Colônia Santa Isabel

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A Colônia Santa Isabel foi fundada em Santa Catarina em 1847 por imigrantes alemães da região do Hunsrück, Renânia-Palatinado. Seu nome deve-se à recém nascida filha do imperador Pedro II do Brasil, Princesa Isabel, nascida em 29 de julho de 1846. Está situada atualmente em territórios dos municípios de Rancho Queimado e Águas Mornas.

História da Colônia[editar | editar código-fonte]

A colonização teuta de Santa Catarina insere-se na conjuntura do governo imperial em fomentar a ocupação do território sul do Brasil com iniciativas agrícolas com povoação europeia. Junto à Colônia de São Pedro de Alcântara, a Colônia de Santa Isabel foi pioneira da colonização alemã em Santa Catarina.

Die Auswanderer vom "Eridano" 1846 / Os emigrantes do "Eridano" 1846[1]: —

Mais uma vez ouviremos dos lábios do Dr. Robert Avé-Lallemant a história de uma viagem e do que aconteceu há cem anos atrás. Acompanhado de um spahi como servo e de um guia que mudava continuamente e que também cuidava dos animais de carga, bem armado com espingardas, pistolas e facões, nosso doutor achava-se em viagem de Lages para Desterro. O planalto e a serra já haviam deixado para trás. "À direita e à esquerda já se notavam sinais de colonização. Casas formavam um ponto brilhante no crepúsculo; tínhamos chegado à planície de Santa Catarina, onde modestos agricultores tinham-se reunido em pacífica colônia". Nosso viajante havia chegado a Santa Isabel, de onde relata um interessante acontecimento.

"Em dezembro de 1846 chegaram no navio Eridano setenta ou oitenta emigrantes alemães ao Rio de Janeiro. Ninguém os havia chamado e ninguém sabia o que fazer com eles. Esperavam sós e abandonados, e teriam ficado sem teto sobre a cabeça não lhes tivesse sido emprestado o rancho onde se guarda lenha dos vapores que iam toda hora até Praia Grande (hoje Niterói).

Foi lá que os encontrei. Tristonhos, alguns doentes, fiz por eles o que pude. Tive até que auxiliar uma mulher que estava em dificuldades no meio da rua.

Mas o rancho estava sendo necessitado, e assim os emigrantes tiveram que ficar quarenta e oito horas ao relento no largo do Paço, onde ainda lhes caiu em cima terrível trovoada de verão. Teriam ficado sem moradia, não fosse o dono do Hotel Pharoux e outros lhes ajudar. Após onze dias nesta triste situação a maioria foi levada às províncias do sul por um navio de guerra brasileiro. Nada mais soube deles.

A 3 de julho (de 1858) desci o rio dos Bugres a cavalo e cheguei a uma bonita casa, defronte à qual um homem esperava por mim; eu tinha de entregar-lhe uma carta do presidente da província, e assim entramos.

Lá dentro encontrei muita alegria e um grupo de rapazes e moças dançando ao som de um realejo como se fosse quermesse. O dono da casa, o sr. Scheidt de Donnersberg de Rheinbayern sentou-se comigo e descreveu-me a colônia de Santa Isabel, na qual eu me achava. Nem bem tinha ele começado a contar, quando me lembrei dos emigrantes do Eridano em 1846. Scheidt e sua família pertenciam àqueles infelizes, ele mesmo havia estado doente e provavelmente havia sido tratado por mim.

Assim, esta colônia tinha para mim um duplo interesse. Esperei impaciente o dia seguinte para olhar mais de perto habitantes e a terra.

