Conservatório Dramático e Musical de São Paulo

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Conservatório Dramático e Musical de São Paulo
Conservatório Dramático e Musical de São Paulo 01.jpg
Fachada restaurada do Conservatório Dramático e Musical de São Paulo
Data da construção 1886
Estilo arquitetônico Neoclássico
Cidade São Paulo, SP
Tombamento 1992
Órgão CONPRESP

O Conservatório Dramático e Musical de São Paulo (CDMSP) foi uma escola superior de música erudita e Arte Dramática, localizada no centro da cidade São Paulo, que oferecia bacharelado em música com as habilitações em canto, composição, regência e instrumento e em Arte Dramática, com foco na formação de atores.[1] A instituição surgiu da necessidade premente de São Paulo, que crescia no auge da Era do Café, de abrigar um estabelecimento que desse sólida formação musical e dramática na própria cidade. Atualmente o prédio é integrado a Praça das Artes e é tombado pela CONPRESP e pelo CONDEPHAAT.[2]

Edifício[editar | editar código-fonte]

Atual fachada do CDMSP, ao lado da Praça das Artes, por onde é feita a entrada para o Conservatório

O prédio da Av. São João que futuramente abrigaria o Conservatório Dramático e Musical de São Paulo foi construído em 1886 pelo industrial Frederico Joachim, representante dos pianos Rudolph Ibach Sohn desde 1891 e posteriormente da Steinway & Sons. O local, que foi criado para abrigar o estabelecimento comercial de Joachim, tinha em seu andar térreo a exposição e venda de pianos e, no primeiro andar, o Salão Steinlay. Nele eram realizados concertos de música erudita e eventos. Nesse período, o salão foi utilizado para diversos eventos com fins artísticos, como saraus e encontros literários. Foi renomeado como Salão Carlos Gomes, em homenagem ao falecido compositor de ópera Carlos Gomes, e permaneceu com essa nomenclatura até ser vendido, em 1909.[3] Apesar do sala de concertos ter sido sempre mantida ativa, em 1898 Frederico Joachim apresenta o projeto que transformaria o então prédio da Av. São João em um luxuoso hotel, chamado Joachim's. Posteriormente, o hotel passa a se chamar Panorama e é vendido ao vereador Luís Landró e depois repassado para o Conservatório. [4] [5]

Contexto histórico e cultural[editar | editar código-fonte]

A chegada de renomados atores e atrizes como a francesa Sarah Bernhardt incentivaram o movimento dramático em São Paulo. Retrato feito em 1880 por Napoleon Sarony

Entre o século XIX e o século XX, a cena de teatro em São Paulo se consolidou com a visita de atrações vindas do Rio de Janeiro, capital federal na época, e da Europa. A partir dos anos 1980, atores e atrizes renomados nacional e internacionalmente como Sarah Bernhardt, Gustavo Modena, Ernesto Rossi e Eleonara Duse chegaram à cidade e incentivaram a organização de sociedades amadoras dramáticas. Diversos agrupamentos do tipo surgiram, os mais famosos eram os chamados Filodramáticos. Haviam ainda outros de diversas nacionalidades (portuguesas e espanholas, por exemplo). O Grêmio Dramático do Real Club Gymnastico Português foi o grupo com maior atividade constante e duradoura. O contexto de efervescência cultural incentivou a criação do Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, inspirado no Conservatoire de Paris. [6]

Diretores do Conservatório[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Pedro Augusto Gomes Cardim
Retrato de Pedro Augusto Gomes Cardim, desenhado pelo artista Oscar Pereira da Silva e localizado atualmente no Museu Belas Artes de São Paulo

