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Deus, o Pai

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Representação renascentista de Deus Pai em glória na visão do profeta Ezequiel, por Rafael.

Deus, o Pai ou Deus Pai é um título dado a Deus no cristianismo. No cristianismo trinitário, Deus Pai é reconhecido como a primeira Pessoa da Santíssima Trindade, com as outras duas Pessoas sendo Deus Filho, Jesus Cristo e Deus Espírito Santo.[1]

Desde o segundo século, credos cristãos incluem a afirmação na crença em "Deus Pai (todo-poderoso)", principalmente em sua capacidade como "Pai e criador do universo".[2]

O cristianismo ainda explora, de forma metafísica, o conceito de Deus como criador e pai de todos os povos,[3] como indicado no Credo dos Apóstolos (e mais detalhadamente no Credo Niceno), onde a expressão de fé no "Pai todo-poderoso, criador do céu e da terra" é imediatamente — mas separadamente — seguida pela crença em "Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor", assim expressando os dois sentidos da paternidade de Deus.[4]

Cristianismo

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Visão geral

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Na maior parte do Cristianismo moderno, Deus é referido como O Pai, tanto pelo seu interesse ativo na humanidade, de forma análoga a um pai que cuida de seus filhos, como pela sua atuação benevolente em prol destes.[5][6][7]

Muitos cristãos acreditam que podem se comunicar com Deus e se aproximarem dele por meio da oração, um elemento chave no alcance da comunhão com Deus.[8][9][10]

Em geral, o título Pai (capitalizado) significa o papel de Deus como a fonte da vida, a autoridade e um poderoso protetor, geralmente visto como imenso, onipotente, onisciente e onipresente, de poder e caridade infinitos, além da compreensão humana.[11]

Por exemplo, depois de completar sua obra prima, a Suma Teológica, o Doutor da Igreja católica Tomás de Aquino afirmou que ele ainda não tinha começado a entender "Deus, o Pai".[12]

Embora o termo "Pai" implica em características masculinas, Deus é usualmente definido como possuindo a forma de um espírito sem assumir qualquer gênero biológico humano; por exemplo, o Catecismo da Igreja Católica, em seu artigo 239, especificamente declara que "Ele não é nem homem nem mulher, é Deus".[13][14]

Além disso, embora Deus nunca seja diretamente referido como "Mãe", algumas vezes atributos maternos podem ser interpretados em trechos do Antigo Testamento, como no livro de Isaías (42:14; 49:14-15; 66:12-13).[15]

Antigo Testamento

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De acordo com a teóloga presbiteriana Marianne Thompson, Deus é chamado "Pai" com um sentido único de familiaridade que vai além do sentido que Deus é o "Pai" de todos os homens pela criação do mundo: o mesmo Deus é — de forma única — o legislador de seu povo escolhido. Dessa forma, Deus mantém um relacionamento especial, por meio da Aliança, num formato de "pai-filho" com seu povo, dando a eles o Sabá, seus profetas e uma herança única nos planos de Deus. Além disso, o povo israelita ("Israel") é chamado de "meu filho" pela sua libertação da escravidão no Egito pelas alianças e juramentos feitos a seus pais, Abraão, Isaac e Jacó.[16]

Na Bíblia Hebraica, é possível citar Isaías como evidência da visão judaica de Deus como um pai protetor de seu povo. Ele é ainda intitulado como o Pai dos pobres, dos órfãos e das viúvas e sua garantia de justiça. Além disso, recebe o título de Pai do rei, como o professor e o ajudante do juiz de Israel.[16]

Pois tu és nosso pai, ainda que Abraão não nos conhece, e Israel não nos reconhece; tu, Jeová, és nosso pai; nosso redentor desde a antigüidade é o teu nome.

— Isaías, Livro de Isaías (Capítulo 63, Versículo 16), Tradução Brasileira da Bíblia (Domínio Público)

Novo Testamento

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No cristianismo, há a crença profunda na comunhão dos fiéis com o Pai, feitos participantes no relacionamento eterno entre o Pai e o Filho, através de Jesus Cristo. Os cristãos chamam-se a si próprios filhos adotados de Deus:[17][18]

Mas quando veio o cumprimento do tempo, enviou Deus a seu Filho, nascido de mulher, nascido debaixo da Lei, a fim de resgatar os que estavam debaixo da Lei, para que recebêssemos a adoção de filhos. Por que sois filhos, Deus enviou ao nossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, pai.

Assim não és mais escravo, porém filho: mas se filho, também herdeiro por Deus.

— São Paulo Apóstolo, Carta aos Gálatas, Tradução Brasileira da Bíblia (Domínio Público)

No Cristianismo, o conceito de Deus como o Pai de Jesus é distinto do conceito de Deus como o criador e Pai de toda a humanidade, como indicado no Credo dos Apóstolos.[19]

A profissão tem, em seu início, a crença expressa no "Pai todo-poderoso, criador do céu e da terra" e, logo após, mas de forma separada, em "Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor", dessa forma expressando ambos os sentidos da paternidade de Deus, no credo.[19]

Na arte ocidental

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Representação de Deus Pai (à direita) numa pintura de Pietter de Grebber (1654)

Por cerca de mil anos, nenhuma tentativa de retratação de Deus Pai de forma humana foi realizada, em razão da crença dos primeiros cristãos que o exposto em Êxodo 33:20 e João 1:18 não aplicaria apenas ao Pai, mas também em todas as retratações do Pai.[20]

Tipicamente, apenas uma pequena parte do corpo do Pai — como a mão ou o rosto — seria representada, mas nunca o corpo inteiro. Em muitas imagens, a figura do Filho suplantava a do Pai de forma que uma menor porção do Pai fosse retratada.[21]

Deus Pai, por Jacob Herreyns, o Velho, século XVIII

Na Alta Idade Média, Deus era frequentemente representado por Cristo (como o Logos), o que continuou a ser uma prática muito comum mesmo depois da descrição doutrinária mais precisa da Trindade. Após sucessivas tentativas de ilustrar a presença do Pai em diversos estilos artísticos, a representação do Pai de forma humana gradualmente tomou forma por volta do século X.

