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Desastre do Lago Nyos

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Lago Nyos menos de um mês após a erupção límnica

O desastre do Lago Nyos ocorreu em 21 de agosto de 1986, quando uma erupção límnica no Lago Nyos, no noroeste de Camarões, matou 1.746 pessoas e 3.500 cabeças de gado.[1]

A erupção desencadeou a liberação repentina de cerca de 100 mil a 300 mil toneladas de dióxido de carbono (CO2).[2][3] A nuvem de gás subiu inicialmente a quase 100 km/h e então, sendo mais pesada que o ar, desceu sobre aldeias próximas, sufocando pessoas e animais a até 25 km do lago.[4][5]

Um sistema de desgaseificação foi instalado no lago, com o objetivo de reduzir a concentração de CO2 nas águas e, portanto o risco de novas erupções. Juntamente com o desastre do Lago Monoun dois anos antes, é uma das duas únicas erupções límnicas registadas na história humana moderna.[6]

Erupção e liberação de gás

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Não se sabe o que desencadeou a catastrófica liberação de gases.[7][8][9] A maioria dos geólogos suspeita de um deslizamento de terra, mas alguns acreditam que uma pequena erupção vulcânica pode ter ocorrido no leito do lago.[10][11] Uma terceira possibilidade é que a água fria da chuva que caiu em um dos lados do lago tenha desencadeado a inversão. Outros cientistas sugerem que nenhuma ação externa é necessária para iniciar esse evento. “A estratificação horizontal da coluna d'água se deve à difusão diferencial de CO2 e calor, mas, ao contrário do sal (que estabiliza a estratificação termohalina dos oceanos), o dióxido de carbono tem uma solubilidade limitada pela temperatura, tornando a estratificação intrinsecamente instável. Assim, não há necessidade de um gatilho externo (deslizamento de terra, terremoto ou chuva forte) para perturbar a estratificação do lago. Uma vez que as bolhas de CO2 se nucleiam dentro de uma camada saturada da água do lago, elas sobem e crescem, atraindo em seu rastro água mais profunda disponível para exsolução, alimentando o processo de reação em cadeia: todo o lago se vira através de uma coluna ascendente de bolhas que sobem e se expandem.”[12]

O evento resultou na rápida mistura da água profunda supersaturada com as camadas superiores do lago, onde a pressão reduzida permitiu que o CO2 armazenado efervescesse da solução.[13]

Acredita-se que sejam cerca de 1,2 quilômetro cúbico de gás foram liberados.[14] As águas normalmente azuis do lago ficaram vermelho-escuras após a liberação de gases, devido à água rica em ferro das profundezas subir à superfície e ser oxidada pelo ar. O nível do lago baixou cerca de um metro[15] e árvores próximas foram derrubadas.[16]

Os cientistas concluíram, com base em evidências, que uma coluna de água e espuma de 100 metros formou-se na superfície do lago, gerando uma onda de pelo menos 25 metros que varreu a costa de um dos lados do lago.[17]

Como o dióxido de carbono é 50% mais denso que o ar, a nuvem permaneceu próxima ao solo e desceu pelos vales, onde havia diversas aldeias. A massa era de cerca de 50 metros de espessura e desceu a uma velocidade de 20-50 quiômetros por hora. Por aproximadamente 23 quilômetros, a nuvem de gás estava concentrada o suficiente para sufocar muitas pessoas enquanto dormiam nas aldeias de Nyos, Kam, Cha e Subum.[4] Cerca de 4 mil habitantes fugiram da área e muitos deles desenvolveram problemas respiratórios, lesões e paralisia como resultado da nuvem de gás.[18]

É possível que outros gases vulcânicos tenham sido liberados juntamente com o CO2, já que alguns sobreviventes relataram um cheiro de pólvora ou ovos podres, o que indica que o dióxido de enxofre e o sulfeto de hidrogênio estavam presentes em concentrações acima de seus limiares de odor. No entanto, o CO2 foi o único gás detectado em amostras de água do lago, sugerindo que este foi o gás predominante liberado e, como tal, a principal causa do incidente.[18]

Efeitos nos sobreviventes

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Gado sufocado por dióxido de carbono do Lago Nyos

Repórteres na área descreveram a cena como "parecendo o resultado de uma bomba de nêutrons".[19] Um sobrevivente, Joseph Nkwain de Subum, descreveu-se quando acordou após o impacto dos gases:[4]