Pedro Augusto Gomes Cardim nasceu em Porto Alegre, no ano de 1864, e se dedicou até o final de sua vida ao Conservatório. Seu pai, João Pedro Gomes Cardim, era músico e dramaturgo português, e foi responsável pelos primeiros contatos de Pedro Gomes com as áreas. Formado pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, Pedro Gomes também atuou como jornalista em A Província de São Paulo e colaborou em jornais como o Correio Paulistano e A Gazeta. Na área pública foi vereador e vice-intendente de Obras Públicas, além de ter atuado no setor político e trabalhado pela construção do Teatro Municipal de São Paulo, em 1911, e pela fundação da Academia Brasileira de Letras, em 1909. Pedro Gomes foi, também, autor dramático, e escreveu vaudevilles, operetas, monólogos, comédias e sainetes; além de ter dirigido, em 1917, a Companhia Dramática de São Paulo, uma das mais importantes companhias teatrais, que atuou no início do século XX. Pedro Gomes foi o idealizador do Conservatório e previa um espaço para ensinar as artes que seriam apresentadas no Teatro Municipal, que envolviam a música, o teatro e a ópera. Segundo ele, “em São Paulo, capital artística, não podia continuar faltando o estabelecimento de arte que servisse, a um só tempo, ao professorado especializado, ao virtuosismo e, com igual importância, à arte dramática".[7] [8] Pedro Gomes foi diretor do Conservatório nos anos de 1906 a 1913 e de 1923 até 1931, tendo se afastado da direção nos anos que organizou, com Itália Fausta, a Companhia Dramática Nacional. Outros diretores da instituição foram Luiz Pinheiro da Cunha, entre 1913 e 1922, Samuel Arcanjo dos Santos (entre 1931 e 1937) e Francisco Casaboni (entre 1937 e 1942). [9]

O Conservatório[editar | editar código-fonte]

Parte da fachada restaurada do Conservatório

Em 15 de abril de 1906 o Conservatório Dramático e Musical de São Paulo foi fundado, e sua diretoria era composta por um presidente, Antonio Lacerda de Campo, um diretor-secretário, Pedro Augusto Gomes Cardim, e um tesoureiro, Carlos de Campos. Foi alugada a casa na rua Brigadeiro Tobias, no bairro da República, em São Paulo, que pertencia à Marquesa de Santos, para sediar as atividades do Conservatório. A cerimônia de inauguração ocorreu em 12 de março de 1906, e as atividades da instituição se iniciaram em 25 de abril desse mesmo ano. De início, foram matriculados 134 alunos pagantes e 48 que fariam os cursos gratuitamente. Inspirado em modelos europeus, o curso de Arte Dramática era ministrado em período noturno, das 18h às 21h, tinha duração de 3 anos e disciplinas como português, italiano, francês, história, corografia brasileira, poética, psicologia, dicção, estética, expressão fisionômica e pelo gesto, recitação, vestuário, representação coletiva, história do teatro, esgrima, entre outras.[10] Aulas de línguas estrangeiras e português eram ministradas no início para ambos os cursos, de Arte Dramática e Música (que tinha duração de 5 anos). Matérias mais específicas eram abordadas nos anos seguintes. [11] [12]. No curso de Arte Dramática, os primeiros professores foram Pedro Augusto Gomes Cardim, Wenceslau de Queiroz (que lecionava Literatura e Estética), Luiz Pinheiro da Cunha, Hipólito da Silva (que ministrava a aula de Dicção) Augusto César Barjona (responsável pela disciplina de História do Teatro) e Felipe Lorenzi (que foi substituído em 1922 por Mário de Andrade).

Parte superior da fachada do Conservatório depois de ser restaurada

Com a necessidade de venda da casa alugada, os fundadores buscaram uma nova sede para o Conservatório, e, em 1909, com o auxílio do governo, a diretoria conseguiu a verba de 100 contos de réis e comprarou o prédio na Av. São João, que abrigava até então o Salão Carlos Gomes, pela quantia de 160 contos de réis. No novo espaço, o Conservatório ganhou destaque pela seu nível superior de qualidade e se tornou uma referência de arte musical na cidade. Outros professores que compunham o corpo docente da instituição eram Camargo Guarnieri e Fructuoso Vianna. Francisco Mignone e Mário de Andrade foram alunos do Conservatório, e, posteriormente, se tornaram mestres da instituição. Entre os anos de 1910 e 1932, o Conservatório formou uma quantia de 1.411 alunos, e, entre eles, apenas 18 pertenciam ao curso de Arte Dramática, e 80% eram formandos em piano, instrumento amplamente admirado na época. No período de 1930 houve um declínio na quantidade de matrículas, uma tendência que se seguiu nos próximos anos até chegar na crise da instituição em 1940. Em 1921, o número contabilizado de alunos matriculados era de 6.921, que caiu em 1932 para 1.311 e em 1943 para 377. Os relatórios do ano de 1938 não citam o curso de Arte Dramática, que possivelmente havia sido suspenso no período.

