Concílios budistas

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Os concílios budistas (sânscrito: sangiti) foram assembleias de monges organizadas após o parinibbana do Buda, as quais tinham como objetivo corroborar e compilar os ensinamentos do Buda de modo a assegurar sua preservação e transmissão precisa. A palavra em sânscrito sangiti significa cantar ou recitar em uníssono e reflete o método pelo qual os ensinamentos budistas foram transmitidos de uma geração para outra durante esse período, isto é, através da memorização e da recitação, em vez de documentos escritos. Durante cerca de 500 anos, os ensinamentos acordados após o primeiro concílio foram preservados apenas através da tradição oral. No século I a.C., os suttas foram registrados na forma escrita pela primeira vez. A partir daí, ambos os sistemas –a escrita e a tradição de memorização dos ensinamentos– tem sido mantidos.[1]

Primeiro Concílio Budista (486 a.C.)[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Primeiro Concílio Budista

A maioria dos estudiosos recentes dizem que, alguns meses após o parinibbana do Buda (por volta de 486 a.C.),[2][3] durante o retiro das chuvas, reuniram-se cerca de 500 bhikkhus arhats em Rajagaha para a realização do Primeiro Concílio Budista patrocinado pelo rei Ajatasatru de Magadha (491 a.C. – 461 a.C.) e presidido pelo venerável Maha Kassapa. Nesse concílio foram recitados os discursos do Buda ("Dhamma") pelo venerável Ananda de modo que constituiriam os suttas, por isso os suttas começam com a seguinte frase: "Assim ouvi";[4] enquanto que as regras monásticas ("Vinaya") foram recitadas pelo monge Upali.[5]

De acordo com o Cullavagga XI.I do Vinaya Pitaka,[6] a ocasião que levou Maha Kassapa a dirigir o primeiro concílio remontava a um incidente que teria ocorrido com o bhikkhu Subhadda, esse teria censurado a estrita disciplina em que os monges viviam sob as observações do contemplativo Gotama e louvado o recente falecimento do mesmo.[7] Maha Kassapa ficou impressionado com aquela reprovação e temia que o Dhamma-Vinaya ensinado pelo Buda pudesse ser corrompido caso os outros monges se comportassem da mesma maneira que Subhadda. Em seguida, Maha Kassapa relata o episódio acontecido para os bhikkhus e decide que seja organizado um concílio com a aprovação da sangha.[8][9] Nesse momento ficaram registrados por meio de uma tradição oral firmemente estabelecida os ensinamentos e exortações do Buda.[10]

Alguns pesquisadores[quem?] acreditam que esse concílio não aconteceu[carece de fontes?] ou tenha sofrido alguma interpolação sectária posterior,[carece de fontes?] para eles[quem?] a contradição reside no modo em como o incidente relacionado a "Subhadda" é relatado no MPS (Maha Parinibbana Sutta) e no Cullavagga (Cv.) XI.I. No MPS é demonstrado que, após Subhadda contrariar na presença de alguns bhikkhus a estrita disciplina ensinada pelo Buda e dizer que eles deveriam estar contentes pois estariam livres da disciplina, Maha Kassapa somente pronunciou aos bhikkhus nada mais que um eventual conselho sobre a impermanência.[11] Por outro lado, no relato trazido pelo Cv. XI.I, Maha-Kassapa teria reagido com seriedade em relação aquilo que foi dito por Subhadda e havia proposto a convocação de um concílio para esmagar o crescimento de tendências heréticas, ele teria aproveitado a oportunidade do momento para a convocação de uma reunião geral.[12]

Segundo o indologista Hermann Oldenberg, não é possível estabelecer uma relação entre esses dois textos, principalmente porque o autor do Mahaparinibbana Sutta não teria registrado nada a respeito do primeiro concílio, isso levaria o leitor a inferir que as duas contas não teriam procedido da mesma fonte.[13] Por outro lado, de acordo com Louis Finot (p. 243-244, 1932), essa conclusão anterior foi fundada em uma má compreensão dos fatos. Segundo ele, não há qualquer contradição entre os dois textos. No MPS, é registrado que Maha Kassapa e seus discípulos caminhavam de Pava em direção a Kusinara e teriam ouvido os últimos acontecimentos após o falecimento do Mestre, alguns monges ainda não tinham superado o acontecido, logo depois Subhadda saudou cinicamente aos monges que eles estariam livres da disciplina. Então, Maha Kassapa aconselhou os monges sobre a impermanência. Em outra ocasião, o Cv. XI.I, apresenta o venerável Maha Kassapa relatando para a sangha dos bhikkhus o incidente com Subhadda.[14]

