Don Juan (Byron)

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A descoberta de Juan por Haidée - c. 1878 (óleo sobre tela) - Ford Madox Brown (1821-1893)

Don Juan é um poema satírico[1] de Lord Byron, baseado no mito de Don Juan, que Byron subverte, descrevendo Juan não como um conquistador inveterado (como fora considerado nas interpretações anteriores do mito, por exemplo, em Molina, Molière ou Mozart), mas como alguém facilmente seduzido pelas mulheres, que é lançado nos braços delas pela força das circunstâncias. O poema é uma variação irônica e satírica sobre a estrutura épica, está dividido em dezessete cantos de diferentes tamanhos, composto em oitava-rima, possuindo pouco mais de duas mil estrofes, isto é, mais de dezesseis mil versos.

O próprio Byron denominou-o um "épico satírico" (Don Juan, c. xiv, st. 99)[2] ; completou-lhe dezesseis cantos, deixando o décimo sétimo incompleto, pouco antes de sua morte, em 1824. O autor dizia não possuir um planejamento pré-estabelecido enredo dos cantos subsequentes, embora em várias cartas admita que "assunto não lhe faltasse"[3] .

Quando os dois primeiros cantos foram publicados anonimamente em 1819, o poema foi criticado pelo seu suposto "conteúdo imoral" (acerca do Don Juan byroniano, nada há de imoral, a imoralidade está nas alusões históricas, portanto verídicas, que o narrador cita em suas inúmeras digressões), embora tenha sido imensamente popular à época, e seja bastante lido, apreciado e influente ainda hoje.

História[editar | editar código-fonte]

Byron começou o primeiro canto de Don Juan nos fins de 1818, e estava trabalhando no canto décimo sétimo no começo de 1823. O poema foi publicado em partes, em diversos tamanhos e intervalos de tempo. Interrupções na composição e publicação de Don Juan foram devidos à desaprovação e desencorajamento tanto dos amigos, quanto pela hesitação e procrastinação do editor. O Canto I. foi escrito em 1818; Canto II. em Dezembro-Janeiro, 1818–1819. Ambos publicados em 15 de julho de 1819. Cantos III. e IV. foram escritos no inverno de 1819–1820; Canto V., após um intervalos de nove meses, em Outubro-Novembro de 1820, mas a publicação dos Cantos III., IV., V. foi tardada até 8 de agosto de 1821. Em junho de 1822, Byron começou a trabalhar no sexto, e em fins de março de 1823 ele havia completado o décimos sexto canto. Mas a publicação desses últimos cantos, que tinham sido recusados por John Murray, e foi finalmente confiada a John Hunt, alongou-se por um período de vários meses. Cantos VI., VII., VIII., com um Prefácio, foram publicados em 15 de julho; Cantos IX., X., XI em 29 de agosto; Cantos XII., XIII., XIV., em 17 de dezembro de 1823; Cantos XV., XVI. em 26 de março de 1824.

As alusões da vida de Byron em sua obra são diversas: o perfil de Donna Inez (mãe de Don Juan) é um retrato semi-velado tanto da mãe de Byron, quanto de sua própria esposa Annabella Milbanke (filha de Sir Ralph Milbanke).

Sinopse[editar | editar código-fonte]

O Argumento[editar | editar código-fonte]

Don Juan possui dois personagens principais: o jovem Juan, que nada faz, sendo apenas um joguete da narrativa, e o verdadeiro personagem, o narrador, que interrompe a cada passo sua narrativa para inserir inúmeras digressões, ironias, críticas pessoais e literárias das obras de outros poetas, de amigos e desafetos etc.

A história, contada em dezessete cantos, começa com o nascimento de Don Juan, - o que pode ser considerada uma abordagem inovadora operada sobre o mito, no qual costumeiramente Juan entrava em cena já velho, vilão contumaz, não conseguia mais seduzir ninguém e estava prestes a convidar para o jantar a estátua de pedra do comendador, feita em homenagem àquele a quem Don Juan assassinara, que lhe levaria ainda vivo para jantar no inferno.

