Deus no Islã

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa

Na teologia islâmica, Deus (em árabe: الله ou Allāh) é o [onipotente] e [onisciente] criador, responsável, juiz do universo e consciente de tudo o que ocorre no universo, incluindo sentimentos particulares, onde ninguém pode esconder nada de Deus:[1][2]

Em qualquer negócio que você esteja, e qualquer trecho que você esteja declamando do Alcorão - e qualquer feito que você esteja realizando -, Nós somos testemunhas disto quando estais profundamente interessado neste lugar. Nem é escondido de seu Senhor o peso de um átomo na terra ou no céu. E nem a menor ou a maior destas coisas deixa de estar relatada em um registro nítido.[3]

O Islã coloca uma pesada ênfase no conceito de Deus como estritamente singular (tawhid). Deus é único (wahid) e inerentemente Um (ahad), misericordioso e capaz de fazer qualquer coisa.

A criação e manutenção da ordem no universo é vista como um ato de misericórdia primordial pela qual todas as criaturas de Deus cantam-lhe glórias e são testemunhas da sua unidade e domínio. Pelos ensinamentos islâmicos, Deus existe sem um lugar. De acordo com o Alcorão, "Nenhuma visão pode compreendê-lo, mas sua compreensão está além de toda a visão. Deus está acima de compreensão, mas é inteirado com todas as coisas"

Deus responde aos necessitados ou desafortunados quando eles chamam. Acima de tudo, Deus guia a humanidade para o caminho correto, "o caminho sagrado", de plena plenitude.

De acordo com a tradição islâmica, há 99 nomes para Deus (em árabe: al-asma al-husna, "os melhores nomes"), cada um dos quais evoca um atributo distinto de Deus. Todos estes nomes referem-se a Alá, o nome divino supremo e que tudo compreende. Entre os 99 nomes de Deus, os mais famosos e mais frequentemente utilizados são "O Compassivo" (al-rahman) e "O Misericordioso" (al-rahim).

O Islã ensina que Deus, como referenciado no Alcorão, é o único Deus e o mesmo venerado por membros de outras religiões abraâmicas como o Cristianismo e o Judaísmo.

Unicidade de Deus[editar | editar código-fonte]

A unicidade de Deus (ou Tawhid) é a crença e afirmação de que Deus é um e único. O Alcorão assegura a existência de uma única e absoluta verdade que transcende o mundo; um único e indivisível ser que é independente de toda a criação.[1] Segundo o Alcorão:[1]

"Disse: Ele é Deus, o Um e Único; Deus, o Eterno, Absoluto; Ele não gerou e nem foi gerado; E não há nenhum como ele."[4]
Seu Deus é autosuficiente, cheio de misericórdia: se fosse a vontade de Deus, ele poderia destruí-lo, e no seu lugar apontar quem Deus deseja como seus sucessores, até mesmo como Deus lhe ergueu da posterioridade de outras pessoas."[5]

Segundo Vincent J. Cornell, o Alcorão também provê uma imagem monista de Deus ao descrever a realidade como um todo unificado, com Deus sendo um conceito singular que descreveria ou atribuiria todas as coisas existentes: "Deus é o Primeiro e o Último, o Externo e o Interno; Deus é o Conhecedor de todas as coisas[1][2] Alguns muçulmanos têm, contudo, vigorosamente criticado interpretações que levariam a um entendimento monista de Deus, pois eles o veem como algo que ofusca a distinção entre o criador e a criatura, conceito que é incompatível com o monoteísmo islâmico.[6]

A indivisibilidade de Deus implica na indivisibilidade da soberania deste, que por sua vez leva à concepção do universo como justo e coerente ao invés de um caos moral e existencialista (como no politeísmo). Similarmente, o alcorão rejeita os modos binários de pensamento, tais como a ideia da dualidade de Deus, ao argumentar que ambos bem e mal são gerados pela força criativa de Deus e que as forças malignas não têm poder para criar nada. Deus no Islã é um Deus universal ao invés de local, tribal ou paroquial; um absoluto que integra todos os valores e não tolera mal algum.[7]

O Tawhid constitui o artigo principal da revelação muçulmana.[8] Atribuir o caractere divino, venerar, uma entidade criada é o único pecado imperdoável mencionado no Alcorão.[7] Muçulmanos acreditam que todo o ensinamento Islâmico repousa sobre o princípio do Tawhid[9]

Nomes de Deus[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Noventa e nove nomes de Alá
Allah Jalla Jalãlah (Deus: na caligrafia árabe)