Escultura localizada no topo do Conservatório Dramático e Musical de São Paulo

Entre os anos de 1942 e 1943 houve uma intervenção do governo federal na administração da escola, com a alegação da existência de supostas irregularidades. Foi designado como interventor Carlos Augusto Gomes Cardim, irmão de Pedro Augusto Gomes Cardim. Com a medida, o curso de Arte Dramática é retomado e incluído no nome da instituição. A mudança permite que novas montagens aconteçam, como as encenações Rosas de todo ano, de Julio Dantas; O nefellibata, de Carlos Cardim; e Eis o caso, de Dante Constantini. Até a década de 70 a escola se manteve sob intervenção federal. [13] [14]

Durante a Segunda Guerra Mundial, o Conservatório Dramático e Musical de São Paulo entrou em decadência. Os mestres da instituição de origem alemã e italiana foram afastados pelo governo por meio do interventor Carlos Gomes, nomeado por Getúlio Vargas, que acreditava que os professores estariam envolvidos com o fascismo, e dificuldades como a ausência de recursos, as altas mensalidades, a decadência do patrimônio arquitetônico e o atraso de salários foram cruciais para o enfraquecimento das atividades do local. Em 2006, ano do centenário da instituição, o então prefeito da cidade de São Paulo, José Serra, determinou a desapropriação do local para a construção da Praça das Artes. Para tanto, a administração do município depositou 4 milhões de reais em juízo pelo edifício do conservatório e 170 mil reais pelo acervo, que foi doado à Biblioteca Municipal Mário de Andrade e ao Centro Cultural São Paulo. Porém, o conservatório não conseguiu receber a indenização, pois para isto devia quitar os quase 700 mil reais de dívidas de IPTU e taxa de lixo. Somente com a certidão negativa de débitos o conservatório poderia ter acesso ao dinheiro. A instituição tentou brigar na justiça para anular os decretos, mas perdeu para a prefeitura e em 2008 a desapropriação foi concluída. O conservatório, sem edifício próprio, passou a funcionar em locais emprestados e com instrumentos de terceiros, além de não contar mais com o acervo de sua biblioteca.O prédio tombado foi restaurado e entregue em 2012 com a inauguração da primeira fase da Praça das Artes. Atualmente é sede da Escola Municipal de Música de São Paulo.[15] [16]

Fachada do Conservatório na Avenida São João antes de ser restaurada.

Restaurações e tombamento[editar | editar código-fonte]

Sala de Exposição do Conservatório

O Estudo Preliminar de Revitalização – Conservatório Dramático e Musical São Paulo, de 1980, feito pela equipe de técnicos da Divisão de Preservação do Departamento do Patrimônio Histórico da Secretaria Municipal de Cultura, determinou a reforma do prédio da Av. São João, restaurando o corpo principal, substituindo os anexos existentes por outros mais adequados e interligando com a área do Recanto Infantil Monteiro Lobato (que em 1984 foi desativado e se tornou a Praça Monteiro Lobato). O projeto executado foi desenhado pela EMURB com acessória do Instituto de Pesquisas Tecnológicas. Entre as reformas estão a demolição do anexo existente nos fundos para construir um novo com circulação vertical e salas de aula e a consolidação e reconstituição da alvenaria de tijolos do prédio, [17] também foram feitas pinturas decorativas nas paredes e no forro do salão térreo e o conjunto escultórico da platibanda foi higienizado e devidamente restaurado.[18] Foram criados quatro andares para conservar uma biblioteca com 12 mil volumes e centenas de partituras.[19] Um convênio entre a Fundação do CDMSP e a SMC, além do contrato com a EMURB foram feitos para viabilizar a obra, que resultou no prédio novo com área de 1.565 m² que passou a abrigar a Escola de Música. Em 1984, porém, as obras de restauração do prédio principal que tinham sido apenas iniciadas foram interrompidas por falta de verba.[20]

O prédio do Conservatório Dramático e Musical de São Paulo é tombado pela municipalidade por meio da Resolução 37/CONPRESP/1992 e o Projeto de "restauro" de 2007 prevê reformas como o Museu do Teatro Municipal no andar térreo, destinado para exposições temporárias e eventos.