O Cullavagga XI não possui uma introdução histórica (nidana) e começa repentinamente com o termo "atha" (então) – "Então, o venerável Maha-Kassapa disse aos Bhikkhus: 'Uma vez eu estava viajando ao longo da estrada de Pava para Kusinara ...'"), mas esse capítulo não corresponde a sequência dos anteriores IX e X (do vinaya pitaka). Segundo Louis Finot, o que agora é conhecido como o MPS por um lado, e o Cv. XI-XII[15] por outro, inicialmente não estavam separados, mas constituíam uma única narrativa contínua a começar pelas viagens do Buda antes de sua morte, o parinibbana e o funeral, mais adiante estariam o primeiro concílio e o segundo concílio, por alguma razão os concílios teriam sido separados dessa continuidade, respectivamente, uma parte do MPS ficou no sutta pitaka e a outra parte sobre os concílios foram atribuídas ao Cullavagga XI e XII, do vinaya pitaka atual, sem quase nenhuma tentativa de fazer eles se encaixarem com essa nova configuração, o que seria responsável por tais inconsistências observadas anteriormente.[16]

Alguns trechos contidos no Mahaparinibbana Sutta[17] sugerem que as regras monásticas ainda não estariam tão definidas após a morte do Buda, como no vinaya pitaka atual. No Mahaparinibbana Sutta, o Buda teria concedido a sangha a permissão de abolir algumas regras menores em razão de seu iminente falecimento, mas não havia dito quais eram elas.[18] Para evitar dissensões a sangha tomou a decisão unânime de manter todas as regras do vinaya, tanto as maiores como as menores. Segundo Louis Finot (p. 245, 1932), o décimo segundo capítulo do Cullavagga também deu origem a múltiplas discussões. Isto é, praticamente certo de que a dissensão que surgiu um século após o parinibbana do Buda, entre os monges ocidentais e orientais, que defendiam, respectivamente, um processo mais ou menos rígido na disciplina, leva-nos de volta a um período em que as regras monásticas ainda não estavam tão definidas como observado no vinaya pitaka atualmentente existente.[19]

Segundo Concílio Budista (386 a.C.)[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Segundo Concílio Budista

Os registros históricos deste segundo concílio derivam principalmente dos vinayas canônicos de várias escolas (theravāda, sarvāstivāda, mūlasarvāstivāda, mahāsanghika, dharmaguptaka e mahīśāsaka). Na maioria dos casos, essas contas são encontradas no final da porção skandhaka do vinaya (no canône em Pali, encontra-se no capítulo XII do Cullavagga). Praticamente todos os estudiosos concordam que este segundo concílio foi um evento histórico.

Segundo algumas fontes, um século após o parinibbana do Buda (por volta de 386 a.C.)[20][21] ocorreu um desentendimento entre monges conservadores da disciplina monástica e alguns reformadores, estes últimos eram representados pelos bhikkhus de Vesali (conhecidos como "vajjias"), os quais adotavam determinadas práticas que foram consideradas ilegais pela maioria da comunidade budista. O Segundo Concílio Budista contou com a participação de cerca de 700 bhikkhus de várias cidades e regiões, uma das características notáveis deste concílio é que não foi eleito alguém para presidi-lo,[22] naquele momento os bhikkhus de Vesali haviam se engajado em uma interpretação mais liberal das regras monásticas, foram consideradas dez infrações de disciplina monástica, conforme demonstrado no Cullavagga XII do Vinaya Pitaka.[23][24]

  • SINGILONA KAPPA - Conservar e transportar sal;
  • DVANGULA KAPPA - Comer depois do meio-dia;
  • GAMANTARA KAPPA - Tomar uma segunda refeição;
  • AVASA KAPPA - Peregrinar entre mosteiros de uma mesma congregação;
  • ANUMATI KAPPA - Estabelecer actos litúrgicos e em seguida pedir autorização;
  • ACINNA KAPPA - Usar precedentes como autoridade;
  • AMATHITA KAPPA - Beber leite fora das refeições;
  • JALOGIM PATUM - Beber suco de palma em processo de fermentação;
  • ADASAKAM NISADAM - Usar manta sem bainha para sentar-se;
  • JATARU PARA JATAM - Aceitar esmolas em ouro e prata.