Não conseguia falar. Perdi a consciência. Não conseguia abrir a boca porque, ao fazê-lo, senti um cheiro horrível [...] Ouvi minha filha roncando de um jeito terrível, muito anormal [...] Ao me dirigir até a cama da minha filha [...] desmaiei e caí. Fiquei lá até as nove da manhã [do dia seguinte, sexta-feira] [...] até que um amigo meu chegou e bateu na minha porta [...] Fiquei surpreso ao ver que minhas calças estavam vermelhas, com algumas manchas parecidas com mel. Vi um pouco [...] de uma substância pastosa no meu corpo. Meus braços tinham alguns ferimentos [...] Eu realmente não sabia como tinha feito esses ferimentos [...] Abri a porta [...] Queria falar, mas a voz não saía [...] Minha filha já estava morta [...] Fui até a cama da minha filha, pensando que ela ainda estivesse dormindo. Dormi até as 16h30 [...] na sexta-feira [no mesmo dia]. Então] consegui ir até as casas dos meus vizinhos. Estavam todos mortos [...] Decidi partir [...] [porque] a maior parte da minha família estava em Wum [...] Peguei minha motocicleta [...] Um amigo cujo pai havia morrido partiu comigo [para] Wum [...] Enquanto eu dirigia [...] por Nyos, não vi nenhum sinal de vida [...] [Quando cheguei lá] não conseguia andar, nem mesmo falar [...] meu corpo estava completamente fraco.[4]

  Após a erupção, muitos sobreviventes foram tratados no principal hospital de Iaundé, a capital do país. Acreditava-se que muitas das vítimas haviam sido envenenadas por gases à base de enxofre. O envenenamento por esses gases causaria dores ardentes nos olhos e no nariz, tosse e sinais de asfixia semelhantes aos de estrangulamento.[9]

Entrevistas com sobreviventes e estudos patológicos indicaram que as vítimas perderam a consciência rapidamente e que a morte foi causada por asfixia por CO2.[20] Em níveis não letais, o CO2 pode produzir alucinações sensoriais, de modo que muitas pessoas expostas ao CO2 relatam o odor de compostos sulfúricos quando nenhum está presente.[20] As lesões de pele encontradas nos sobreviventes representam úlceras de pressão e, em alguns casos, exposição a uma fonte de calor, mas não há evidências de queimaduras químicas ou de queimaduras por exposição a gases quentes.[20]

Desgaseificação

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A dimensão do desastre levou a estudos sobre como uma recorrência poderia ser evitada.[21] Vários pesquisadores propuseram a instalação de colunas de desgaseificação em jangadas no meio do lago.[22][23] O princípio é liberar lentamente o CO2 elevando a água saturada do fundo do lago através de um tubo, inicialmente usando uma bomba, mas apenas até que a liberação de gás dentro do tubo eleve naturalmente a coluna de água efervescente, tornando o processo autossustentável.[12][24]

A partir de 1995, estudos de viabilidade foram conduzidos com sucesso e o primeiro tubo de desgaseificação permanente foi instalado no lago em 2001. Dois tubos adicionais foram instalados em 2011.[16][12][25] Em 2019, determinou-se que a desgaseificação havia atingido um estado essencialmente estável e que um único dos tubos instalados seria capaz de sustentar o processo de desgaseificação no futuro, mantendo indefinidamente o CO2 em um nível seguro, sem qualquer necessidade de energia externa.[26]

Perigo semelhante no Lago Quivu

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Após o desastre do Lago Nyos, cientistas investigaram outros lagos africanos para verificar se um fenômeno semelhante poderia ocorrer em outros lugares. Em 2005, o Lago Quivu, na República Democrática do Congo, 2 mil vezes maior que o Lago Nyos, também foi descoberto que estava supersaturado, e os geólogos encontraram evidências de que eventos de desgaseificação ao redor do lago aconteciam aproximadamente a cada mil anos.[27]

No entanto, um estudo realizado em 2018 e divulgado em 2020 encontrou falhas no estudo de 2005, incluindo um possível viés na conversão de concentrações em pressões parciais, uma superestimação das concentrações ou um problema de calibração dos sensores em alta pressão. O estudo de 2020 concluiu que, quando esses erros foram considerados, o risco de uma erupção de gás no Lago Quivu não pareceu estar aumentando ao longo do tempo.[28]

