Cultura Racional

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Cultura Racional é uma religião[nota 1][1] brasileira[nota 2] derivada do espiritismo fundada em meados da década de 1930, no antigo Distrito Federal, pelo médium carioca Manoel Jacintho Coelho, então presidente de um Centro Espírita denominado Tenda Espírita Francisco de Assis.[2] Coelho também escreveu uma série de mil livros denominada Universo em Desencanto, uma enciclopédia extensiva das ciências terrenas e espirituais. A obra é de importância essencial na Cultura Racional.

A Cultura Racional é então, o conjunto de ensinamentos contido na obra Universo em Desencanto, ensinamentos teóricos e práticos. Ela aborda dentro do seu estudo uma grande variedade de temas, que vão desde cosmologia, metafísica, ecologia, linguística, teologia, etc. até assuntos como óvnis e discos-voadores.[3]

Origens

A Cultura Racional surgiu em 1935, em um Centro Espírita de nome “Tenda Espírita Francisco de Assis”, na cidade do Rio de Janeiro, Rua Lopez da Cruz, Méier.[2]

Conforme o autor do movimento descreve em seu livro, este fato ocorreu por meio do progresso e evolução do campo espiritual, ou seja, a evolução deste campo permitiu alcançar graus mais elevados de energia, que possibilitou o contato de médiuns com “planos astrais” superiores aos que já se tinha conhecimento.[4]

O termo plano astral ou plano espiritual, é um termo bastante conhecido em diversas linhas religiosas, esotéricas, espirituais, filosóficas e até mesmo científicas como a psicologia e a parapsicologia. Basicamente, refere-se a um local do espaço onde habitam corpos de energia, também conhecidos por espíritos, guias, protetores, etc. seres do bem ou do mal, que estão subdivididos de acordo com seu grau de evolução, sendo, quanto mais elevado o ser, maior a sua frequência vibracional e mais pura a sua condensação fluídica.[5]

Nas religiões orientais como o Hinduísmo, Janismo e Budismo, a noção de plano astral é fundamental para o conceito do Nirvana. Para os espiritualistas é um plano além do mundo material que consiste em diversos planos vibratórios ou regiões através das quais poderíamos viajar ao mudar o foco da consciência.[6]

Na Umbanda, plano astral é um local onde existem milhares de espíritos em constante evolução, que estudam e desenvolvem seu conhecimento para trabalhar ou não em benefício dos seres humanos. Através da mediunidade (comunicação entre plano astral e plano físico) estes espíritos, por escolha própria se manifestam com o objetivo de evoluir junto com a humanidade.[7] Ainda segundo à Umbanda, tudo que existe no plano térreo também há no plano astral, e do mesmo modo que há espíritos com boas intensões, também há os que querem prejudicar a evolução de seus semelhantes.

Na Psicologia a vivência no plano astral ou “mundo astral” acontece no estado de transe em que a consciência se liberta do plano físico e submerge no plano astral permanecendo em comunicação com o corpo físico, podendo transmitir com nitidez as percepções do plano em que se acha imersa. “A pessoa quando está em transe abandona o seu corpo com plena consciência e explora os mundos supra-físicos com total possessão das suas faculdades, e quando regressa ao seu corpo, imprime no seu cérebro a lembrança das experiências por que passou. Mas o indivíduo pouco evoluído neste campo, imerso no estado de transe, “perde o conhecimento”. Se a consciência não está desenvolvida nos planos superiores, o seu poder de percepção não se abrirá nesses planos: está por assim dizer, tão adormecido nesses mundos astral e mental como no plano físico, e quando desperta do transe não sabe absolutamente nada do que sucedeu à sua volta.”[8]

Assim é descrita a origem da Cultura Racional, pela expansão do plano astral, onde o médium Manoel J. C. teria entrado em contato com um plano dito superior ao plano astral, chamado em sua obra de "plano racional" ou "Planície Racional", e de lá começou a receber mensagens, e tais mensagens formaram os ensinamentos de Cultura Racional, que compõe a obra Universo em Desencanto.[4]

A este panorama de "expansão astral" se deve o fato da Cultura Racional apresentar como proposta de ter nos livros a fonte de sua doutrina e de insistir fortemente na leitura como o caminho para a “salvação”,[9] descrita em sua escrituração como a Imunização Racional, como se constata já no primeiro livro do movimento:

A Cultura Racional mesmo tendo se originado em um Centro Espírita, deixa claro em toda sua obra, não se tratar de espiritismo:

Ou ainda:

Assim, Cultura Racional nega, em primeiro momento, o seu caráter espiritual e religioso, se dizendo apenas um conhecimento transcendental. Sendo assim, os integrantes do movimento se esforçam em dizer que na verdade fazem parte de um movimento cultural, e não de religião, espiritismo ou filosofia.

