Culto à personalidade de Stalin

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Pôster de Stalin exibido num evento em Leipzig em 1950
Uma celebração do aniversário de 70 anos de Stalin na República Popular da China

O culto à personalidade de Josef Stalin tornou-se parte proeminente da cultura da União Soviética a partir de dezembro de 1929, depois de uma suntuosa celebração para o aniversário de 50 anos do líder soviético.[1] Pelo restante de seu governo, a imprensa soviética o retratou como um líder omnipotente, onisciente, cujo nome era onipresente. A partir de 1936, o jornalismo soviético começou a referir-se a ele como o "Pai das Nações".[2]

Imagem na propaganda e na mídia de massa[editar | editar código-fonte]

A imprensa soviética elogiava constantemente Stalin, descrevendo-o como "grande", "amado", "ousado", "sábio", "inspirador" e "gênio".[3] Retratou-o como uma figura paterna carinhosa, porém forte, com a população soviética como suas "crianças".[4] Interações entre Stalin e crianças tornaram-se elementos-chave do culto de personalidade. Com frequência, participava de trocas de presentes com crianças soviéticas de uma gama variada de etnias. A partir de 1935, a frase "Obrigado, Querido Camarada Stalin, por uma Infância Feliz!" começou a aparecer acima de portas em berçários, orfanatos e escolas; crianças também entoavam este slogan em festivais.[5]

Discursos descreviam Stalin como "Nosso Melhor Trabalhador de Kolkhoz", "Nosso Udarnik, Nosso Melhor do Melhor" e "Nosso Querido, Nossa Estrela Guia".[3] Sua imagem como uma figura paterna era uma maneira pela qual os propagandistas soviéticos almejavam incorporar linguagem e símbolos religiosos tradicionais ao culta à personalidade; o título de "pai" agora pertencia, em primeiro lugar, a Stalin em vez de aos padres da Igreja Ortodoxa Russa. O culto à personalidade também adaptou as tradições cristãs de procissão e devoção a ícones através do uso de desfiles stalinistas e efígies. Ao reaplicar aspectos diversos da religião ao culto à personalidade, a imprensa ambicionava afastar a devoção à igreja e redirecioná-la a Stalin.[6]

Inicialmente, a imprensa também visava demonstrar um elo direto entre Stalin e o povo; com frequência, jornais publicavam cartas coletivas de trabalhadores rurais ou industriais elogiando o líder,[7] assim como relatos e poemas sobre encontros com Stalin. Logo após a revolução de Outubro de 1917, Ivan Tovstukha esboçou uma seção biográfica que incluía proeminentemente Stalin para o Dicionário Enciclopédico Granat.[8] Muito embora a maior parte da descrição da carreira de Stalin estivesse bastante ornamentada, ela havia agradado tanto o público que lançaram-na como um panfleto avulso de catorze páginas intitulado Josef Vissariónovitch Stalin: Uma Pequena Biografia com uma tiragem de 50 000.[9] Contudo, estes tipos de relatos diminuíram depois da Segunda Guerra Mundial; Stalin recuou da vida pública e a imprensa passou a focar-se em contatos remotos (i.e. relatos de recebimento de um telegrama de Stalin ou vendo o líder de longe).[10] Outra parte proeminente da imagem de Stalin na mídia de massa era sua associação com Vladimir Lenin. A imprensa soviética afirmava que Stalin havia sido companheiro constante de Lenin enquanto este estava vivo, e que, como tal, Stalin seguia de perto os ensinamentos de Lenin e poderia continuar o legado bolchevique após sua morte.[11] Stalin defendeu ferrenhamente a exatidão das visões de Lenin em público e, ao fazê-lo, sugeria que, como fiel seguidor do Leninismo, sua própria liderança seria igualmente irrepreensível.[12]

Lenin não queria que Stalin o sucedesse, afirmando que "o camarada Stalin é brusco demais" e sugerindo que o partido encontrasse alguém "mais tolerante, mais leal, mais correto".[13][3] Stalin não conseguiu suprimir por completo o Testamento de Lenin, sugerindo que outros removam Stalin de sua posição de líder do partido Comunista. Contudo, alguns — como o historiador Stephen Kotkin — argumentaram que estas declarações de Lenin foram, em verdade, falsificações, não escritas ou assinadas por Lenin, mas, supostamente, faladas por ele e escritas. De acordo com V. Sakharov, as datas nestas porções supostamente falsificadas também contradizem as datas nos diários dos secretários e médicos de Lenin.[14] Kotkin argumenta que os líderes do partido, tanto Stalin quanto seus opositores, sabiam que estes segmentos eram forjados e, por esta razão, eles não tiveram tanto impacto e Stalin não foi removido de seu posto, muito embora ele tenha oferecido renunciar.[15] Stalin não contestou a validade do segmento forjado, mas transformou-o numa arma de propaganda contra seus inimigos. A seção supostamente forjada chamava-o de "rude demais"; em resposta, Stalin admitiu e desculpou-se por sua rudeza, mas disse que não podia deixar de ser rude com aqueles que lesam o partido.[16] A irmã de Lenin, Maria, também defendeu Stalin de seus oponentes no que dizia respeito a sua amizade com Lenin.[17] Posteriormente, até a esposa de Lenin, Nadejda Krupskaia, veio à defesa de Stalin, embora tivesse, anteriormente, apoiado Zinoviev.[18]

