Corina Portugal

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Corina Portugal
Nome completo Corina Antonieta Pereira Portugal
Nascimento 17 de janeiro de 1869
Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil
Morte 26 de abril de 1889 (20 anos)
Ponta Grossa, Paraná, Brasil
Nacionalidade brasileira

Corina Antonieta Pereira Portugal (Rio de Janeiro, 17 de janeiro de 1869 - Ponta Grossa, 26 de abril de 1889), mais conhecida como Corina Portugal, foi uma brasileira vítima de feminicídio, sendo uma figura do folclore paranaense e considerada uma "santa popular" na cidade de Ponta Grossa, no Paraná.[1][2][3][4]

Biografia[editar | editar código-fonte]

Corina Antonieta Pereira Portugal nasceu no dia 17 de janeiro de 1869 no Rio de Janeiro. Era filha de Deolinda Fazenda Pereira Portugal e do médico Antônio Fernandes Pereira Portugal. Aos três anos de idade, Corina ficou órfã da mãe e recebeu por um tempo os cuidados da avó. Após o falecimento da avó, foi cuidada por uma tia.[5]

Aos 15 anos de idade Corina Portugal conheceu o farmacêutico Alfredo Marques de Campos, onze anos mais velho, e logo depois casaram-se em 1885[2] e foram morar no bairro do Realengo.[3] Como a condição financeira do casal não era das melhores, em busca de trabalho mudaram-se para Ponta Grossa, na região dos Campos Gerais do Paraná. Alfredo alugou uma casa próxima a igreja matriz e tinha a intenção de abrir uma farmácia no centro de Ponta Grossa.[5] Procurou o médico Dr. Dória, João Menezes Dória, que era seu conhecido e acabou o ajudando a abrir a Farmácia Campos.[1]

Assassinato[editar | editar código-fonte]

Corina sofria com a violência doméstica e relatava seu sofrimento em cartas que enviava para o pai, onde contava os maus-tratos e as ameaças recebidas. O marido era dependente de álcool e jogos de azar, descontado na esposa suas frustrações.[2] Na noite de 26 de abril de 1889, Alfredo, após uma violenta discussão, matou a esposa com 32 golpes de punhal. Alfredo alegava que Corina mantinha relações extraconjugais com o Dr. Dória. Com a ajuda do advogado Dr. Vicente Machado, Alfredo Marques de Campos conseguiu absolvição e mudou-se para Minas Gerais e, pouco tempo depois, a notícia do assassinato da esposa chegou até o local onde se estabeleceu. Dessa vez, condenado pela opinião pública, suicidou-se.[1] Quando estava em um hotel no Rio de Janeiro, deu um tiro na cabeça, em setembro de 1895. Deixou um bilhete onde dizia: "morro por estar farto de sofrer".[2]

Lenda, misticismo e cultura popular[editar | editar código-fonte]

Cemitério São José, em Ponta Grossa, onde está o túmulo de Corina Portugal.

Corina foi enterrada no Cemitério Municipal São José de Ponta Grossa, no túmulo número 1258. Para grande parte da população da cidade, ela não traiu o esposo e era uma vítima inocente. Com o passar do tempo sua história tornou-se lenda. Corina adquiriu fama de santidade e seu túmulo tornou-se um local de visitação pública, onde pessoas deixam placas de agradecimento por graças alcançadas, bilhetes com pedidos, terços, flores e inúmeras velas acessas.[5][3] É o túmulo mais visitado no cemitério e é até mesmo considerado "ponto turístico".[6][7] Para os devotos, Corina Portugal é uma guardiã das mães aflitas e auxiliadora das esposas que não são aceitas e compreendidas pelos maridos.[1][2]

Corina Portugal não teve filhos e como sua família era do Rio de Janeiro, voluntárias começaram a cuidar de seu túmulo e a rezar por sua alma. Certo dia, uma mulher por nome de Maria, que também sofria violência doméstica, temendo por sua morte, rezou no túmulo de Corina e pediu para que a falecida intercedesse por sua vida e que seu marido mudasse de comportamento.[3][8] No dia seguinte, o marido de Maria parou com o alcoolismo e se tornou um bom homem. A notícia da graça alcançada fez com que outras mulheres também procurassem o túmulo de Corina no cemitério São José e rezassem.[3]

O túmulo de Corina Portugal possui um valor simbólico muito importante para a cultura de Ponta Grossa e as romarias no seu entorno são passadas de geração para geração, criando um verdadeiro espaço de devoção.[4] O túmulo é uma construção de concreto considerada simples e pequena. Possui aproximadamente um metro de altura, com a capacidade de abrigar somente um corpo. A estrutura é coberta com um reboco irregular e uma pintura sempre de tom claro que está constantemente sendo retocada por voluntários.[3] Há ainda uma antiga placa preservada, com o nome de Corina, e as datas de nascimento e morte.[3]

