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Conservadorismo nacional

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Conservadorismo nacional (também conhecido como nacional-conservadorismo, conservadorismo nacionalista ou nacionalismo conservador) é uma variante nativista do conservadorismo que combina posições sociais e culturais conservadoras com um forte nacionalismo. Os nacional-conservadores tendem a valorizar a ordem social tradicional e, nesse sentido, enfatizam os valores familiares, a religião, a autoridade,[1][2][3] a soberania nacional e também a oposição total à imigração.[4][5][6]

Contudo, entre eles não há consenso quanto a economia, uns defendendo menor e outros maior intervencionismo estatal. Partidos nacional-conservadores muitas vezes têm raízes em ambientes com uma base rural, tradicionalista ou periférica, contrastando com a base de apoio mais urbana dos partidos conservadores liberais.[7] Em relação a estes, distinguem-se por adotar uma visão menos universalista da sociedade, procurando preservar valores morais que consideram fundamentais para a coesão do país.

Na Europa, a maioria dos nacional-conservadores adotam uma postura eurocética,[8] incluindo países da zona central e oriental pós-comunista.[9] O conservadorismo nacional partilha diversos elementos ideológicos com a direita radical, nomeadamente o nacionalismo, o euroceticismo e a rejeição do multiculturalismo.[10]

Segundo o politólogo Cas Mudde, o nacional-conservadorismo pode ser entendido como uma “zona de transição” entre a direita tradicional e a direita radical, ao incorporar temas e discursos que antes eram marginais no debate político europeu.[11] Na prática, partidos nacional-conservadores como o Fidesz na Hungria ou o PiS na Polónia têm sido descritos como casos de “normalização do radicalismo”, ao aproximarem posições conservadoras tradicionais de pautas populistas e antiliberais.[12]

Por outro lado, partidos de direita radical, como o Rassemblement National (França), o Vox (Espanha) ou o Chega (Portugal), partilham com este conservadorismo enquadramentos discursivos, mas mantêm uma retórica ainda mais polarizadora e excludente, que desafia diretamente a legitimidade das instituições liberais.[13]

Ideologia

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Ideologicamente, além dos nacional-conservadores se inclinarem ao patriotismo, ao nativismo e ao conservadorismo social,[1][2][3] por vezes tendem ao monoculturalismo, enquanto se opõem ao internacionalismo e ao globalismo, sendo que os mais radicais condenam o multiculturalismo e o pluralismo cultural. Os nacional-conservadores aderem a uma forma de nacionalismo cultural que enfatiza a preservação da identidade cultural nacional.[14][15][16][17][18]

Políticas de costumes

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O conservadorismo nacional não é uma filosofia uniforme, mas os seus adeptos expressaram amplamente o apoio ao nativismo, ao patriotismo, ao assimilacionismo e ao monoculturalismo. Ao mesmo tempo, há oposição expressa ao internacionalismo, à política racial, ao multiculturalismo e ao globalismo.[19] Os conservadores nacionais aderem a uma forma de nacionalismo cultural que enfatiza a preservação da identidade nacional, bem como da identidade cultural. Como resultado, muitos são a favor da assimilação pela cultura dominante, restrições à imigração e políticas rigorosas de lei e ordem.[5]

Os partidos nacional-conservadores apoiam os valores familiares tradicionais, os papéis de gênero e o papel público da religião,[20] sendo críticos da separação entre Igreja e Estado. Segundo a cientista política austríaca Sieglinde Rosenberger, "o conservadorismo nacional elogia a família como um lar e um centro de identidade, solidariedade e tradição".[21] Opõe-se à "agenda de 1968" de emancipação relacionada com o gênero.[22]

Políticas econômicas

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Os partidos nacional-conservadore em diferentes países não partilham necessariamente uma posição comum sobre política econômica. As suas opiniões podem variar desde o apoio à economia mista até uma abordagem mais laissez-faire. No primeiro caso, mais comum, os nacional-conservadores podem ser distinguidos dos conservadores liberais,[23] para os quais as políticas econômicas de mercado livre, a desregulamentação e a restrição de gastos são as principais prioridades. Alguns comentadores identificaram de fato um fosso crescente entre o conservadorismo nacional e o conservadorismo liberalista: "A maioria dos partidos da direita [hoje] são dirigidos por conservadores economicamente liberais que, em vários graus, marginalizaram os conservadores sociais, culturais e nacionais".[23]

