Desperdício de alimentos

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Verduras e frutas mal aproveitadas jogadas no lixo.

Desperdício de alimentos é um conceito de definição imprecisa. De modo geral, considera-se desperdício um dos tipos de perda que ocorrem na cadeia produtiva dos alimentos, que vai da produção até o consumo, referindo-se especificamente às perdas deliberadas que ocorrem na comida apta para o consumo, seja por descarte ou pela não utilização. Como muitas vezes pode ser difícil distinguir até que ponto as perdas são intencionais, a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) prefere utilizar a expressão abrangente perda e desperdício,[1][2] e é neste sentido que o tema será tratado neste artigo.

Dados de 2016 apontam que cerca de 1,3 bilhão de tonelada de comida, representando em torno de 1/3 da produção mundial, são perdidas ou desperdiçadas anualmente,[3][4] significando uma contínua e injustificável sangria nos recursos vitais do planeta e na economia das nações, e sendo um fator de desequilíbrio ecológico e social, uma das causas do aquecimento global e um importante obstáculo à resolução do problema da fome crônica que ainda aflige mais de 800 milhões de pessoas em todo o mundo.[3]

Geografia[editar | editar código-fonte]

Nos países desenvolvidos e em desenvolvimento o desperdício ocorre em sua maioria na fase final da cadeia produtiva, a do consumo. Nos países mais pobres as perdas principais ocorrem nas etapas primárias e intermédias da cadeia, com perdas menos significativas na fase do consumo. Em geral, o desperdício ocorre em níveis mais elevados nos países onde a industrialização é mais acentuada. Por exemplo, na Europa e Estados Unidos as perdas per capita são estimadas em 95 a 115 kg por ano, enquanto que na África sub-saariana e no sudeste asiático elas ficam entre 6 e 11 kg por ano.[3]

Causas[editar | editar código-fonte]

Soldado caminhando sobre um depósito de lixo com grande quantidade de pão desperdiçado.

Diversos fatores contribuem que o alimento seja perdido durante sua produção, beneficiamento ou comercialização. O assunto ainda é relativamente pouco estudado e requer muito mais pesquisa, mas no panorama geral, nos países pouco desenvolvidos as perdas se devem principalmente a limitações de ordem financeira, administrativa, infra-estrutural ou técnica, e não entram propriamente na definição de desperdício, mas cabem na definição geral perda alimentar. Nos demais países principalmente se deve a fatores culturais ou comportamentais, e à deficiente coordenação entre os agentes da cadeia de produção, distribuição e comercialização dos alimentos. As perdas também ocorrem quando há produção acima da demanda, e são influenciadas por fatores culturais, econômicos estruturais e técnicos presentes em todos os países, que incluem as opções de produção, tradições da cultura agropecuária e pesqueira, maneiras de armazenamento, distribuição e comercialização dos produtos, gosto pela abundância à mesa, compras excessivas, desinteresse pelo consumo das sobras e a lucratividade de cada uma das etapas da cadeia.[3][2][5] Por exemplo, Gustavo Porpino, analista da Embrapa, avaliando o caso do Brasil, onde anualmente são perdidas 41 mil toneladas de comida, mostrou como a cultura tem um peso importante no conjunto de causas e como há muito desperdício também entre as classes mais baixas: "O Pais une fatores mais presentes em países pobres, tais como perdas no escoamento da safra devido a infraestrutura logística inadequada, com características comportamentais de consumo mais alinhadas com os hábitos dos consumidores de países ricos", concluindo que "a família brasileira típica gosta de fartura na despensa e na mesa. Quando esse gosto pela abundância é combinado com a preferência pela comida fresquinha, temos um cenário propício a gerar elevado desperdício. [...] As sobras são vistas com preconceito, e isso alimenta o desperdício. Muitas mulheres me disseram que a família não gosta de 'comida dormida' e que o arroz tem que ser sempre fresquinho".[6] Outro fator cultural que têm influência no problema é o conceito que a população forma a respeito do que é um bom alimento. Muitas vezes alimentos perfeitamente comestíveis são descartados ou rejeitados por razões alheias ao seu valor nutricional, acabando por perder-se. O professor da UNICAMP Walter Belik exemplifica:

"O consumidor valoriza o aspecto cosmético do produto, da fruta, da verdura, se ela está bonita, etc. Se ela está com uma manchinha, ou feia, enrugada, ou se a cenoura não tem aquele tamanho ou formato exato, ela já não serve para o consumo. Então, como o consumidor rejeita, o varejo acaba rejeitando, e o produtor nem colhe. Isso está mudando na Europa e em alguns lugares dos Estados Unidos, mas, principalmente na Europa, existem campanhas públicas para consumir alimentos que não são perfeitos, bonitos, mostrando que a qualidade nutricional está nessa diversidade. As pessoas são diferentes, por que os vegetais têm de ser iguais, todos exatamente iguais? Então, o consumo é ditado pelo mercado, sim, porém o mercado se move em função da consciência das pessoas. Por isso, tem de conscientizar as pessoas para o consumo diferenciado".[7]

Impacto[editar | editar código-fonte]

Cartaz da 1ª Guerra Mundial com os dizeres Comida é munição, não desperdice.

