Desencantos
Desencantos é uma peça teatral escrita por Machado de Assis e publicada por Paula Brito em 1861, com o subtítulo "Fantasia Dramática". Divide-se em dois atos, que o autor chama de "partes": a primeira parte transcorre em Petrópolis e a segunda parte, "na corte", ou seja, no Rio de Janeiro. O texto é dedicado a Quintino Bocaiúva, cuja opinião de que as comédias machadianas eram para serem lidas e não representadas se celebrizou.[1] "Em Desencantos já se esboça o universo que estará presente na maioria das suas comédias: o da alta sociedade brasileira de seu tempo, constituída pela burguesia emergente."[2]
Provérbio dramático
[editar | editar código]Mário de Alencar situa a produção teatral de Machado num esforço coletivo de criar um teatro genuinamente nacional que inspirou uma grande produção nas décadas de sessenta e setenta no século XIX.[3]. Mas em vez das tragédias neoclássicas, dramas românticos e comédias realistas de origem ou inspiração francesa, em voga na época, Machado preferiu o chamado "provérbio dramático" (ou "comédia-provérbio"), gênero surgido no final do século XVII, nos salões aristocráticos franceses,[4] uma "comédia elegante", "em um ou no máximo dois atos", "que tira partido da vivacidade dos diálogos e da espirituosidade das personagens", praticada na França por autores como Octave Feuillet e Alfred de Musset.[5]. "Com regras mais frouxas que as do drama ou da tragédia, ou mesmo da comédia, o provérbio dispensa os enredos complicados e se articula em torno das conversas entre personagens [...]"[6]
Críticas
[editar | editar código]A peça recebeu duas críticas publicadas em 15 de setembro de 1861.[7] A primeira, de Adolphe Hubert, na coluna “Chronique littéraire” ("Crônica literária") do jornal de língua francesa Courrier du Brésil (Correio do Brasil), à página 1, começava com os dizeres “La brochure qui a pour titre Désenchentements contient un morceau littéraire d'une valeur réelle, pour l'époque” (“A brochura que tem por título Desencantos contém uma peça literária com um valor real, para a época”) e vinha acompanhada do texto da cena VII da segunda parte traduzida para o francês.[8] A segunda crítica, sem assinatura, na coluna “Crônica” às páginas 103-4 do periódico literário dominical A Saudade, chama a atenção para "a brevidade do diálogo, a delicadeza de linguagem" da peça.[9]
Embora não chegasse a ser encenada na época de Machado de Assis,[10] a peça foi montada no Teatro Ziembinski no ano de 1990. O crítico Macksen Luiz escreveu sobre a peça: "O teatro de Machado de Assis, assim como sua obra literária, é marcada pela aparência. A humanidade de seus personagens parece contida por atitudes que, aos olhos do mundo, são expressões adequadas de uma convivência harmonizada por um comportamento social nivelador. Mas a verdadeira motivação de cada um está na representação dessas atitudes, que sob a dissimulação, às vezes, e a metáfora, quase sempre, exprimem os seus recônditos desejos."[11]
Personagens
[editar | editar código]- Clara de Sousa: é uma jovem viúva de um coronel, a quem as duas outras personagens fazem corte. Encontra-se indecisa entra qual seria o melhor dos dois pretendentes . ("Clara – Eu não tomo partido nenhum."[12].)
- Luís de Melo: jovem apaixonado e idealista, vizinho de Clara, que lhe faz a corte. ("Pedro Alves – Já sei ; pertence à esfera dos sonhadores e dos visionários"[13].)
- Pedro Alves: homem de meia idade, elegante, mas presunçoso, também vizinho de Clara, também é pretendente da viúva e opõe-se abertamente a Luís ("Luís – Menos isso. Quando dois adversários se medem, as mais das vezes o vencedor é sempre aquele, que à elevada qualidade de tolo reúne uma sofrível dose de presunção.")[14].)