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Ver também

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Referências

  1. Hammond, Trevor (1 de agosto de 2018). «Lake Nyos Disaster: August 21, 1986». Fishwrap. Consultado em 14 de abril de 2021. Arquivado do original em 10 de outubro de 2022
  2. Socolow, Robert H. (julho de 2005). «Can We Bury Global Warming?». Scientific American. 293 (1). pp. 49–55. Bibcode:2005SciAm.293a..49S. ISSN 0036-8733. JSTOR 26061071. PMID 16008301. doi:10.1038/scientificamerican0705-49. Cópia arquivada em 18 de novembro de 2025
  3. Mathew Fomine, Forka Leypey (2011). «The Strange Lake Nyos CO2 Gas Disaster». Australasian Journal of Disaster and Trauma Studies. 2011-1. ISSN 1174-4707. Consultado em 4 de fevereiro de 2016. Arquivado do original em 4 de março de 2016
  4. 1 2 3 4 Camp, Vic (31 de março de 2006). «Lake Nyos (1986)». San Diego State University. Consultado em 19 de dezembro de 2008. Cópia arquivada em 21 de dezembro de 2008
  5. Smolowe, Jill; Phillips, B. J. (8 de setembro de 1986). «Cameroon the Lake of Death». TIME. 128 (10). pp. 34–37. Consultado em 9 de dezembro de 2013. Cópia arquivada em 27 de fevereiro de 2009
  6. Ohba, Takeshi, et al. "A Depression Containing CO2-Enriched Water at the Bottom of Lake Monoun, Cameroon, and Implications for the 1984 Limnic Eruption." Frontiers in Earth Science, vol. 10, maio de 2022, p. 766791. DOI.org (Crossref), https://doi.org/10.3389/feart.2022.766791.
  7. Cotel, Aline J. (março de 1999). «A trigger mechanism for the Lake Nyos disaster». Journal of Volcanology and Geothermal Research. 88 (4): 343–347. Bibcode:1999JVGR...88..343C. ISSN 0377-0273. doi:10.1016/s0377-0273(99)00017-7
  8. Rouwet, Dmitri; Tanyileke, Greg; Costa, Antonio (12 de julho de 2016). «Cameroon's Lake Nyos Gas Burst: 30 Years Later». Eos. 97. ISSN 0096-3941. doi:10.1029/2016eo055627Acessível livremente. eISSN 2324-9250. Consultado em 18 de fevereiro de 2022. Arquivado do original em 18 de fevereiro de 2022
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  10. Rice, A (Abril de 2000). «Rollover in Volcanic Crater Lakes: A Possible Cause for Lake Nyos Type Disasters». Journal of Volcanology and Geothermal Research. 97 (1–4): 233–239. Bibcode:2000JVGR...97..233R. ISSN 0377-0273. doi:10.1016/s0377-0273(99)00179-1. Consultado em 18 de fevereiro de 2022. Arquivado do original em 18 de fevereiro de 2022
  11. Aka, Festus Tongwa (3 de março de 2015). «Depth of Melt Segregation Below the Nyos Maar-Diatreme Volcano (Cameroon, West Africa): Major-Trace Element Evidence and Their Bearing on the Origin of CO2 in Lake Nyos». Volcanic Lakes. Col: Advances in Volcanology. [S.l.]: Springer Berlin Heidelberg. pp. 467–488. ISBN 978-3642368325. doi:10.1007/978-3-642-36833-2_21
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  16. 1 2 Witucki, Mary (2018). DISASTER RISK IN THE LAKE NYOS AREA, CAMEROON: EFFECTS OF THE GAS HAZARD AND SOCIALLY PRODUCED VULNERABILITY (PDF) (Tese de Master of Science in Geology) (em inglês). Houghton, Michigan: Michigan Technological University. OCLC 1150782660. doi:10.37099/mtu.dc.etdr/758Acessível livremente. ProQuest 13422443. Consultado em 31 de dezembro de 2023. Cópia arquivada em 31 de dezembro de 2023
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  29. «Water Into Blood?». Biblical Archaeology Society. Consultado em 24 de maio de 2025. Cópia arquivada em 11 de julho de 2026
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  31. «Exodus Explained? Film Claims Earthquake, Not Moses, Parted the Red Sea». Haaretz. 5 de abril de 2007. Consultado em 9 de maio de 2026

Ligações externas

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