Com açúcar, com afeto
"Com açúcar, com afeto" é uma canção do compositor brasileiro Chico Buarque (1966), feita por encomenda de Nara Leão que "...queria uma música que falasse dessas ternuras de mulher.".[1] A música, inserida no álbum Chico Buarque de Hollanda - Volume 2, foi gravada por Nara Leão em 1967 e fala de uma mulher submissa, sofredora, "...que espera conformada e carinhosa o seu homem voltar do samba e do bar.".[2] Com açúcar, com afeto foi a primeira canção em que Chico Buarque interpreta o feminino, talento que se tornaria uma marca registrada do cantor.[3]
Crítica
[editar | editar código]Em janeiro de 2022, ao participar do documentário "O Canto Livre de Nara Leão" produzido pelo streaming Globo Play[4], Chico explicitou seu incômodo em relação à canção, que há décadas já não figurava em seu repertório. Por receber inúmeras críticas devido á representação da mulher, optou por se desvincular definitivamente da obra: "Vou sempre dar razão às feministas, mas elas precisam compreender que naquela época não existia, não passava pela cabeça da gente que isso era uma opressão, que a mulher não precisa ser tratada assim".[5] A professora Miriam Hermeto, do Programa de Pós-Graduação em História na UFMG, por outro lado, acredita que a canção se trata de uma ironia, e não uma representação propriamente dita: “O pedido que a Nara Leão faz pro Chico é um pedido para cantar ironia. Eu não acredito que naquele momento eles não tivessem noção de que o que se propunha ali era uma crítica a essa realidade”.[6]
Em paródia, o humorista Renato Terra publicou uma releitura da canção em coluna para a versão online do jornal Folha de São Paulo - fazendo alusão ao momento vivido pós pandemia de Covid-19 e todas as nuances políticas atreladas á polarização.[7]
"Sem açúcar, sem stevia
Fiz seu sheik natureba
Pra você parar em casa
Qual o quê
Com sua roupa de exercício
Você parte pro crossfit
E diz que tá vacinada
Você diz que a indumentária
Essa blusa decotada
É propícia pra malhar
Qual o quê
No caminho tem oficina
Tem um bar em cada esquina
Todos vão te admirar
Sei bem por quê
Se quiser sair na rua
Tem que ser sem roupa curta
Sem vermelho no batom
Vê se bota essas malhas
Tira essa minissaia
Veste esse cachecol
Vem a noite, mais um copo
De pileque então eu noto
Nada de você chegar
Na caixinha do aplicativo
Vou bater um texto amigo
Te pedindo pra voltar
Quando a noite enfim me cansa
Vou chorar feito criança
E você manda um textão
Qual o quê
Diz pra eu não ficar sentido
Diz que é dona do seu umbigo
E que não volta mais, não
E ao lhe ver tão despojada
Resoluta, pós-graduada
O que é que eu vou fazer?
Qual o quê
Vou votar no Bolsonaro
Reclamar do identitário
E pôr a culpa no PT"
(Parceria com Thiago de Souza, dos Marcheiros, e Marcos Frederico do Trashera.)
Referências
- ↑ Zappa, Regina. Para seguir minha jornada. Editora Nova Fronteira. 2011
- ↑ Zappa, Regina. Cidade submersa. Editora Casa da Palavra. 2006
- ↑ Site do cantor: "Nota sobre Passaredo, por Humberto Werneck"
- ↑ F.Content (21 de abril de 2022). «Com açúcar, com afeto": por que Chico Buarque não quer mais cantar a música?». Novabrasil. Consultado em 28 de novembro de 2025
- ↑ «Como nasceu música de Chico Buarque gravada por Nara Leão e 'acusada' de machismo». BBC News Brasil. Consultado em 28 de novembro de 2025
- ↑ Gerais, Universidade Federal de Minas (4 de fevereiro de 2022). «"É preciso pensar na historicidade das práticas e produtos culturais"». Universidade Federal de Minas Gerais. Consultado em 28 de novembro de 2025
- ↑ «Opinião - Renato Terra: Veja nova versão de 'Com Açúcar, com Afeto', música polêmica de Chico Buarque». Folha de S.Paulo. 3 de fevereiro de 2022. Consultado em 28 de novembro de 2025
Ligações externas
[editar | editar código]- Com açúcar, com afeto no site oficial de Chico Buarque