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Compartimentalização (psicologia)

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A compartimentalização é um mecanismo de defesa psicológico no qual pensamentos e sentimentos que parecem conflitantes são mantidos separados ou isolados uns dos outros na mente.[1] Indivíduos com transtorno de estresse pós-traumático podem usar a compartimentalização para separar aspectos positivos e negativos do eu.[2] Pode ser uma forma de dissociação leve; exemplos de cenários que sugerem a compartimentalização incluem agir em um momento isolado de uma maneira que logicamente desafia o próprio código moral, ou separar as tarefas desagradáveis do trabalho dos desejos de relaxar.[3] Seu propósito é evitar A dissonância cognitiva, ou o desconforto mental e a ansiedade causados por uma pessoa que possui valores, cognições, emoções, crenças etc. conflitantes dentro de si.[carece de fontes?]

A compartimentalização permite que essas ideias conflitantes coexistam, inibindo o reconhecimento e a interação direta ou explícita entre estados do eu compartimentalizados separados.[4]

Visões psicanalíticas

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A psicanálise considera que, enquanto o isolamento separa os pensamentos dos sentimentos, a compartimentalização separa diferentes cognições (incompatíveis) umas das outras.[5] Como uma defesa intelectual secundária, pode estar ligada à racionalização.[6] Também está relacionada ao fenômeno da tipificação neurótica, segundo a qual tudo deve ser classificado em categorias mutuamente exclusivas e estanques.[7]

Otto Kernberg [en] usou o termo "intervenções de ponte (bridging interventions)" para as tentativas do terapeuta de abranger e conter componentes contraditórios e compartimentados da mente do paciente.[8]

Vulnerabilidade

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A compartimentalização pode ser positiva, negativa e integrada, dependendo do contexto e da pessoa.[9] A compartimentalização pode levar a vulnerabilidades ocultas relacionadas à auto-organização e à autoestima[10] naqueles que a utilizam como um importante mecanismo de defesa.[11] Quando um aspecto negativo do eu é ativado, pode causar uma queda na autoestima e no humor.[9] Essa queda na autoestima e no humor é o que se atribui à vulnerabilidade observada.[9]

Identidade social

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Identidades sociais conflitantes podem ser tratadas compartimentalizando-as e lidando com cada uma apenas de maneira dependente do contexto.[12]

Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) e compartimentalização

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Aqueles que sofrem de TEPT frequentemente compartimentalizam aspectos positivos e negativos de si mesmos mais do que aqueles sem TEPT; isso ajuda a impedir que os aspectos negativos dominem os positivos.[2] O autoconceito positivo pode ser preservado por meio da compartimentalização, especialmente para aqueles que vivenciaram trauma sexual e, posteriormente, foram diagnosticados com TEPT.[2]

Mindfulness e compartimentalização

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A meditação mindfulness pode ajudar a reduzir o autoconhecimento compartimentalizado.[13] Além disso, aqueles que têm maior mindfulness como traço de personalidade podem ter menos autoconceitos negativos sobre si mesmos.[13]

Exemplos literários

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Em seu romance, The Human Factor, Graham Greene faz com que um de seus funcionários corruptos use as caixas retangulares da arte de Ben Nicholson como um guia para evitar a responsabilidade moral pela tomada de decisões burocráticas — uma maneira de se compartimentalizar dentro de sua própria caixa colorida separadamente.[14]

Doris Lessing considerou que o tema essencial de The Golden Notebook [en] era "que não devemos dividir as coisas, não devemos compartimentá-las. 'Ligado. Livre. Bom. Mau. Sim. Não. Capitalismo. Socialismo. Sexo. Amor...'".[15]

Veja também

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Referências

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  1. «Compartmentalization». APA Dictionary of Psychology (em inglês). American Psychological Association. Consultado em 16 de novembro de 2025 
  2. a b c Clifford, Georgina; Hitchcock, Caitlin; Dalgleish, Tim (abril de 2020). «Compartmentalization of self-representations in female survivors of sexual abuse and assault, with posttraumatic stress disorder (PTSD)». Psychological Medicine (em inglês) (6): 956–963. ISSN 0033-2917. PMC 7191781Acessível livremente. PMID 31010451. doi:10.1017/S0033291719000837. Consultado em 16 de novembro de 2025 
  3. «Medical Dictionary». Farlex and Partners. 2009 
  4. Leary, Mark R.; Tangney, June Price, eds. (2012). Handbook of self and identity 2nd ed. New York ; London: Guilford Press. pp. 58–61. ISBN 978-1-4625-0305-6. Consultado em 16 de novembro de 2025 
  5. Nancy McWilliams, Psychoanalytic Diagnosis (2011) p. 135-6 (em inglês)
  6. McWilliams, p. 200 and p. 136 (em inglês)
  7. Otto Fenichel, The Psychoanalytic Theory of Neurosis (1946) p. 286 (em inglês)
  8. Salman Akhtar, Comprehensive Dictionary of Psychoanalysis (2009) p. 42 (em inglês)
  9. a b c Thomas, Jenna S.; Ditzfeld, Christopher P.; Showers, Carolin J. (outubro de 2013). «Compartmentalization: A Window on the Defensive Self». Social and Personality Psychology Compass (em inglês) (10): 719–731. ISSN 1751-9004. doi:10.1111/spc3.12061. Consultado em 16 de novembro de 2025 
  10. Ditzfeld, C. P., & Showers, C. J. (2013). «Self-structure: The social and emotional contexts of self-esteem. In V. Zeigler-Hill (Ed.), Self-esteem (pp. 21–42). Psychology Press.». psycnet.apa.org (em inglês). Consultado em 4 de maio de 2022 
  11. J. W. Reich et al, Handbook of Adult Resilience (2012) p. 192 (em inglês)
  12. R. J. Crisp, The Psychology of Social and Cultural Diversity (2011) p. 16 and p. 39 (em inglês)
  13. a b Dummel, Sebastian; Stahl, Jutta (fevereiro de 2019). «Mindfulness and the Evaluative Organization of Self-Knowledge». Mindfulness (em inglês) (2): 352–365. ISSN 1868-8527. doi:10.1007/s12671-018-0980-6. Consultado em 16 de novembro de 2025 
  14. Greene, Graham (2008). The Human Factor (em inglês). [S.l.]: Penguin Publishing Group. p. 38. ISBN 978-0143105565 
  15. Lessing, Doris (2014). The golden notebook. London: Fourth Estate. p. 10. ISBN 978-0007498772