De acordo com a tradição Theravada, os bhikkhus de Vesali (vajjias) eram mais flexíveis com relação a disciplina monástica como no caso que correspondia a permissão de aceitar esmolas em ouro e prata [kahapanas] (que era uma denominação utilizada para permitir o uso de qualquer tipo de dinheiro). O vinaya original proibia os monges de aceitar dinheiro, mas os bhikkhus de Vesali acreditavam que essa regra era impraticável e por isso a suspenderam. Em determinado momento, eles estavam distribuindo moedas de ouro e prata para sua comunidade monástica, Yasa (um bhikkhu sthavira) visitava aquela cidade e foi convidado a receber uma parte, mas ficou indignado com aquelas atitudes que considerava equivocadas e se recusou a aceitar, aqueles outros tentaram desacreditá-lo e ameaçaram-no de expulsão, com isso Yasa se dirige a população de Vesali e defende sua postura, a maioria das pessoas resolvem ficar do lado dele, mas como ele não encontrou outra alternativa perante o fato resolveu apelar a sangha para que solucionasse o caso.[25][26] Revata (um bhikkhu sthavira) propõe a formação de um comitê de 4 bhikkhus do leste e 4 do oeste. Pelo leste: Sabbakamin, Salha, Kujjasobhita e Vasabhaga Mika. Pelo oeste: Revata, Sambuta, Yasa e Sumana. Segundo a tradição dos mahasamghikas, os monges dissidentes tratam de obter o favor do rei Kalasoka de Pushpapura (395 a.C. – 367 a.C.).[27] Convencem-no de um plano subversivo por parte dos monges ocidentais que defendiam expandir o vinaya. Contudo, com o tempo o rei decidiu não interferir.[28]

Segundo a tradição Theravada, Revata declarou cada infração como ilegal, um comitê de bhikkhus anciãos (sthaviras) representando as duas partes decidiram por unanimidade rejeitar todas as dez práticas dos bhikkhus de Vesali, menos a que se refere usar precedentes como autoridade, que foi considerada valida em alguns casos. O concilio concluiu com a recitação do vinaya para estabelecer uniformidade.[29] A maioria do concílio votou contra as regras de Vaiśālī, após o que a minoria de monges derrotada retirou-se.[30][31][32] No entanto, a crônica de Dipavamsa diz que os monges de Vesali continuaram com suas práticas. A tradição dos mahasamghikas diz que esse concílio (ou outro, uma vez que não deve ter sido necessariamente o único) decorre em Pataliputra, sobre a proteção de Asoka (304 a.C. – 232 a.C.), para inspecionar as propostas de Mahadeva. A expulsão dos bhikkhus permissivos de Vesali inicia um processo de quebra da homogeneidade da sangha. Conforme o relato do Dipavamsa, os mahasanghikas representavam os bhikkhus de Vesali (vajjias) reformados. Como mostram as inscrições Kharoṣṭhī datadas do século I encontradas perto do rio Oxo, eles se estabeleceram durante vários séculos no noroeste da Índia e na Ásia Central. A denominação "mahasamghika" (ou grande sangha) remete ao cisma que deu origem a esse grupo separatista, visto que eles conseguiram reunir uma assembléia que contou com a participação de 10.000 monges segundo Yuan Chwang, por essa razão ficou conhecida como "mahāsaṅgīti" (ou grande concílio), os bhikkhus que conduziram essa assembléia ficaram conhecidos como "mahasamghikas", eles sustentavam doutrinas sobre a falibilidade e imperfeição dos arhats.[33]

Apesar da proximidade do tempo, segundo Rhys Davids, a razão das atitudes dos monges de Vesali era cultural e econômica em desacordo a determinadas práticas de disciplina monástica, ao passo que as propostas de "Mahadeva" sustentadas pelos mahasamghikas correspondem a determinados pontos doutrinários.[34]

No que se refere as diferenças entre os patimokkhas que separam o vinaya theravada e mahasamghika, são pequenas orientações sobre boas maneiras de caminhar, contato com os olhos, alongamento, viajar aqui e ali, etc. Essas diferenças não estão relacionadas com o manuseio de dinheiro e etc, portanto é possível que o segundo concílio tenha sido resolvido por ambas as partes. O imperador Asoka que patrocinou o terceiro concílio, conforme descrito em seus éditos, disse que "a sangha foi mantida unificada" até aquele momento (do terceiro concílio), ou seja, os cismas teriam ocorrido somente durante ou após o reino de Asoka (273 a.C. – 232 a.C.).[35]

Primeiro Cisma na Sangha [Pataliputra I][editar | editar código-fonte]

Algum tempo depois do Segundo Concílio ocorreram cismas dentro da sangha monástica, que resultaram na formação de vários subgrupos como o sthavira nikaya, o mahasanghika nikaya e o sarvastivada. O surgimento dessas escolas às vezes é relacionado ao Segundo Concílio, mas não há provas para esta sugestão: a maioria das contas canônicas iniciais afirmam que aquele conflito havia sido resolvido. Bhikkhu Sujato questiona essa sequência de eventos e concorda que os cismas apenas ocorreram após o reinado de Asoka.[36][37][38] A tradição Theravada e outras escolas do budismo antigo concordam que o conflito sobre as regras monásticas havia sido resolvido.

