Dogville

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Dogville
Dogville
Dogville (PT/BR)
 Dinamarca
 Suécia
 Noruega
 Finlândia
 Reino Unido
 França
 Alemanha
 Países Baixos

2003 •  cor •  177 min 
Direção Lars von Trier
Roteiro Lars von Trier
Elenco Nicole Kidman
Paul Bettany
John Hurt
James Caan
Gênero drama
Cinematografia Anthony Dod Mantle
Edição Molly Marlene Stensgard
Distribuição Lions Gate Entertainment
California Filmes
Lançamento Brasil 4 de outubro de 2003 (Festival de Cinema Internacional do Rio de Janeiro)
Portugal 10 de outubro de 2003
Idioma inglês
Orçamento US$ 10 milhões
Receita US$ 16 680 036[1]
Página no IMDb (em inglês)

Dogville é um filme lançado em 2003 e dirigido por Lars von Trier, estrelando Nicole Kidman e Paul Bettany entre outros. Este filme faz parte da trilogia "E.U.A. Terra de Oportunidades" tendo como sequência Manderlay (2005) e Washington (planejado inicialmente para 2007, atualmente sem data prevista).

Trata-se de co-produção dos países Dinamarca, Suécia, Noruega, Finlândia, Reino Unido, França, Alemanha e Países Baixos.

Aspectos gerais[editar | editar código-fonte]

O filme chama a atenção pela simplicidade de seus cenários e cortes de cenas não convencionais. Todo o filme foi feito dentro de um galpão na Suécia com o mínimo de artefatos, há poucas mesas e algumas paredes, mas normalmente há apenas marcações no chão indicando que ali é a casa de tal pessoa, ou há um arbusto, o que é conhecido como cenário conceitual. Apesar de os personagens fazerem constantes referências à paisagem, ou ao céu, o fundo é infinito, tendo constantes alterações de luz e cor que indicam mudanças de dia e noite, clima e momentos importantes do filme. Há ainda um narrador onisciente, e é o próprio Lars von Trier quem controla a câmera.

O trabalho dos atores é muito valorizado. Muitos espectadores saem maravilhados com a sensibilidade com que Lars retrata a arrogância humana, e com a atuação brilhante de Nicole Kidman (vencedora do Oscar por As Horas).

Influências e referências[editar | editar código-fonte]

Dogville apresenta claras referências visuais e influências de produção herdadas do movimento Dogma 95, manifesto cinematográfico iniciado pelo próprio Lars Von Trier. Temos câmera na mão, ausência de trilha sonora e de deslocamentos temporais ou geográficos; entretanto, há a presença de gruas, iluminação artificial e cenografia, itens proibidos no Manifesto Dogma 95.[2]

Existem visíveis influências teatrais em Dogville, como o teatro de Bertolt Brecht, que costumava colocar avisos de 'atenção, não se emocione, isso é ficção' em suas peças; o teatro caixa preta, realizado em um único cenário com as paredes todas pretas, e finalmente o teatro do absurdo, em que atores improvisam e criam situações em que interagem com objetos imaginários.[2]

Percebe-se, na construção da trama e no foco humanista do tratamento das personagens, influências de escolas de Filosofia, especialmente as gregas. Por duas vezes citam-se nos diálogos ensinamentos dos estoicistas, escola que pregava o abandono da emoção para vivermos sem dor. E muito da moral da história gira em torno da diferença entre altruísmo - dar sem esperar nada - e o quid pro quo - que exige compensação equivalente para cada ação.

Não pode ser ignorada ainda a influência que o filme recebe da peça, A visita da Velha Senhora, de Friedrich Dürrenmatt, sendo a película em muitos momentos uma espécie de adaptação do drama de Dürrenmatt.

Enredo[editar | editar código-fonte]

Gtk-paste.svg Aviso: Este artigo ou se(c)ção contém revelações sobre o enredo.

O filme é dividido em 10 partes - cada uma com créditos e introdução narrada - sendo 1 prólogo e 9 capítulos. A trama acontece em um único local, uma cidade pequena dos Estados Unidos chamada "Dogville", situada no fim de uma estrada que vai até as Montanhas Rochosas, na época da Grande Depressão estadunidense.

O filme começa com uma tomada de cima para baixo, onde se pode ver o desenho da cidade (com as marcações dos espaços das casas no chão). Essas tomadas perpendiculares repetir-se-ão em diversas cenas, sendo marcos importantes da narrativa. O narrador vai então apresentando os personagens um por um ("todos têm pequenos defeitos facilmente perdoáveis") e contando suas histórias.

Entre os moradores de Dogville, o personagem principal é Thomas Edison Jr., escritor que, para protelar o dia em que terá que começar a escrever seu livro, ocupa-se em pregar sermões a toda a comunidade sobre rearmamento moral. Ele está procurando um exemplo para servir de ilustração a suas teorias e assim comprovar que os moradores não são capazes de aceitar novas situações, quando é interrompido por barulhos de tiros a distância.

