Pedro Casaldáliga

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Pedro Casaldáliga i Plá, C.M.F.
Bispo da Igreja Católica
Bispo-emérito de São Félix
Atividade eclesiástica
Congregação Missionários Claretianos
Diocese Prelazia de São Félix
Nomeação 27 de agosto de 1971
Sucessor Dom Frei Leonardo Ulrich Steiner, O.F.M.
Mandato 19712005
Ordenação e nomeação
Ordenação presbiteral 31 de maio de 1952
Barcelona, Espanha
Nomeação episcopal 27 de agosto de 1971
Ordenação episcopal 23 de outubro de 1971
São Félix do Araguaia
por Dom Fernando Gomes dos Santos
Lema episcopal Humanizar la humanidad[1]
Dados pessoais
Nascimento Balsareny, Barcelona
16 de fevereiro de 1928
Morte Batatais
8 de agosto de 2020 (92 anos)
Nacionalidade espanhol
brasileiro
Residência São Félix do Araguaia
Funções exercidas Administrador Apostólico de São Félix (1970–1971)
Títulos anteriores Bispo Titular de Altava (1971–1978)[1]
dados em catholic-hierarchy.org
Bispos
Categoria:Hierarquia católica
Projeto Catolicismo

Pedro Casaldáliga CMF, nascido Pere Casaldàliga i Pla (Balsareny, província de Barcelona, 16 de fevereiro de 1928Batatais, 8 de agosto de 2020) foi um bispo católico espanhol e radicado no Brasil desde 1968. Foi bispo emérito da Prelazia de São Félix, sendo bastante conhecido por defender os direitos humanos, especialmente dos povos indígenas e marginalizados, e também por suas posições políticas e religiosas a favor dos mais pobres.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Dom Pedro Casaldáliga nasceu em Balsareny, na província de Barcelona, na Espanha 16 de fevereiro de 1928. Ingressou na Congregação Claretiana (Congregação dos Missionários Filhos do Imaculado Coração de Maria) em 1943, sendo ordenado sacerdote em Montjuïc, Barcelona, no dia 31 de maio de 1952. Depois de ordenado, foi professor de um colégio claretiano em Barbastro, assessor dos Cursilhos de Cristandade e diretor da Revista Iris.

Em 1968, mudou-se para o Brasil para fundar uma missão claretiana no Estado do Mato Grosso, uma região com um alto grau de analfabetismo, marginalização social e concentração fundiária (latifúndios), onde eram comuns os assassinatos.[2] Já no primeiro dia no local, encontrou quatro bebês mortos deixados em caixas de sapato diante de sua casa para serem enterrados.[3] Muitas vezes, sem vinho e hóstia, precisava improvisar as missas com cachaça e bolacha.[3]

Foi nomeado administrador apostólico da prelazia de São Félix do Araguaia (Mato Grosso) no dia 27 de abril de 1970. Nesse mesmo ano, publicou a primeira das denúncias que o tornariam conhecido no país e fora dele, chamada "Escravidão e Feudalismo no norte de Mato Grosso", denunciando a situação da região e enviado para as autoridades da Igreja e do governo. Já então passou a ser acusado de agente comunista.[3]

O Papa Paulo VI o nomeou bispo prelado de São Félix do Araguaia, no dia 27 de agosto de 1971. Sua ordenação episcopal deu-se a 23 de outubro de 1971, pelas mãos de Dom Fernando Gomes dos Santos, Arcebispo de Goiânia; de Dom Tomás Balduíno, OP; e Dom Juvenal Roriz, CSSR.

Sua atividade como bispo teve as seguintes características:

  1. Evangelização sem colonialismos, vinculada à promoção humana e à defesa dos direitos humanos dos mais pobres;
  2. Criação de comunidades eclesiais de base com líderes que sejam fermento entre os pobres;
  3. Encarnação na vida, nas lutas e esperanças do povo;
  4. Estrutura participativa, corresponsável e democrática na diocese.[2]

Outra característica marcante de sua atuação como bispo foi o fato de preferir não utilizar os tradicionais trajes eclesiásticos, em vez da mitra, um chapéu de palha, no lugar do báculo um cajado indígena, em vez de um anel de ouro, utilizava um anel de tucum - que acabou se tornando símbolo da Teologia da Libertação.[3]

Na década de 1970, ajudou a fundar o Conselho Indigenista Missionário (Cimi)[4] e a Comissão Pastoral da Terra (CPT).[5][3]

Adepto da teologia da libertação, adotou como lema para sua atividade pastoral: Nada possuir, nada carregar, nada pedir, nada calar e, sobretudo, nada matar. É poeta, autor de várias obras sobre antropologia, sociologia e ecologia.

