David Foster Wallace

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David Foster Wallace
Em janeiro de 2006
Nascimento 21 de fevereiro de 1962
Ithaca, Nova Iorque
Morte 12 de setembro de 2008 (46 anos)
Claremont, Califórnia
Nacionalidade Norte-Americano Estados Unidos
Cônjuge Karen L. Green (20042008)
Alma mater
Ocupação Escritor
Gênero literário Ficção, Romance, Conto
Magnum opus Brasil: Graça Infinita /Portugal: A piada infinita

David Foster Wallace (Ithaca, 21 de fevereiro de 196212 de setembro de 2008) foi um romancista, contista, ensaísta e professor norte-americano. Wallace é famoso sobretudo por sua obra de 1996 Infinite Jest, amplamente reconhecida como um dos melhores romances das últimas décadas.

Ele cresceu em Illinois e frequentou o Amherst College e ensinou inglês no Emerson College, na Illinois State University e no Pomona College. A revista Time listou Infinite Jest como um dos 100 melhores romances escritos em inglês entre os anos de 1923 a 2005. Seu romance póstumo, The Pale King (2011), foi finalista do Prémio Pulitzer de Ficção em 2012.[1]

O Los Angeles Times classificou Wallace como 'um dos escritores mais influentes e inovadores dos últimos vinte anos'.[2] Ele influenciou grande parte dos escritores contemporâneos, dentre os quais se destacam Dave Eggers,[3] Zadie Smith,[4] Jonathan Franzen,[5] Elizabeth Wurtzel,[6] e John Green.[7][8][9][10]

Em 2008, Wallace cometeu suicídio aos 48 anos, após uma longa batalha contra a depressão.[11] As cinzas de Wallace foram espalhadas no Arquipélago Juan Fernández, no Chile, pelo romancista e amigo pessoal de Wallace, Jonathan Franzen, que, logo após a morte de Wallace desabafou na The New Yorker: “O establishment literário nunca escolheu David para um prémio nacional, e agora o declara um tesouro do país”.[12]

Biografia[editar | editar código-fonte]

David Foster Wallace nasceu em Ithaca, cidade localizada a 400 km de Nova York, em 21 de fevereiro de 1962, filho de James Donald Wallace e Sally Jean Foster. Ele morou em Champaign, Illinois, até a quarta série e depois se mudou para Urbana, onde estudou na Yankee Ridge School. Quando adolescente, Wallace foi um tenista júnior e chegou a fazer parte do raking regional, experiência sobre a qual escreveu no ensaio "Derivative Sport in Tornado Alley". Embora seus pais fossem ateus, Wallace tentou duas vezes entrar para a Igreja Católica Romana, mas "foi reprovado no período de investigação"; mais tarde, ele frequentou uma igreja menonita.[13][14][15]

Inscrito no Amherst College, a mesma universidade de seu pai, formou-se em 1985 em literatura e filosofia, com especialização em lógica modal e matemática, então na Universidade de Harvard, que abandonou no final de 1989, após ser internado numa clínica psiquiátrica de McLean.

David Foster Wallace e um fã.

Sua tese sobre lógica modal, intitulada "Fatalismo" e a Semântica da Modalidade Física de Richard Taylor (tema do artigo Consider the Philosopher de 2008 do New York Times) recebeu o Prêmio Memorial Gail Kennedy. Em 1987, ele obteve o título de Mestre em Belas Artes em redação criativa pela Universidade do Arizona. Ele lecionou na Illinois State University durante grande parte da década de 1990 e, no outono de 2002, tornou-se professor de redação criativa e literatura inglesa no Pomona College, na Califórnia.[16]

Seu romance de estreia, The Broom of the System, é inspirado em sua segunda tese universitária e foi lançado em 1987. Os críticos imediatamente notaram o talento de Wallace, que, com apenas 25 anos, se distinguia por seu estilo irônico, complexo e agudo. Em 1989 foi lançada nos Estados Unidos a garota de cabelos estranhos, uma coletânea de contos que aborda temas típicos de Wallace e que foi considerada seu manifesto poético e estilístico.