Somente após um determinado tempo de estudo, a pessoa vem a saber que, a Cultura Racional, dependendo do contexto utilizado, pode ser interpretada como uma religião:

Doutrina

Uma vez originada da Umbanda, a Cultura Racional continuou como vertente dela, embora com roupagem nova e linguagem alterada, mas com as mesmas práticas e costumes,[16] caracterizada pelo que ficou conhecido entre os membros da seita como a salinha, onde os médiuns incorporavam as entidades e davam consultas para as pessoas, membros ou não. Essas salinhas existiram em vários locais do país, funcionando como ponto aglutinador dos seguidores. E, embora tenha tecido explicações próprias para se apropriarem da cor das vestimentas da Umbanda (branca) e da saudação aos exus praticada pela mesma (salve),[17] é inegável a similaridade entre elas.

Na Umbanda, o uso da roupa branca é justificada assim:

Na Cultura Racional:

Uma vez que própria seita se propõe como a continuação da Umbanda, sob esta ótica deve ser analisada pois assim fica compreensível não só suas origens, mas também seu desenvolvimento e o alcance das pessoas que vieram a se tornar adeptas, seguidoras ou simpatizante da mesma. Nesse contexto, fica patente a experiência e a vivência umbandística de seu fundador, senhor Manoel Jacintho Coelho, que durante muito tempo militou entre os umbandistas, como ele próprio relata.

Assim, a vivência da Umbanda foi a matéria principal em torno da qual foram se reunindo os adeptos da Cultura Racional, principalmente na figura do seu líder maior, senhor Manoel, um mestre espiritual muito respeitado. Por se originar dos cultos da Umbanda, de uma tenda espírita organizada e estabelecida, a seita já nasceu estruturada no campo espiritual e material, com seguidores e colaboradores, muitos dos quais iriam se manter e arregimentar os parentes e amigos nos anos seguintes, possibilitando a continuidade da mesma.

Apesar de propor os livros como carro chefe da salvação, a doutrina da seita apresenta como característica principal as práticas e ensinamentos da Umbanda, às vezes adequando-os, às vezes usando-os de modo idêntico.


A gênese do universo segundo a Umbanda:

Na Cultura Racional:

Na doutrina da Seita, a figura do Orixá Exu é muito referenciada e tem fundamental importância no sistema de crença da mesma, assim como o Exu de Umbanda:


História

Após a publicação dos primeiros exemplares da série Universo em Desencanto, em meados da década de 1930, o movimento religioso persistiu nas décadas posteriores, tendo mudado sua sede, do Méier para Jacarepaguá, depois para Belford-Roxo onde foi erguido o Palácio da Cultura Racional[24].

Na década de 1970, a Cultura Racional mudou-se para a atual sede, em Nova Iguaçu, onde se encontra até hoje. Nesse período, o movimento religioso começou a ser frequentado por alguns artistas, dentre os quais estava o músico Tim Maia, que deu grande visibilidade à seita, fazendo-a viver o seu auge. Enquanto esteve na Cultura Racional, o cantor gravou dois álbuns que anos mais tarde se tornariam um grande sucesso de crítica chamados Tim Maia Racional, Vol. 1 e Tim Maia Racional, Vol. 2.[25] Em 2011, a Editora Abril lançou um terceiro álbum inédito gravado pelo cantor em 1976.[26]

O fundador da seita, Manoel Jacintho Coelho, morreu em 1991, e desde então a Cultura Racional é dirigida por uma de suas filhas.[27][28]

Notas

  1. Como afirma o próprio fundador: CULTURA RACIONAL é religião. Em que se baseia essa religião? No estado verdadeiro natural de tudo e de todos. É a verdadeira religião natural do animal dessa origem de Racional. Então CULTURA RACIONAL é religião por ser a base primária da CULTURA RACIONAL ser a religião espiritual.
  2. Os livros da Cultura Racional se chamam Universo em Desencanto - Imunização Racional, nenhum possui o título de Cultura Racional, que é como os adeptos da seita a denominam.