Santuário dos Mártires da Caminhada, construído dez anos após o assassinato do Padre João Bosco, é a única igreja do mundo dedicada aos "Mártires".

Dom Pedro foi alvo de inúmeras ameaças de morte. A mais grave, em 12 de outubro de 1976, ocorreu em Ribeirão Cascalheira (Mato Grosso). Ao ser informado que duas mulheres estavam sendo torturadas na delegacia local, dirigiu-se até lá acompanhado do padre jesuíta João Bosco Penido Burnier. Após forte discussão com os policiais, o padre Burnier ameaçou denunciá-los às autoridades, sendo então agredido e, em seguida, alvejado com um tiro na nuca. Após a missa de sétimo dia, a população seguiu em procissão até a porta da delegacia, libertando os presos e destruindo o prédio. Naquele lugar foi erigido dez anos depois, o Santuário dos Mártires da Caminhada.

Por cinco vezes foi alvo de processos de expulsão do Brasil durante a ditadura militar, tendo saído em sua defesa o arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns e o Papa Paulo VI. Manteve relação estremecida também com o Papa João Paulo II, ferrenho crítico do comunismo, sendo defendido dessa vez pela CNBB.[3]

Em 1994, apoiou a revolta de Chiapas, no México, afirmando que quando o povo pega em armas deve ser respeitado e compreendido.[6] Em 1999, publicou a "Declaração de Amor à Revolução Total de Cuba".[7] No ano 2000, foi agraciado com o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Campinas. Em 13 de setembro de 2012, recebeu honraria idêntica da Pontifícia Universidade Católica de Goiás.[8]

Seu amor à liberdade inspirou sua luta contra a centralização do governo da Igreja, pois considerava que a visão de Roma é apenas uma entre as várias possíveis, e que a Igreja deveria ser uma comunhão de igrejas. Achava que se deve falar da Igreja que está em São Félix do Araguaia, assim como se fala da Igreja que está em Roma, pois unidade não tem que ser sinônimo de centralização e sim de descentralização.[9]

Dom Pedro, que sofria da doença de Parkinson, apresentou sua renúncia à Prelazia, conforme o Can. 401 §1 do Código de Direito Canônico, em 2005.[10] No dia 2 de fevereiro de 2005 o Papa João Paulo II aceitou sua renúncia ao governo pastoral de São Félix. Mesmo depois da renúncia, não perdeu a combatividade e a franqueza, afirmando, por exemplo que o governo Lula gosta mais dos ricos do que dos pobres,[11] apoiando o MST e a Via Campesina,[12] criticando a hierarquia da igreja que deveria se abrir ao diálogo em lugar de excomungar e proibir,[13] defendendo a ordenação de mulheres[13] e afirmando ser contra o celibato sacerdotal.[14]

Morreu no dia 8 de agosto de 2020 em Batatais, aos 92 anos, devido a problemas respiratórios agravados pela doença de Parkinson.[15][16]

Sucessão[editar | editar código-fonte]

Dom Pedro Casaldáliga, o primeiro prelado de São Félix, foi sucedido por Dom Frei Leonardo Ulrich Steiner OFM.

Sobre as tensões havidas com o Vaticano para a nomeação do seu sucessor, Dom Pedro fez questão de não deixar dúvidas a respeito: "Há algumas semanas, o núncio Lorenzo Baldisseri enviou um bispo para me perguntar onde eu iria, porque se eu ficasse em São Félix, causaria um constrangimento ao novo bispo (...) Não posso deixar de dizer que sou contra o sistema atual de nomeação de bispos que é secreto e autoritário, que não respeita a opinião das igrejas locais. Parece-me um sistema pouco evangélico" [17].

Em setembro de 2011, Dom Leonardo Ulrich Steiner foi transferido para a Arquidiocese de Brasília como bispo auxiliar. Para a Prelazia de São Félix, foi nomeado Dom Adriano Ciocca Vasino.

