Crise do terceiro século

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A Crise do Século III foi um conjunto de acontecimentos que abalaram a cultura, economia e, sobretudo, a politica do Império Romano no século III d. C. Entre os historiadores, existem muitas divergências a respeito da intensidade em que se desenrolaram os acontecimentos desse período, assim como da perpetuidade desses acontecimentos. Existe também uma ambiguidade entre os autores que escrevem a respeito desse tema. Na escrita de alguns a Crise do Terceiro Século adquire um caráter de decadência irreparável, em contraponto, autores como André Piganiol e Peter Brown têm esse momento histórico como o inicio de um período de mutação, e não de declínio.

O Império Romano dividido em 260 d.C.

No fim do século II, ocorreu uma guerra civil de sucessão, que abalou profundamente o império. Na primeira metade do século seguinte, o império se manteve próspero e extenso, até que o poderoso Império Sassânida, ao leste, começou a fazer ataques ao Império Romano. No ano de 260, foram capturados o Imperador Valeriano e todo o seu exército de 70 mil homens. Sem muita defesa, as províncias do leste foram devastadas.

A Peste de Cipriano se espalhou pelo império e tornou-se uma epidemia. Além desses problemas, o Império Romano ainda iria se deparar com outro poderoso inimigo ao norte: os godos. O avanço da peste e os fracassos militares do império eram tão frustrantes que o povo passou a buscar novas crenças e rituais para afastar os perigos, ao mesmo tempo que se intensificou a perseguição aos cristãos. Rumores de que os acontecimentos negativos eram algum tipo de castigo para o Império Romano se espalharam por toda a Europa.

Essa crise se teria dado inicio após o assassinato do Imperador Alexandre Severo, em 235, e teria como uma de suas principais características “a anarquia militar, resultado do aumento em importância do exército na vida política, em detrimento das instituições tradicionais, como o Senado.” (LOT, Ferdinand). Esse processo de enfraquecimento do senado romano foi acompanhado pelo fortalecimento cada vez maior das legiões romanas nas decisões relativas à escolha dos imperadores, em função de seus interesses imediatos e, por consequência, na administração do império. Isso levou inevitavelmente à escolha de imperadores despreparados e incompetentes.

Durante este período, o império foi governado sucessivamente por cerca de dezoito imperadores "legítimos". A maioria deles era de prominentes generais que assumiram o poder imperial sobre todo ou parte do império, somente para perdê-lo por derrota em combate, assassinato ou mortes naturais, governando em média apenas dois a três anos. O número exato de imperadores do período é desconhecido, pois não considera aqueles nomeados junto com pais e colegas, e ainda desconsidera os pretendentes e usurpadores.

Devido a esse processo de transição anárquica aconteceram varias guerras civis, além das tensões oriundas da repressão imposta pelos exércitos para controlar essas situações. Devido a isso, houve um aumento da pressão exercida pelos bárbaros nas fronteiras do Reno e do Danúbio, entretanto, nos anos 270, a situação na fronteira se restabeleceu sob o Imperador Aureliano e logo depois foram introduzidas reformas na organização do exército.

Trabalhos mais recentes têm mostrado que as reformas militares, políticas e econômicas puseram fim ao pior da crise antes mesmo do final do século III. Com a crise do terceiro século, começaram as transformações que, mais de um século depois, levariam ao fim do período histórico conhecido como Antiguidade e o início da Idade Média.

Aspectos Econômicos[editar | editar código-fonte]

Com a ascensão do imperador Diocleciano (r. 284–305) encerrou-se a crise do terceiro século.

A decadência do Império Romano estava relacionada, primeiramente, com a crise do sistema escravista, iniciada na transição do século II para o século III d.C. Esse sistema era parte essencial da economia romana, que contava com a renovação da população de escravos do império por meio das guerras de conquista e expansão.

No entanto, essas guerras de conquista não aconteciam desde o século II d.C., com a última grande vitória romana contra os dácios em 106 d.C., durante a Batalha de Sarmizegetusa. Com a diminuição na quantidade de escravos e como não havia a renovação natural dessa população, a disponibilidade dessa mão de obra no império começou a diminuir. Assim, esse processo afetou a economia romana e causou a diminuição de sua produtividade, provocando, consequentemente, um aumento no custo de vida em todo o império.

Segundo o historiador francês Ferdinand Lot o mundo romano já estaria passando, desde a segunda metade do século II, por perturbações econômicas ainda mais graves, tais como a perda de valor da moeda, a diminuição brutal da arrecadação de impostos e a queda da produção agrícola. Sendo assim, essas transformações trouxeram como resposta o retorno da economia natural, que equivale basicamente a economia da idade média. Ou seja, a depreciação das moedas e o esgotamento das reservas de metais preciosos conduziram às práticas sistemáticas de troca, de pagamentos de impostos e de serviços com produtos (in natura), todas elas típicas do período medieval.

