Crise migratória na Europa
A Crise migratória na Europa,[1] também conhecida como crise migratória no Mediterrâneo[2] e crise de refugiados na Europa,[3] é como se denomina a atual situação humanitária crítica que se tornou mais grave no ano de 2015, por conta do aumento descontrolado de refugiados solicitantes de asilo, imigrantes econômicos e outros imigrantes, que em conjunto partem, principalmente, de África e do Oriente Médio para países europeus.[4]
A crise surgiu como consequência do crescente número de migrantes irregulares que chegam (ou tentam chegar) aos estados membros da União Europeia, através de perigosas travessias no mar Mediterrâneo e no Bálcãs, procedentes de África, Oriente Médio e Ásia do Sul. A maioria destes movimentos migratórios caracterizam-se por ser migração forçada de vítimas de conflitos armados, perseguições, pobreza, mudanças climáticas e violações massivas dos direitos humanos, além da ação massiva de grupos de tráfico ilegal que exploram migrantes vulneráveis.[5]
Trata-se da maior crise migratória e humanitária na Europa após a Segunda Guerra Mundial. Segundo o vice-presidente da Comissão Europeia, Frans Timmermans, é uma "crise mundial que necessita de resposta europeia".[6]
Causas[editar | editar código-fonte]
Entre 2007 e 2011, um grande número de imigrantes ilegais provenientes do Médio Oriente e África cruzaram a fronteira entre a Turquia e a Grécia, levando a Grécia e a Agência de Proteção das Fronteiras Europeias (Frontex) para atualizar os controlos nas fronteiras. Em 2012, o fluxo de imigrantes para a Grécia por terra diminuiu 95% após a construção de uma cerca em parte da fronteira grego-turca, que não segue o curso do rio Maritsa (Evros). Em 2015, a Bulgária seguiu com a atualização de uma cerca de fronteira para impedir os fluxos migratórios através da Turquia. Em particular, o reavivamento do conflito na Líbia, no rescaldo da guerra civil tem contribuído para uma escalada de partidas daquele país[7] .
O naufrágio de migrantes ocorrido em 2013 na costa da Ilha de Lampedusa envolveu mais de 360 mortes, levando o governo italiano a estabelecer Operação Mare Nostrum, uma operação naval de grande escala que envolvia busca e salvamento, com alguns migrantes trazidos a bordo de um navio de assalto anfíbio naval. Em 2014, o governo italiano terminou a operação, citando custos a ser demasiado grande para um Estado da UE (União Europeia) sozinho gerir; A Frontex assumiu a principal responsabilidade pelas operações de busca e salvamento. A Frontex nomeou a operação de Tritão. O governo italiano solicitou fundos adicionais da UE para continuar a operação, mas os Estados-Membros não ofereceram o apoio solicitado. O governo do Reino Unido citou temores de que a operação atuasse como um involuntário fator de atração incentivando mais migrantes para tentar a travessia marítima e, assim, levando a mais mortes trágicas e desnecessárias. O seu orçamento mensal é estimado em €2,9 milhões[8] .
Números[editar | editar código-fonte]
| Migrantes que cruzaram as fronteiras da UE em 2014 por região de origem[9] |
|
|---|---|
| Síria | 66.698 |
| Eritreia | 34.323 |
| África subsaariana | 26.341 |
| Afeganistão | 12.687 |
| Mali | 9.789 |
| Gâmbia | 8.642 |
| Nigéria | 8.490 |
| Somália | 7.440 |
| Palestina | 6.418 |
| Senegal | 4.769 |
| Marrocos | 116[10] |
| Outros | 34.597 |
| Total | 220.194 |
Segundo a Organização Internacional de Migração, até 3.072 pessoas morreram ou desapareceram em 2014 no Mediterrâneo durante a tentativa de migrar para a Europa. As estimativas globais são de que mais de 22 mil imigrantes morreram entre 2000 e 2014.
Em 2014, 283.532 migrantes irregulares entraram na União Europeia, sobretudo seguindo a rota do Mediterrâneo Central, Mediterrâneo Oriental e rotas dos Bálcãs Ocidentais. 220.194 migrantes atravessaram fronteiras marítimas da UE na Europa Central, Oriental e Ocidental do Mediterrâneo (um aumento de 266% em relação a 2013). Metade deles tinha vindo da Síria, Eritreia e do Afeganistão.