Depois da morte de Lenin, 500 000 cópias de uma fotografia de Lenin e Stalin aparentemente conversando como amigos num banco apareceu por toda União soviética.[3] Antes de 1932, a maioria dos pôsteres de propaganda soviéticos retratavam Lenin e Stalin juntos.[19] Esta propaganda foi adotada por Stalin, que usou esta relação como arma em discursos ao proletariado, afirmando que Lenin era "o grande professor do proletariado de todas as nações" e, subsequentemente, identificando-se com o proletariado por sua afinidade como estudantes mútuos de Lenin.[20] Contudo, eventualmente, as duas figuram mesclaram-se na imprensa soviética; Stalin tornou-se a personificação de Lenin. Inicialmente, a imprensa atribuiu todo e qualquer sucesso dentro da União Soviética à sábia liderança tanto de Lenin quanto de Stalin, mas, eventualmente, Stalin sozinho tornou-se a causa reconhecida do bem-estar soviético.[21]

Outras exibições de devoção[editar | editar código-fonte]

Stalin tornou-se o foco da literatura, poesia, música, pintura e cinema, que exibiam uma devoção bajuladora. Um exemplo foi o "Hino a Stalin", de A. V. Avidenko:

Obrigado, Stalin. Obrigado a você porque sou feliz. Obrigado a você porque estou bem. Não importa quão velho eu fique, nunca esquecerei como recebemos Stalin dois dias atrás. Séculos passarão e as gerações vindouras considerar-nos-ão como os mais felizes dos mortais, como os mais afortunados dos homens, porque vivemos no século dos séculos, porque fomos privilegiados de ver Stalin, nosso inspirado líder [...] Tudo pertence a ti, chefe de nosso grande país. E, quando a mulher que amo der-me uma criança, a primeira palavra que ela proferirá será: Stalin...[22]

Inúmeras imagens e estátuas de Stalin adornavam espaços públicos. Em 1955, um monumento gigante dedicado a Stalin foi construído em Praga e permaneceu de pé até 1962. A estátua foi um presente de Praga pelo sexagésimo-nono aniversário de Stalin para comemorar "a personalidade do Sr. Stalin, sobretudo suas características ideológicas".[23] Demorando 5 anos para ser construída, a enorme construção de 17 000 toneladas foi revelada ao público, retratando Stalin como estando a frente de um grupo de trabalhadores proletários.[24] Estátuas de Stalin retratando-o com uma altura e físico próximos aos do Czar Alezandre III, mas evidências fotográfias sugerem que ele tinha entre 1,65m e 1,68m. Também apareceu arte que o tinha como tema: começando nos início dos anos 1930, muitas casas particulares traziam "salas de Stalin" dedicadas ao líder e trazendo seu retrato.[25] Embora não fosse um uniforme oficial, líderes do partido por toda a União Soviética, como maneira de provar sua devoção, imitavam o traje costumeiro do ditador, constituído de uma jaqueta verde-escuro, calças de equitação, botas e chapéu.[3]

O advento do culto também levou a uma série de renomeações: numerosas cidades, vilas e municípios tiveram seus nomes trocados em homenagem ao líder soviético. O Prêmio Stalin e o Prêmio Stalin da Paz também foram nomeados em sua homenagem, e ele aceitou vários títulos grandiloquentes (por exemplo, "Pai das Nações", "Construtor do Socialismo", "Arquiteto do Comunismo", "Líder da Humanidade Progressiva" e outros).

O culto atingiu novos níveis durante a Segunda Guerra Mundial, com o nome de Stalin incluído no novo hino nacional soviético.

Stalin e a juventude[editar | editar código-fonte]

Uma maneira pela qual o culto a Stalin foi disseminado foi através do Komsomol, a Liga Comunista Leninista da Juventude de Toda a União, criado em 1918. As idades destes jovens iam desde 9 até 28 anos, tornando-o um instrumento propício para remodelar os membros e a ideologia da União Soviética. Este organização foi criada para transformar a geração seguinte no tipo de socialista que Stalin tinha em mente. Ser parte desta organização era benéfico aos participantes, pois eram favorecidos em detrimento de não membros quando nos momentos de conseguir bolsas de estudo e empregos.[26] Assim como a maioria dos clubes de juventude, focavam-se na educação e saúde de seus membros, com esportes e atividades físicas. Também focavam-se no comportamento e caráter dos jovens. As crianças eram encorajadas a rejeitar todos que não incorporassem os valores de um socialista. Casos de mentiras e trapaças na escola resultavam em "julgamentos de sala de aula".[27] Stalin queria que os melhores prevalecessem em sua visão da união Soviética do futuro, para isso pôs em prática um decreto que puniria a deliquencia juvenil, garantindo que as "maçãs boas" fossem aquelas que criassem as condições para sua sociedade ideal.[28]

