Competência crítica em informação

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Competência crítica em informação (tradução do termo em inglês critical information literacy) é uma proposta de análise reflexiva e revisionista das convenções e normas institucionais da chamada competência em informação (information literacy), tendo como destaques o aprofundamento teórico das perspectivas de avaliação crítica e uso ético da informação e o compromisso prático de engajamento na luta contra as estruturas de poder que sustentam a produção e a disseminação dominante da informação, criando obstáculos à autonomia informacional e à emancipação social.

Definição[editar | editar código-fonte]

Segundo a revisão historiográfica de Eamon Tewell[1], os estudos de competência crítica em informação denunciam a falta de envolvimento das concepções institucionais da competência em informação com a dinâmica sociopolítica que molda a aprendizagem e a informação acadêmica, bem como criticam a noção de que a competência em informação seria um obstáculo educacional que pode ser conquistado, gerando indivíduos "competentes em informação". Em Bezerra, Schneider e Saldanha[2], a crítica proposta à ideia de “competência” que subjaz o conceito de information literacy dirige-se sobretudo ao seu caráter eminentemente instrumental, que converte o aprendizado relacionado à aquisição da dita competência em algo maquínico, pouco reflexivo, muito operacional e, em última análise, subordinado ao mercado.

Maura Seale aponta que a noção institucional de competência em informação presente em documentos da Association of College and Research Libraries (ACRL), amplamente referenciada em estudos das áreas de Biblioteconomia e Ciência da Informação, aparece relacionada a expressões como “necessidades comerciais”, “ambiente econômico”, “um bom emprego” e “a capacidade de nossa nação de competir internacionalmente”[3]. Em tal sentido, “competência” e “aprendizado ao longo da vida” convertem-se em eufemismos da imposição de adaptação perpétua dos sujeitos às flutuações do mercado, cujo vetor dominante é a flexibilização das relações laborais num contexto de fragilização legal crescente do trabalho[2].

Histórico[editar | editar código-fonte]

Conforme o levantamento de Arthur Bezerra e Aneli Beloni[4], o termo critical information literacy é tema de artigos em língua inglesa das áreas de Ciência da Informação e Biblioteconomia (Library and Information Science) desde meados da primeira década do século XXI, como nos trabalhos de Michelle Simmons (2005)[5], John J. Doherty e Kevin Ketchner (2005)[6], James Elmborg (2006)[7] e Heidi Jacobs (2008)[8]. Ao adicionar a palavra “critical” à information literacy, Elmborg diz guardar duas intenções: a primeira seria reconhecer como “crítica” (no sentido de “urgente”) a necessidade de práticas menos mecânicas e entendimentos mais centrados nos indivíduos; a segunda estaria voltada para a adoção de uma perspectiva “crítica” às atuais práticas, no sentido de questionar a concepção de competência em informação como uma “coisa” que temos, mas que não sabemos como usar – entendimento este que o autor credita aos padrões estabelecidos pela Association of College and Research Libraries.

Para Elmborg, a adoção de uma perspectiva como a proposta pela referida associação faz com que a ideia de que “reconhecemos a necessidade de informação” soe mecânica, e distancia o acesso às informações necessárias “de forma eficaz e eficiente” da maneira lenta e paciente com que conhecimentos são construídos pelas pessoas[9]. Doherty e Ketchner reforçam a crítica ao modelo de regras prescrito pela ACRL que, segundo acreditam, mascara uma ideologia de exclusão, e recorrem ao caráter emancipatório da educação para definir a competência crítica em informação como uma ferramenta de “empoderamento” e “libertação” dos indivíduos, trazendo uma proposta de uso da teoria crítica, entendida como “o olhar sociológico que enxerga o mundo através de lentes que personificam questões de poder e privilégio nas relações sociais”[6].

Muitas das publicações sobre critical information literacy se aproximam indiretamente da teoria crítica por meio da pedagogia crítica inspirada por Paulo Freire. Segundo James Elmborg, “ao desenvolver a consciência crítica, os estudantes aprendem a assumir o controle de suas vidas e de seu próprio aprendizado para se tornarem agentes ativos, perguntando e respondendo questões que são importantes para eles e para o mundo ao redor deles”[7]. Em concordância, Heidi Jacobs pontua a intenção de “reiterar a insistência de Elmborg em desenvolver uma prática crítica em biblioteconomia e uma práxis teoricamente informada [...]”; para abordar o papel dos bibliotecários na atividade educacional de forma sistemática, a autora entende ser necessário “promover hábitos críticos e reflexivos de pensamento considerando a práxis pedagógica em relação a nós mesmos, nossas bibliotecas e nossos campi[8]. Simmons, por sua vez, usa a teoria de gênero para questionar o foco de definições da competência em informação “na aquisição de habilidades, em vez de, mais amplamente, na aprendizagem de práticas discursivas dentro do contexto de uma disciplina acadêmica”; para a autora, “ajudar os alunos a examinar e questionar o contexto social, econômico e político para a produção e o consumo de informações é um corolário vital para o ensino das habilidades de competência em informação”[5].

