Cultura Liangzhu

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Cultura Liangzhu
3400 a.C. – 2250 a.C.
Localização de 良渚文化
Localização da Cultura Liangzhu na China
Continente Ásia
Região Zhejiang, China
Capital Liangzhu
Governo Não especificado
Período histórico Neolítico
 • 3400 a.C. Fundação
 • 2250 a.C. Dissolução

A Cultura Liangzhu (良渚文化) ( /ˈljɑːŋˈ/; 3400–2250 aC) foi a última cultura neolítica de jade no delta do rio Yangtze, na China.

Foi uma cultura altamente estratificada, pois artefatos de jade, seda, marfim e laca foram encontrados exclusivamente em sepultamento da elite, enquanto a cerâmica era mais comumente encontrada nos locais de sepultamento dos camadas mais pobres. Essa divisão de classes indica que o período Liangzhu foi um proto-Estado, simbolizado pela clara distinção entre classes sociais em estruturas funerárias. Um centro urbano regional surgiu no local da cidade de Liangzhu e grupos de elite deste eram os líderes regionais.[1]

A cultura Liangzhu foi extremamente influente e sua esfera de poder alcançou o norte até Shanxi e até o sul de Guangdong.[2] O sítio arqueológico Liangzhu foi descoberto no distrito de Yuhang, em Zhejiang e, inicialmente, escavado por Shi Xingeng, em 1936. Uma análise de 2007 do DNA recuperado de restos humanos mostra altas frequências do halogrupo O1 na cultura Liangzhu, ligando esta cultura às modernas populações de austronésios e tai-kadais. Acredita-se que a cultura Liangzhu ou outras subtradições associadas são a terra ancestral dos falantes das línguas austronésias.[3]

Em 6 de julho de 2019, Liangzhu foi classificada como Patrimônio Mundial da UNESCO.[4][5]

Desaparecimento[editar | editar código-fonte]

A cultura Liangzhu entrou no seu auge cerca de 4000 ~ 5000 anos atrás, mas desapareceu repentinamente da área do lago Taihu há cerca de 4200 anos atrás, quando atingiu o pico. Quase não há vestígios nos anos seguintes nesta área.[6][7] Pesquisas recentes mostraram que o desenvolvimento de assentamentos humanos foi interrompido várias vezes pelo aumento das águas do lago Taihu. Isso levou os pesquisadores a concluir que o desaparecimento da cultura Liangzhu foi causado por mudanças ambientais extremas, como inundações, já que as camadas culturais são geralmente interrompidas por camadas lamacentas ou pantanosas e arenosas com cascalho e árvores antigas soterradas.[8]

Algumas evidências apontam que o lago Taihu foi formado sobre uma cratera de impacto há apenas 4500 anos, o que explicaria o desaparecimento da cultura Liangzhu.[9]

Urbanização e agricultura[editar | editar código-fonte]

O povo Liangzhu apresentava conhecimentos avançados de agricultura, como irrigação, cultivo de arroz e aquacultura. As casas eram geralmente construídas sobre palafitas, em rios ou linhas costeiras. Relíquias descobertas na muralha da cidade foram anunciadas pelo governo da província de Zhejiang em 29 de novembro de 2007, que comprovaram ser o o centro da cultura Liangzhu. Um novo Museu da Cultura Liangzhu foi concluído em 2008 e aberto no final do mesmo ano.[10]

A antiga cidade de Liangzhu está localizada nas planícies fluviais úmidas entre a Montanha Daxiong e a Montanha Dazhe, da Cordilheira de Tianmu. Acredita-se que tenha sido uma das maiores cidades de sua época. Sua área interna tem cerca de 290 hectares, cercada por muros de barros com seis portões de acesso. Dois portões estavam localizados nas paredes norte, leste e sul. No centro havia um palácio de 30 hectares e evidências de uma proteção artificial contra inundações.Ambas construções são indicadores da complexidade social que se desenvolveu em Liangzhu na época.[6][8][11]

Há evidências de um grande celeiro, capaz de conter até 15 toneladas de arroz. Existem inúmeras entradas de vias navegáveis, dentro e fora da cidade, conectando-as às redes fluviais. No perímetro urbano havia montes artificiais de terra e colinas naturais. Fora da área murada, resquícios são encontrados em uma área de até 700 hectares, provavelmente residências construídas em um projeto de planejamento urbano. Oito quilômetros ao norte, vários locais semelhantes a barragens foram encontrados e especula-se que sejam um antigo sistema de proteção contra inundações.[8][11]