Nesse momento entra Grace, bela jovem com vestido que denota sua origem de família rica. Ela diz a Tom que está fugindo de um gângster e Tom, percebendo nela o exemplo perfeito para sua palestra, dá-lhe cobertura.

Os moradores de Dogville a princípio recusam-se a aceitá-la, e Tom propõe que dêem a Grace um prazo de duas semanas, para então decidirem sua sorte. Grace, em compensação, deve ajudá-los em tarefas cotidianas. Apesar de não admitirem, eles jamais dão coisa alguma, não há generosidade ou aceitação: há um sistema de trocas e é esse sistema de compensações (o quid pro quo) que, aliado à personalidade de perdoar de Grace (seu altruísmo), anuncia a tragédia.

Os moradores relutam até mesmo em aceitar a ajuda de Grace, mas acabam aceitando, e ela rapidamente começa a passar seus dias ocupada em fazer pequenas coisas que "não são necessárias", mas que os moradores "generosamente" permitem que ela faça. E assim passam-se as semanas, os moradores aceitam que Grace fique na vila, como mais um favor que ela ficará devendo a eles.

Tom confessa a Grace que gosta dela e é correspondido, mas ele não assume publicamente seu amor perante Dogville, mantendo o romance deles secreto e mantendo Grace na condição de estrangeira.

A aparente tranqüilidade da situação começa a mudar no dia da Independência, quando a cidadezinha recebe a visita da polícia, que afixa um cartaz em que Grace é apontada como procurada.

Os moradores consideram ainda maior a dívida de Grace com eles, fazendo cada vez mais exigências, que, diante da complacência e comportamento passivo da forasteira, rapidamente transformam-se em abusos. Uma cena forte do filme ocorre quando ela é estuprada por Chuck, como "pagamento" para que ele não a denunciasse às autoridades. Aqui a função do cenário vazio é clara: a ausência de paredes dá a nítida percepção de que todos sabem o que se passa, mas fingem não ver.

A comunicação também não parece ser possível para os moradores de Dogville. O que eles falam passa longe de significar o que realmente querem dizer. Quando questionados são evasivos, mudam de assunto ou simplesmente respondem outra coisa. Chuck fala de colheita de maçãs quando está querendo abusar sexualmente de Grace, e Ma Ginger reprime-a quando ela passa entre os arbustos, com argumentos que simplesmente não correspondem àquilo que ela diz.

Desse ponto em diante, a constante dívida de Grace com a comunidade só cresce, e ela torna-se escrava não só de trabalho braçal como sexual. Passam então a tratá-la como escrava, que puxa um arado, e sofre abusos sexuais generalizados entre os homens. Somente Tom, sem capacidade de tomar qualquer atitude, não a viola. E é após ela o rejeitar, que ele decide dar um basta nessa pequena metáfora ilustrativa que ela representa, chamando o gângster que a procurava.

Nesse momento revela-se que Grace não está sendo ameaçada por eles, mas é filha do chefe maior. Quando Grace entra no carro, o diretor vai preparando a platéia para a ideia de que haverá um massacre. O final catártico faz que Dogville apresente estrutura narrativa herdeira das tragédias gregas, em que a platéia era levada a uma situação de tensão insuportável e liberava a adrenalina contida no final trágico.

Desde sempre, quase toda obra de arte é, em última instância, retrato do ser humano. Lars von Trier faz um retrato de pessoas cruéis, mesquinhas, egoístas e arrogantes.

Tom é um covarde, incapaz de assumir responsabilidade alguma (o drama de Grace começa no dia da Independência, quando ele não assume o romance com ela). Os habitantes da vila são seres humanos que se comportam de forma instintiva, guiados por suas necessidades físicas e seus próprios interesses.

Grace jamais foi cativa ou submissa, nunca sentiu real misericórdia e sim desprezo. Se ela realmente quisesse, poderia simplesmente ir embora. Os verdadeiros prisioneiros são os moradores.

Dogville é aponta para uma visão hobbesiana de natureza humana, em oposição a ideias relacionadas ao "mito do bom selvagem".

Nos Estados Unidos, muitos espectadores sentiram-se ofendidos, acusando Lars von Trier de ser antiamericano. O fato de ele jamais ter visitado os Estados Unidos e de fotografias do período da depressão e de pessoas miseráveis estadunidenses serem usadas durante os créditos finais, ao som da música Young Americans de David Bowie, não depuseram a seu favor.

Mas Dogville poderia ser uma cidade em qualquer lugar, em qualquer época.

Elenco[editar | editar código-fonte]

Nicole Kidman (Grace).

Recepção[editar | editar código-fonte]

Dogville teve recepção geralmente favorável por parte da crítica especializada. Com índice de 70%, o Rotten Tomatoes publicou um consenso: "Um pedaço desafiador do cinema experimental".[3]

Referências

  1. Doville (em inglês) Box Office Mojo Amazon. Visitado em 10 de maio de 2015.
  2. a b O dogmatismo de Dogville Revista Espaço Acadêmico (julho 2004). Visitado em 12/09/2009.
  3. Dogville (em inglês) Rotten Tomatoes. Visitado em 9 de abril de 2014.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]