A competência crítica em informação no Brasil[editar | editar código-fonte]

No Brasil, a critical information literacy aparece inicialmente traduzida como “competência informacional crítica”, em uma seção de artigo de Elizete Vieira Vitorino e Daniela Piantola[10]. As autoras encontram, nos estudos de Elmborg, Jacobs, Doherty e Ketchner, um engajamento na ampliação do conceito e do papel social da competência em informação, entendida não apenas como uma reunião de habilidades para acessar e empregar adequadamente a informação, mas também como "uma ferramenta essencial na construção e manutenção de uma sociedade livre, verdadeiramente democrática, em que os indivíduos fariam escolhas mais conscientes e seriam capazes de efetivamente determinar o curso de suas vidas”.

A partir de 2015, são publicados os primeiros artigos acadêmicos especificamente voltados para a temática no Brasil, tendo como principal característica a aproximação epistemológica com a teoria crítica da Escola de Frankfurt e com a pedagogia crítica de Paulo Freire[11][12]. Partindo deste prisma teórico, as pesquisas brasileiras sobre competência crítica em informação brasileira têm se ocupado de desenvolver diagnósticos críticos sobre os regimes de informação dominantes, abordando temas como pós-verdade, desinformação e circulação de fake news e tecendo críticas aos obstáculos que comprometem a autonomia dos indivíduos no ambiente informacional.

Referências

  1. «Tewell». www.comminfolit.org. Consultado em 11 de novembro de 2019 
  2. a b Bezerra, Arthur Coelho; Schneider, Marco; Saldanha, Gustavo Silva (2019). «Competência crítica em informação como crítica à competência em informação». Informação e Sociedade: estudos. Consultado em 11 de novembro de 2019 
  3. Seale, Maura (2013). Gregory, Lua; Higgins, Shana, eds. «The Neoliberal Library». Library Juice Press (em inglês): 39–61 
  4. Bezerra, Arthur Coelho; Beloni, Aneli (26 de abril de 2019). «Os sentidos da "crítica" nos estudos de competência em informação». Em Questão. 25 (2): 208–228. ISSN 1808-5245. doi:10.19132/1808-5245252.208-228 
  5. a b Simmons, Michelle (1 de julho de 2005). «Librarians as Disciplinary Discourse Mediators: Using Genre Theory to Move Toward Critical Information Literacy». portal: Libraries & the Academy: 297–311 
  6. a b Doherty, John; Ketchner, Kevin (3 de outubro de 2005). «Empowering the Intentional Learner: A Critical Theory for Information Literacy Instruction». Library Philosophy and Practice, ISSN 1522-0222, Vol. 8, Nº. 1, 2005. 8 
  7. a b Elmborg, James (1 de março de 2006). «Critical Information Literacy: Implications for Instructional Practice». The Journal of Academic Librarianship. 32 (2): 192–199. ISSN 0099-1333. doi:10.1016/j.acalib.2005.12.004 
  8. a b Jacobs, Heidi (1 de maio de 2008). «Information Literacy and Reflective Pedagogical Praxis». The Journal of Academic Librarianship. 34: 256–262. doi:10.1016/j.acalib.2008.03.009 
  9. Elmborg, James (1 de janeiro de 2012). «Critical Information Literacy: Definitions and Challenges». Transforming Information Literacy Programs: Intersecting Frontiers of Self, Library Culture, and Campus Community: 75–95 
  10. Vitorino, Elizete Vieira; Piantola, Daniela (2009). «Competência informacional – bases históricas e conceituais: construindo significados». Ciência da Informação. 38 (3). ISSN 1518-8353 
  11. Bezerra, Arthur Coelho (29 de setembro de 2015). «Vigilância e filtragem de conteúdo nas redes digitais: desafios para a competência crítica em informação». XVI Encontro Nacional de Pesquisa em Pós-Graduação em Ciência da Informação 
  12. Bezerra, Arthur Coelho; Schneider, Marco; Brisola, Anna (2017). «Pensamento reflexivo e gosto informacional: disposições para competência crítica em informação». Informação e sociedade: estudos. Consultado em 11 de novembro de 2019