Cultura da Rússia

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
(Redirecionado de Cultura russa)
Ir para: navegação, pesquisa

A cultura da Rússia, cujas raízes remontam aos primeiros eslavos orientais, é produto de uma sociedade multiétnica, embora dominada pelo idioma russo e pelo povo russo, que constitui a maioria da população. Há mais de 160 diferentes grupos étnicos e povos indígenas na Rússia. Contribuem, para a diversidade cultural do país: os russos étnicos de tradições eslavas ortodoxas; os tártaros e bashkires, com a sua cultura turco-muçulmana; os nômades budistas buriates e calmucos; os povos xamânicos do Extremo Norte e da Sibéria; os montanheses do Cáucaso do Norte; e os povos fino-úgricos da Região Noroeste e do Volga.[1]

O artesanato, como os brinquedos matrioshka e dymkovo, o estilo khokhloma, a cerâmica gzhel e as miniatura de palekh, representam um importante aspecto da cultura popular russa. Roupas étnicas russas incluem o caftan, a kosovorotka e a ushanka para os homens e o sarafan e o kokoshnik para mulheres, com lapti e valenki como sapatos comuns. As roupas dos cossacos do sul da Rússia incluem a burka e a papaha, que partilham com os povos do Cáucaso do Norte.[2]

Os vários grupos étnicos da Rússia têm tradições distintas de música folclórica. Instrumentos musicais étnicos típicos do país são gusli, a balalaika, zhaleika e a garmoshka. A música popular teve grande influência nos compositores clássicos russos e nos tempos modernos é uma fonte de inspiração para uma série de bandas folclóricas mais populares, incluindo a Melnitsa. Canções populares russas, assim como canções patrióticas soviéticas, constituem o grosso do repertório do renome mundial da Assembleia Alexandrov e outros conjuntos populares.[3]

O folclore russo antigo tem suas raízes na religião pagã eslava. Muitos contos de fadas russos e épicos bylinas foram adaptados para filmes por diretores de destaque, como Aleksandr Ptushko e Aleksandr Rou. Poetas russos, incluindo Pyotr Yershov e Leonid Filatov, fizeram uma série de bem conhecidas interpretações poéticas dos contos de fadas clássicos. Os russos têm muitas tradições, incluindo a lavagem em banya, um banho de vapor quente semelhante à sauna.[4]

Arquitetura[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Arquitetura da Rússia

Desde a cristianização da Rússia Kievana, por várias eras a arquitetura russa foi influenciada, principalmente, pela arquitetura bizantina. Além de fortificações, os chamados kremlins, os edifícios de pedra da antiga Rússia eram as igrejas ortodoxas, com suas cúpulas, muitas vezes, douradas ou pintadas.[5]

Aristóteles Fioravanti e outros arquitetos italianos do Renascimento trouxeram novas tendências para a Rússia no século XV, enquanto o século XVI viu o desenvolvimento das igrejas em forma de tenda,[6] representadas pela Catedral de São Basílio. Nessa época, o projeto de cúpulas aceboladas também foi plenamente desenvolvido.[7] No século XVII, o "estilo fogo" de ornamentação floresceu em Moscou e Iaroslavl, gradualmente pavimentando o caminho para o barroco Naryshkin da década de 1690. Após as reformas de Pedro, o Grande, a mudança de estilos arquitetônicos na Rússia passou a seguir a da Europa Ocidental.[5]

O século XVIII foi marcado pela preferência pela arquitetura rococó e levou a obras ornadas por Bartolomeo Rastrelli e seus seguidores. O reinado de Catarina, a Grande e seu neto, Alexandre I, viu o florescimento da arquitetura neoclássica, principalmente na então capital do país, São Petersburgo. A segunda metade do século XIX foi dominada pelo estilo neobizantino e pelo chamado revival russo. Os estilos predominantes do século XX foram os da Art Nouveau, do Construtivismo russo e do Classicismo soviético.[5]

Em 1955, o novo líder soviético, Nikita Kruschev, condenou os "excessos" da antiga arquitetura acadêmica,[8] e o final da era soviética foi dominado pelo funcionalismo na arquitetura. Isso ajudou, em parte, a resolver o problema da habitação, mas criou uma grande quantidade de edifícios de baixa qualidade arquitetônica, em contraste com os suntuosos estilos anteriores. A situação melhorou nas últimas duas décadas. Muitos templos demolidos nos tempos soviéticos foram reconstruídos e esse processo continua, juntamente com a restauração de vários prédios históricos destruídos na Segunda Guerra Mundial. Um total de 23.000 igrejas ortodoxas foram reconstruídas entre 1991 e 2010, o que efetivamente quadruplicou o número de igrejas que operam na Rússia.[9]

Música e dança[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Música da Rússia
A cena Dança da Neve, do balé O Quebra-Nozes, composto por Piotr Ilitch Tchaikovsky.