Maquete do Complexo Cultural Praça das Artes, construído ao redor do Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, representado em branco

O edifício dos fundos, construído na intervenção de 1980, foi demolido e uma nova torre de circulação vertical foi feita no lugar, com três elevadores e escadas de segurança de incêndio. Essa estrutura atende a todos os prédios da Praça das Artes e integra os edifícios. Visando preservar aspectos do prédio, os autores do projeto apontam que, no andar térreo, para a construção do Museu do Teatro Municipal seria feito um trabalho cuidadoso, que restauraria colunas e vigas metálicas e instalaria ar condicionado, luminotécnica e adequação acústica de acordo com a Carta de Veneza, buscando o mínimo de intervenção; também é escrito que a Sala de Concertos seria restaurada e recuperada em seus elementos originais, porém, com o acréscimo necessário de novas soluções termo-acústicas.[21].

Sala do Conservatório, localizada no segundo andar do Conservatório Dramático e Musical de São Paulo

O Conservatório Dramático e Musical faz parte do Conjunto Cultural Praça das Artes, que engloba a quadra 27 da capital paulista. A obra de restauração da região ocorreu no centenário de sua inauguração, em 2011.[22]

Em 25 de novembro de 2000, o Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (CONDEPHAAT), deliberou a abertura do processo de estudo de tombamento do edifício em que está localizado o Conservatório Dramático e Musical de São Paulo (Ata número 1189). [23] O processo foi aprovado em 2014, e a justificativa se deu pela significação no panorama cultural da cidade de São Paulo que o Conservatório possui desde o século XX, pela relevância das atividades desenvolvidas no edifício, pela importância arquitetônica nas características ligadas ao estilo neoclássico e pela existência da sala de espetáculos.[24]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Site do Theatro Municipal, adicionado em 20/11/16.
  2. Conservatório Dramático e Musical de São Paulo: pioneiro e centenário de Elizabeth Ribeiro Azevedo, adicionado em 18/11/2016.
  3. São Paulo Antiga sobre o Conservatório, adicionado em 17/11/16.
  4. Conservatório Dramático e Musical de São Paulo: pioneiro e centenário de Elizabeth Ribeiro Azevedo, adicionado em 18/11/2016.
  5. SANTOS, Regina Helena Vieira. O Conservatório Dramático e Musical da cidade de São Paulo. 14º Colóquio Internacional de História da Arte Perspectiva Pictorum. Novembro, 2013.
  6. Conservatório Dramático e Musical de São Paulo: pioneiro e centenário de Elizabeth Ribeiro Azevedo, adicionado em 18/11/2016.
  7. SALAMA, Y. G. C. Atividades artísticas e culturais da família Gomes Cardim a partir do século XIX. São Paulo: Dissertação de Mestrado, Escola de Comunicações e Artes da USP, 1987. p. 71
  8. Conservatório Dramático e Musical de São Paulo: pioneiro e centenário de Elizabeth Ribeiro Azevedo, adicionado em 18/11/2016.
  9. Conservatório Dramático e Musical de São Paulo: pioneiro e centenário de Elizabeth Ribeiro Azevedo, adicionado em 18/11/2016.
  10. Jornal Comércio de São Paulo, de 06 de abril de 1906.
  11. São Paulo Antiga sobre o Conservatório, adicionado em 17/11/16.
  12. Conservatório Dramático e Musical de São Paulo: pioneiro e centenário de Elizabeth Ribeiro Azevedo, adicionado em 18/11/2016.
  13. São Paulo Antiga sobre o Conservatório, adicionado em 17/11/16.
  14. Conservatório Dramático e Musical de São Paulo: pioneiro e centenário de Elizabeth Ribeiro Azevedo, adicionado em 18/11/2016.
  15. Reportagem na Folha sobre despejo do Conservatório, adicionado em 20/11/16.
  16. Reportagem na Veja sobre a decadência do Conservatório, adicionada em 20/11/16.
  17. Relatórios EMURB, Volume 1549, p.26.
  18. Relatórios EMURB, Volume 1583, p.35.
  19. http://theatromunicipal.org.br/espaco/praca-das-artes/#
  20. SANTOS, Regina Helena Vieira. O Conservatório Dramático e Musical da cidade de São Paulo. 14º Colóquio Internacional de História da Arte Perspectiva Pictorum. Novembro, 2013.
  21. Processo Administrativo 2007 -0.345.316 - 1
  22. SANTOS, Regina Helena Vieira. O Conservatório Dramático e Musical da cidade de São Paulo. 14º Colóquio Internacional de História da Arte Perspectiva Pictorum. Novembro, 2013.
  23. Declaração da CONDEPHAAT sobre a abertura do processo de tombamento, adicionado em 20/11/16.
  24. Diário Oficial Poder Executivo - Seção I, adicionado em 20/11/16.