O alcorão refere-se aos atributos de Deus como "os nomes mais belos"[10] De acordo com Gerhard Böwering, "Eles são tradicionalmente enumerados até o 99 pois a este número é adicionado aquele que é considerado o nome mais importante (al-ism al-a'zam), o nome supremo de Deus, Alá. A fonte mais reconhecida para a listagem de nomes divinos na literatura do alcorão é a passagem 17:110, "Chame-o de Alá (o Deus), ou chame-o de Ar-Rahman (O Gracioso); como quiser que o chame, a ele pertencem os mais belos nomes" e também 59:22-24, que inclui um grupo de mais de doze epítetos divinos.[11] Os nomes mais comumente utilizados para Deus no Islã são

  • O Mais Alto (al-Ala)
  • O Mais Glorioso (al-Aziz)
  • O Eterno Piedoso(al-Ghaffar)
  • O Eterno Provedor (ar-Razzaq)
  • O Eternamente Vivo (al-Hayy)
  • O Altosubsistente pelo qual todos Subsistem (al-Qayyum)
  • O Senhor e Cuidador dos Mundos (Rabb al-Alameen)
  • A Soberana Verdade (al-Haqq)
  • O Eterno Senhor (al-Baqi)
  • O Sustentador (al-Muqsith)
  • A Fonte da Paz (As-Salaam)

A teologia islâmica faz uma distinção entre os atributos de Deus e a essência divina.[11]

Ademais, é um dos princípios fundamentais no Islã que Deus existe sem um lugar e não há similaridades para suas criações. Portanto, Deus não é um corpo e não há nada como ele. No Alcorão é dito o que significa "Nada é como ele de maneira alguma"[12] Alá não é limitado a dimensões.

Comparações teológicas[editar | editar código-fonte]

A teologia islâmica identifica Deus como descrito pelo Alcorão como o mesmo Deus de Israel que convencionou com Abraão.[13] Francis Edwards Peters diz que o Alcorão figura Alá como tanto mais poderoso quanto mais remoto que o Deus da Bíblia Hebraica.[14]

O Islã e o Judaísmo similarmente rejeitam a santíssima trindade, ensinando ao invés que Deus é uma entidade singular ao lado da qual ninguém mais pode ser adorado. Contudo, a identificação de Deus tanto no Islã quanto no Cristianismo com o Deus de Abraão leva a uma quantidade limitada de reconhecimento mútuo entre as religiões abraamicas.[15]

Em relação ao Cristianismo, o Islamismo tem algumas semelhanças, mas também diferenças significantes. Assim como o Cristianismo, o Islamismo é monoteísta. No entanto, os muçulmanos rejeitam o conceito da Trindade – ou seja, que Deus se revelou como um em três pessoas distintas: Pai, Filho e Espírito Santo. 

O Islamismo clama que Jesus era apenas um profeta – não o filho de Deus. Os muçulmanos acreditam que Jesus, embora nascido de uma virgem, foi criado como Adão. Muitos muçulmanos não acreditam que Jesus morreu na cruz. Eles não entendem por que Alá permitiria que o Seu profeta Isa (a palavra islâmica para "Jesus") sofresse uma morte torturante. Contudo, a Bíblia mostra como a morte do Filho perfeito de Deus foi fundamental para pagar pelos pecados dos crentes (Isaías 53:5-6, João 3:16, 14:6, 1 Pedro 2:24).

O Islamismo acredita que o Corão seja a autoridade final e a última revelação de Alá. A Bíblia, no entanto, foi finalizada no primeiro século com o livro de Apocalipse. O Senhor nos preveniu contra a adição ou subtração à Palavra de Deus (Deuteronômio 4:2; Provérbios 30:6, Gálatas 1:6-12, Apocalipse 22:18). O Corão, o qual clama ser uma adição à Palavra de Deus, desobedece diretamente o comando de Deus.

Finalmente, o Islamismo ensina que se pode ganhar o paraíso através de boas obras e obediência aos Cinco Pilares. A Bíblia, pelo contrário, revela que o homem não pode se comparar com um Deus santo (Romanos 3:23; 6:23). Apenas por causa da misericórdia e amor de Deus os pecadores podem ser salvos através da fé em Cristo (Atos 20:21; Efésios 2:8-9).

Devido a estas diferenças e contradições essenciais, o Islamismo e o Cristianismo não podem ser ambos verdadeiros. A Bíblia e o Alcorão não podem ambos ser a Palavra de Deus. A verdade tem consequências eternas.