A música da Rússia do século XIX foi definida pela tensão entre o compositor clássico Mikhail Glinka, junto com seus seguidores, que abraçou a identidade nacional russa e adicionou elementos religiosos e populares em suas composições, e a Sociedade Musical Russa, liderada pelos compositores Anton e Nikolai Rubinstein, que eram musicalmente conservadores. A tradição posterior de Pyotr Ilyich Tchaikovsky, um dos maiores compositores da era romântica, foi continuada no século XX por Sergei Rachmaninoff.[10] Compositores de renome mundial do século XX incluem também Alexander Scriabin, Igor Stravinsky, Sergei Prokofiev, Dmitri Shostakovich e Alfred Schnittke.[11]

Os conservatórios russos revelaram gerações de solistas famosos. Entre os mais conhecidos, estão os violinistas David Oistrakh e Gidon Kremer, o violoncelista Mstislav Rostropovich, os pianistas Vladimir Horowitz, Sviatoslav Richter e Emil Gilels, e os vocalistas Feodor Chaliapin, Galina Vishnevskaya, Anna Netrebko e Dmitri Hvorostovsky.[11]

No início do século XX, os dançarinos russos de balé Anna Pavlova e Vaslav Nijinsky alcançaram a fama. O empresário Sergei Diaghilev e as viagens ao exterior da sua companhia, a Ballets Russes, influenciaram profundamente o desenvolvimento da dança no mundo inteiro.[12] O balé soviético preservou e aperfeiçoou as tradições do século XIX[13] e as escolas de coreografia da União Soviética produziram muitas estrelas de renome internacional, como Maya Plisetskaia, Rudolf Nureyev e Mikhail Baryshnikov. O Balé Bolshoi, em Moscou, e o Balé Mariinsky, em São Petersburgo, tornaram-se famosos em todo o mundo.[14]

O rock russo moderno tem suas raízes tanto no rock and roll quanto no heavy metal ocidental, e nas tradições dos poetas russos da era soviética, como Vladimir Vysotsky e Bulat Okudzhava.[15] Entre os grupos de rock russos mais populares incluem-se Mashina Vremeni, DDT, Akvarium, Alisa, Kino, Kipelov, Nautilus Pompilius, Aria, Grazhdanskaya Oborona, Splean e Korol i Shut. A música pop russa se desenvolveu do que era conhecido nos tempos soviéticos como estrada para uma indústria de pleno direito, com alguns artistas a ganhar reconhecimento internacional amplo, como t.A.T.u. e Vitas.[11]

Literatura e filosofia[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Literatura da Rússia
Liev Tolstói (1828–1910), novelista e filósofo russo.

A literatura russa é considerada uma das mais influentes e desenvolvidas do mundo, contribuindo com muitas das mais famosas obras literárias da história. No século XVIII, o seu desenvolvimento foi impulsionado pelos trabalhos de Mikhail Lomonosov e Denis Fonvizin, e no início do século XIX, uma moderna tradição nativa surgiu, produzindo alguns dos maiores escritores de todos os tempos. Esse período, também conhecido como a era de ouro da poesia russa, iniciou-se com Alexander Pushkin, que é considerado o fundador da literatura russa moderna e muitas vezes descrito como o "Shakespeare Russo". [16] Esse período prosseguiu pelo século XIX com a poesia de Mikhail Lérmontov e Nikolai Nekrasov, os dramas de Alexandre Ostrovski e Anton Tchekhov e a prosa de Nikolai Gogol e Ivan Turgueniev. Liev Tolstói e Fiódor Dostoiévski, em particular, são figuras titânicas da literatua, a tal ponto que muitos críticos literários têm descrito um ou o outro como o maior escritor de todos os tempos.[17] [18]