Divergências na composição dos textos [Versão Śāriputraparipṛcchā][editar | editar código-fonte]

As narrativas que concernem ao segundo concílio são, normalmente, confusas e ambíguas; mas todas elas concordam que o resultado desse evento foi a cisão da sangha entre o sthavira nikāya e o mahāsāṃghika nikāya,[carece de fontes?] embora não seja acordado por todos quando isso ocorreu e qual foi a verdadeira causa dessa divisão.[39] De acordo com Andrew Skilton, os problemas das fontes contraditórias são resolvidos pelo Śāriputraparipṛcchā Mahāsāṃghika, que é o primeiro relato sobrevivente do cisma.[40] Segundo Andrew Skilton, um estudo aprofundado da escola Mahāsāṃghika pelos historiadores poderá contribuir para uma melhor compreensão do dhamma-vinaya pré-sectário do que a escola Theravada.[41] Os grupos que se auto denominavam majoritários (mahasanghikas), apenas representavam uma minoria, enquanto os anciãos (sthaviras) correspondiam a maioria ortodoxa.[42] No entanto, o Śāriputraparipṛcchā diz que os mahāsāṃghikas compreendiam os sthaviras como um grupo reformador e minoritário que buscaram expandir indevidamente o velho vinaya da grande assembléia (Mahasamghika Vinaya).[43] Contudo, o próprio vinaya dos mahasanghikas dá essencialmente o mesmo relato do segundo concílio apresentado pelas outras escolas, assim como o vinaya da tradição Theravada, ou seja, ambos estavam do mesmo lado.

As dez práticas dos bhikkhus de Vesali não são determinantes para esse cisma, mas a crise de expulsão dos bhikkhus permissivos de Vesali inicia um processo de quebra da homogeneidade da sangha, à vista disso os bhikkhus insatisfeitos reconheceram também a possibilidade de uma visão e decisão democrática, algum tempo depois foi convocada uma grande assembléia em Pataliputra que reuniu arhats e não-arhats,[44] Yuan Chwang fala de dez mil monges reunidos, provavelmente há uma confusão se essa reunião ocorreu durante o reinado de Kalasoka ou Asoka, alguns historiadores associam esse acontecimento como tendo decorrido por volta do terceiro concílio.[45] Não há unanimidade entre os historiadores sobre quando e como isso ocorreu. As dez infrações cometidas pelos bhikkhus de Vesali não foram a causa do cisma. Os autores sectários (Vasumitra, Bhavya e Vinītadeva) concordam que a razão do cisma correspondiam as cinco doutrinas sobre um arhat.[46] O Dipavamsa critica os mahasamghikas, pois estes rejeitavam vários textos como não-canônicos tais como: o Parivāra (Vinaya); os livros do Abhidhamma; o Patisambhida; o Niddesa; parte dos Jatakas; e alguns versos (Dipavamsa 76, 82). O Dipavamsa e o Śāriputraparipṛcchā não atribuem o cisma as dez infrações, mas à disputa relacionada a diferença na composição textual dos dois ramos, sthaviras e mahasamghikas.[47]

As Cinco doutrinas sobre um arhat [Versão Theravada][editar | editar código-fonte]

Segundo as fontes da tradição Theravada, o cisma radical na sangha aconteceu em Pataliputra a cerca de 30-40 anos após o incidente em Vesali.[48] Por volta de 35 anos após o termino do segundo concílio havia sido convocado uma reunião que teria lugar em Pataliputra, sob a dinastia Nanda (345 a.C. – 321 a.C.), a história do cisma que muitas vezes é confundida com o segundo concílio diz respeito a Mahadeva, um monge que possuía má reputação (mas certamente era uma figura literária).[carece de fontes?]