Estes imigrantes haviam sido levados à Santa Catarina em princípios de 1847, onde foi fundada uma colônia às margens do rio dos Bugres, denominada Santa Isabel, em honra à princesa. Tudo fora bem. Venceram as primeiras dificuldades numa terra estranha, com cuja agricultura não estavam familiarizados sem muito custo e estavam agora felizes e bem de vida. Scheidt até ficou bastante rico. Possui trezentos hectares de terra, 19 mulas, muito gado leiteiro, uma nova residência ainda incompleta, onde vai instalar seu moinho. Ao seu redor crescem seis crianças fortes, dos quais os filhos mais velhos são lhe de grande auxílio. Também sua idosa mãe vive com eles; uma senhora de setenta e nove anos, de uma resistência incrível, trabalha no campo na mais alta ladeira e no sábado dança, com suas netas fortes, tão bem a valsa, como se estivesse há sessenta anos no Donnersberg. Assim o senhor Deus ajudou em nem bem onze anos a crescer e prosperar materialmente o mesmo grupo de homens que eu havia visto antes na maior meséria, no Rio de Janeiro, em 1846.

Na manhã seguinte fiz com Scheidt um passeio a cavalo. O vale do Rio dos Bugres é duma beleza selvagem. Os cumes se elevam altos sobre a corrente espumante; nas ladeiras a colônia se estende em direção ao alto. Ainda apresenta o quadro de colonização recente. Em toda parte se ve troncos carbonizados que os anos não fizeram apodrecer, pedras e raízes estão espalhadas pelas plantações, o aspecto geral ainda não é limpo e agradável do ponto de vista europeu. Mas é um quadro que bem demonstra a força e tenacidade do alemão em luta contra os elementos adversos na selva brasileira, até alcançar a merecida prosperidade. Recordei-me logo dos valentes São Leopoldinos nas perdidas picadas do sertão.; em Santa Isabel vi os companheiros de lutas dos riograndenses, e vi amadurecer os mesmos frutos de luta tenaz que no Rio dos Sinos.

Visitamos diversos colonos. Todos tinham felizes rostos dominicais. Não encontrei um que não se achava perfeitamente satisfeito na terra distante. E a quantidade de crianças! De onde será que vem tanta criança! São uma turma alegre e querida, e dá gosto ver aos domingos, quando as mães lavam os rostinhos dos garotos e com algum custo conseguem fazer duas tranças no cabelo das meninas rebeldes. Apesar disso senti uma pontada de melancolia. A eminente princesa Isabel não sabe que na colônia batizada com o nome dela no Rio dos Bugres não existe professor que lhes pudesse ensinar a palavra de Deus, ou a ler, escrever e contar. Nem mesmo um sacerdote que lhes ministrasse cultos aos domingos, há. Ninguém ainda se interessou, se não este obstáculo já teria sido vencido. Tenho certeza, contudo, que as crianças não ficarão mais muito tempo sem professor.

Até já foram construídas duas pequenas e simples capelas; falta apenas um pastor estacionário. O número de habitantes deve oscilar entre 500 a 600 almas - formam 71 famílias, que são em partes mais ou menos iguais católica e protestante. O número não é muito grande, mas há necessidade de um pastor na colônia distante. O governo, agora bem intencionado na regularização das colônias, não ficaria atrás com alguma proposta interessante se alguém lhe fizesse usta sugestão. Disto tenho bastante provas.

Muito me deleitei com a vida campestre alemã no Rio dos Bugres. O que pode um firme pulso alemão! Quanto tempo fará que nestes desfiladeiros ainda habitavam os botocudos canibais? Agora apenas seu nome resta preso ao rio. Quanto tempo fará que estes colonos eram homens desamparados, pobres e sem pátria? Agora estas mesmas famílias que teriam escravizado na pobreza de Rheinbayern o resto de sua vida, tem abastança e liberdade. Assim a semente arrancada pela tempestade da árvore materna, produz, depois de muito jogada pelo mendo, novas e miraculosas colheitas em terras estranhas de clima ameno.

Minha presença na colônia naturalmente chamou muita atenção. Muito poucos sabiam o meu nome, e a maioria não compreendia o que eu queria lá e como chegara a ir lá. O que eu quero em primeiro lugar é cuidar dos emigrados, fazer todo o possível por eles, ajudando-os e aconselhando-os. Existe uma tenacidade incrível nestes homens aparentemente pobres e impotentes, da qualo jovem estado imperial ganha força e potência, aumentando incalculavelmente o seu progresso.