Ameaças de morte[editar | editar código-fonte]

No início de dezembro de 2012, Dom Pedro Casaldáliga deixou sua residência em São Félix do Araguaia e foi levado por policiais federais para um local não revelado em razão da intensificação das ameaças de morte feitas a ele por invasores da Terra Indígena de Marãiwatsédé (norte de Mato Grosso), área ocupada pelos Xavantes até os anos 1960.[18][19]

Na década de 1960, os Xavantes foram expulsos de suas terras para que elas fossem ocupadas por grandes projetos agropecuários. A área foi depois comprada pela italiana Agip, que, posteriormente, durante a Eco-92, anunciou que a devolveria aos índios. No entanto, latifundiários, políticos e comerciantes da região ocuparam a área e instalaram ali um povoado e seus negócios. Depois de vinte anos a desocupação foi iniciada, e também a intensificação das ameaças.[20]

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Livros de Pedro Casaldáliga[editar | editar código-fonte]

  • "Uma Igreja da Amazonia en conflito com o latifundio e a marginalizaçao social" (1971);
  • "Clamor elemental" (Sígueme, Salamanca, 1971);
  • "Tierra nuestra, libertad" (Guadalupe, Buenos Aires, 1974)[2];
  • "Creio na Justiça e na Esperança". Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977 - "¡Yo creo en la justicia y en la esperanza!" (Desclée de Brouwer, Bilbao, 1977, 3ª ed.);
  • "La muerte que da sentido a mi credo" (Desclée de Brouwer, Bilbao, 1977);
  • "Pere Libertat" (Claret, Barcelona, 1978);
  • "Airada esperança" (Claret, Barcelona, 1978);
  • "Misa de la Tierra sin Males" (Desclée de Brouwer, Bilbao, 1980) (em co-autoria com Pedro Tierra e Arturo Paoli)[21];
  • "En rebelde fidelidad. Diario (1977-1983)" (Desclée de Brouwer, Bilbao, 1983);
  • "Experiencia de Dios y pasión por el pueblo. Escritos pastorales" (Sal Terrae, Santander, 1983);
  • "Fuego y ceniza al viento. Antología espiritual" (Sal Terrae, Santander, 1984);
  • "Nicarágua, combate y profecía" (DEI, San José, Costa Rica, 1987);
  • "El tiempo y la espera" (Sal Terrae, Santander, 1987);
  • "El vuelo del Qetzal - Espiritualidad en Centroamérica" (Panamá, 1988);
  • "Al acecho del reino. Antología de textos 1968-1988" (Siglo XXI, México, 1988);
  • "El cuerno del jubileo" (Nueva Utopía, Madri, 1998);
  • "Cartes des del Brasil" (Claret, Barcelona, 1989);
  • "Siempre es posible la utopía. Carta. Entrevista con Benjamín Forcano" (Nueva Utopía, Madrid, 1990);
  • "Todavía estas palabras" (Verbo Divino, Estella, Navarra, 1990);
  • "Cartas a mis amigos" (Nueva Utopía, Madrid, 1992);
  • "Sonetos neobíblicos, precisamente". Musa Editora, 1996 - "Sonetos neobíblicos precisamente" (Nueva Utopía, Madrid, 1996);
  • Ameríndia, morte e vida (com Pedro Terra). Petrópolis: Paulus, 1997.
  • "Nuestra espiritualidad" (Nueva Utopía, Madrid, 2000);
  • Espiritualidade da libertação. Petrópolis: Vozes.
  • Murais da libertação (com Cerezo Barredo). São Paulo: Loyola, 2005.
  • Orações da caminhada (com Pedro Terra). Verus Editora, 2005.
  • Versos Adversos (prefácio de Alfredo Bossi e ilustrações de Enio Squeff), São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2006.

Livros sobre Pedro Casaldáliga[editar | editar código-fonte]

  • Teófilo Cabestrero: "São Félix/Brasil. Una Iglesia que lucha contra la injusticia": Misión Abierta 7-8 (1973);
  • Teófilo Cabestrero: "Los poemas malditos del obispo Casaldàliga" (Desclée de Brouwer, Bilbao, 1978);
  • Benjamín Forcano, Eduardo Lallana, José Maria Concepción e Maximino Cerezo: "Pedro Casaldáliga: As causas que imprimem sentido à sua vida - Retrato de uma realidade" São Paulo: Ave-Maria, 2008.
  • Edilson Martins: "Nós, do Araguaia: Dom Pedro Casaldáliga, bispo da teimosia e liberdade." Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979.
  • Teófilo Cabestrero: "En lucha por la paz: las causas de Pedro Casaldáliga" (Sal Terrae, Santander, 1991);
  • Teófilo Cabestrero: "El sueño de Galilea: confesiones eclesiales de Pedro Casaldáliga" (Publicaciones Claretianas, Madrid, 1992);
  • Francisco Escribano: "Descalço sobre a Terra Vermelha." Campinas: Editora da Unicamp, 2000. ISBN 85-268-0518-5 - "Descalzo sobre la tierra roja. Vida del obispo Pere Casaldàliga" (Península, Barcelona, 2000);
  • Benjamín Forcano et al. - "Pedro Casaldáliga: as causas que imprimem sentido à sua vida – retrato de uma personalidade". São Paulo: Ave Maria, 2008. ISBN 978-85-276-1207-4 - "Pedro Casaldáliga. Las causas que dan sentido a su vida. Retrato de una personalidad" (Nueva Utopía, Madrid, 2007)[2] [22].
  • Ana Helena Tavares: "Um bispo contra todas as cercas: a vida e as causas de Pedro Casaldáliga" (Gramma, Rio de Janeiro, 2019)