Referências

  1. COELHO, Manoel Jacintho. Universo em Desencanto: Imunização Racional, 33º Vol. do Histórico 1º ed. Ed. Gráfica Racional, Belford Roxo, RJ, s.d. página 141~143
  2. a b COELHO, Manoel Jacintho. Universo em Desencanto, Imunização Racional, 1º Fascículo da Réplica. Belford Roxo-RJ: Racional-Gráfica Editora. pp. pp.11 
  3. COELHO, Manoel Jacintho. Universo em Desencanto, Imunização Racional, 8º volume do Histórico. Belford Roxo-RJ: Racional-Gráfica Editora. pp. pp.31–81~85 
  4. a b COELHO, Manoel Jacintho. Universo em Desencanto, Imunização Racional, 1º volume da Réplica. Belford Roxo-RJ: Racional-Gráfica Editora. pp. pp.11~15 
  5. LEADBEATER, C.W. (1895). O Plano Astral. [S.l.]: Teosófica. pp. 11–15 
  6. Ferreira, Wilson (20 de outubro de 2017). «Para a CIA Plano Astral existe e é potencial arma de parapolítica». Revista GGN. Consultado em 26 de dezembro de 2017 
  7. Pereira, Júlia (9 de dezembro de 2016). «A origem da Umbanda no plano astral». Umbanda EAD. Consultado em 26 de dezembro de 2017 
  8. Rizzi, Jorge (16 de setembro de 2016). «Transe (Psicologia)». Sinapses Links. Consultado em 26 de dezembro de 2017 
  9. Neumann, Ricardo. A CULTURA RACIONAL E LETRAMENTO. XXIV Simpósio Nacional de História. Associação Nacional de História – ANPUH. São Leopoldo, 2007. Disponível na Internet em http://anpuh.org/anais/wp-content/uploads/mp/pdf/ANPUH.S24.0711.pdf
  10. COELHO, Manoel Jacintho. Universo em Desencanto: Imunização Racional, 1º Vol. da Obra 1º ed. Ed. Gráfica Racional, Belford Roxo, RJ, s.d. página 156
  11. COELHO, Manoel Jacintho. Universo em Desencanto: Imunização Racional, 1º Vol. da Obra 1º ed. Ed. Gráfica Racional, Belford Roxo, RJ, s.d. Pp 15
  12. COELHO, Manoel Jacintho. Universo em Desencanto: Imunização Racional, 1º Vol. da Obra1º ed. Ed. Gráfica Racional, Belford Roxo, RJ, pp. 141
  13. COELHO, Manoel Jacintho. Universo em Desencanto: Imunização Racional, 1º Vol. da Obra 1º ed. Ed. Gráfica Racional, Belford Roxo, RJ, s.d. pp. 141
  14. COELHO, Manoel Jacintho. Universo em Desencanto: Imunização Racional, 1º Vol. da Obra 1º ed. Ed. Gráfica Racional, Belford Roxo, RJ, s.d. pp. 176~177
  15. COELHO, Manoel Jacintho. Universo em Desencanto: Imunização Racional, 33º Vol. do Histórico 1º ed. Ed. Gráfica Racional, Belford Roxo, RJ, s.d. página 151~154
  16. SUENAGA, Cláudio Tsuyoshi. Cultura Racional: O desencanto da seita. Revista UFO, Edição 49. https://www.ufo.com.br/artigos/cultura-racional-o-desencanto-da-seita Acessado em 20 de junho de 2014.
  17. Guia de Referência - Exus e Pombas Giras. http://www.guia.heu.nom.br/exu_e_pombas_giras.htm Acessado em 20 de junho de 2014
  18. Sociedade Espiritualista Guerreiros da Luz - Por que usamos a roupa branca? http://www.terreirotioantonio.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=76:por-que-usamos-a-roupa-branca&catid=34:documentos&Itemid=55 Acessado em 05 de março de 2014
  19. COELHO, Manoel Jacintho. Universo em Desencanto: Imunização Racional, 1º Vol. 1 da TRÉPLICA 1º ed. Ed. Gráfica Racional, Belford Roxo, RJ, s.d. Pp 75
  20. COELHO, Manoel Jacintho. Universo em Desencanto: Imunização Racional, 10º Vol. da Obra 1º ed. Ed. Gráfica Racional, Belford Roxo, RJ, s.d. Pp. 79~107.
  21. A Umbanda. Disponível em http://www.pegue.com/religiao/umbanda.htm, acessado em 12 de agosto de 2014
  22. COELHO, Manoel Jacintho. Universo em Desencanto: Imunização Racional, 1º Vol. da Obra 1º ed. Ed. Gráfica Racional, Belford Roxo, RJ, s.d. pp. 38
  23. COELHO, Manoel Jacintho. Universo em Desencanto: Imunização Racional, 651º Vol. da Histórico 1º ed. Ed. Gráfica Racional, Belford Roxo, RJ, s.d. Pp. 12~13.
  24. ELIAS, Jorge. O Cavaleiro da Concórdia, O homem de outro mundo. 1º ed, Racional Gráfica Editora LTDA, 1988, Belford Roxo, RJ. Pp.116
  25. Os 100 maiores discos da Música Brasileira - Revista Rolling Stone, Outubro de 2007, edição nº 13, página 115
  26. «TIM MAIA volume 10 chega às bancas». Dinap. 27 de maio de 2011 
  27. Neumann, Ricardo. A CULTURA RACIONAL E A CIRCULARIDADE CULTURAL. Tese de Mestrado. Florianópolis 2008. Disponível na Internet em http://www.dhi.uem.br/gtreligiao/pdf/st8/Neumann,%20Ricardo.pdf. pp.1 Acesso em 26 de Março de 2013
  28. Pronunciamento da Sra. Atna Jacintho Coelho - http://racional.weebly.com/comunicados.html, acessado em 31 de Julho de 2014

Ligações externas