras atividades para delas tirar seu sustento até que pudessem viver tão somente de sua lavoura. Alguns se ocupavam da plantação enquanto outros trabalhavam em obras do governo.

Os colonos plantaram mais de oitenta alqueires de terra - em área que lhes fora cedida pelo Imperador Pedro II, pouco antes da proclamação da República - e construíram mais de dez quilômetros de estrada, numa época na qual inexistiam máquinas, tratores ou guindastes de transporte de terras.[3]

Foram edificados o barracão coletivo, vinte barracões individuais, celeiros, a casa da escola, moinho de fubá, tanque de peixes, o pavilhão coletivo - que também abrigava o consultório médico - viveiro de mudas, poços, valos, pomar de peras, estábulos, além da grande lavoura de milho.[3]

Nos quatro anos de existência da colônia (1890-1894), sua população chegou a atingir cerca de 250 pessoas. Realizaram-se duas relações do tipo poligâmico. O próprio Rossi se propôs como exemplo concreto do novo estilo de vida, compartilhando com outro homem a sua ligação amorosa com uma moça da colônia.[3]

Em 1892, aconteceu o primeiro revés na Colônia: sete famílias decidiram pelo regresso à Itália - a primeira desagregação que, seguida de outras, reduziu a Colônia a apenas vinte pessoas até o final desse mesmo ano. Os colonos iniciaram a migração para Curitiba: eram médicos, engenheiros, professores, intelectuais e operários, além de camponeses na Itália. Esse grupo fundou na capital paranaense a Sociedade Giuseppe Garibaldi.[3]

No ano seguinte (1892), a Colônia recebe novo alento com a chegada de novos colonos. Nesse período (apogeu de sua breve história), teve início a vitivinicultura e a fabricação de sapatos e barricas. Ao final desse ano, a Colônia contava com sessenta e quatro pessoas, dois poços artesianos e uma estrada de acesso. Foi também nesse período que os sapateiros oriundos da Colônia exerceram papel de destaque no movimento operário do Estado.[3]

O fim da colônia[editar | editar código-fonte]

O experimento da Colônia Cecília terminou por vários motivos. O principal foi a pobreza material, chegando mesmo a condições de miséria. Em segundo lugar, a hostilidade da vizinha comunidade polonesa, fortemente católica. O próprio clero e as autoridades locais promoveram o ostracismo dos anarquistas. Enfim, havia as doenças, ligadas à desnutrição, à falta de condições de saneamento adequadas, além dos problemas internos ligados às dificuldades de adaptação ao estilo de convivência anarquista, particularmente no tocante ao amor livre, que, embora teoricamente fosse aprovado por todos, na prática, despertava insegurança.

A Colônia Cecília, desde o final de 1893, entretanto, dá sinais de esgotamento: havia grande demanda por mão de obra nas cidades vizinhas, especialmente Palmeira, Porto Amazonas, Ponta Grossa, além da capital. Mesmo assim, outras famílias continuaram chegando à Colônia, atraídas pela propaganda difundida pela imprensa socialista europeia que, entretanto, não foi suficiente para a sua manutenção. A Colônia Cecília se extinguiu em 1893.[3]

Representação na cultura popular[editar | editar código-fonte]

As histórias vivenciadas na Colônia Cecília foram representadas em diversos seguimentos artísticos, como na literatura e na dramaturgia da televisão brasileira. Na literatura destaca-se a obra de Zélia Gattai, Anarquistas graças a Deus (1979), onde trata de histórias envolvendo a família que chegou a integrar a Colônia. Diversas outras obras também contam a história da Colônia, como Colônia Cecília - Romance de uma Experiência Anarquista (1980) de Afonso Schmidt[6] e obras mais recentes como A Saga da Colônia Cecília (2013) de autoria de Darvino Agottani.[7]