Gostaria de poder ficar todo o domingo com os colonos do Rio dos Bugres. Mas meu tempo era escasso, e quando me separei de Santa Isabel foi com devoção na alma. Agora eu sabia o que havia acontecido aos emigrantes do Eridano, e outros semelhantes, que haviam chegado pela mesma época e na mesma miséria".

Isto quanto ao relato do dr. Avé-Lallemant, ao qual ainda acrescentaremos algumas linhas sobre o desenvolvimento posterior de Santa Isabel. Hermann Stoer, outrora pastor em Santa Isabel, escreve na sua crônica - Crônica da Comunidade de Santa Isabel, a mais velha colônia evangélica em Santa Catarina - o seguinte: "Santa Isabel, hoje uma pequena frequesia, já foi a tempos idos a porta de entrada para a colonização de todo hinterland e sudoeste de Santa Catarina. Há sessenta anos teve a importância de um ponto vital da economia da região, ainda mais que ficava na passagem única que ligava Lages e o planalto à costa. Quando por 1890 foi construída a nova estrada de Lages mais ao sul, Santa Isabel ficou isolada do trânsito e a frequesia perdeu as possibilidades de progresso. Desde esta época leva uma existência sonhadora, pacata e isolada nas margens murmurejantes do Rio dos Bugres. A beira da estrada ladeada por altas palmeiras e carcas vivas se estendem as terras dos colonizadores de origem alemã. Suas casas simples espiam em maiores intervalos por entre o verde dos laranjais espessos. É raro que um estranho se perca neste vale sossegado. Os dois moinhos da família Scheidt sussurram como único ruído no vale que dantes ressoava ao som dos homens que lutavam pela existência. Na entrada do vale as duas casas de Deus, católica e protestante, se defrontam pacificamente, e quando aos domingos os sinos do campanário elevam suas vozes suaves e argênteas, pode-se ver muitas pessoas caminhando pela trilha abandonada".

Pastor Flos, tradução: dr. Ivo von Wangenheim:

O diplomata suíco Johann Jakob von Tschudi visitou Santa Isabel em 1861, reportando o sucesso do empreendimento em seu livro [2] A colônia deixou de receber subvenção oficial quando houve a emancipação.[3], Mais tarde, a colônia tornaria em distrito de paz.

Diretores da Colônia[4]

Diretor Nomeação Exoneração
Joaquim Xavier Neves 1847
Joaquim José de Sousa Corcoroca 1860 15 de dezembro de 1865
Theodor Todeschini 15 de dezembro de 1865 19 de outubro de 1868
Gaspar Xavier Neves 19 de outubro de 1868 11 de junho de 1869

A colônia foi emancipada em 11 de junho de 1869, pela lei provincial nº 628, extinguindo-se automaticamente o cargo de diretor da colônia[5].

Referências

  1. Esta seção é uma transcrição (com pequenas correções ortográficas) de
    • Flos, Max-Heinrich: Unsere Väter/Nossos Pais. Páginas 144 a 149 (pares em alemão, ímpares em português). Publicado sob os auspícios do Sínodo Evangélico de Santa Catarina e Paraná, em 1961. De acordo com o que o livro expressa literalmente, É permitida a reprodução de artigos com indicação da fonte. Edição bilíngue, em alemão e português (tradução: Ivo von Wangenheim).
  2. TSCHUDI, JJ von. Reisen durch Südamerika, 1866
  3. PROVÍNCIA DE SANTA CATARINA.Decreto provincial No. 628 de 11 de junho de 1869
  4. Toni Vidal Jochem: A Epopeia de uma Imigração: Resgate histórico da imigração, fundação da Colônia Alemã Santa Isabel e emancipação político-administrativa do município de Rancho Queimado. Águas Mornas : Edição do Autor, 1997. Página 145.
  5. Relatório apresentado pelo 3º vice-presidente da província de Santa Catarina, o exmo. sr. coronel Joaquim Xavier Neves, ao 2º vice-presidente o exmo. sr. dr. Manuel do Nascimento da Fonseca Galvão, por ocasião de passar-lhe a administração da mesma, em 22 de novembro de 1869. Página 12.

Ver também[editar | editar código-fonte]

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