O nacional-conservadorismo desenvolveu a sua alternativa ao liberalismo econômico através de representantes políticos na Europa pós-comunista, mais notavelmente na Polônia e na Hungria. Nos anos 1990, os nacional-conservadores eram em grande parte fusionistas.[22]  Os trabalhos de Leo Strauss e Eric Voegelin serviram como blocos de construção para as políticas socioeconômicas do movimento nacional-conservador moderno. A acusação de Strauss do capitalismo como "economicismo" através da redução das necessidades individuais ao consumo desempenhou um papel no pensamento nacional-conservador que defende o solidarismo e um papel crescente do Estado na economia para provocar um "nacionalismo financeiro" moralizante em oposição ao comunismo e o individualismo liberal.[22] Dependendo do país, isso pode incluir maior apoio ao protecionismo, ao aumento dos investimentos sociais, ao conservadorismo "pró-trabalhador" e "pró-família", à nacionalização de bancos e empresas estratégicas e à oposição a incentivos fiscais.[22]

Política externa

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Os nacional-conservadores geralmente apoiam uma política externa que defende os interesses da sua nação. Inclinam-se para o militarismo, o unilateralismo e o isolacionismo. Rejeitam o internacionalismo e o multilateralismo que caracterizaram a era global moderna.[24][25] Muitas vezes têm uma visão negativa da ONU, sentindo que a sua agenda globalista corrói a sua identidade nacional, bem como a UE e outras organizações internacionais.[26]

Preocupações democráticas e críticas

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Diversos cientistas políticos e instituições internacionais têm expressado preocupações quanto ao impacto do conservadorismo nacional sobre o funcionamento das democracias liberais contemporâneas. Autores como Fareed Zakaria, Cas Mudde, Jan-Werner Müller e Yascha Mounk argumentam que, em certos contextos, esta corrente tende a aceitar os mecanismos eleitorais da democracia, mas a questionar os seus princípios liberais fundamentais, como a separação de poderes, os direitos das minorias e a independência judicial.[27][28]

Relatórios da Freedom House e da Comissão Europeia têm alertado para sinais de enfraquecimento do Estado de direito em países governados por partidos nacional-conservadores, como a Hungria e a Polónia, onde reformas judiciais e restrições à liberdade de imprensa foram criticadas por instituições europeias e organizações de direitos humanos.[29][30]

Alguns analistas descrevem esta evolução como parte da ascensão de uma “democracia antiliberal”, conceito que designa sistemas políticos nos quais eleições regulares coexistem com a concentração de poder e o enfraquecimento do equilíbrio institucional.[31]

Em contraste, defensores do conservadorismo nacional argumentam que esta corrente procura restaurar a soberania nacional e a primazia dos valores tradicionais face a instituições supranacionais e políticas identitárias consideradas excessivamente abertas e liberais.[32]