As obras de Vasumitra, Bhavya e Vinītadeva preservadas em traduções tibetanas e chinesas fornecem uma explicação sobre o cisma que deu origem aos mahasamghikas, a razão do cisma foi doutrinária e envolvia questões cujas respostas não podiam ser encontradas no Canône.[49] Mahadeva havia proposto cinco doutrinas sobre as quais a assembléia não teria concordado e isso causou o cisma entre duas facções. Nessa conta, a maioria (mahasangha) se uniu a Mahadeva e a minoria (sthaviras) se opunham a ele, o que teria causado uma divisão na sangha.[50][51] As questões em discussão eram as seguintes: (1) que um arahant poderia ser seduzido por outro ser, (2) que um arahant poderia desconhecer certos assuntos, (3) que um arahant poderia ter dúvida, (4) que um arahant poderia receber informações, (ser instruído), por outra pessoa, (5) que alguém poderia realizar o caminho supramundano como resultado de palavras ditas. Os monges desfavoráveis a essas questões formaram o grupo dos "sthaviras" e aqueles que integravam a maioria e eram favoráveis a elas ficaram conhecidos como os "mahāsāṃghikas".[52]

Nas fontes derivadas da tradição Theravada, Mahadeva é considerado como o fundador dos mahāsāṃghikas e constitui a figura que causou a cisão entre os dois ramos.[53] Mahadeva é muitas vezes creditado como uma figura controversa que aparece desempenhando vários papéis nas histórias das primeiras escolas budistas e a existência histórica de tal pessoa é muitas vezes criticada.[carece de fontes?] Mahadeva não corresponde ao cisma primário que teria dividido a sangha em torno das regras monásticas, e não é creditado como o fundador dos mahasamghikas.[54] O Mahavibhasa atribui a divisão entre sthaviras e mahasamghikas durante o reino de Asoka (273 a.C. – 232 a.C.).[55]

O Samayabhedoparacanacakra registra outro personagem chamado Mahādeva que foi o fundador da seita Caitika no 1° ou 2° século a.C.[56][57][58] Alguns estudiosos concluíram que uma associação desse "Mahādeva" com o primeiro cisma foi uma interpolação sectária posterior.[59] Jan Nattier e Charles Prebish concordam que Mahadeva foi o último fundador dos Caitikas (também referidos como andhakas, nos escritos em Pali) e afirmaram:

Mahādeva não corresponde ao cisma primário entre mahasamghikas e sthaviras, ele emerge em um período histórico consideravelmente posterior ao que se supunha, e mantém seu lugar no movimento sectário instigando um cisma dentro da já existente escola mahasamghika.[60]


A posição de consenso não associa esse último Mahādeva com às cinco doutrinas e não foi ele o fundador dos mahasamghikas, a explicação natural seria que isso se tornou uma parte das traduções posteriores de Vasumitra devido à crescente notoriedade de Mahādeva. Os textos mais antigos de Vasumitra assumem que os cinco pontos não foram ensinados por Mahādeva, ao invés disso são listados os nomes das figuras mais conhecidas que aceitaram ou rejeitaram cada um desses pontos. Os sthaviras representavam aqueles que não aderiam a nenhuma das cinco doutrinas sobre os arhats.

O Kathavatthu é coerente com essa postura e não apresenta uma lista ordenada dos cinco pontos, mas eles possuem algo em comum com o cisma mahasamghika, uma vez que esses pontos buscam demonstrar a falibilidade dos arhats, inicialmente é registrado que esses pontos de vista foram sustentados apenas por alguns monges ou grupos, com o passar do tempo algumas escolas surgiram com base em uma ou outra dessas teorias sobre um arhat que se desenvolveram do ramo principal mahasamghika. Prova disso é que o comentário do Kathāvatthu não pretende fornecer listas exaustivas de escolas para cada tese. Por exemplo, é dito que o primeiro dos cinco pontos foi mantido por alguns, mas não são mencionados quem são: "como hoje é sabido, os Pubbaseliyas e Aparaseliyas".[61]

Terceiro Concílio Budista [Pataliputra II] (250 a.C.)[editar | editar código-fonte]

Asoka e Moggaliputta-Tissa durante a realização do Terceiro Concílio Budista, em Nava Jetavana, Savatthi.
Ver artigo principal: Terceiro Concílio Budista

De acordo com a tradição Theravada, por volta de 250 a.C, em Pataliputra (a moderna Patna) foi convocado o terceiro concílio budista presidido por Moggaliputta Tissa Thera[62] e patrocinado pelo imperador mauria Asoka. A razão tradicional para a realização deste concílio foi para livrar a sangha da corrupção e dos falsos monges que detinham pontos de vista heréticos.