Organizações como o Komsomol não eram as únicas influências nas crianças da época. Desenhos animados como The Strangers Voice de Ivan Ivanov-Vano, reforçavam a ideia de uma cultura soviética ao retratar o pensamento e os costumes estrangeiros como indesejados e estranhos.[29] Crianças brincavam sua própria versões de "Polícia e Ladrão", chamada "Vermelhos e Brancos", com crianças brigando pelo papel dos principais líderes do partido como Stalin.[27]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Graeme Gill, "The Soviet Leader Cult: Reflections on the Structure of Leadership in the Soviet Union", British Journal of Political Science 10 (1980): 167.
  2. Father of Nations no Encyclopedic dictionary of catchy words and phrases (em inglês).
  3. a b c d e Gunther, John (1940). Inside Europe. [S.l.]: Harper & Brothers. pp. 516–517, 530–532, 534–535 
  4. Gill, "The Soviet Leader Cult", 171.
  5. Catriona Kelly, "Riding the Magic Carpet: Children and the Leader Cult in the Stalin Era", The Slavic and East European Journal 49 (2005): 206–207.
  6. Victoria E. Bonnell, The Iconography of Power: Soviet Political Posters Under Lenin and Stalin (Berkeley: University of California Press, 1999), 165.
  7. Benno Ennker, "The Stalin Cult, Bolshevik Rule and Kremlin Interactions in the 1930s", in The Leader Cult in Communist Dictatorship: Stalin and the Eastern Bloc, ed. Balázs Apor et al. (Nova Iorque: Palgrave Macmillan, 2004), 85.
  8. Brandenberger, David (2014). Propaganda State in Crisis: Soviet Ideology, Indoctrination, and Terror Under Stalin, 1927-1941. New Haven, CT: Yale University Press. ISBN 0300159633 
  9. Davies, Sarah (2005). Stalin: A New History. Cambridge: Cambridge University Press. p. 252 
  10. Kelly, "Riding the Magic Carpet", 208.
  11. Gill, "The Soviet Leader Cult", 168.
  12. Robert Tucker, Stalin in Power: the Revolution From Above, 1929–1941 (Nova Iorque: Norton, 1990), 154.
  13. Siegelbaum, Lewis. «Lenin's Succession». Seventeen Moments in Soviet History 
  14. Sakharov, V.A. «The Forgery of the 'Lenin Testament'» 
  15. Uncommon Knowledge: Part 1: Stephen Kotkin on Stalin’s Rise to Power — via YouTube
  16. Stalin, J. V. (agosto–dezembro de 1927). «The Trotskyist Opposition Before and Now». Arquivo Marxismo na Internet. Consultado em 20 de maio de 2019 
  17. Ulyanova, Maria. «On the Relations between Lenin and Stalin». Revolutionary Democracy. Consultado em 20 de maio de 2019 
  18. Krupskaia, Nadejda. «Reminiscences of Lenin». Arquivo Marxista na Internet. Consultado em 20 de maio de 2019 
  19. Bonnell, The Iconography of Power, 158.
  20. Stalin, J. V. (8 de junho de 1926). «Reply to the Greetings of the Workers of the Chief Railway Workshops in Tiflis». Arquivo Marxista na Internet. Consultado em 20 de maio de 2019 
  21. Gill, "The Soviet Leader Cult", 169.
  22. Avidenko, A. O. Halsall, Paul, ed. «Hymn to Stalin». Fordham University, 1997. Internet Modern History Sourcebook. Consultado em 20 de maio de 2019 
  23. Reprints, Buy (19 de dezembro de 1948). «Prague Monument for Stalin». New York Times. Consultado em 14 de maio de 2019 
  24. «Monster: The Monument That Destroyed Its Creator». RadioFreeEurope/RadioLiberty. Consultado em 20 de maio de 2019 
  25. Catriona Kelly, "Riding the Magic Carpet", 202.
  26. «Komsomol». Encyclopedia Britannica. Consultado em 14 de maio de 2019 
  27. a b «Stalin's Cult of Personality: Its Origins and Progression». The York Historian. 18 de setembro de 2015. Consultado em 14 de maio de 2019 
  28. «Life Under Stalin: Childhood or Cult?». 20th Century Russia. 13 de outubro de 2014. Consultado em 14 de maio de 2019 
  29. Ivan Ivanov-Vano (autor) (1949). "Stranger's Voice" Soviet Anti-West Racist Propaganda Cartoon 1949 (TRANSLATED) (em russo). União Soviética – via YouTube