Por volta de 1880, a época dos grandes romancistas acabou, enquanto os contos e a poesia se tornavam os gêneros dominantes. As próximas décadas ficariam conhecidas como a era de prata da poesia russa, quando o realismo literário, antes dominante, foi substituído pelo simbolismo. Os principais autores desta época incluem poetas como Valeri Briusov, Viacheslav Ivanov, Aleksandr Blok, Nikolai Gumilev e Anna Akhmatova e romancistas como Leonid Andreiev, Ivan Bunin e Máximo Gorki.[19]

A filosofia russa floresceu no século XIX, quando foi definida inicialmente pela oposição aos ocidentalistas, que defendiam o modelo político e econômico ocidental, e os eslavófilos, que insistiam no desenvolvimento da Rússia como uma civilização única. Este último grupo inclui Nikolai Daniliévski e Konstantin Leontiev, os fundadores do eurasianismo. No campo da filosofia, a Rússia sempre foi marcada por uma profunda conexão com a literatura e o interesse pela criatividade, sociedade, política e nacionalismo. O cosmismo russo e a filosofia religiosa eram outras áreas importantes. Notáveis filósofos do fim século XIX e início do século XX incluem Vladimir Soloviov, Serguei Bulgakov e Vladimir Vernadski.[19]

Após a Revolução de 1917, muitos escritores e filósofos proeminentes deixaram o país, incluindo Ivan Bunin, Vladimir Nabokov e Nikolai Berdiaev, enquanto uma nova geração de autores talentosos se uniram em um esforço para criar uma cultura transformada, baseada na classe trabalhadora do recém-formado Estado soviético. Nos anos 1930, a censura sobre a literatura foi reforçada em consonância com a política do realismo socialista. A partir do final dos anos 1950, as restrições contra a literatura foram relaxadas, e nas décadas de 1970 e 1980, os escritores russos cada vez mais ignoravam as orientações oficiais. Os principais autores da União Soviética incluem os romancistas Evgueni Zamiatin, Ilf e Petrov, Mikhail Bulgakov e Mikhail Sholokhov e os poetas Vladimir Maiakovski, Evgueni Ievtushenko e Andrei Voznesenski.[19]

Teatro e cinema[editar | editar código-fonte]

Ver artigos principais: Teatro da Rússia e Cinema da Rússia

O teatro russo é, sem dúvida um dos mais ricos do mundo, devido à quantidade de dramaturgos, escritores e peças de teatro. Pensa-se que os russos são aqueles que mais vão ao teatro em todo o mundo. Um dos maiores símbolos do teatro russo é o Teatro Bolshoi, em Moscovo, onde são apresentadas inúmeras peças de teatro russas ou estrangeiras, além de balé e ópera. O teatro russo começa desde muito cedo, antes da dinastia Romanov, onde se usavam marionetes e música tradicional.

O cinema surgiu na Rússia com os irmãos Lumière, pouco antes do fim do Império, quando os franceses passaram a exibir filmes em São Petersburgo e Moscovo, no ano de 1896. Alexandre Drankov foi o primeiro cineasta russo, produzindo Stenka Razin.

Durante a Primeira Guerra Mundial, foram produzidos muitos filmes sobre o conflito, com ideias e mensagens anti-germânicas. Durante a existência da União Soviética, os filmes foram produzidos de forma moderada pelo regime. Os aclamados clássicos de Serguei Eisenstein ficaram mundialmente conhecidos. Com a criação do programa espacial soviético, grande parte dos filmes mudaram o foco para a ficção científica, como o famoso Solaris.

No fim do século XX e início do século XXI, com a desintegração da URSS, o cinema russo sofreu um golpe na qualidade e produção de seus filmes. Um dos filmes mais famosos e aceitos pela crítica, produzidos naquela época, foi o Barbeiro da Sibéria, de 1998.

Pintura[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Pintura na Rússia
A Trindade, por Andrei Rublev.

A pintura na Rússia tem uma história demarcada por cinco fases bem distintas. Inicia-se na cristianização do Caganato de Rus, ocorrida em torno de 860, quando o intercâmbio cultural com o Império Bizantino levou, para lá, a tradição da pintura de ícones. Essa tradição, toda voltada para a religião, constituiu a única manifestação em pintura na Rússia até a ocidentalização do país no século XVIII por Pedro, o Grande, quando em menos de meio século formou-se uma escola de pintura praticamente nova, de caráter profano, correlacionada ao fim do Barroco que se desenvolvia no resto da Europa.