Juan, na versão byroniana, aos dezesseis anos, teve um caso com a amiga da sua mãe, Donna Júlia, de vinte e três anos, que era casada com Don Alfonso, que logo descobre o adultério e, por conseguinte, Don Juan vê-se obrigado a deixar apressadamente sua terra natal, indo para Cádis, para de lá tomar um navio que o levasse a Itália e França. Neste ínterim, Juan sofre um naufrágio e, após passar sérias privações no mar, sai como único sobrevivente, e é encontrado pela filha de um pirata, Haidée, princesa da ilha, e posteriormente é vendido pelos homens de Lambro, pai de Haidée, como um escravo. A sultana Gulbeyaz adquire-o como escravo sexual. Baba, o eunuco do harém, disfarça-o de mulher e leva-o sorrateiramente pelas câmaras do gigante palácio onde Juan passará a noite com mais de mil mulheres, sem que elas possam descobrir que é um homem vestido de mulher. Don Juan escapa, junta-se ao exército russo, e salva uma garota muçulmana chamada Leila. Após isso, conhece pessoalmente Catarina, a Grande, que o leva para sua corte na Rússia; lá, dado o frio, Juan fica doente, e é enviado para a Inglaterra, onde encontra alguém para cuidar da jovem Leila. Na sequência, algumas aventuras envolvendo a aristocracia britânica e o fantasma do monge negro e o poema se encerra no Canto XVII.

Canto I[editar | editar código-fonte]

O poema abre com o autor explicando o motivo por escolher Don Juan como seu herói. O motivo é a falta de heróis melhores, mais adaptáveis à sua rima, naqueles tempos em que todo dia grande número de heróis surgiam. Na sequência, expõe o método que começará sua narrativa. Como exemplo de um trecho de Don Juan de Byron em português:

Tradução de Augusto de Campos[4]
Canto I, VI.

Most epic poets plunge "in medias res"

(Horace makes this the heroic turnpike road),

And then your hero tells, whene'er you please,

What went before—by way of episode,

While seated after dinner at his ease,

Beside his mistress in some soft abode,

Palace, or garden, paradise, or cavern,

Which serves the happy couple for a tavern.

Canto I, VI.

Poeta épicos in midias res

Iniciam (Horácio assim prescreve).

O herói, aqui e ali, de quando em vez,

Os casos, ao revés, depois descreve,

Tendo a seu lado a amante e um bom xerez,

Depois da janta, sob a brisa leve,

Numa palácio ou até numa caverna,

Contanto que lhes sirva de taverna.

Após isso, o narrador começa a falar de Juan. Nasceu em Sevilha, filho de Don José e Donna Inez. Teve uma educação rigorosa e Inez chega mesmo a pensar que seu filho seria um filósofo quando crescesse. Donna Inez era amiga de Donna Júlia que, por sua vez, conhecia Juan desde criança. José e Inez brigavam muito e, numa feita, quando o narrador foi visitar a família, Juan jogou o conteúdo do penico em cima dele. José tinha outra mulher e Inez pediu o divórcio; para não ter que encarar o fórum, José prefere a morte. Donna Júlia era casada, e Juan inocente. Ambos se apaixonam mutuamente. Uma longa digressão alcança a narração do primeiro beijo de Juan. Outros exemplos de Don Juan de Lord Byron em português são:

Tradução de Décio Pignatari[5]
Canto I, CXVII.

And Julia’s voice was lost, except in sighs,

Until too late for useful conversation;

The tears were gushing from her gentle eyes,

I wish, indeed, they had not had occasion;

But who, alas! can love, and then be wise?

Not that Remorse did not oppose Temptation;

A little still she strove, and much repented,

And whispering “I will ne’er consent”—consented.

Canto I, CXVII.

Perdeu-se a voz de Júlia nos suspiros,

Tempo não houve para uma conversa;

Golfavam lágrimas como reis Ciros

E eu lamentei este lamento persa.

Motivos houve para tantos tiros?

Lutou um pouco, resistiu bastante,

Disse “Não dou!” – e deu (desconcertante). 

