Deus e o Diabo na Terra do Sol
| Deus e o Diabo na Terra do Sol | |
|---|---|
Pôster promocional | |
| Brasil 1964 • pb • 120 min | |
| Gênero | drama faroeste |
| Direção | Glauber Rocha |
| Produção | Jarbas Barbosa Luiz Augusto Mendes Glauber Rocha Luiz Paulino dos Santos |
| Roteiro | Glauber Rocha Walter Lima Jr. |
| Elenco | Geraldo Del Rey Yoná Magalhães Maurício do Valle Othon Bastos Sônia dos Humildes |
| Música | Sérgio Ricardo Heitor Villa-Lobos |
| Cinematografia | Waldemar Lima |
| Direção de arte | Paulo Gil Soares |
| Figurino | Paulo Gil Soares |
| Edição | Rafael Justo Valverde |
| Companhia produtora | Copacabana Filmes |
| Idioma | português |
Deus e o Diabo na Terra do Sol é um filme brasileiro de 1964 dos gêneros drama e faroeste, dirigido por Glauber Rocha, com roteiro escrito por ele e Walter Lima Jr.. No elenco principal, estavam nomes como Geraldo Del Rey, Yoná Magalhães, Othon Bastos, Sônia dos Humildes e Maurício do Valle. O filme foi produzido pela Copacabana Filmes, que também fez a distribuição da obra ao lado da Herbert Richers S.A.. A trama acompanha Manoel, um vaqueiro que fica revoltado por ser explorado pelo coronel Moraes, acabando por matá-lo em uma briga. Perseguido por jagunços, foge com sua esposa Rosa, se juntando a um grupo de seguidores do beato Sebastião, que promete o fim do sofrimento através do retorno a um catolicismo místico e ritual. Enquanto isso, o matador de cangaceiros Antônio das Mortes é contratado para exterminar os seguidores do beato.[1]
Considerado um marco do movimento cinematográfico brasileiro Cinema Novo, teve sua estreia na 17º edição do Festival de Cinema de Cannes, que ocorreu entre os dias 29 de abril de 1964 a 14 de maio de 1964, onde competiu pela Palma de Ouro, prêmio de maior prestígio do Festival.[2][3] Entre os prêmios recebidos pelo filme estão o Prêmio Especial do Júri no Festival de Acapulco, em 1966, e o Prêmio Saci de Melhor Produtor, para Luiz Augusto Mendes, e Melhor Ator Coadjuvante para Maurício do Valle, em 1965. Deus e o Diabo na Terra do Sol foi escolhido pelo Ministério das Relações Exteriores como o representante do Brasil ao Oscar de Melhor Filme Internacional, na 37ª cerimônia da premiação, porém acabou por não ser indicado na categoria.[4]
Em 1999, em uma pesquisa do jornal Folha de S.Paulo realizada com 24 críticos e estudiosos do cinema brasileiro, Deus e o Diabo na Terra do Sol foi indicado como um dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos, ficando na primeira posição na lista.[5] Foi listado por Jeanne O Santos, do Cinema em Cena, como "clássicos nacionais".[6] Em novembro de 2015, atingiu o 2º lugar na lista feita pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) dos cem melhores filmes brasileiros de todos os tempos, ao lado de outros filmes de Rocha, como Terra em Transe, O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro, A Idade da Terra e Di.[7] Em maio de 2026, foi incluído na lista dos cem filmes brasileiros mais importantes de todos os tempos, da mesma associação.[8]
Enredo
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Sertão, 1940. O sertanejo Manoel e sua mulher Rosa levam uma vida sofrida no interior do país, uma terra desolada e marcada pela seca. No entanto, Manoel tem um plano: usar o lucro obtido na partilha do gado com o coronel para comprar um pedaço de terra. Quando leva o gado para a cidade, alguns animais morrem no percurso. Chegado o momento da partilha, o coronel diz que não vai dar nada a Manoel, porque o gado que morreu era dele, ao passo que o que chegou vivo era seu. Manoel se enfurece, mata o coronel e foge para casa.[1]
Perseguido por jagunços, ele e sua esposa resolvem ir embora e fugir, deixando tudo para trás. Manoel decide juntar-se a um grupo religioso liderado por um santo (Sebastião) que lutava contra os grandes latifundiários e em busca do paraíso após a morte. Os latifundiários decidem contratar Antônio das Mortes, que se autodenomina "matador de cangaceiros", para perseguir e matar o grupo.[1] Rosa esfaqueia Sebastião após vê-lo matar um bebê que estava nos braços de Manoel. Antônio das Mortes chega e assassina todos os fiéis, exceto o casal. Os dois fogem novamente.