Entretanto no interior do Império a moeda continuou a circular; mesmo havendo a desvalorização da moeda houveram regiões como a África e a parte oriental do Império Romano que prosperaram no final do século III, devido a transferência de víveres as regiões mais necessitadas fornecendo também, a liquidez necessária às despesas públicas.

Aspectos Religiosos[editar | editar código-fonte]

Durante esse período de crise a maior beneficiada, por assim dizer, foi a religião cristã que já no século I tinha começado sua ascensão. Durante a crise a Igreja ganhou mais força, “pois é exatamente em momentos assim, quando o governo não pode ampará-los, que o povo corre para a segurança da religião e da fé”. E era isso que a Igreja/religião cristã oferecia estabilidade e paz, além de ter um ideal de igualdade que a tornava acessível para todos (escravos eram bem vindos, bem como mulheres e homens livres, ricos e pobres).

Vale lembrar que o paganismo ainda estava presente, talvez ele nunca tenha morrido completamente, mas sua força era menor do que outrora tinha sido já que o poder maior estava com a igreja cristã. Mas através dele houve vários desenvolvimentos em áreas como a matemática, arquitetura escultura e literatura.

Como dito anteriormente a crise gerou no povo um grande sentimento religioso, levando todos aos templos (pagãos) para fazer preces e pedir aos deuses. O motivo disso eram as “invasões bárbaras” que vieram em grande número naquele período. Durante isso a igreja cristã se absteve, já que era contra o serviço militar e desprezava os deuses e acreditava que a situação do Império era algo profetizado e antecipava a volta de Cristo.

Apesar de a Igreja ter ganhado força nesse momento ela também foi muito perseguida. No ano 249 o atual imperador Décio liderou uma perseguição aos cristãos que levou a morte de centenas deles, acabando apenas em 251. E em 257 o imperador Valeriano, em meio à crise de invasões disse ao povo que buscasse conforto na religião, no entanto proibiu assembléias cristãs.

Mas esse também foi século dos editos em favor da religião cristã. Em 261 Galieno lançou o primeiro edito de tolerância que reconhecia o cristianismo como uma religião, houve ainda algumas perseguições, mas em escala menor e não promovidas pelo estado. A razão para se dizer que a religião cristã foi a mais beneficiada é que, quando o povo passou a buscar a religião para se resguardar da crise o cristianismo foi aquela que ofereceu o maior conforto em vez dos credos pagãos. “A Igreja converteu muita gente rica, ergueu catedrais e foi permitido que seus adeptos compartilhassem das alegrias do povo.” (DURANT, 1971, p 508). E por isso que a crise do século III foi de grande importância para a religião e a Igreja cristã, nos séculos posteriores viriam editos que tornariam o cristianismo algo oficial e até mesmo a religião do Império.

Aspectos Políticos[editar | editar código-fonte]

Referente aos aspectos políticos durante a crise do século III, pode-se dizer que roma foi abandonando, gradativamente, seu caráter aristocrático, anteriormente percebido nos poderes investidos ao senado romano, para tornar-se um império militar. A deposição, por assassinato, de Alexandre Severo, durante um motim da XXII legião Primigenia, marcou o início do período anárquico militar, que foi uma das característica marcantes da crise. Esta, se efetivou a partir das constantes intervenções militares, no âmbito político, depondo e intitulando imperadores, a maioria de proeminentes generais.

Os imperadores exerciam poder sobre todo império; do contrário, somente por uma parte, quando as legiões que constituiam o exército romano intitulavam mais de uma pessoa, concomitantemente, ao cargo. Neste caso, o poder imperial abrangia os territórios respectivos aos da unidade militar que o havia nomeado. Por vezes, a função imperial chegava a ser vendida, isso porque, em meio a todas as intervenções, considerava-se os benefícios materiais que o exército viria a ter com aquilo. No entanto, com as constantes substituições; que se davam por meio de combate, morte natural e, principalmente, assassinato pelas mãos de soldados; o terror substituiu a aspiração pelo título de imperador, dado que os candidatos temiam pelas próprias vidas. Durante este período, o império chegou a ser governado, sucessivamente, por cerca de dezoito imperadores "legítimos" e uma regência durava, em média, apenas dois ou três anos.

A grande instabilidade política durante o dado momento histórico, construiu, gradualmente, a afirmação de uma nova concepção do poder imperial. O que era antes interpretado como a encarnação suprema da coisa pública, passou a ser encarado como mais um cargo de caráter simbólico, não determinante na dirigência do império. A burocracia estatal que manteve o Estado romano. Com isso, justifica-se a marcante falta de autoridade, demonstrada pelos imperadores da época, na manutenção, de forma prolongada, do controle sobre o império.

Esse processo, ocasionando, também, o enfraquecimento do senado romano, foi acompanhado pelo fortalecimento cada vez maior das legiões romanas nas decisões relativas à escolha dos imperadores, sempre em função de seus interesses imediatos e, por consequência, na administração do império. Isso levou inevitavelmente à escolha de imperadores despreparados e incompetentes.