Em 2015 até o mês de setembro, a OIM (Organização Internacional de Migração) afirmou que o número de imigrantes havia batido a marca de 350.000.[11]
A Alemanha estimou em 800.000 o número de pessoas que pedirão asilo a algum país da União Europeia em 2015[12] .
Rotas[editar | editar código-fonte]
A partir de agosto de 2015, a Frontex reconheceu as seguintes rotas gerais sobre mar e em terra utilizados pelos imigrantes ilegais e traficantes de seres humanos para entrar na UE[13] :
-
- A rota Ocidental Africana;
- A rota do Mediterrâneo Ocidental;
- a rota do Mediterrâneo;
- a rota Puglia e da Calábria;
- a rota circular da Albânia para a Grécia;
- a rota dos Bálcãs Ocidentais (da Grécia pela Macedônia e Sérvia para a Hungria);
- a rota do Mediterrâneo Oriental;
- a rota das fronteiras orientais.
Uma vez na Europa, os imigrantes tentam chegar aos países mais ricos, como França, Alemanha e Reino Unido. Muitos, para tentar chegar ao Reino Unido pelo Eurotúnel, ficam acampados em Calais, na França, onde se arriscam em caçambas de caminhões, o que levou os governos francês e britânico a intensificar a fiscalização na passagem, gerando atrasos. [14] No início de setembro de 2015, a crise se intensificou na Hungria, pois é parte da principal rota que leva imigrantes do Oriente Médio, principalmente da Síria para países mais ricos, notadamente a Alemanha. A massa de gente tentando tomar trens para o país levou ao fechamento da Estação Central de Budapeste, mas foi reaberta no final da primeira semana do mês. [15] .
O aumento do fluxo contínuo levou a Hungria a fechar a fronteira com a Sérvia, ao mesmo tempo que construiu uma segunda barreira na sua fronteira com a Croácia[16] .
Com a fronteira fechada entre a Sérvia e a Hungria, a Croácia tornou-se a rota mais utilizada para os que pretendem chegar ao centro e norte da Europa. O crescente fluxo de imigrantes levou a Eslovénia a barrar comboios vindos da vizinha Croácia[17] .
Reações[editar | editar código-fonte]
Nos termos da Convenção de Dublin, se uma pessoa que entrou com pedido de asilo num país da UE atravessa as fronteiras ilegalmente para outro país, eles serão devolvidos para o primeiro. Diante do agravamento da crise migratória em 2015, a Hungria tornou-se sobrecarregada por pedidos de asilo e suspendeu parte dos acordos firmados na Convenção. Seguindo este mesmo caminho, em 24 de Agosto, a Alemanha decidiu também suspender a Convenção de Dublin no que diz respeito refugiados sírios para poder processar seus pedidos de asilo que já haviam dado entrada. Em 2 de setembro de 2015, a República Checa também decidiu desafiar a Convenção de Dublin para atender aos pedidos de refugiados sírios que já haviam solicitado asilo em outros países da UE e que chegavam ao país.
No inicio de setembro de 2015 a Alemanha afirmou que facilitará a entrada de imigrantes e os pedidos de asilo para viver em seu território, dessa forma o país espera receber até 400 mil refugiados só em 2015.[18]
Em 11 de setembro a Comissão Europeia discutiu planos para tentar distribuir entre os países-membros da UE 160 mil refugiados, porém a proposta foi prontamente rejeitada pela Chéquia, Hungria, Polónia e Eslováquia.[19]
Reações internacionais[editar | editar código-fonte]
ONU - As Nações Unidas elogiaram o plano europeu para receber os refugiados, ao mesmo tempo em que cobrou dos Estados Unidos uma ação para ajudar a superar a crise[20] .
Brasil - A presidente do Brasil, Dilma Rousseff, afirmou em pronunciamento à nação no Dia Nacional do Brasil por meio da internet que o país "está aberto a receber refugiados em meio à crise migratória internacional, apesar do momento de superação de dificuldades enfrentadas pelo país"[21] .
Chile - O governo chileno afirmou que dará asilo a famílias sírias e que já deu início ao exame de antecedentes necessário para acolher as famílias sírias[22] .