Tradução de Lucas Zaparolli de Agustini[6]
Canto I, CXVII.

And Julia’s voice was lost, except in sighs,

Until too late for useful conversation;

The tears were gushing from her gentle eyes,

I wish, indeed, they had not had occasion;

But who, alas! can love, and then be wise?

Not that Remorse did not oppose Temptation;

A little still she strove, and much repented,

And whispering “I will ne’er consent”—consented.

Canto I, CXVII.

Júlia a voz perdeu, só o arfar sobrou,

Era tarde a qualquer conversação;

A lágrima em seu meigo olho rolou,

Nunca eu quis que lhe houvesse ocasião;

Mas, ai! quando foi sábio quem amou?

O Remorso se opôs à Tentação;

Pouco mais lutou, mais se arrependera,

Murmurando “eu não cederei” – cedera.

Meses depois, Don Alfonso arma uma emboscada com seu posse comitatus e, não encontrando Juan, que estava escondido na cama, encontra-o depois, tendo achado uma bota de homem no quarto. Há uma briga entre ambos e Juan foge nu pela noite. Júlia para um convento é mandada, e Juan viajar pelo mundo. Há uma transcrição da última carta de Júlia para Juan. O Canto I tem duzentas e vinte e duas estrofe e as últimas vinte são apenas digressões. Byron divaga sobre as pirâmides do Egito, sobre os vícios da velhice e termina ironizando uns versos do poeta Bob Southey, o Poeta laureado a quem Byron dirigiu a "Dedicatória" irônica de seu Don Juan.

Canto II[editar | editar código-fonte]

Naufrágio.

Canto III[editar | editar código-fonte]

Haidée.

Fontes[editar | editar código-fonte]

Pope, Shakespeare (acrescentar).

Mito de Don Juan[editar | editar código-fonte]

Don Juan é a outra face do Fausto. Ambos os mitos surgem e se insurgem no cristianismo: um quer alcançar a plenitude através da sabedoria, o outro, por meio da satisfação sexual. Representam as duas maiores cobiças humanas. Fausto faz um pacto com Mefisto; Don Juan vai para o inferno ainda em vida, isto é, antes de morrer (o chão se abre e ele é sugado para dentro da terra). Essa é a versão clássica do mito, como se vê em O Convidado de Pedra e o Burlador de Sevilha, de Tirso de Molina.

O tratamento que Byron confere ao mito é bastante diferente: seu épico não começa in medias res, como é comum na estrutura épica, mas começa a narrativa pela infância de Juan. Don Juan não seduz nenhuma mulher na obra byroniana. É um jovem inocente lançado pelo destino a toda sorte, que vai sendo paulatinamente corrompido pelos vícios das sociedades, às quais o autor critica como moralista, influenciado por suas leituras de Montaigne. Ao contrário do mito tradicional, nada é dito do "convidado de pedra" na versão de Byron; entretanto, no canto décimo sétimo, é Juan que vai como convidado para jantar e acaba recebendo a visita do fantasma do monge negro... seria mesmo um fantasma? ou uma mulher, a versão feminina de Juan, uma sedutora contumaz, que chega para seduzir o inocente rapaz?

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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  1. English 151-03 Byron's 'Don Juan' notes, Gregg A. Hecimovich
  2. "Don Juan - Byron". Project Gutenberg. Consultado em 2016-02-10. 
  3. "Don Juan, Byron, Edição Coleridge, Ver Introdução.". Project Gutenberg. Consultado em 2016-02-10. 
  4. Campos, Augusto de. Byron e Keats - entreversos. [S.l.: s.n.], 2009. ISBN 978-85-268-0844-7
  5. PIGNATARI, Décio. 31 Poetas 214 Poemas – Do Rigveda e Safo a Apollinaire. São Paulo: Ed. Unicamp, 2007.
  6. Zaparolli de Agustini, Lucas (2015-12-12). "Don Juan de Byron por Lucas Zaparolli de Agustini". Escamandro. Consultado em 2016-02-10.