“Amados, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo. Nisto conhecereis o Espírito de Deus: Todo o espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus; E todo o espírito que não confessa que Jesus Cristo veio em carne não é de Deus; mas este é o espírito do anticristo, do qual já ouvistes que há de vir, e eis que já está no mundo. Filhinhos, sois de Deus, e já os tendes vencido; porque maior é o que está em vós do que o que está no mundo” (1 João 4:1-4; ver também João 3:35-36).[16]

Ética Religiosa[editar | editar código-fonte]

O Alcorão também reúne ensinamentos éticos: não matar, não roubar, buscar a justiça e a sabedoria... Até cuidar do próprio corpo, consumindo alimentos saudáveis e renunciando aos vícios. E ainda contém os chamados 5 pilares do islã - deveres básicos de todo muçulmano. O primeiro é testemunhar que não há outro Deus senão Alá e que Maomé é Seu profeta. Os demais são: fazer 5 orações diárias em horários específicos; jejuar no ramadã (o 9º mês do calendário lunar muçulmano); dar esmola aos pobres (uma prática chamada zakat, ou purificação); e fazer a peregrinação até Meca pelo menos uma vez na vida. Os sufis, que representam a ala mística do islamismo, também seguem essas regras, mas almejam um contato "mais íntimo" com Deus. "Com devoções, práticas meditativas e espirituais, buscamos entrar em contato com Ele, mergulhando no universo superior, no significado mais profundo da existência", diz o sufi Ragip.

Seguir os ensinamentos divinos tal como foram ensinados, no entanto, é algo que cabe unicamente aos fiéis. De acordo com a tradição, Alá deu aos homens o livre-arbítrio e as orientações para que cada um faça a escolha certa. "O mundo é um lugar de testes, por isso há o bem e o mal, ambos criados por Ele". Mas o devoto nunca está sozinho em sua jornada. Ele tem o livro sagrado, o exemplo do profeta e a orientação dos líderes religiosos. Sem contar a oração, é claro. "Quando oramos, falamos com Deus", diz Hassan. "E quando lemos o Alcorão, Ele fala conosco."

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Al-Bayhaqi (1999), Allah's Names and Attributes (Os Nomes e Atribuições de Alá), ISCA, ISBN 1-930409-03-6
  • Hulusi, Ahmed (1999), "Allah" as introduced by Mohammed (Alá como apresentado por Maomé), Kitsan, 10th ed., ISBN 975-7557-41-2
  • Muhaiyaddeen, M. R. Bawa (1976), Asmāʼul-Husnā: the 99 beautiful names of Allah (Os 99 lindos nomes de Alá), The Bawa Muhaiyaddeen Fellowship, ISBN 0-914390-13-9
  • Netton, Ian Richard (1994), Allah Transcendent: Studies in the Structure and Semiotics of Islamic Philosophy, Theology and Cosmology (Transcendência de Alá: Estudos sobre a Estrutura e a Semiótica da Filosofia, Teologia e Cosmologia Islâmicas, Routledge, ISBN 0-7007-0287-3

Referências

  1. a b c d Vincent J. Cornell, Encyclopedia of Religion (Enciclopedia da Religião), Vol. 5, pág. 3561-3562
  2. a b Sura, Alcorão: 57:3
  3. Alcorão, 10:61
  4. Sura, Alcorão: 112:1-4, Yusuf Ali
  5. Sura, Alcorão: 6:133, Yusuf Ali
  6. Roger S. Gottlie (2006), pág. 210
  7. a b Asma Barlas (2002), pág. 96
  8. D. Gimaret, Tawhid, Encyclopaedia of Islam (Enciclopedia do Islã)
  9. Tariq Ramadan (2005), pág. 203
  10. Alcorão: 7:180, 17:110, 20:8 e 59:24.
  11. a b Böwering, Gerhard. "God and his Attributes" (Deus e seus Atributos) Encyclopaedia of the Qurʾān. (Enciclopedia do Alcorão)
  12. Alcorão, 42:11
  13. Segundo Francis Edwards Peters, "O Alcorão insiste, os muçulmanos acreditam e historiadores afirmam que Maomé e seus seguidores veneram o mesmo Deus que os Judeus (ver Alcorão: 29:46). O Alá do Alcorão é o mesmo deus criador que pactuou com Abraão."
  14. F.E. Peters, Islam, pág. 4, Princeton University Press (Editora da Universidade de Princeton), 2003
  15. Ludovico Marracci (1734), o confissor do Papa Inocêncio XI, diz:

    Que tanto Maomé e aqueles entre seus seguidores que são considerados ortodoxos, tiveram e continuam a ter noções verdadeiras e justas de Deus e seus atributos é visível do alcorão sozinho e todas as leis muçulmanas. Seria uma perda de tempo refutar aqueles que supõem que o Deus de Maomé é diferente do Deus verdadeiro.

    William Montgomery Watt, Islam and Christianity today: A Contribution to Dialogue (Islã e Cristianismo hoje: Uma contribuição ao diálogo), Routledge, 1983, pág. 45

  16. «O que é o Islamismo e em que os muçulmanos acreditam?». Consultado em 2016-09-28.