Estados Unidos - Barack Obama, presidente dos Estados Unidos, determinou que sua equipa de governo estude uma forma de oferecer asilo para até 10 mil sírios em 2016[23] .
Islândia - Mais de 11 mil famílias islandesas se ofereceram para receber refugiados em suas casas[24] .
Rússia - O Presidente russo, Vladimir Putin, apontou os Estados Unidos como responsável pela crise migratória na Europa devido sua política externa para o Oriente Médio. Moscovo também afirmou que a Europa só sairá da crise se seguir o caminho russo, que diante da Crise ucraniana acolheu em seu território quase 1 milhão de ucranianos[25] .
Síria - Bashar al-Assad, Presidente da Síria, disse que a própria Europa como o principal responsável pela crise de imigrantes ao apoiar (o que ele chamou de) "grupos terroristas" para tirá-lo do poder[26] .
Portugal - Mais de 1.500 refugiados foram aceites em Portugal, apesar da crise financeira sofrida atualmente pelo país, este não pôs de lado a solidariedade, a mostrou-se de "braços abertos "para acolher as famílias de refugiados.
Ver também[editar | editar código-fonte]
Referências
- ↑ El País. Crise migratória se intensifica e se espalha pela Europa. Agências, El País. Disponível em <http://brasil.elpais.com/brasil/2015/09/02/internacional/1441183350_554595.html>. Acesso em setembro de 2015
- ↑ MELO, Karine. União Europeia se reúne para discutir crise migratória do Mediterrâneo. Agência Brasil. Disponível em <http://www.ebc.com.br/noticias/internacional/2015/04/uniao-europeia-se-reune-para-discutir-crise-migratoria-do>. Acesso em setembro de 2015
- ↑ Agência Lusa. Conselho de Segurança da ONU vai discutir crise de refugiados na Europa. Agência Brasil. Disponível em <http://www.ebc.com.br/noticias/internacional/2015/09/conselho-de-seguranca-da-onu-vai-discutir-crise-de-refugiados-na>. Acesso em setembro de 2015
- ↑ DUARTE-PLON, Leneide. Imigração e refugiados na Europa - O desafio do século. Carta Maior, 2015; Paris. Disponível em <http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/Imigracao-e-refugiados-na-Europa-O-desafio-do-seculo/6/34349>. Acesso em setembro de 2015
- ↑ CAMPOS, Amanda. Entenda a crise migratória na Europa. IG, São Paulo. Disponível em <http://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/2015-08-29/entenda-a-crise-migratoria-na-europa.html>. Acesso em setembro de 2015
- ↑ YÁRNOZ, Carlos. Bruxelas pede solidariedade aos países diante da crise migratória mundial. El País, 2015. Disponível em <http://brasil.elpais.com/brasil/2015/08/31/internacional/1441011455_240909.html>. Acesso em setembro de 2015
- ↑ LUSA. Merkel recebe Rajoy com a crise migratória a dominar a agenda do encontro. RTP; Agosto de 2015. Disponível em <http://www.rtp.pt/noticias/mundo/merkel-recebe-rajoy-com-a-crise-migratoria-a-dominar-a-agenda-do-encontro_n854907>. Acesso em setembro de 2015
- ↑ Jornal Notícias. CRISE MIGRATÓRIA NO MEDITERRÂNEO: Mais de 100 mil pessoas chegaram à Europa este ano. Jornal Notícias. Disponível em <http://www.jornalnoticias.co.mz/index.php/internacional/37958-crise-migratoria-no-mediterraneo-mais-de-100-mil-pessoas-chegaram-a-europa-este-ano>. Acesso em setembro de 2015
- ↑ Annual Risk Analysis 2015 Frontex.
- ↑ "Italy Arrests Ship's Captain and Crew Over Suffocation Deaths of 49 Migrants", New York Times, 18 Agosto 2015. Página visitada em 1 Setembro 2015.