Manoel e Rosa são guiados pelo narrador da epopeia Cego Júlio até um grupo de cangaceiros, liderados por Corisco e Dadá, juntando-se a eles. Os cangaceiros também trabalham para derrubar o governo e os chefões do sertão. Antônio encontra os chefes Corisco e Dadá e os mata.[9]
O filme termina com Manoel e Rosa, mais uma vez sozinhos, fugindo de uma aliança para outra, em busca de seu lugar em uma terra implacável.
Elenco
[editar | editar código]- Geraldo Del Rey como Manoel: um vaqueiro que se revolta contra a exploração imposta pelo coronel Moraes, acabando por matá-lo em uma briga. Perseguido por jagunços, foge deixando tudo para trás
- Yoná Magalhães como Rosa: esposa de Manoel. Foge junto com o marido
- Lídio Silva como Sebastião: beato que promete o fim do sofrimento através do retorno a um catolicismo místico e ritual
- Maurício do Valle como Antônio das Mortes: um matador de cangaceiros, contratado para exterminar os seguidores do beato
- Roque Santos como Cego Júlio: narrador da epopeia que guia Manoel e Rosa até Corisco
- Othon Bastos como Corisco: um dos últimos comparsas de Lampião, e célebre pela sua selvageria. Chefe dos cangaceiros junto a Dadá
- Sônia dos Humildes como Dadá: esposa de Corisco, sendo chefe dos cangaceiros ao seu lado
- Milton Rosa como Coronel Moraes: patrão de Manoel que tenta o enganar, sendo morto por ele
- João Gama como Padre
- Antônio Pinto como Coronel da Região
Antecedentes e produção
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"Uma estética da violência antes de ser primitiva é revolucionária, eis aí o ponto inicial para que o colonizador compreenda a existência do colonizado.".
Deus e o Diabo na Terra do Sol foi o segundo longa-metragem de Glauber Rocha, que anteriormente havia dirigido o curta Pátio (1959) e Barravento (1962). O filme foi produzido após o golpe militar de 1964, época em que o Cinema Novo, movimento cinematográfico brasileiro influenciado pelo Neorrealismo italiano e pela Nouvelle vague, estava em seu auge, em um tempo que foi marcado pelo descontentamento de um grupo de cineastas com relação às questões políticas e sociais do país. O movimento ficou marcado pela desigualdade e a opressão de um contexto de luta que marcou não só o movimento como o terceiro mundo nessa época.[10]
Glauber, fascinado com a vitalidade, energia e violência de Corisco, realiza Deus e o Diabo na Terra do Sol em 1963. O roteiro, escrito por Rocha ao lado de Walter Lima Jr., amplia a sua crítica social em relação à exploração de sertanejos e à pobreza no sertão do nordeste.[9] Adriano Lisboa foi chamado por Rocha para interpretar Corisco, porém não pôde, que o fez chamar Othon Bastos para o papel, que conheceu na Escola de Teatro da Bahia.[11] Entre os outros nomes do elenco, participaram Geraldo Del Rey, Yoná Magalhães, Sônia dos Humildes como Dadá, e Maurício do Valle como Antônio das Mortes. O personagem de Valle ficou tão popular que voltaria em outro filme de Glauber Rocha, O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro.[12]
As filmagens ocorreram no município de Monte Santo, no estado da Bahia, sendo iniciadas em 18 de junho de 1963 e finalizadas em 2 de setembro do mesmo ano.[1] Durante a cena em que Manoel, personagem de Geraldo Del Rey, carrega uma enorme pedra sobre a cabeça enquanto escala o Monte Santo de joelhos, Del Rey insistiu em carregar uma pedra real que pesava mais de 20 quilos - algo que preocupou Glauber. Após as filmagens, Del Rey teve que tirar dois dias de folga, devido à fadiga.[13]
Lançamento
[editar | editar código]O filme foi lançado comercialmente nos cinemas brasileiros em 1 de junho de 1964, no Rio de Janeiro. Teve uma pré-estreia alguns dias antes, em 28 de maio em São Paulo.[1]
Home video e restauração