Dentro e fora da cidade foram desenterrados vários utensílios para fins de produção, utensílios básicos do dia a dia, armas e artigos religiosos, muitos deles finamente esculpidos em jade. Foram encontrados também restos mortais, fundações de grandes estruturas, túmulos, altares, residências, docas e oficinas. Pelas estruturas soterradas acredita-se que a cidade foi desenvolvida e construída após um longo planejamento.[1][11]

Uma comunidade típica de Liangzhu, da qual existem mais de 300 escavadas até agora, morava perto de rios. Foram recuperados barcos e remos que indicam habilidade em barcos e embarcações. Um local de Liangzhu forneceu os restos de um píer de madeira e um aterro que se acredita ter sido usado para proteção contra inundações. Casas foram erguidas em madeira também para ajudar a evitar inundações, embora as casas em terrenos mais altos incluíssem casas semi-subterrâneas com telhados de colmo.[1][12]

Acredita-se que a cultura Liangzhu tenha sido mais socialmente desenvolvida e complexa do que os contemporâneos do norte no vale do Han.[13]

Artefatos e tecnologia[editar | editar código-fonte]

Cerâmica neolítica, Cultura Zhejiang, 1955. Museu Nacional da China, Pequim

Os habitantes de Liangzhu utilizavam artefatos finamente decorados, enxós de pedra, com estilos artísticos que enfatizavam espirais, círculos, cerâmicas entalhadas, facas e colheres de ardósia e pontas de lança. Tais artefatos também são comuns no neolítico posterior do Sudeste Asiático e tais tecnologias e ferramentas possivelmente se desenvolveram na região do Rio Yangtzé.[14] Pesquisadores encontraram evidências de machados criados com ferramentas de diamante e que esta foi a única cultura pré-histórica a trabalhar com safiras.[15]

Trabalhos em jade[editar | editar código-fonte]

Trabalhos em jade desta cultura eram finamente trabalhados, especialmente para fins rituais, geralmente com inscrições retratando Taotie (饕餮), uma das "quatro criaturas malignas do mundo" na mitologia chinesa antiga. Os artefatos mais comuns eram vasos esculpidos em jade, o maior deles tendo 3,5kg. Discos e machados em jade também foram desenterrados nos sítios arqueológicos. Pingentes de jade finamente decorados com tartarugas, peixes e pássaros eram usados em colares e cordões.[16][17]

Muitos dos artefatos do local possuem uma fina linha branca de aspecto leitoso cortando a peça devido às rochas contendo tremolita e pela influência de fluídos escorrendo pelos locais de sepultamento, embora jade com actinolita e serpentina também sejam comuns. Muitos assentamentos de Liangzhu continham artefatos de jade, mas os da cultura Liangzhu são, de longe, os melhores e mais preservados.[16] Os artefatos encontrados da Cultura Liangzhu foram determinantes e bastante influentes em outras culturas neolíticas da China.[1]

Disco de jade da Cultura Liangzhu. O objeto ritual é um símbolo de riqueza e poderio militar.

A cidade de Liangzhu controlava a produção dos melhores artefatos em jade, mas outros centros de produção de menor importância também produziam bens para a elite, o que leva os arqueólogos a acreditar que a sociedade em Liangzhu não seria estratificada tipicamente em uma pirâmide, do status mais baixo para o mais alto. Muitos centros menores de produção tinham acesso à jade de boa qualidade, mas a cidade de Liangzhu determinava os critérios de trocas e comercialização. Aparentemente, eles não eram importadores de jade, ainda que exportassem em abundância.[1]

Religião[editar | editar código-fonte]

Um alta neolítico escavado em Yaoshan indica que as estruturas religiosas eram elaboradas, com seus templos e altares cuidadosamente construídos em pedra, indicando a relevância do culto na sociedade de Liangzhu. Construído em três níveis, o mais alto era feito em taipa. Três plataformas adicionais foram feitas com paralelepípedos. Há restos de um muro de pedra. No altar há doze sepulturas arranjadas em duas fileiras.[18] Alguns pesquisadores acreditam que um ritual de sacrifício de escravos fizesse parte da tradição de Liangzhu.[16]