As perdas e desperdícios de alimentos representam uma vasta e inútil drenagem de recursos de várias ordens: terra, água, energia, força de trabalho e dinheiro, além de diminuir o bem estar das pessoas e prejudicar o meio ambiente em geral, elementos cujo valor não pode ser quantificado ou monetarizado. O desperdício têm um impacto cultural insidioso, pois a grande quantidade de comida perdida transmite uma impressão de que o alimento é facilmente conseguido e tem pouco valor intrínseco, e por isso pode ser desperdiçado sem preocupações, o que é uma visão profundamente equivocada, reforçando o círculo vicioso das perdas.[3]

O problema tem também vastas implicações ecológicas e biológicas, pois a produção de alimentos, sempre em crescimento para atender a uma população mundial que não para de aumentar, requer o uso de sempre mais recursos naturais e implica na morte de uma multidão de animais e plantas por causas diretas e indiretas. Se o alimento é perdido, a biodiversidade foi desnecessariamente empobrecida, os recursos naturais foram usados para nada e os animais e plantas foram sacrificados em vão. Além disso, a decomposição de comida perdida ou desperdiçada emite grandes quantidades de metano e gás carbônico, que estão entre os principais gases estufa, os desencadeadores do aquecimento global, fenômeno que por si tem vastas consequências negativas.[3][8] Estima-se que cerca de 3,3 bilhões de toneladas de carbono sejam lançadas na atmosfera anualmente pelas perdas alimentares.[9] Paralelamente, a produção, estocagem e comercialização de alimentos tem contemporaneamente feito um uso crescente de produtos químicos altamente tóxicos como pesticidas, fertilizantes e conservantes, além de usar embalagens fabricadas com plástico e outros materiais não-biodegradáveis, ampliando consideravelmente os problemas da poluição ambiental e do manejo do lixo.[10]

Tem ainda um grande impacto econômico, pois comida perdida é dinheiro perdido. A FAO calcula que os custos chegam a 750 bilhões de dólares por ano.[9] Observa-se adicionalmente um importantíssimo custo social, já que grande população no mundo, calculada em torno de 840 milhões de pessoas, ainda sofre de fome crônica.[11] Segundo a FAO, a quantidade de comida perdida poderia erradicar completamente a fome do mundo.[12] Além disso, como os desperdícios especificamente se situam em sua maioria nos países industrializados, que importam muita comida produzida nos países pouco desenvolvidos, onde a fome é mais comum, as perdas concorrem para aumentar a desigualdade e a injustiça social, e ampliam os problemas já existentes de segurança alimentar, saúde pública, desemprego, migrações forçadas, violência e urbanização, entre outros, e podem ser uma causa de desintegração de culturas tradicionais.[2][13]

Referências

  1. FAO. Save Food: Global Initiative on Food Loss and Waste Reduction. Definitional framework of food loss. Working paper, 27/02/2014
  2. a b c FAO [Segrè, A. et al.]. Background paper on the economics of food loss and waste: Working paper, 2014
  3. a b c d e f FAO [Gustavson, Jenny et al]. Global Food Losses and Food Waste: Extent, causes and prevention. 2011
  4. "Desperdício global de alimentos gera prejuízo de 750 bilhões de dólares por ano, calcula FAO". ONU-BR, 23/10/2013
  5. Porpino, Gustavo; Parente, Juracy; Wansink, Brian. "Food waste paradox: antecedents of food disposal in low income households". In: International Journal of Consumer Studies, 2015; 39 (6):619–629
  6. "Por que famílias pobres também desperdiçam comida no Brasil?" BBC Brasil, 08/04/2017
  7. "O desperdício de alimentos no Brasil. Entrevista especial com Walter Belik". Instituto Humanitas — UNISINOS, 11/05/2014.
  8. FAO. Food Wastage Footprint: Impacts on natural resources — Summary report, 2013
  9. a b "Dados alarmantes sobre desperdício de alimentos no mundo: Banco de Alimentos minimiza o problema há 13 anos". Banco de Alimentos.
  10. UNEP & GRID-Arendal [Rucevska, I. et al.]. Waste Crime – Waste Risks: Gaps in Meeting the Global Waste Challenge. A UNEP Rapid Response Assessment, 2015
  11. FAO. The State of Food and Agriculture: Innovation in family farming, 2014
  12. Dolan, David. "Desperdício de alimentos é preocupação enorme, diz G20". Revista Exame, 08/05/2015
  13. FAO. Food and Nutrition in Numbers, 2014

Ver também[editar | editar código-fonte]

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Ligações externas[editar | editar código-fonte]