A obra de Gattai inspirou a minissérie brasileira produzida pela Rede Globo que levou o mesmo nome, Anarquistas, Graças a Deus (1984), escrita por Walter George Durst e dirigida por Walter Avancini. que também representou em seu contexto a Colônia Cecília devido ao movimento anarquista no Brasil. A Rede Bandeirantes exibiu pela primeira vez em 1989 a minissérie Colônia Cecília, escrita por Patrícia Melo e Carlos Nascimbeni, onde o drama foi protagonizado por Giovanni Rossi, interpretado por Paulo Betti. A RPC exibiu em 2012 a minissérie de ficção de época Colônia Cecília – Uma História de Amor e Utopia, produzida pela GP7 Cinema.[8]

Memorial Colônia Cecília[editar | editar código-fonte]

No dia 31 de março de 2016 foi inaugurado o Memorial Anarquista da Colônia Cecília, na Praça Memorial da Colônia Cecília no Brasil, na localidade de Santa Bárbara, área rural do município de Palmeira. O memorial foi construído com recursos federais e conta com nove totens, uma réplica de casa dos imigrantes e um busto do idealizados da experiência, Giovanni Rossi. O espaço (terreno) onde foi construído o memorial é uma doação de um dos descendentes de imigrantes italianos que residiram na localidade, Evaldo Agottani. O memorial foi idealizado pelo arquiteto Murilo Malucelli Klas e os oito totens com mosaicos foram criados pelo artista plástico Marcos Coga.[9]

Referências

  1. Isabelle Felici (1998). «A verdadeira história da Colônia Cecília de Giovanni Rossi». Unicamp. Consultado em 26 de junho de 2017 
  2. «Memorial Colônia Cecília». Prefeitura Municipal de Palmeira. 19 de março de 2014. Consultado em 26 de junho de 2017 
  3. a b c d e f g h i j k Revista História Viva, nº 15, pgs 82-87. Editora Duetto. São Paulo (2005)
  4. «Dos mitos à verdade sobre a Colônia Cecília». Gazeta do Povo. 18 de março de 2011. Consultado em 26 de junho de 2017 
  5. "Memória Anarquista" - Repórter Brasil por Maurício Monteiro Filho (textos e fotos.
  6. «Colônia Cecília:Romance de uma Experiência Anarquista». Estante Virtual. 22 de abril de 2012. Consultado em 26 de junho de 2017 
  7. «Saga Da Colonia Cecilia, A - Aut Paranaense». Livrarias Curitiba. 22 de abril de 2012. Consultado em 26 de junho de 2017 
  8. «Reveja as emoções do último capítulo de Colônia Cecília». Revista RPC. 22 de abril de 2012. Consultado em 26 de junho de 2017 
  9. «Memorial Colônia Cecília». Gazeta de Palmeira. 1º de Abril de 2016. Consultado em 26 de junho de 2017 

Notas

  1. Palavra derivada do grego akratía que, de acordo com o Dicionário Houaiss, significa "falta de força, impotência para governar, fraqueza" ou "sistema político que nega obediência a qualquer autoridade(...)".
  2. A tentativa do Rossi durou quatro anos (1890-1894). Segundo Zélia Gattai, em seu livro Anarquistas graças a Deus e cuja família integrou Colônia por dois anos até seguirem para São Paulo: seu pai, Ernesto Gattai, como tantos outros colonos, não se adaptou à vida na Colônia e migrou para São Paulo, em 1892.
  3. A população ligada à indústria era pequena. As fábricas existiam em boa quantidade, mas empregavam pouca mão-de-obra: a maioria tinha o caráter de unidade de produção doméstica.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • C. de Mello Neto, O anarquismo experimental de Giovanni Rossi. De Poggio al Mare à Colônia Cecília, 2 ed., Ponta Grossa, Editora UEPG, 1998.
  • R. Gosi, Il socialismo utopistico. Giovanni Rossi e la colonia anarchica Cecilia, Milano, Moizzi Editore, 1977.
  • M. L. Betri, Cittadella e Cecilia. Due esperimenti di colonia agricola socialista , Milano, Edizioni del Gallo, giugno 1971.
  • R. Zecca, Il positivismo anarchico di Giovanni Rossi. L'esperimento di una comune libertaria nel Brasile della fine del XIX secolo, Università degli Studi di Milano, Tesi di Laurea, 2008.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

(em francês)

(em italiano)

Ver também[editar | editar código-fonte]