Seu segundo romance, Infinite Jest, foi lançado em 1996 e fez de Wallace um autor de culto internacional. Em 2006, a revista Time o incluiu na lista dos 100 melhores romances em língua inglesa de 1923 a 2006. O romance, considerado a obra-prima do escritor americano, descreve a complexidade da sociedade contemporânea: as dificuldades nas relações interpessoais, o uso de as drogas, o papel cada vez mais importante do mundo do entretenimento, mídia e entretenimento, a exasperada competição social contada por meio do tênis, esporte praticado em níveis competitivos pelo próprio autor.

Referido pelo New York Times como um "Émile Zola do pós-milênio" e "a melhor mente de sua geração", os críticos frequentemente o compararam a autores famosos como Thomas Pynchon, Don DeLillo, Vladimir Nabokov e Jorge Luis Borges. Considerado um dos representantes da corrente literária Avantpop, recebeu diversos prêmios, entre eles o MacArthur Fellowship.[17]

Morte[editar | editar código-fonte]

De acordo com o pai de Wallace, David sofreu de depressão por mais de vinte anos e graças ao tratamento antidepressivo, Wallace conseguiu se manter produtivo. Os efeitos colaterais dos medicamentos o levaram, em junho de 2007, a interromper a terapia à base de fenelzina, com a aprovação de seu médico.[18]

A depressão voltou e Wallace tentou outros tratamentos, incluindo eletroconvulsoterapia. Eventualmente, ele voltou a tomar fenelzina, mas não obteve resultado. Em 12 de setembro de 2008, aos 46 anos, Wallace escreveu uma mensagem de despedida de duas páginas endereçada a sua esposa, corrigiu parte do manuscrito de The Pale King e se enforcou em uma viga em sua casa em Claremont, Califórnia. O corpo foi encontrado por sua esposa, Karen Green.[19]

Estilo[editar | editar código-fonte]

A sua escrita caracterizava-se principalmente pela ironia, presença quase constante em seus textos. Wallace era adepto da prosa pós-modernista, repleta de metalinguagens e autoparódias, muito embora revelasse uma preocupação acerca do mau uso/uso excessivo de tais recursos (isso é visto de forma clara no conto Octeto, da coletânea Breves Entrevistas com Homens Hediondos).[20]

Em seus escritos, Wallace abrange vários gêneros: romance enciclopédico, romance pós-moderno, realismo histérico estão entre as categorias mais usadas para descrever os escritos de Wallace. Ele ainda experimenta uma ampla gama de diversidade lingüística, empregando desde jargões de rua ao léxico científico e médico, passando por termos esportivos, jurídicos, cinematográficos e acadêmicos.[21]

Wallace demonstrava grande domínio dos mais variados recursos estilísticos da prosa, fazendo grande uso do discurso indireto livre (uma tendência nos autores modernos), de grandes orações concatenadas de forma levemente maníaca e, o que já é conhecido como sua marca registrada, de extensivas notas de rodapé, tão úteis e importantes quanto o próprio corpo do texto.[22] Em entrevista concedida a Charlie Rose, Wallace caracterizou o uso excessivo de notas de rodapé como forma de interromper a linearidade do texto e manter um senso de coesão narrativa. Estudiosos sugerem que os diferentes níveis de narração e as notas de rodapé têm uma estrutura fractal que segue um modelo do Triângulo de Sierpinski.[23]

Referências[editar | editar código-fonte]

Em Infinite Jest, Wallace faz referências explícitas e implícitas a diferentes obras e autores do Cânone Ocidental e elementos da cultura pop.