[editar | editar código]Em dezembro de 2002, o longa foi lançado em DVD pela Versátil Home Vídeo, em parceria com a RioFilme.[14] Na América do Norte, teve um lançamento em DVD pela Koch Entertainment. Em 2022, na 75º edição do Festival de Cannes, foi reexibido em uma versão restaurada em 4K, na sessão "Cannes Classics", 58 anos depois de sua estreia mundial.[15][16][17]
Recepção
[editar | editar código]Opinião da crítica
[editar | editar código]No agregador de críticas de cinema Rotten Tomatoes, Deus e o Diabo na Terra do Sol recebeu uma aprovação de 100% com base em 15 avaliações de críticos, registrando uma nota de 8,3 de 10.[18] O Metacritic, que usa uma média ponderada, atribuiu ao longa uma pontuação de 74 em 100, baseado em 6 críticos, indicando "geralmente favorável".[19]
A.H. Weiler, do The New York Times, elogiou o filme, chamando-o de "Simples, em preto e branco, mais impactante como uma polêmica chocante do que como um drama memorável".[20] Ted Shen, do The Chicago Reader, escreveu: "A fusão de elementos europeus e afro-brasileiros — diálogos, imagens requintadas em preto e branco e música de Villa-Lobos — é surpreendentemente original e poética ao transmitir a esperança e o desespero dos oprimidos".[21] A revista Time Out elogiou o estilo do filme como sendo "algo entre balada folclórica e mito contemporâneo, já que as referências à história e cultura brasileiras são onipresentes e bastante opacas para os não iniciados".[22]
Listas de melhores, essenciais, e mais importantes filmes
[editar | editar código]Deus e o Diabo na Terra do Sol foi incluído em diversas prestigiadas listas de melhores, essenciais, e mais importantes filmes brasileiros, entre elas na lista da Folha de S.Paulo, Associação Brasileira de Críticos de Cinema, Rolling Stone, Terra, Gazeta do Povo e O Globo, sempre nas primeiras dez colocações. Em maio de 2026, a Abraccine atualizou sua lista, agora como os filmes brasileiros mais importantes em ordem cronológica, contando com o longa de Glauber.
- 1.º lugar - Folha de S.Paulo[5]
- 1.º lugar - Contracampo[23]
- 2.º lugar - Associação Brasileira de Críticos de Cinema[7]
- 2.º lugar - O Globo[24]
- 3.º lugar - Rolling Stone[25]
- 3.º lugar - Terra[26]
- 4.º lugar - Gazeta do Povo[27]
- 4.º lugar - Filme & Cultura[28]
- 19.º lugar - Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Ordem cronológica)[8]
- 40.º lugar - Bravo![29]
- Sem ordem específica - Cinema em Cena[6]
Prêmios e indicações
[editar | editar código]Em 1964, foi indicado à Palma de Ouro no Festival de Cannes, ao lado do também brasileiro Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos.[30] No mesmo ano, recebeu o Prêmio Náiade de Ouro no Festival do Cinema Livre, e o Prêmio Governador do Estado de Melhor Música para Sérgio Ricardo. No Prêmio Saci de 1965, Luiz Augusto Mendes recebeu o prêmio de Melhor Produtor, enquanto o ator Maurício do Valle recebeu o de Melhor Ator Coadjuvante. Em 1966, no Festival de Acapulco, recebeu o Prêmio Especial do Júri.[1] Ainda foi o representante brasileiro ao Oscar de Melhor Filme Internacional.[4]
| Ano | Cerimônia | Categoria | Indicado | Resultado | Ref. |
|---|---|---|---|---|---|
| 1964 | Festival de Cinema de Cannes | Palma de Ouro | Glauber Rocha | Indicado | [2][3] |
| Festival do Cinema Livre | Prêmio Náiade de Ouro | Venceu | [1] | ||
| Prêmio Governador do Estado | Melhor Música | Sérgio Ricardo | Venceu | ||
| 1965 | Prêmio Saci | Melhor Produtor | Luiz Augusto Mendes | Venceu | |
| Melhor Ator Coadjuvante | Maurício do Valle | Venceu | |||
| 1966 | Festival de Cinema de Acapulco | Prêmio Especial do Júri | Glauber Rocha | Venceu | |
Legado
[editar | editar código]Deus e o Diabo na Terra do Sol é, até os dias atuais, reverenciado como revolucionário e um dos melhores filmes brasileiros já produzidos na história. O filme de Glauber Rocha é admirado e elogiado por diversas personalidades, como o premiado cineasta estadunidense Martin Scorcese, que afirmou que a obra de Glauber e o movimento Cinema Novo no geral é inspirador para seu trabalho.[31] Em entrevistas, o renomado e aclamado cineasta brasileiro Walter Salles incluiu o longa em sua lista dos quatro melhores filmes brasileiros.[32] Em sua participação no programa Criterion Closet, o ator Wagner Moura incluiu o filme entre os seus favoritos.[33]
