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Confissões de uma Viúva Moça

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Machado de Assis

Confissões de uma Viúva Moça é um conto do escritor brasileiro Machado de Assis, que foi publicado originalmente no Jornal das Famílias em abril, maio e junho de 1865, com a inicial J. Foi posteriormente incluído no seu primeiro livro de contos, Contos Fluminenses, datado de 1870.

O conto causou controvérsia, e em sua época foi considerado "dos mais perigosos para a juventude" e acusado de subverter a "moral das famílias" por um certo O Caturra, desencadeando uma polêmica, possivelmente fabricada, publicada nos Dispersos de Machado de Assis.[1]

O conto é narrado em forma de cartas por Eugênia a sua amiga Carlota. Eugênia, uma mulher casada por conveniência com um marido correto, porém emocionalmente distante, é assediada por Emílio, um homem que se diz perdidamente apaixonado por ela. Ele até se torna amigo do marido para melhor se aproximar dela e, após muita insistência, conquista seu coração. Mas quando ela enfim fica viúva e eles podem assumir seu amor abertamente, ele perde o interesse. Eugênia percebe então que Emílio não passava de um sedutor habilidoso.

TRECHO: Antes era o coração que fugia à razão, agora a razão fugia ao coração. Era um crime, eu bem o via, bem o sentia; mas não sei qual era a minha fatalidade, qual era a minha natureza; eu achava nas delícias do crime desculpa ao meu erro, e procurava com isso legitimar a minha paixão.[2]

Controvérsia

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A polêmica começou em abril, após a publicação dos dois primeiros capítulos. Sob o pseudônimo "O Caturra", um crítico publicando no Correio Mercantil atacou o conto, questionando sua adequação a um jornal "que se diz das famílias", num contexto marcado pela Guerra do Paraguai. Com ironia, sugeriu que pais de "família pés-de-boi" (apegadas a costumes, conservadoras) poderiam julgar, a partir do início do texto, os riscos morais do conteúdo oferecido às jovens leitoras, convocando-os a criticar, ao lado das filhas, os "edificantes escritos" alinhados ao "século reformista". Essa posição foi reforçada poucos dias depois por "Um Velho", também no Correio Mercantil.

Em maio, "O Caturra" intensificou os ataques, classificando o romance como “dos mais perigosos para a juventude", “inconveniente e venenosa leitura para meninas", acusando-o de ter um título “despertador de curiosidade" e de ser um texto “traçado por mão de mestre na especialidade erótica", com sedução estilística e pudor considerado hipócrita. Diante disso, Machado de Assis assumiu publicamente a autoria do texto, até então assinado como “J.", e pediu que o julgamento moral fosse feito apenas após a leitura completa da obra. Ainda em maio, "Uma mãe de família" saiu em defesa da moralidade do conto e do Jornal das Famílias, destacando o rigor editorial de Garnier, que, segundo ela, "ele rejeita tudo o que contém menor alusão inconveniente". Em junho, "Sigma" também interveio no debate, defendendo que a imprensa deveria romper com a proteção artificial e a “santa ignorância” imposta às jovens, colocando-as em contato com a “sociedade", posição afinada com temas recorrentes na obra de Machado publicada no periódico.

"Em resumo, a polêmica teve início em abril, com uma crítica de O Caturra no Correio Mercantil e uma réplica no Diário do Rio de Janeiro. No dia 11 de abril, Um Velho entrou no debate, defendendo O Caturra. Do início a meados de maio, dias 1º (O Caturra), 2 (Machado), 4 (O Caturra), 9 (Uma mãe de família) e 15 (O Caturra), intensificou-se a “luta de opiniões" e, em 3 de junho (Sigma), a luta encerrou-se." [3]

Raimundo Magalhães Júnior acredita que Machado estava envolvido numa "falsa polêmica", e que "tudo não passava de um simples artifício publicitário". De fato, no primeiro texto escrito por "Caturra", ele não desaconselha que moças e mulheres leiam o conto, mas sugere aos pais "que têm a esquisitice de verem a realidade deste mundo pelo prisma rococó" que "façam companhia às suas filhas na apreciação de tão edificantes escritos". Ou seja, a imoralidade presumida da novela não deve impedir sua leitura, mas trazer para ela outros leitores.[4]