Como o título indica, o romance é parcialmente baseado na peça Hamlet. A Enfield Tennis Academy pertence à Dinamarca, administrada / governada por James (Rei Hamlet) e Avril (Rainha Gertrudes). Quando James morre, ele é substituído por Charles (Claudio), o tio do filho de Avril, Hal (Hamlet). Como na peça, o desafio do protagonista é evitar o colapso mental e restabelecer a reputação do pai.[24]

Há ainda uma relação com a Odisséia, em que o filho Telêmaco (Hal) deve se afastar de sua mãe dominadora Penélope (Avril) e descobrir a verdade do pai ausente Odisseu (Tiago). O mesmo padrão que ocorre no romance Ulysses, ambientado na versão realista de Dublin, povoado por uma gama de personagens, assim como Infinite Jest é ambientado em uma versão realista de Boston com personagens igualmente variados.[25] Em uma cena, Hal fala ao telefone com seu irmão Orin, a quem ele diz enquanto joga suas unhas cortadas na lata de lixo que "isso parece um exercício de reprodução". Orin pergunta se ele quis dizer "telemetria". Christopher Bartlett argumenta que o erro de Hal é uma referência direta a Telêmaco, que durante os primeiros quatro livros da Odisséia acredita que seu pai está morto.[26]

Há ainda referência aos Irmãos Karamazov, uma vez que Orin retrata o niilista Dmitri, Hal como Ivan, e Mario como Alyosha.[27]

O filme criado por James é tão divertido que seus espectadores perdem todo o interesse por qualquer outra coisa, fato que foi comparado à esquete de Monty Python conhecida como "A piada mais engraçada do mundo", bem como "A máquina da experiência ", um exercício teórico enunciado por Robert Nozick.[28]

Obra[editar | editar código-fonte]

Romances[editar | editar código-fonte]

  • The Broom of the System (1987)
  • Infinite Jest (1996) (Brasil: Graça Infinita /Portugal: A piada infinita[29])
  • The Pale King (2011) - obra póstuma e inacabada (Em Portugal: O rei pálido: um romance inacabado (Quetzal).

Coletânea de contos[editar | editar código-fonte]

  • Girl with Curious Hair (1989)
  • Brief Interviews with Hideous Men (1999) obra publicada no Brasil com o título Breves entrevistas com homens hediondos (Companhia das Letras, 2005)
  • Oblivion: Stories (2004)

Não-ficção[editar | editar código-fonte]

  • Signifying Rappers: Rap and Race in the Urban Present (co-autoria com Mark Costello) (1990)
  • A Supposedly Fun Thing I'll Never Do Again (ensaios) (1997)
  • Up, Simba! (2000)
  • Everything and More: A Compact History of Infinity (2003)
  • Consider the Lobster (ensaios) (2005)
  • McCain's Promise: Aboard the Straight Talk Express with John McCain and a Whole Bunch of Actual Reporters, Thinking About Hope (reedição em brochura de Up, Simba!) (2008)
  • This Is Water: Some Thoughts, Delivered on a Significant Occasion, about Living a Compassionate Life (2009)
  • Fate, Time, and Language: An Essay on Free Will (2010)