Após a morte do diretor Glauber Rocha em 1981, o Cine Guarani, considerado a casa do cinema da Bahia e onde Rocha estreou Deus e o Diabo na Terra do Sol, passou a se chamar Cine Glauber Rocha, em sua homenagem.[34] A logo do cinema faz referência ao icônico cartaz do filme, idealizado por Rogério Duarte, sendo considerado um dos cartazes mais bonitos da história do cinema e um símbolo da cultura efervescente no Brasil da década de 60.[35]
Na semana de estreia do streaming gratuito brasileiro Tela Brasil, criada pelo Governo Federal, o longa de Rocha ficou entre os cinco mais assistidos, estando na segunda posição, apenas atrás de A Hora da Estrela (1985), de Suzana Amaral.[36]
Ver também
[editar | editar código]Referências
- 1 2 3 4 5 6 7 «FILMOGRAFIA - DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL». bases.cinemateca.gov.br. Consultado em 21 de outubro de 2025. Cópia arquivada em 2 de junho de 2025
- 1 2 «Festival de Cannes 1964». Festival de Cannes. Consultado em 12 de abril de 2026
- 1 2 «DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL Glauber ROCHA». Festival de Cannes. Consultado em 17 de junho de 2026
- 1 2 «Desde 1960, relembre filmes que tentaram vaga brasileira no Oscar». G1. 12 de setembro de 2016. Consultado em 15 de setembro de 2025. Cópia arquivada em 20 de agosto de 2025
- 1 2 «Os dez melhores filmes de todos os tempos». Folha de S.Paulo. 18 de março de 1999. Consultado em 13 de abril de 2026. Cópia arquivada em 5 de junho de 2026
- 1 2 Jeanne O Santos. «Clássicos nacionais». Cinema em Cena. CartaCapital. Consultado em 29 de junho de 2019. Cópia arquivada em 9 de setembro de 2019
- 1 2 André Dib (27 de novembro de 2015). «Abraccine organiza ranking dos 100 melhores filmes brasileiros». Abraccine. abraccine.org. Consultado em 26 de outubro de 2016. Cópia arquivada em 11 de março de 2026
- 1 2 «Veja a lista dos 100 filmes brasileiros essenciais segundo a Abraccine». G1. 11 de maio de 2026. Consultado em 13 de junho de 2026. Cópia arquivada em 10 de junho de 2026
- 1 2 DEUS e o Diabo na Terra do Sol. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2026. Disponível em: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obras/123435-deus-e-o-diabo-na-terra-do-sol. Acesso em: 13 de abril de 2026. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7
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- ↑ RAMOS, Fernão Pessoa; MIRANDA, Luiz Felipe Enciclopédia do Cinema Brasileiro SENAC São Paulo, 2000
- ↑ «DVD amplia "Deus e o Diabo" em 185 minutos». Folha de São Paulo. 18 de dezembro de 2002. Consultado em 13 de abril de 2026
- ↑ «Cannes Classics Lineup Includes Ethan Hawke's 'The Last Movie Stars', Restorations Of 'Singin' In The Rain', 'The Mother And The Whore' & More». Deadline. 2 maio 2022. Consultado em 12 abril 2026
- ↑ «Festival de Cannes exibe versão em 4K de Deus e o Diabo na Terra do Sol». G1. 2 de maio de 2022. Consultado em 12 de abril de 2026. Cópia arquivada em 19 de novembro de 2025
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- ↑ «Black God, White Devil». Rotten Tomatoes. Fandango Media. Consultado em 13 de abril de 2026. Cópia arquivada em 9 de fevereiro de 2026
- ↑ «Black God, White Devil». Metacritic. Fandom, Inc. Consultado em 13 de abril de 2026. Cópia arquivada em 25 de abril de 2026
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- ↑ «Nossa História - Cine Glauber Rocha». cineglauberrocha.com.br. Consultado em 16 de junho de 2026
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- ↑ Andersen, Alice (15 de junho de 2026). «Tela Brasil: veja os filmes nacionais mais assistidos na plataforma brasileira de streaming». Revista Fórum. Consultado em 16 de junho de 2026