Don Juan (Byron)

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A descoberta de Juan por Haidée - c. 1878 (óleo sobre tela) - Ford Madox Brown (1821-1893)

Don Juan é um poema satírico[1] de Lord Byron, baseado no mito de Don Juan, que o autor subverte, tratando de descrever Juan não como um conquistador cruel e insaciável (como foi considerado nas interpretações anteriores do mito, por exemplo, em Molina, Molière ou Mozart), mas como um homem facilmente seduzido pelas mulheres, que é lançado nos braços delas pela força das circunstâncias e vicissitudes do destino.

O poema é uma variação irônica e satírica sobre a estrutura épica, gênero conhecido em inglês como mock epic, e está dividido em dezessete cantos de diferentes tamanhos, composto em oitava rima, em pentâmetros jâmbicos, contando com pouco mais de duas mil estrofes, isto é, mais de dezesseis mil versos.

O próprio Byron denominou-o um "épico satírico" (Don Juan, c. xiv, st. 99)[2] ; completou-lhe dezesseis cantos e deixou o décimo sétimo inacabado, antes de sua morte, em 1824. O autor dizia não possuir um planejamento pré-estabelecido do enredo dos cantos subsequentes, embora em várias cartas admita que "assunto não lhe faltasse"[3] .

Quando os dois primeiros cantos foram publicados anonimamente em 1819, o poema foi criticado pelo seu suposto "conteúdo imoral" (vale dizer que, acerca do protagonista byroniano, Don Juan ainda moço, nada há de imoral, no entanto, alguma imoralidade será encontrada nas alusões históricas, portanto verídicas, que o narrador cita em suas inúmeras digressões), embora tenha sido imensamente popular à época, e seja bastante lido, apreciado e influente ainda hoje.

História[editar | editar código-fonte]

Byron começou o primeiro canto de Don Juan nos fins de 1818, e estava trabalhando no canto décimo sétimo no começo de 1823. O poema foi publicado em partes, em diversos tamanhos e intervalos de tempo. Interrupções na composição e publicação de Don Juan foram devidos à desaprovação e desencorajamento tanto dos amigos, quanto pela hesitação e procrastinação do editor. O Canto I. foi escrito em 1818; Canto II. em Dezembro-Janeiro, 1818–1819. Ambos publicados em 15 de julho de 1819. Cantos III. e IV. foram escritos no inverno de 1819–1820; Canto V., após um intervalos de nove meses, em Outubro-Novembro de 1820, mas a publicação dos Cantos III., IV., V. foi tardada até 8 de agosto de 1821. Em junho de 1822, Byron começou a trabalhar no sexto, e em fins de março de 1823 ele havia completado o décimos sexto canto. Mas a publicação desses últimos cantos, que tinham sido recusados por John Murray, e foi finalmente confiada a John Hunt, alongou-se por um período de vários meses. Cantos VI., VII., VIII., com um Prefácio, foram publicados em 15 de julho; Cantos IX., X., XI em 29 de agosto; Cantos XII., XIII., XIV., em 17 de dezembro de 1823; Cantos XV., XVI. em 26 de março de 1824.

As alusões da vida de Byron em sua obra são diversas: o perfil de Donna Inez (mãe de Don Juan) é um retrato semi-velado tanto da mãe de Byron, quanto de sua própria esposa Annabella Milbanke (filha de Sir Ralph Milbanke), prima de Caroline Lamb.

Sinopse[editar | editar código-fonte]

O Argumento[editar | editar código-fonte]

Don Juan possui dois personagens principais: o jovem Juan, que nada faz, sendo apenas um joguete da narrativa, e o verdadeiro personagem, o narrador, que interrompe a cada passo sua narrativa para inserir inúmeras digressões, ironias, críticas pessoais e literárias das obras de outros poetas, de amigos e desafetos etc.

A história, contada em dezessete cantos, começa com o nascimento de Don Juan, - o que pode ser considerada uma abordagem inovadora operada sobre o mito, no qual costumeiramente Juan entrava em cena já velho, vilão contumaz, não conseguia mais seduzir ninguém e estava prestes a convidar para o jantar a estátua de pedra do comendador, feita em homenagem àquele a quem Don Juan assassinara, que lhe levaria ainda vivo para jantar no inferno. A inovação também se dá no âmbito formal, este sendo, portanto, um épico que não começa in medias res, como deveria ser na tradicional estrutura épica.