Enredo
[editar | editar código]Na primeira parte da peça, ambos os vizinhos da viúva Clara fazem-lhe a corte : Luís e Pedro Alves. Pedro Alves, mais experiente que o outro, adianta-se e consegue a mão da mulher. Luís, desiludido, viaja para longe. Retorna na segunda parte, após cinco anos, e presta uma visita ao casal. Após gabar-se de suas viagens pelo Oriente, pede bruscamente a mão da filha do primeiro casamento de Clara, que tem o mesmo nome da mãe. É a sua vingança contra a mulher que amara anteriormente[15]. "Em Desencantos, a graça da comédia está na 'vingança' do personagem Luís Melo, que perde a viúva Clara para Pedro Alves. Cinco anos depois, curado da antiga paixão, volta para o Rio de Janeiro e se interessa justamente pela filha de Clara",[16]
Influência
[editar | editar código]Para alguns críticos, o assunto desta peça foi definido por um texto que Machado traduziu e publicou à mesma época, Queda que as mulheres têm para os tolos, do belga Victor Hénaux.[17] Neste texto, argumenta-se que os homens inteligentes, ditos homens de espírito, teriam dificuldades de abordar a mulher amada devido à sua timidez natural, enquanto os tolos presunçosos levariam vantagem por causa de sua indiferença e superficialidade naturais. Na peça, Luís faria o papel do homem de espírito, e Pedro Alves, o do tolo.
Ver também
[editar | editar código]Referências
[editar código]- ↑ “Carta ao Autor” em Teatro de Machado de Assis. Rio de Janeiro, Tipografia do Diário do Rio de Janeiro, 1863, obra que reúne as duas peças subsequentes de Machado, O Caminho da Porta e O Protocolo.
- ↑ João Roberto Faria, "Machado de Assis e o teatro", na Revista Brasileira no 55 de abril-maio-junho de 2008, pág. 175, disponível no site da Academia Brasileira de Letras.
- ↑ Machado de Assis: Teatro Completo. São Paulo : Editora Mério SA, 1961. Pg. 8.
- ↑ João Roberto Faria, "O Comediógrafo". Jornal da Unicamp, 25-31/8/2008, pág. 12. Disponível em João Roberto Faria. «O Comediógrafo» (PDF). Consultado em 13 de março de 2026
- ↑ Nilton de Paiva Pinto, Teatro de Machado de Assis: Alternativa para a Dramaturgia Brasileira, Contagem, MG: Edição do autor, 2023, pág. 30.
- ↑ João Roberto Faria, "Machado de Assis e o teatro", pág. 174.
- ↑ Ubiratan Machado, Dicionário de Machado de Assis, 2a edição revista e ampliada. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo; Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras; Lisboa: Imprensa Nacional, 2021, verbete “Desencantos”.
- ↑ «Courrier du Brésil de 15/9/1861 (pág. 1) na Hemeroteca Digital». Consultado em 12 de março de 2026
- ↑ «Página 104 de A Saudade na Hemeroteca Digital». Consultado em 12 de março de 2026
- ↑ A peça constava do arquivo do Teatro Ateneu Dramático, que cogitava encená-la, mas não chegou a fazê-lo. Ver «"Ateneu Dramático" (colunas 6 e 7 da pág. 1 do Correio Mercantil de 6/5/1862)». Consultado em 12 de março de 2026
- ↑ Macksen Luiz. «"A melancolia pelos caminhos de Machado" no Jornal do Brasil de 22/9/1990». Consultado em 12 de março de 2026
- ↑ Op. Cit., pg. 42
- ↑ Op. Cit., pg. 38
- ↑ Op. Cit., pg. 41
- ↑ Notícia da peça no site da Academia Brasileira de Letras.
- ↑ João Roberto Faria, "Machado de Assis e o teatro", pág. 175.
- ↑ SILVA, Ana C. Suriani da. Texto original, tradução, adaptação ou imitação?. Disponível online no Jornal da Unicamp. Consultado em 24/01/2013.
Ligações externas
[editar | editar código]- Texto da peça disponível online.
- GOMES, André Luiz. Machado de Assis dramaturgo: esboços para uma grande pintura. Disponível online.
- «1a edição de Desencantos na Biblioteca Mindlin»