Diante da crise generalizada, que atingiu diversos âmbitos do Império Romano, os centros urbanos passaram a sofrer com desabastecimento e falta de assistência estatal. Paralelo à crise do sistema escravista, que gerou um recesso econômico e diminuições nas produção agrícola e impostos arrecadados pelo império; a chegada dos povos germânicos, bastante atraídos pela realização de saques em cidades, que eram centros de acúmulo de riquezas; e o receio da população para com a violência que vinha se fazendo fortemente presente; houve a gradativa migração, ao longo do século III, do povo romano, rumo ao campo. Passou-se a adotar, no meio Rural, o sistema de arrendamento, em que o camponês arrendatário produzia num lote concedido pelo proprietário da terra e em troca da retirada do seu sustento, destinava parte de sua produção para o mesmo. Esta prática seria uma das primeiras manifestações do que originou o feudalismo, que marcou toda a Idade Média.

O crescimento do cristianismo, ainda, foi um outro fator de relevância para o agravamento dessa crise, uma vez que o avanço dessa religião provocou o enfraquecimento da figura do imperador, já que os cristãos não aceitavam prestar-lhe culto religioso, como era o costume na época.

Com a chegada de Diocleciano ao poder, em 284 d.C., considera-se o fim da crise do século III. Nesse momento, houve, novamente, a afirmação de um novo conceito do poder imperial; com a aproximação mítico-religiosa feita pelos imperadores, de forma que tudo que os cercava era tido como sagrado, afirmando o direito divino dos soberanos e reforçando a influência oriental, helenística e persa, principalmente. Resgatou-se, assim, a atuação efetiva da autoridade do imperador. Suas reformas administrativas, com uma série de medidas, empreendendo amplas alterações no setor público, buscaram conter as consequências da crise. No entanto, não muito cedo deixou-se de conviver com as consequências da crise.

Durante a crise do terceiro século, começaram as transformações que, mais de um século depois, levariam ao fim do período histórico conhecido como Antiguidade e o início da Idade Média.

Invasões[editar | editar código-fonte]

Um dos fatores para a instauração e consolidação da crise no império romano foram as invasões* germânicas que aconteceram durante esse período. Com o império enfraquecido politicamente e economicamente, o exército ficou em um estado de paralisia, pois não obtinha recurso suficiente para realizar suas campanhas de expansão ou proteger as cidades mais próximas as fronteiras.

Percebendo esse enfraquecimento militar romano, os germânicos fizeram um grande estrago no império. Eles conseguiram entrar em diversos pontos da fronteira, conquistando diversas áreas importantes do mundo romano. Grandes minas de metais preciosos tiveram que ser abandonados pelos imperadores, fazendo com que houvesse uma escassez de obras de arte ornamentadas além da cunhagem das moedas que instaurou uma crise econômica no império.

As áreas ocupadas pelos germânicos também eram importantes terras agrícolas, que abasteciam o império. Devido a esse fator foi criado um acordo entre os germânicos e os romanos que foi chamado de colonato onde era permitido que os germânicos usassem a terra desde que eles pagassem uma taxa e servissem ao exército quando necessário.

Mesmo quando o exército tendo tomado o poder durante esse tempo, devido a crise política as estradas eram bastante inseguras e taxas tributárias cada vez mais altas a prática comercial diminuiu drasticamente no império, além de a inflação está muito alta o que fez com que a população voltasse ao escambo. Essa falta de segurança também fez com que as pessoas vivessem cada vez mais em comunidades fechadas, esses fatos deram origem às vilas medievais.

A arte e a cultura rica que antes transbordavam nas cidades romanas, acabaram acompanhando a situação econômica e política do império, a arquitetura romana continuou imponente e soberana, porém as obras de arte quase pararam de ser produzidas pelo povo, nem mesmo os reis conseguiam esbanjar tanto como antes.

Aureliano imaginando que os bárbaros** também tentariam invadir o império pediu que o senado financiasse a construção de diversas muralhas nos arredores das cidades romanas, principalmente da capital. E ao invés de esperar um ataque, ele mesmo conduziu as tropas para invadir os territórios ocupados pelos germânicos. Ele conseguiu estabelecer a paz no Império, após isso iniciou uma série reformas políticas e econômicas. Atribuiu a desordem à desunião religiosa e fez com que o império ficasse estabilizado para os futuros governos de Diocleciano e Constantino.

*O termo ‘invasões’ comumente empregado pode em algumas vezes estar equivocado quando de trata das migrações germânicas que sempre aconteceram, muitas vezes pacificamente, para dentro do Império.
**A expressão ‘bárbaros’ é um forma preconceituosa de se referir aos germânicos, que eram vistos pelos romanos como um povo não civilizado.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

1. DURANT, Will. A HISTÓRIA DA CIVILIZAÇÃO III, César e Cristo, História da Civilização Romana do Cristianismo até o ano 325. 3ª Edição.

2. SILVA, Marcelo Cândido da. 4 de setembro de 476: A queda de Roma.