Juan, na versão byroniana, aos dezesseis anos, teve um caso com a amiga da sua mãe, Donna Júlia, de vinte e três, que era casada com Don Alfonso, cinquenta anos, que logo descobre o adultério e, por conseguinte, Don Juan vê-se obrigado a deixar apressadamente sua terra natal, indo para Cádis, para de lá tomar um navio que o levasse a Itália e França. Neste ínterim, Juan sofre um naufrágio e, após passar sérias privações no mar, sai como único sobrevivente, e é encontrado pela filha de um pirata, Haidée, princesa da ilha, sendo posteriormente vendido pelos homens de Lambro, pai de Haidée, como um escravo. A sultana Gulbeyaz adquire-o na sequência como escravo sexual. Baba, o eunuco do harém, disfarça-o de mulher e leva-o sorrateiramente pelas câmaras do gigante palácio onde Juan passará a noite com mais de mil mulheres, sem que elas possam descobrir que é um homem vestido de mulher. Don Juan junta-se ao exército russo, e salva uma garota muçulmana chamada Leila. Após esse feito heroico, conhece pessoalmente Catarina, a Grande, que o leva para sua corte na Rússia; lá, dado o frio, Juan fica doente, e é enviado para a Inglaterra, onde encontra alguém para cuidar da jovem Leila. Na sequência, algumas aventuras envolvendo a aristocracia britânica e o fantasma do monge negro e o poema se encerra no Canto XVII.


Canto I[editar | editar código-fonte]

O poema abre com o autor explicando o motivo por escolher Don Juan como seu herói. O motivo é a falta de heróis melhores, mais adaptáveis à sua rima, naqueles tempos em que todo dia grande número de heróis surgiam. Na sequência, expõe o método que começará sua narrativa. Augusto de Campos traduziu cem oitavas de Don Juan de Byron para a língua portuguesa. Dele segue o exemplo:


Tradução de Augusto de Campos[4]
Canto I, VI. Canto I, VI.
Most epic poets plunge "in medias res"

(Horace makes this the heroic turnpike road),

And then your hero tells, whene'er you please,

What went before—by way of episode,

While seated after dinner at his ease,

Beside his mistress in some soft abode,

Palace, or garden, paradise, or cavern,

Which serves the happy couple for a tavern.

Poeta épicos in midias res

Iniciam (Horácio assim prescreve).

O herói, aqui e ali, de quando em vez,

Os casos, ao revés, depois descreve,

Tendo a seu lado a amante e um bom xerez,

Depois da janta, sob a brisa leve,

Numa palácio ou até numa caverna,

Contanto que lhes sirva de taverna.


Após isso, o narrador começa a falar de Juan, nascido em Sevilha, filho de Don José e Donna Inez. Teve uma educação rigorosa e, talvez por isso, sua mãe chegou até mesmo a pensar que seu filho seria um filósofo quando crescesse. Entretanto, Donna Inez era amiga de Donna Júlia que, por sua vez, conhecia Juan desde criança. José e Inez brigavam muito e, numa feita, quando o narrador foi visitar a família, Juan jogou o conteúdo do penico em cima dele. José tinha outra mulher e Inez pediu o divórcio. Para não ter que encarar o fórum, José prefere a morte. Donna Júlia era casada, e Juan, ingênuo. Ambos se apaixonam mutuamente. Uma longa digressão alcança a narração do primeiro beijo de Juan. Décio Pignatari traduziu cerca de cinquenta trechos de Don Juan de Lord Byron para o português, entre um verso e uma oitava inteira. Eis um exemplo de sua tradução:


Tradução de Décio Pignatari[5]
Canto I, CXVII. Canto I, CXVII.
And Julia’s voice was lost, except in sighs,

Until too late for useful conversation;

The tears were gushing from her gentle eyes,

I wish, indeed, they had not had occasion;

But who, alas! can love, and then be wise?

Not that Remorse did not oppose Temptation;

A little still she strove, and much repented,

And whispering “I will ne’er consent”—consented.

Perdeu-se a voz de Júlia nos suspiros,

Tempo não houve para uma conversa;

Golfavam lágrimas como reis Ciros

E eu lamentei este lamento persa.

Motivos houve para tantos tiros?

Lutou um pouco, resistiu bastante,

Disse “Não dou!” – e deu (desconcertante). 