Filmes sobre Pedro Casaldáliga[editar | editar código-fonte]

Descalço sobre a Terra Vermelha. Direção de Oriol Ferrer, roteiro de Marcos Bernstin e Maria Jaén, baseado no livro homônimo de Francesc Escribano, que, em 2015, recebeu o Prêmio Gaudi, atribuído pela Academia de Cinema Catalã, na categoria de melhor filme para televisão. Também foi premiado em festivais realizados em Nova Iorque, Seul, Biarritz e Barcelona.[23] [24]

Referências

  1. a b «Bishop Pedro Casaldáliga Pla, C.M.F.» (em inglês). Consultado em 5 de agosto de 2020 
  2. a b c d La Teologia de La Liberacion Juan Jose Tamayo Arquivado em 14 de fevereiro de 2016, no Wayback Machine., em espanhol, acesso em 26 de abril de 2016.
  3. a b c d e f Maisonnave, Fabiano (8 de agosto de 2020). «Morre dom Pedro Casaldáliga, o bispo do chapéu de palha que enfrentou latifundiários na Amazônia». Folha de São Paulo. Consultado em 8 de agosto de 2020 
  4. Pedro, Pedra e Dom – 88 anos de Dom Pedro Casaldáliga, acesso em 27 de abril de 2016.
  5. Engelman, Solange (8 de agosto de 2020). «Bispo do Povo morre aos 92 anos». MST. Consultado em 8 de agosto de 2020 
  6. Chiapas visto por Pedro Casaldáliga, 31 de janeiro de 94
  7. Declaração de amor à Revolução Total de Cuba, 20 de fevereiro de 1999.
  8. «Vida de dom Pedro Casaldáliga é celebrada em homenagem da PUC Goiás». Comissão Pastoral da Terra. 17 de setembro de 2012. Consultado em 16 de abril de 2018 
  9. Pedro Casaldáliga, obispo y poeta, 5 de julho de 2001.
  10. Entrevista de Pedro Casaldáliga, 15 de junho de 2011.
  11. Entrevista a Pedro Casaldáliga: “los obispos no son toda la Iglesia” Arquivado em 11 de fevereiro de 2009, no Wayback Machine., 28 de junho de 2008.
  12. Onde não há utopia, não há futuro, 15 de junho de 2008.
  13. a b Mons. Casaldáliga critica a la jerarquía católica que supuestamente excomulga y prohíbe, 3 de março de 2012.
  14. Mons. Dom Pedro Casaldáliga diz que igreja precisa rever celibato Arquivado em 23 de fevereiro de 2012, no Wayback Machine., 3 de março de 2012.
  15. «Bispo emérito dom Pedro Casaldáliga morre aos 92 anos». O Globo. 8 de agosto de 2020. Consultado em 8 de agosto de 2020 
  16. «Leonardo Sakamoto - Morre Pedro Casaldáliga, a pedra no sapato do autoritarismo brasileiro». noticias.uol.com.br. Consultado em 8 de agosto de 2020 
  17. Entrevista a Pedro Casaldáliga, La Vanguardia, Barcelona, 13 de janeiro de 2005, pág. 28
  18. Bispos que defendem índios recebem Prêmio Direitos Humanos, por Mariana Jungmann. Agência Brasil 16 de dezembro de 2012.
  19. Pedro Casaldáliga, alvo dos latifundiários. Por Ana Helena Tavares. Outras Palavras, 12 de dezembro de 2012.
  20. Fazendas são retomadas na Terra Indígena Marãiwatsédé, por Aline Leal. Agência Brasil, 17 de dezembro de 2012.
  21. MISSA DA TERRA SEM MALES, acesso em 27 de abril de 2016.
  22. Dom Pedro, o bispo pobre[ligação inativa], acesso em 27 de abril de 2016.
  23. «Descalço sobre a Terra Vemelha». TV Brasil. Consultado em 1 de maio de 2015. Arquivado do original em 21 de abril de 2015 
  24. Obra sobre bispo Pedro Casaldáliga ganha prémio Gaudí de melhor filme para televisão, acesso em 21 de agosto de 2015.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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