A partir do século XII, representações de Deus Pai essencialmente baseadas no Livro de Daniel, mais precisamente no capítulo 7, começaram a aparecer em manuscritos franceses e em vitrais ingleses. No século XIV, a ilustrada Bíblia de Nápoles possui uma representação do Pai na iluminação que retratava a sarça ardente. No século XV, o Livro de Horas de Rohan incluia representações de Deus Pai em forma humana. Embora a representação da figura de Deus Pai continue rara e controversa na arte ortodoxa, a representação da figura na igreja ocidental é comum desde o Renascimento.[22]

Ver também

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Referências

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  1. Emery, Gilles (2011). The Trinity: An Introduction to Catholic Doctrine on the Triune God (em inglês). [S.l.]: Catholic University of America Press. Consultado em 9 de junho de 2025 
  2. Kelly, J. N. D. (14 de novembro de 2006). Early Christian Creeds (em inglês). [S.l.]: A&C Black. Consultado em 9 de junho de 2025 
  3. Goshen-Gottstein, Alon (2001). «God the Father in Rabbinic Judaism and Christianity: Transformed Background or Common Ground?» (PDF). Journal of Ecumenical Studies. Cópia arquivada (PDF) em 17 de dezembro de 2012 
  4. Neville, Robert C.; Neville, Beth (2001). Symbols of Jesus: A Christology of Symbolic Engagement 1ª ed. Cambridge: Cambridge University Press. ISBN 0521003539 
  5. Miller, John W. (1999). Calling God "Father": essays on the Bible, fatherhood, and culture 2nd ed. ed. New York: Paulist Press. ISBN 978-0-8091-3897-5 
  6. Barth, Karl (2010). Church Dogmatics, Vol. 2.1, Section 31: The Doctrine of God. [S.l.: s.n.] pp. 15–17 
  7. Bartolo-Abela, Marcelle (2012). The divine heart of God the father 2nd revised edition ed. Longmeadow, MA: Apostolate of the Divine Heart. ISBN 978-0-9837152-9-0 
  8. Barackman, Floyd H. (2002). Practical Christian Theology. [S.l.: s.n.] p. 117 
  9. Miller, John W. (1999). Calling God "Father": essays on the Bible, fatherhood, and culture 2nd ed. ed. New York: Paulist Press. ISBN 978-0-8091-3897-5 
  10. Devotion to the divine heart of God the father Third edition revised ed. East Longmeadow, MA: Apostolate of the Divine Heart. 2012. ISBN 978-0-9837152-8-3 
  11. Kimbrough, Lawrence (2006). Contemplating Gof the Father: a devotional. Nashville, Tenn: Broadman & Holman Pulbishers. ISBN 978-0-8054-4083-6 
  12. Petrisko, Thomas W. (2001). The Kingdom of Our Father. [S.l.]: St. Andrew's Press. p. 8 
  13. «Catechism of the Catholic Church - IntraText». www.vatican.va. Consultado em 19 de dezembro de 2025 
  14. Sé, Santa (23 de junho de 2022). Catecismo da Igreja Católica - 5ª edição - capa dura 5 ed. Brasília, DF: Conferencia Nacional Dos Bispos Do Brasil - Edições Cnbb. p. 84. ISBN 978-65-5975-096-2 
  15. Miller, John W. (1999). Calling God "Father": essays on the Bible, fatherhood, and culture 2nd ed. ed. New York: Paulist Press. pp. 50–51. ISBN 978-0-8091-3897-5 
  16. a b Thompson, Marianne Meye (2000). «God as Father in the Old Testament and Second Temple Judaism». The promise of the Father: Jesus and God in the New Testament. [S.l.: s.n.] p. 35. Christian theologians have often accentuated the distinctiveness of the portrait of God as Father in the New Testament on the basis of an alleged discontinuity 
  17. Scott, Ian W. (2008). Paul's Way of Knowing. [S.l.: s.n.] pp. 159–160 
  18. O'Grady, John F. (1992). Pillars of Paul's gospel: Galatians and Romans. New York: Paulist Press. p. 162. ISBN 978-0-8091-3327-7 
  19. a b Neville, Robert C.; Neville, Beth (2001). Symbols of Jesus: a christology of symbolic engagement 1. publ ed. Cambridge: Cambridge University Press. ISBN 978-0-521-00353-7 
  20. Cornwell, Hilarie; Cornwell, James; Post, W. Ellwood (2009). Saints, signs, and symbols 3rd ed ed. Harrisburg, PA: Morehouse Pub. ISBN 978-0-8192-2345-6 
  21. Didron, Adolphé Napoleón (2003). Christian iconography: or The history of Christian art in the middle ages. [S.l.: s.n.] p. 169 
  22. Ferguson, George (1989). Signs & symbols in Christian art. London: Oxford University Press. ISBN 978-0-19-501432-7 
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