À vista disso haviam certos monges que adotavam alguns pontos de vista contraditórios, essas doutrinas permaneceram como parte de algumas escolas budistas que se desenvolveram após o terceiro concílio. Este concílio é reconhecido tanto por fontes mahayana como theravada, embora sua importância seja significativa apenas para este último.[63] As questões que seriam tratadas durante o concílio eram de natureza doutrinária, o que resultou na compilação do Kathavatthu (Pontos de Controvérsia) pelo venerável Mogaliputta Tissa para refutar uma série de heresias e garantir que o Dhamma fosse mantido "puro".

O imperador Asoka teria perguntado aos monges suspeitos o que o Buda havia ensinado e estes responderam com pontos de vista sobre o eternismo e entre outras ideias que são rechaçadas no Brahmajala Sutta.[64] Posteriormente, ele fez a mesma pergunta aos monges virtuosos e eles responderam que o Buda era um "analista" ou um "professor discriminador" (vibhajjavādin), essa resposta foi confirmada por Mogaliputta Tissa.[65] Esse termo é usado em vários sentidos, e não está claro exatamente o que isso significou naquele contexto. Tradicionalmente, no entanto, os theravadins do Sri Lanka e outras escolas continentais do Budismo Antigo identificaram-se como Vibhajjavada.

Algumas doutrinas que não foram incluídas entre os vibhajjavadins (mahaviharavasins) foram adotadas pelos mahāsāṃghikas, pelos sammitīyas (remanescente da escola Puggalavāda) e pelos sarvastivadins que foram considerados como possuindo "visões equivocadas", conforme os pontos de vista descritos na seção do Kathavatthu (do Abhidharma Pitaka "Theravada").[66][67] A doutrina atribuída aos kasyapiyas também foi discutida no Kv 1.8 como um dos pontos de vista que não foram adotados pelos vibhajjavadins do Sri Lanka (mahaviharavasins).[68]

Quarto Concílio Budista [Sri Lanka] (100 a.C.) - [Caxemira] (100 d.C.)[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Quarto Concílio Budista

No século I a.C. foi realizado o quarto concílio no Sri Lanka e tinha como objetivo a compilação do Canône pali, pois as invasões, guerras e fomes apontavam a necessidade de um registro escrito para preservar os ensinamento budistas. O rei Vattagamani convocou o quarto concílio, do qual participaram cerca de 500 bhikkhus que recitaram e escreveram pela primeira vez, sobre folhas de palmeira, os suttas em pali, este concílio é apenas referido nas fontes Theravada.[69] Nos textos da escola Sarvastivada, o quarto concílio teve lugar em Jalandara ou em Caxemira durante o reinado de Kaniska, por volta do ano 100 d.C.

Concílios Modernos[editar | editar código-fonte]

No ano de 1871 decorreu em Rangum um concílio por vezes denominado como o "Quinto Concílio Theravada". Foi convocado pelo rei Mindon Min e o seu objectivo foi revisar os textos pali.

Por último, em Maio de 1954 iniciou-se em Rangum um concílio cujo propósito era recitar e rever o Cânone Pali. Participaram cerca de 25 mil monges budistas de vários países, tendo terminado em Maio de 1956. O discuro da cerimónia de abertura foi da responsabilidade do então primeiro-ministro da Birmânia, U Nu, tendo a data do concílio sido escolhida de modo a coincidir com o aniversário da morte do Buda há 2500 anos (segundo os cálculos Theravada).