Genética[editar | editar código-fonte]

Uma análise de DNA colhido em restos humanos de sítios arqueológicos de populações pré-históricas ao longo do rio Yangtzé, em 2007, mostrou uma frequência alta do haplogrupo O1 na cultura Liangzhu, ligando esta cultura às modernas populações de austronésios e tai-kadais. Em outros lugares o haplogrupo não é encontrado. Os autores do estudo acreditam que isso indica evidência de duas rotas diferentes de migração humana durante o povoamento da Ásia Oriental, uma costeira e a outra interior, com pouco fluxo genético entre elas.[19][20]

Veja também[editar | editar código-fonte]

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Referências

  1. a b c d e Underhill, Anne (2013). A Companion To Chinese Archaeology. [S.l.]: Wiley-Blackwell. p. 574. ISBN 978-1444335293 
  2. «The height of China's history». People's Daily online. Consultado em 17 de março de 2020 
  3. Freeman Foundation. «Lost Maritime Cultures: China and the Pacific». Arquivado do original em 1 de julho de 2015 
  4. «Seven cultural sites inscribed on UNESCO's World Heritage List». UNESCO. Consultado em 17 de março de 2020 
  5. «Archaeological Ruins of Liangzhu City». UNESCO. Consultado em 17 de março de 2020 
  6. a b Alastair Sooke (ed.). «The mysterious ancient figure challenging China's history». BBC Culture. Consultado em 17 de março de 2020 
  7. «Migration of the Tribe and Integration into the Han Chinese». Consultado em 29 de janeiro de 2014. Arquivado do original em 4 de março de 2016 
  8. a b c Wu, Li (2014). «Holocene environmental change and its impacts on human settlement in the Shanghai Area, East China». Catena. 114: 78–89. doi:10.1016/j.catena.2013.10.012 
  9. Xiangyu Mu (ed.). «New evidence for an impact origin of Taihu lake, China: Possible trigger of the extinction of LiangChu Culture 4500 years ago». Journal of Liminology. Consultado em 17 de março de 2020 
  10. Matylda Krzykowski (ed.). «Liangzhu Culture Museum by David Chipperfield Architects». Dezeen. Consultado em 17 de março de 2020 
  11. a b c David Robson (ed.). «The stunning east Asian city that dates to the dawn of civilisation». New Scientist. Consultado em 17 de março de 2020 
  12. Higham, Charles (2009). Encyclopedia of Ancient Asian Civilizations. [S.l.]: Facts on File. p. 198. ISBN 978-0816046409 
  13. Zhang, Chia; Hsiao-Chun, Hung (2008). «The Neolithic of Southern China–Origin, Development, and Dispersal». Asian Perspectives. 47 (2, Fall 2008): 309–310. hdl:10125/17291 
  14. Tarling, Nicholas (1999). The Cambridge History of Southeast Asia. [S.l.]: Cambridge University Press. pp. 102–103. ISBN 978-0521663694 
  15. Steve Bradt (ed.). «In China, gems used as tools millennia earlier than thought». Harvard Gazette. Consultado em 17 de março de 2020 
  16. a b c Maisel, Charles Keith (1999). Early Civilizations of the Old World: The Formative Histories of Egypt, the Levant, Mesopotamia, India and China. [S.l.]: Psychology Press. p. 285. ISBN 978-0-4151-0975-8 
  17. Bin Liu (ed.). «Searching for a Lost Civilization: New Findings from the Liangzhu Archaic City From:Chinese Archaeology». IA CASS. Consultado em 17 de março de 2020 
  18. Xujie, Lui (2002). Chinese Architecture - The Origins of Chinese Architecture editora= Yale University Press. Yale: [s.n.] p. 16. ISBN 0-300-09559-7 
  19. Marie Carvalho (ed.). «New paths to old worlds». The Honolulu Advertiser. Consultado em 17 de março de 2020 
  20. Li, Hui; Huang, Ying; Mustavich, Laura F.; Zhang, Fan; Tan, Jing-Ze; Wang, ling-E; Qian, Ji; Gao, Meng-He; Jin, Li (2007). «Y chromosomes of prehistoric people along the Yangtze River». Human Genetics. 122: 383-388. PMID 17657509. doi:10.1007/s00439-007-0407-2