Análise da trama

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O conto revela um dos poucos momentos em que Machado utilizou-se de um narrador feminino. Há uma distância temporal entre o relato e os fatos, cerca de dois anos, o que revela o assentamento dos episódios no espírito da narradora e a possibilidade da escrita a partir de uma “pena pensada”, ou, a dificuldade da moça em lidar com as repercussões emocionais do caso.[5]

Ao lançar mão de uma narradora ao invés de um narrador, Machado pode estar em busca de uma maior cumplicidade com a leitora empírica de seu conto, que poderia se identificar com o relato de Eugênia. O foco narrativo em primeira pessoa permite a penetração no universo emocional da mulher, em um relato resultante de uma memória marcada pela emoção e, ao mesmo tempo, pela racionalidade. Assim, a narrativa se torna uma espécie de diário íntimo, no qual a narradora combina emoção e cálculo como estratégia para cooptar sua leitora.[6]

Para Luiz Antonio Aguiar, a "excepcionalidade deste conto na obra de Machado é que a narração é entregue a uma mulher, que escreve uma carta a uma amiga, confessando um romance - a carta é a narrativa do conto, quando ainda estava casada. Repare, leitor, que o conto já traz a temática do adultério à primeira coletânea lançada por Machado."[7]

Adaptação

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O conto foi adaptado para o cinema em 1975. A produção foi dirigida por Adnor Pitanga, que também assina o roteiro. O elenco inclui Sandra Barsotti no papel de Eugênia e José Wilker como Emílio.[8]

Referências

  1. Jean-Michel Massa, Dispersos de Machado de Assis, Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1965, textos 86 a 93. Ver também verbete "Confissões de uma Viúva Moça" do Dicionário de Machado de Assis de Ubiratan Machado.
  2. ASSIS, Machado de. Confissões de uma viúva moça. Disponível em: https://machadodeassis.net/texto/confissoes-de-uma-viuva-moca/23960 . Acesso em: 28 dez. 2025.
  3. BERGAMINI, Atilio. Uma história da leitura das “Confissões de uma Viúva Moça". Brasil/Brazil, v. 29, n. 54, jan. 2017. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/brasilbrazil/article/view/70549 . Acesso em: 28 dez. 2025.
  4. GRANJA, Lúcia. Novas confissões sobre um conto polêmico de Machado de Assis. Machado de Assis em Linha, ano 1, n. 1, p. 19-28, jun. 2008. Disponível em: https://machadodeassis.fflch.usp.br/sites/machadodeassis.fflch.usp.br/files/u73/num01artigo03.pdf . Acesso em: 28 dez. 2025.
  5. PEREIRA, Cilene Margarete. “Confissões de uma viúva moça” e a educação sentimental da mulher machadiana. Travessias, Cascavel, v. 4, n. 1, p. e3606, 2010. Disponível em: https://e-revista.unioeste.br/index.php/travessias/article/view/3606 . Acesso em: 28 nov. 2025.
  6. BELLIN, Greicy. Machado de Assis e a imprensa periódica: uma análise de “Confissões de uma viúva moça”. Anuário de Literatura, [S. l.], v. 19, n. 2, p. 123–138, 2014. DOI: 10.5007/2175-7917.2014v19n2p123. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/literatura/article/view/2175-7917.2014v19n2p123 . Acesso em: 28 nov. 2025.
  7. AGUIAR, Luiz Antonio. Almanaque Machado de Assis: vida, obra, curiosidades e bruxarias literárias. Rio de Janeiro: Record, 2008. ISBN 978-85-01-08099-8.
  8. CINEMATECA BRASILEIRA. Confissões de uma Viúva Moça (Brasil, 1975). Cadastro cinematográfico nº 024798. Disponível em: https://bases.cinemateca.org.br/cgi-bin/wxis.exe/iah/?IsisScript=iah/iah.xis&base=FILMOGRAFIA&lang=p&nextAction=lnk&exprSearch=ID=024798&format=detailed.pft . Acesso em: 28 dez. 2025.