Referências

  1. Michael Beisert. ABC do Budismo. Consultado em 26 de janeiro de 2018.
  2. Concílios Budistas: Primeiro Concílio Budista. Algumas fontes dizem que esse concílio ocorreu em 486 a.C., alguns meses após o parinibbana do Buda.
  3. Budismo Theravada: Uma Cronologia Histórica. Segundo a tradição Theravada, esse primeiro concílio ocorreu em 544 a.C.
  4. Harvey, Peter (2013). An Introduction to Buddhism: Teachings, History and Practices (2nd ed.). Cambridge, UK: Cambridge University Press. pg. 88.
  5. Harvey, Peter (2013). An Introduction to Buddhism: Teachings, History and Practices (2nd ed.). Cambridge, UK: Cambridge University Press. pg. 88.
  6. Pi Tv Kd 21 Pañ­casati­kak­khan­dhaka. Cullavagga XI - Primeiro Concílio Budista.
  7. Digha Nikaya 16.6.20 E sentado junto com o grupo estava um certo Subhadda, que havia seguido a vida santa já com a idade avançada e ele disse para aqueles bhikkhus: “Já basta, amigos, não chorem, não se lamentem! Ainda bem que nos livramos do Grande Contemplativo. Sempre fomos importunados com as observações dele: ‘Não é apropriado que você faça isso, não é apropriado que você faça aquilo!’ Agora podemos fazer o que quisermos!”
  8. Ver Cv. XI.I
  9. The First Buddhist Council
  10. «Budismo Theravada - Uma Cronologia Histórica» 
  11. Digha Nikaya 16.6.20 "Amigos, já basta desse choro e lamentação! O Abençoado já não lhes disse que todas aquelas coisas que para nós são queridas e estimadas e prazerosas estão sujeitas à mudança, separação e alteração? Então porque tudo isso? Como poderia ser possível que tudo aquilo que nasce, veio a ser, condicionado, que está sujeito à dissolução, não desapareça – isso é impossível."
  12. Ver Cv. XI.I
  13. Locations of Buddhism: Colonialism and Modernity in Sri Lanka
  14. No MPS 16.6.19, é relatado que Maha Kassapa estava caminhando pela estrada principal de Pava a Kusinara, em sua companhia havia uma comitiva de bhikkhus, então ele sentou-se à sombra de uma árvore, naquele momento um certo ajivika se aproximou. O venerável Maha Kassapa logo o avistou e indagou a ele se o mesmo conhecia o Mestre Gotama, o ajivika respondeu que sim e sabia que o Buda havia falecido a pouco mais de uma semana. Ao mesmo tempo, aqueles bhikkhus que ainda não teriam superado o acontecido lamentavam e padeciam pela morte do Buda. Logo em seguida, no MPS 16.6.20, um certo bhikkhu Subhadda se manifesta perante aqueles bhikkhus dizendo que eles não precisam mais sofrer, pois antes as observações do Buda os impediam de fazer certas coisas, agora que o contemplativo Gotama havia falecido eles estariam livres dessa disciplina. Maha Kassapa, ao que parece, repete um ensinamento do Buda aos bhikkhus de que todas as coisas que surgem, nascem, vem a ser, condicionadas estão sujeitas a separação. Nesse episódio não há qualquer menção de Maha Kassapa repreendendo aquilo que foi dito por Subhadda ou pelo menos de modo explícito. Entretanto, mais adiante no Cv. XI.I, Maha Kassapa relata em outra ocasião para a sangha o que havia decorrido naquele instante, ainda surpreendido com o que Subhadda teria dito, então ele assevera a sangha a realizarem um concílio para evitar que tais acontecimentos não venham a corromper o Dhamma.
  15. Ver Cv. XII
  16. Buddhism: Buddhist origins and the early history of Buddhism in South and Southeast Asia
  17. (Digha Nikaya 16.6.3 e 4.) 6.3 "Se desejarem, a Sangha poderá abolir as regras menores depois do meu falecimento. 6.4 Depois do meu falecimento o bhikkhu Channa deve receber a punição de Brahma." "Mas, venerável senhor, o que é a punição de Brahma?" - "Qualquer coisa que o bhikkhu Channa quiser ou disser, nenhum bhikkhu deve falar com ele ou admoestá-lo, ou ensiná-lo." Segundo Louis Finot (1932), antes de morrer, o Buda ordenou que a penalidade de brahmadanda (punição de Brahma) deveria ser infligida ao bhikkhu Channa. Ananda curiosamente ignora o que é o brahmadanda e pede uma definição, que lhe é dada. Como essa penalidade não é mencionada em qualquer lugar no Canône, exceto nas duas passagens paralelas do MPS. VI.4 e Cv. XI, 1, 12-15, dificilmente se pode evitar chegar à conclusão de que a regra sobre o brahmadanda pertencia a um estágio tárdio do Vinaya budista.