Referências

  1. a b ANDREW., HEYWOOD, (2018). ESSENTIALS OF POLITICAL IDEAS : for a level. (em inglês). [S.l.]: PALGRAVE. ISBN 1137611677. OCLC 1005867754 
  2. a b Varieties of conservatism in America (em inglês). Berkowitz, Peter, 1959-. Stanford, California: Hoover Institution Press. 2004. ISBN 0817945725. OCLC 839305105 
  3. a b Mediations of social life in the 21st century (em inglês). Dahms, Harry F., First ed. Bingle, UK: [s.n.] ISBN 9781784412227. OCLC 896728569 
  4. Sibarium, Aaron (15 de agosto de 2019). «National Conservatism: A Guide for the Perplexed». The American Interest (em inglês). Consultado em 18 de janeiro de 2024 
  5. a b Gallagher, Brenden (11 de agosto de 2019). «The national conservatism movement just began—does it have a future?». The Daily Dot (em inglês). Consultado em 18 de janeiro de 2024 
  6. Littlejohn, Brad (2023). «National Conservatism, Then and Now». National Affairs (em inglês). Consultado em 18 de janeiro de 2024 
  7. Vít Hloušek; Lubomír Kopecek (2010). Origin, Ideology and Transformation of Political Parties: East-Central and Western Europe Compared (em inglês). [S.l.]: Routledge. p. 178. ISBN 978-1-317-08503-4 
  8. Traynor, Ian, The EU's weary travellers Arquivado em 2006-04-07 no Wayback Machine The Guardian, 4 de abril de 2006
  9. Bakke, Elisabeth (2010). «Central and East European party systems since 1989». Cambridge University Press. Central and Southeast European Politics Since 1989: 79 
  10. Mudde, Cas (2019). The Far Right Today. [S.l.]: Polity Press 
  11. Eatwell, Roger; Goodwin, Matthew (2018). National Populism: The Revolt Against Liberal Democracy. [S.l.]: Penguin 
  12. «A nova direita anti-sistema: Populismo, soberania e identidade na Europa». RCCS. 2020. Consultado em 7 de outubro de 2025 
  13. . "Populism and the Right in Europe: An Analysis of Convergence" .
  14. ANDREW., HEYWOOD (2018). ESSENTIALS OF POLITICAL IDEAS : for a level. (em inglês). [S.l.]: PALGRAVE. ISBN 978-1137611673. OCLC 1005867754 
  15. Berkowitz, Peter, ed. (2004). Varieties of conservatism in America (em inglês). Stanford, Calif.: Hoover Institution Press. ISBN 0817945725. OCLC 839305105 
  16. Dahms, Harry F., ed. (7 de novembro de 2014). Mediations of social life in the 21st century (em inglês). Bingle, UK: [s.n.] ISBN 9781784412227. OCLC 896728569 
  17. «National Conservatism: A Guide for the Perplexed» (em inglês). 15 de agosto de 2019 
  18. «The national conservatism movement just began—does it have a future?». The Daily Dot (em inglês). 11 de agosto de 2019 
  19. Ferraresi, Mattia (10 de abril de 2020). «Nationalists Claim They Want to Redefine Conservatism, but They're Not Sure What It Is». Foreign Policy (em inglês). Graham Holdings Company 
  20. Rosenberger, Sieglinde, Europe is swinging towards the right - What are the effects on women? Arquivado em 2011-09-28 no Wayback Machine (em inglês), University of Vienna, 2002. Consultado em 6 de dezembro de 2010.
  21. Rosenberger, Sieglinde, Europe is swinging towards the right - What are the effects on women? Arquivado em 2011-09-28 no Wayback Machine (em inglês), University of Vienna, 2002. Consultado em 6 December 2010.
  22. a b c d Varga, Mihai; Buzogány, Aron (setembro de 2022). «The Two Faces of the 'Global Right': Revolutionary Conservatives and National-Conservatives». SAGE Publications. Critical Sociology (em inglês). 48 (6): 1089–1107. ISSN 0896-9205. doi:10.1177/08969205211057020Acessível livremente 
  23. a b National Questions, National Review (em inglês), Vol. 49, Issue 12, 30 June 1997, pp. 16-17
  24. Littlejohn, Brad. «National Conservatism, Then and Now». National Affairs (em inglês). United States: National Affairs, Inc. 
  25. Dueck, Colin (22 de janeiro de 2021). «Conservative Nationalism and US Foreign Policy». AEI (em inglês). American Enterprise Institute 
  26. «"National conservatives" are forging a global front against liberalism»Subscrição paga é requerida. The Economist (em inglês). 15 de fevereiro de 2024. Consultado em 21 de fevereiro de 2024. Cópia arquivada em 20 de fevereiro de 2024 
  27. Mudde, Cas (2019). The Far Right Today. [S.l.]: Polity Press 
  28. Mounk, Yascha (2018). The People vs. Democracy: Why Our Freedom Is in Danger and How to Save It. [S.l.]: Harvard University Press 
  29. «Nations in Transit 2024: Democracy under Pressure in Europe». Freedom House. 2024. Consultado em 7 de outubro de 2025 
  30. «Rule of Law Report 2024». Comissão Europeia. 5 de julho de 2024. Consultado em 7 de outubro de 2025 
  31. Zakaria, Fareed (2003). The Future of Freedom: Illiberal Democracy at Home and Abroad. [S.l.]: W. W. Norton & Company 
  32. «National Conservatism: Statement of Principles». National Conservatism. 2022. Consultado em 7 de outubro de 2025 
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