Josué Corrêa Fernandes recebeu de uma devota o pedido para que escrevesse uma oração para a Corina. A devota acrescentou ao texto a necessidade de fazer cem cópias da oração e deixar sobre o túmulo da santa em caso do pedido atendido, o que logo se tornou um costume local.[2] Josué Corrêa Fernandes escreveu um livro contando a história de Corina Portugal. A primeira edição Corina Portugal: Histórias de Sangue e Luz foi publicada em 1999 e a segunda edição em 2007. A memória de Corina também foi adaptada em diversas publicações, ganhando cordel, música, peças de teatro e até radionovela transmitida por uma emissora local.[2][9]

Em 2016 a professora da Universidade Estadual de Ponta Grossa, Dione Navarro, lançou o livro Corina Portugal: súplicas e respostas, obra que reúne o trabalho de pesquisa junto a devotos, com depoimentos e histórias de vida de fiéis.[5] Em 2019 uma devota muito católica recebeu uma carta do Papa Francisco e na carta o pontífice relata que recebeu da devota um exemplar do livro da história de Corina Portugal. A devota participou de um encontro com o bispo Dom Sérgio Arthur Braschi, afirmando que, embora Corina Portugal seja uma santa não-canônica,[3] a Igreja Católica tem interesse em iniciar o processo de beatificação, a tornando "serva de Deus".[10][11]

Um grupo de pessoas tiveram a iniciativa que um trecho de uma das avenidas da cidade de Ponta Grossa receba o nome de Avenida Corina Portugal, em homenagem a "santa popular", entretanto a mudança deve passar pela Câmara Municipal.[12][13] Em 2010 o prefeito Pedro Wosgrau Filho sancionou a lei nº 039/2010, que denominou a casa Abrigo para Mulheres Vítimas de Violência, como Casa Corina Portugal (Casa das Mulheres Vítimas de Violência Corina Portugal).[14] Corina passou a ser símbolo regional de combate ao feminicídio e em 2021 a Câmara Municipal de Ponta Grossa aprovou o projeto de lei 291/2021 que cria a Lei Municipal Corina Portugal em combate à violência doméstica.[15][16]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. a b c d «A cidade: Túmulo de Corina Portugal». Prefeitura Municipal de Ponta Grossa. Consultado em 21 de novembro de 2021 
  2. a b c d e f g Gisele Barão (10 de outubro de 2015). «Corina, a santa popular dos Campos Gerais». Gazeta do Povo. Consultado em 21 de novembro de 2021 
  3. a b c d e f g h Maura Regina Petruski (2012). «Eu oro, tu oras, eles oram para Corina Portugal». Revista Brasileira de História das Religiões. Departamento de História da Universidade Estadual de Maringá. Consultado em 21 de novembro de 2021 
  4. a b «Paraná: mitos e lendas». Academia Paranaense de Letras. Consultado em 21 de novembro de 2021 
  5. a b c d Marilia Woiciechowski (17 de novembro de 2016). «Professora lança livro sobre Corina Portugal». Universidade Estadual de Ponta Grossa. Consultado em 21 de novembro de 2021 
  6. Flora Guedes (18 de julho de 2006). «Lindo de morrer! Cemitério é ponto turístico». Folha de Londrina. Consultado em 21 de novembro de 2021 
  7. «Fotos revelam beleza e história nos cemitérios de PG». A Rede. 10 de fevereiro de 2020. Consultado em 21 de novembro de 2021 
  8. Gisele Manjurma (9 de maio de 2011). «Série Santos Populares: Corina Portugal». Cultura Plural. Departamento de Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa. Consultado em 21 de novembro de 2021 
  9. «Espetáculo que retrata o drama da 'santinha' estreia em Ponta Grossa». G1 Paraná. 21 de outubro de 2015. Consultado em 21 de novembro de 2021 
  10. «Corina Portugal: de vítima de feminicídio a possível santa; Saiba como está o processo de beatificação». D'Ponta News. 22 de março de 2020. Consultado em 21 de novembro de 2021 
  11. «Escritora e arquiteto desenvolvem projeto de Memorial para Corina Portugal». A Rede. 12 de setembro de 2020. Consultado em 21 de novembro de 2021 
  12. Leonardo Camargo (4 de abril de 2015). «Corina Portugal: a santa dos pontagrossenses». Cultura Plural. Departamento de Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa. Consultado em 21 de novembro de 2021 
  13. Gizele Silva (16 de março de 2015). «Grupo quer mudar nome de rua para homenagear 'santa' de Ponta Grossa». G1 Paraná. Consultado em 21 de novembro de 2021 
  14. «Ponta Grossa aprova nova lei de combate à violência doméstica contra mulheres». Elos UEPG. 30 de julho de 2021. Consultado em 21 de novembro de 2021 
  15. «Passos protocola projeto de Lei "Corina Portugal"». A Rede. 25 de novembro de 2020. Consultado em 21 de novembro de 2021 
  16. Patrícia Lucini (7 de julho de 2021). «Câmara aprova lei 'Corina Portugal', de combate à violência doméstica». DC Mais. Consultado em 21 de novembro de 2021 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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