  18. Digha Nikaya 16.6.3 "Se desejarem, a Sangha poderá abolir as regras menores depois do meu falecimento." Nota do Tradutor: A Sangha não se beneficiou desta concessão porque Ananda não perguntou quais seriam essas regras menores.
  19. Mahaparinibbana-sutta e Cullavagga
  20. Concílios Budistas: Segundo Concílio Budista. Acredita-se que esse concílio ocorreu em 386 a.C., aproximadamente, um século após o parinibbana do Buda (486 a.C.).
  21. Budismo Theravada: Uma Cronologia Histórica. Segundo a tradição Theravada, esse segundo concílio ocorreu em 444 a.C.
  22. Buddha and Buddhist Synods in India and Abroad - Controversy about President of the Session: Second Synod.
  23. Pi Tv Kd 22 Sat­tasati­kak­khan­dhaka. Cullavagga XII - Segundo Concílio Budista.
  24. O 2° Concilio Budista em Vaisali
  25. Second Buddhist Council: Second Dhamma Sangayana.
  26. O 2° Concilio Budista em Vaisali
  27. The Truth of Babri Mosque. Por Ashok Pant.
  28. O 2° Concilio Budista em Vaisali
  29. «Budismo Theravada - Uma Cronologia Histórica» 
  30. https://www.britannica.com/topic/Buddhist-council
  31. The Second Buddhist Council
  32. O 2° Concílio Budista em Vaisali
  33. O 2° Concilio Budista em Vaisali
  34. O 2° Concilio Budista em Vaisali
  35. Bhikkhu Sujato. Sects & Sectarianism. King Aśoka, Minor Pillar Edict, Sāñchī.
  36. The Truth of Babri Mosque. Por Ashok Pant.
  37. Vide o livro Sects & Sectarianism – The Origins of Buddhist Schools, escrito em 2006 pelo Bhikkhu Sujato.
  38. Bhikkhu Sujato. ASOKA & THE FIRST SCHISM, publicado em 23 de agosto de 2012 - 11:46 pm.
  39. Skilton, Andrew. A Concise History of Buddhism. 2004. p. 47
  40. Skilton, Andrew. A Concise History of Buddhism. 2004. p. 48
  41. Skilton, Andrew. A Concise History of Buddhism. 2004. p. 64
  42. O 2° Concilio Budista em Vaisali
  43. Theravada and Mahasanghika: The Great Schism
  44. Second Buddhist Council
  45. O 2° Concilio Budista em Vaisali
  46. Theravada and Mahasanghika: The Great Schism
  47. Bhikkhu Sujato. Was the first schism due to Dhamma or Vinaya? Consultado em 04 de agosto de 2018.
  48. «Budismo Theravada - Uma Cronologia Histórica»  De acordo com fontes da tradição Theravada, esse concílio ocorreu 30-40 anos após o incidente em Vesali.
  49. Theravada and Mahasanghika: The Great Schism
  50. Skilton, Andrew. A Concise History of Buddhism. 2004. p. 47
  51. The Buddhist Councils - The Story of Early Buddhism
  52. «Budismo Theravada - Uma Cronologia Histórica» 
  53. Walser, Joseph. Nāgārjuna in Context: Mahāyāna Buddhism and Early Indian Culture. 2005. pp. 49-50
  54. Williams, Jane, and Williams, Paul. Buddhism: Critical Concepts in Religious Studies, Volume 2. 2005. p. 188
  55. Walser, Joseph. Nāgārjuna in Context: Mahāyāna Buddhism and Early Indian Culture. 2005. pp. 49-50
  56. Baruah 2000, p. 48.
  57. Bhikku Sujato. Sects & Sectarianism: The Origins of Buddhist Schools. 2006. p. 78
  58. Walser, Joseph. Nāgārjuna in Context: Mahāyāna Buddhism and Early Indian Culture. 2005. pp. 49-50
  59. Walser, Joseph. Nāgārjuna in Context: Mahāyāna Buddhism and Early Indian Culture. 2005. p. 50
  60. Williams, Jane, and Williams, Paul. Buddhism: Critical Concepts in Religious Studies, Volume 2. 2005. p. 188
  61. Bhikkhu Sujato. Was the first schism due to Dhamma or Vinaya? Consultado em 02 de fevereiro de 2018.
  62. Moggaliputta Tissa
  63. A detailed account in Chinese of the 3rd Buddhist Council is found starting at line T24n1462_p0678b01(00) of the 善見律毘婆沙.
  64. Digha Nikaya 1 - Brahmajala Sutta
  65. http://palikanon.com/english/wtb/u_v/vibhajja_vaada.htm
  66. The Buddhist Way of Life: Its's Philosophy and History. This short survey of the first four Buddhist Councils or Conferences indicates that four chief schools held the field: (1) Theravadins; (2) Mahasanghikas; (3) Sammitiyas; (4) Sarvastivadins. "...(1) Theravadins: '...Two other names for this school are Sthaviravadins and Vibhajjavadins.'"
  67. https://suttacentral.net/kv
  68. Kv.1.8 Of Some of the Past and Future as still Existing
  69. «Budismo Theravada - Uma Cronologia Histórica» 

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • PREBISH, Charles S. - Buddhist Councils em Encyclopedia of Buddhism. Nova Iorque: McMillan USA, 2004. ISBN 0028657187.