No Brasil[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Grossman, Lev; Lacayo, Richard (October 16, 2005). «TIME's Critics Pick the 100 Best Novels, 1923 to Present». TIME. Cópia arquivada em December 30, 2007  Verifique data em: |arquivodata=, |data= (ajuda)
  2. Noland, Claire; Rubin, Joel (September 14, 2008). «Writer David Foster Wallace Found Dead». Los Angeles Times. Consultado em August 5, 2015. Cópia arquivada em November 8, 2008  Verifique data em: |acessodata=, |arquivodata=, |data= (ajuda)
  3. «Jest Fest». LA Weekly. November 14, 2006  Verifique data em: |data= (ajuda)
  4. Franklin, Ruth (October 4, 2012). «Reader: Keep Up! The Identity Crisis of Zadie Smith». The New Republic. Consultado em September 21, 2014  Verifique data em: |acessodata=, |data= (ajuda)
  5. Franzen, Jonathan (November 30, 2010). «David Foster Wallace: An elegy by Jonathan Franzen». The University of Arizona Poetry Center. Consultado em September 21, 2014  Verifique data em: |acessodata=, |data= (ajuda)
  6. Wurtzel, Elizabeth (September 21, 2008). «Elizabeth Wurtzel on Depression and David Foster Wallace». New York. Consultado em September 21, 2014  Verifique data em: |acessodata=, |data= (ajuda)
  7. IncitingSparks (February 6, 2017). «John Green, Genre Fiction, and the Influence of David Foster Wallace». Inciting Sparks (em inglês). Consultado em March 11, 2019  Verifique data em: |acessodata=, |data= (ajuda)
  8. «Porochista Khakpour and Flammable Fiction». The Arts Fuse (em inglês). October 3, 2008. Consultado em March 13, 2019  Verifique data em: |acessodata=, |data= (ajuda)
  9. Hayes-Brady, Steve Paulson interviews Clare. «David Foster Wallace in the #MeToo Era: A Conversation with Clare Hayes-Brady». Los Angeles Review of Books. Consultado em March 13, 2019  Verifique data em: |acessodata= (ajuda)
  10. Walls, Seth Colter. [http://www.thedailybeast.com/articles/2011/ 04/07/david-foster-wallace-the-pale-king-roundtable-discussion.html «David Foster Wallace, The Pale King, Roundtable Discussion»] Verifique valor |url= (ajuda). The Daily Beast. Consultado em September 21, 2014  line feed character character in |url= at position 44 (ajuda); Verifique data em: |acessodata= (ajuda)
  11. Max, D. T. Every Love Story Is a Ghost Story: A Life of David Foster Wallace. [S.l.: s.n.] p. 301. ISBN 978-1-84708-494-1 
  12. Graça Infinita, o Melhor Legado de Foster Wallace, Revista Época
  13. Knox, Malcolm (November 2008). «Everything & More: The Work of David Foster Wallace». The Monthly  Verifique data em: |data= (ajuda)
  14. Arden, Patrick. «David Foster Wallace warms up». Book 
  15. Zahl, David (August 20, 2012). «David Foster Wallace Went to Church Constantly?». Mockingbird  Verifique data em: |data= (ajuda)
  16. https://www.gazzettafilosofica.net/2018-1/febbraio/david-foster-wallace-e-la-filosofia/
  17. «David Foster Wallace, Postmodern Writer, Is Found Dead» (em inglês). The New York Times 
  18. Bruce Weber. «David Foster Wallace, Influential Writer, Dies at 46» (em inglês). The New York Times 
  19. «Morto impiccato David Foster Wallace» (em italiano). Corriere.it 
  20. Wallace DF, Siqueira JR. Breves entrevistas com homens hediondos. Editora Companhia das Letras; 2005 Apr 4.
  21. Burn, Stephen J. "'Webs of nerves pulsing and firing': Infinite Jest and the science of mind". A Companion to David Foster Wallace Studies. 58–96
  22. "An interview with David Foster Wallace". Charlie Rose. Retrieved 2015-08-19.
  23. McCarthy, Kyle. «Infinite Proofs: The Effects of Mathematics on David Foster Wallace»  Parâmetro desconhecido |sitioweb= ignorado (|website=) sugerido (ajuda)
  24. Walsh, James Jason Jr (August 2014), American Hamlet: Shakespearean Epistemology In David Foster Wallace's Infinite Jest, Cleveland State University, consultado em 7 de junio de 2016  Verifique data em: |acessodata=, |data= (ajuda)
  25. Burn, Stephen (2003), David Foster Wallace's Infinite Jest: A reader's guide, ISBN 978-0826414779, A&C Black, consultado em 7 de junio de 2016  Verifique data em: |acessodata= (ajuda)
  26. Bartlett, Christopher (8 de junio de 2016). «"An Exercise in Telemachry": David Foster Wallace's Infinite Jest and Intergenerational Conversation». Critique: Studies in Contemporary Fiction. 57 (4): 374–389. doi:10.1080/00111619.2015.1113921  Verifique data em: |data= (ajuda)
  27. Max, D. T. (2012), Every Love Story Is a Ghost Story: A Life of David Foster Wallace, ISBN 978-1101601112, Penguin, consultado em 8 de junio de 2016  Verifique data em: |acessodata= (ajuda)
  28. Sloane, Peter (2014). «The Divided Selves of David Foster Wallace». Tropos. 1 (1): 67–73. doi:10.14324/111.2057-2212.011 
  29. «Título ainda não informado (favor adicionar)». zerohora.clicrbs.com.br