- ↑ Agência Brasil. Comissão Europeia prepara sistema permanente para receber imigrantes. Agência Brasil, 2015. Disponível em <http://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2015-09/comissao-europeia-prepara-sistema-permanente-para-gestao-de-imigrantes>. Acesso em setembro de 2015
- ↑ AFP. Europa enfrenta a mais grave crise migratória desde 1945. RBS; Paris, 2015. Disponível em <http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2015/09/europa-enfrenta-a-mais-grave-crise-migratoria-desde-1945-4847498.html>. Acesso em setembro de 2015
- ↑ BBC Brasil. As perigosas rotas de migração para entrada na Europa. BBC, 2015. Disponível em <http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2013/10/131028_mapa_imigracao_lk>. Acesso em setembro de 2015
- ↑ http://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/08/eurotunel-sofre-17-mil-tentativas-de-invasao-durante-madrugada.html
- ↑ http://g1.globo.com/fantastico/noticia/2015/09/desde-o-comeco-do-ano-150-mil-imigrantes-entraram-na-hungria.html
- ↑ Reuters apud SAPO. Hungria termina vedação de arame farpado na fronteira com a Croácia. Sic Notícias, 2015. Disponível em <http://sicnoticias.sapo.pt/especiais/crise-migratoria/2015-09-19-Hungria-termina-vedacao-de-arame-farpado-na-fronteira-com-a-Croacia>. Acesso em Setembro de 2015
- ↑ Tribuna do Norte. Governo esloveno barra trens vindos da Croácia. Bahia, 2015. Disponível em <http://tribunadonorte.com.br/noticia/governo-esloveno-barra-trens-vindos-da-croa-cia/324865>. Acesso em setembro de 2015
- ↑ DW. Alemanha espera receber até 400 mil refugiados em 2015. Disponível em <http://www.dw.com/pt/alemanha-espera-receber-at%C3%A9-400-mil-refugiados-em-2015/a-18430510>. Acesso em setembro de 2015
- ↑ DW. Alemanha espera receber até 400 mil refugiados em 2015. Disponível em <http://www.dw.com/pt/alemanha-espera-receber-at%C3%A9-400-mil-refugiados-em-2015/a-18430510>. Acesso em setembro de 2015
- ↑ REUTERS. ONU elogia plano europeu para refugiados; diz que UE tem de respeitar direito ao asilo. Reuters Brasil, 2015. Disponível em <http://br.reuters.com/article/worldNews/idBRKCN0RB18S20150911>. Acesso em setembro de 2015
- ↑ REUTERS. Brasil está aberto a receber refugiados apesar do momento difícil do país, diz Dilma. Disponível em <http://www.gazetadopovo.com.br/mundo/brasil-esta-aberto-a-receber-refugiados-apesar-do-momento-dificil-do-pais-diz-dilma-6xxur515xui2et97nrkhkuzme>. Gazeta do Povo. Acesso em setembro de 2015
- ↑ JARA, Antonio de la. Chile dará refúgio a famílias sírias afetadas por guerra civil. DCI. Disponível em <http://www.dci.com.br/internacional/chile-dara-refugio-a-familias-sirias-afetadas-por-guerra-civil-id494381.html>. Acesso em setembro de 2015
- ↑ Correio da Bahia. Obama pretende receber 10 mil refugiados sírios nos EUA em 2016. Salvador, 2015. Disponível em <http://www.correio24horas.com.br/detalhe/noticia/obama-pretende-receber-10-mil-refugiados-sirios-nos-eua-em-2016/?cHash=717abfc5a20f863778f7b29bc65f5de5>. Acesso em setembro de 2015.
- ↑ BBC Brasil. O outro lado da crise migratória: islandeses oferecem suas casas a refugiados. Disponível em <http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/09/150903_crise_migratoria_islandeses_mdb>. Acesso em setembro de 2015
- ↑ BOL. Putin responsabiliza EUA por crise de refugiados na Europa. UOL, 2015. Disponível em <http://noticias.bol.uol.com.br/ultimas-noticias/internacional/2015/09/04/putin-responsabiliza-eua-por-crise-de-refugiados-na-europa.htm>. Acesso em setembro de 2015.
- ↑ RC/rtr/dpa. Assad culpa Europa por crise migratória. Terra, 2015. Disponível em <http://noticias.terra.com.br/assad-culpa-europa-por-crise-migratoria,5c40232a425370ee2edf107844d121c6heao0k7v.html>. Acesso em setembro de 2015