Integrando-se à evolução geral da arte europeia desde então, a pintura russa teria um momento de destaque e daria uma importante contribuição própria à arte ocidental por ocasião da emergência das vanguardas, no início do século XX, quando pintores como Kandinsky e Malevich seriam os precursores dos movimentos abstratos na pintura.

Com a Revolução de Outubro, em 1917, os pintores foram obrigados pelo Estado a seguir uma estética figurativa populista, originando o estilo conhecido como Realismo socialista, que só perderia força com a progressiva liberalização do regime político local no fim do século XX, quando um grupo de artistas do underground iniciou um movimento de contestação das fórmulas da arte oficial, introduzindo conceitos contemporâneos na pintura russa, diversificando enormemente seus horizontes.

Culinária[editar | editar código-fonte]

A culinária russa é especializada em sopas. Utiliza-se muito das raízes, tais como batatas, beterrabas, cenouras e até o nabo, que produz a "raiz-forte russa", chamada Gren. Trabalham muito com derivados do leite, tais como kefir, smetana e tvorog. Com ervas e verduras específicas, tais como o dill, o estragão ou a azedinha, que garantem sabores ainda desconhecidos por muitos, a culinária russa é uma surpresa bastante agradável. Em São Paulo, podem-se provar as iguarias russas no Camarada Bistrô, que fica no bairro dos Jardins.

Commons
O Commons possui imagens e outras mídias sobre Cultura da Rússia

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. «Более восьми тысяч деревень исчезли с карты России — Татьяна Смольякова — Российская газета». Rg.ru. Consultado em 4 de junho de 2013. 
  2. Jill Condra (2013). Encyclopedia of National Dress: Traditional Clothing Around the World ABC-CLIO [S.l.] p. 39. ISBN 978-0-313-37636-8. 
  3. Laura J. Olson, Performing Russia: Folk revival and Russian identity (2004), pp. 58–9
  4. The history of banya and sauna (em russo)
  5. a b c geografia.com (: ). «Russian Art & Architecture». Consultado em 3 de setembro de 2015. 
  6. The first stone tented roof church an the origins of the tented roof architecture by Sergey Zagraevsky at RusArch.ru (em russo)
  7. The shapes of domes of ancient Russian churches by Sergey Zagraevsky at the site of RusArch.ru (em russo)
  8. Russian: Постановление ЦК КПСС и СМ СССР "Об устранении излишеств в проектировании и строительстве", 04.11.1955 (Khruschev's decree On liquidation of excesses ...) (em russo)
  9. Over 20,000 churches rebuilt in Russia in 20 years - Patriarch Kirill RIA Novosti. Acessado em 3 de setembro de 2015.
  10. Norris, Gregory; ed. Stanley, Sadie (1980). The New Grove Dictionary of Music and Musicians, 2nd edition (London: MacMillian). p. 707. ISBN 0333231112. 
  11. a b c «Russia::Music». Encyclopædia Britannica. Consultado em 5 de outubro de 2009. 
  12. Garafola, L (1989). Diaghilev's Ballets Russes Oxford University Press [S.l.] p. 576. ISBN 0195057015. 
  13. Cashin, K K. «Alexander Pushkin's Influence on Russian Ballet—Chapter Five: Pushkin, Soviet Ballet, and Afterward» (PDF). Consultado em 27 de dezembro de 2007. 
  14. «A Tale of Two Operas». Petersburg City. Consultado em 11 de janeiro de 2008. 
  15. History of Rock Music in Russia at Russia-InfoCentre
  16. Kelly, C (2001). Russian Literature: A Very Short Introduction (Paperback) Oxford Paperbacks [S.l.] ISBN 0192801449. 
  17. «Russian literature; Leo Tolstoy». Encyclopedia Britannica. Consultado em 11 Apr. 2008. 
  18. Otto Friedrich (6 Sep. 1971). «Freaking-Out with Fyodor». Time Magazine [S.l.: s.n.] Consultado em 10 de abril de 2008. 
  19. a b c Enciclopédia Britânica (: ). «Russian literature». Consultado em 3 de setembro de 2015.