E uma tradução publicada recentemente de Don Juan em português é:


Tradução de Lucas Zaparolli de Agustini[6]
Canto I, CXVII. Canto I, CXVII.
And Julia’s voice was lost, except in sighs,

Until too late for useful conversation;

The tears were gushing from her gentle eyes,

I wish, indeed, they had not had occasion;

But who, alas! can love, and then be wise?

Not that Remorse did not oppose Temptation;

A little still she strove, and much repented,

And whispering “I will ne’er consent”—consented.

Júlia a voz perdeu, só o arfar sobrou,

Era tarde a qualquer conversação;

A lágrima em seu meigo olho rolou,

Nunca eu quis que lhe houvesse ocasião;

Mas, ai! quando foi sábio quem amou?

O Remorso se opôs à Tentação;

Pouco mais lutou, mais se arrependera,

Murmurando “eu não cederei” – cedera.


Meses depois, Don Alfonso arma uma emboscada com seu posse comitatus e, não encontrando a princípio Juan, que estava escondido na cama, acaba por encontrá-lo depois, tendo achado uma bota de homem no quarto. Há uma briga entre ambos e Juan foge nu pela noite. Júlia para um convento é mandada, e Juan viajar pelo mundo. Há uma transcrição da última carta de Júlia para Juan. O Canto I tem duzentas e vinte e duas estrofe e as últimas vinte são apenas digressões. Byron divaga sobre as pirâmides do Egito, sobre os vícios da velhice e termina ironizando uns versos do poeta Bob Southey, o Poeta laureado a quem Byron dirigiu a virulenta "Dedicatória" irônica de seu Don Juan.


Canto II[editar | editar código-fonte]

O Canto II. descreve como Juan sai em viagem de Cádis com seus criados e Pedrillo, seu tutor. Juan ainda está apaixonado por Donna Júlia e, logo após um período de mal-estar e enjoo no mar, uma tempestade põe a pique o navio.


Tradução de Lucas Zaparolli de Agustini[7]
Canto II, X. Canto II, X.
"Sooner shall Heaven kiss earth—(here he fell sicker)

Oh, Julia! what is every other woe?—

(For God's sake let me have a glass of liquor;

Pedro, Battista, help me down below.)

Julia, my love!—(you rascal, Pedro, quicker)—

Oh, Julia!—(this curst vessel pitches so)—

Belovéd Julia, hear me still beseeching!"

(Here he grew inarticulate with retching.)

“Antes Céu beije a terra – (aí ficou pior)

Oh, Júlia! o que das outras dores acho? –

(Por Deus dêem-me um pouco de licor;

Pedro, Battista, ajuda aqui embaixo.)

Júlia – (rápido, Pedro, biltre) – amor!

Oh, Júlia! – (a nau chacoalha como o diacho) –

Júlia amada, ouça meu rogo à distância!”

(Aqui não pôde mais falar de ânsia.)

Naufrágio de Don Juan (Shipwreck of Don Juan). c. 1840. (óleo sobre tela - Louvre) - Eugène Delacroix (1798 - 1863) - 135 cm x 196 cm.


Após morrerem duzentas pessoas, o resto da tribulação se apinha num barco em que mal podia se mover. Ficam à deriva, e a comida se esgota rapidamente. A tripulação decide que alguém deve morrer para ser comido pelos outros, e usam a carta de Júlia para fazer os papéis para tirar na sorte, que recai sobre o tutor de Juan, o licenciado Pedrillo. Apesar disso, aqueles que comem Pedrillo, bebendo água salgada, ficam loucos e morrem, Juan sendo o único sobrevivente da jornada. Enfim, Juan acaba parando numa ilha das Cíclades, no Mar Egeu. Haidée e sua criada, Zoe, descobrem o jovem náufrago e cuidam dele em uma caverna próxima a praia. Após isso, Juan abre os olhos, não sabendo se em delírio ou não, e encontra Haidée, moça linda de dezessete anos, com os cabelos que lhe chegam ao calcanhar. Ela é uma espécie de princesa da ilha. Haidée tem apenas seu pai, Lambro, que é um rico pirata, dono da ilha mais rica da região. Lambro estava ausente, e inclusive davam-no por morto. Haidée e Juan se amam, mesmo sem um poder entender a língua do outro.

O Canto encerra com mais digressões, dessa vez sobre o amor, buscando traçar uma espécie de genealogia do amor na literatura, e uma breve anatomia da paixão, que envolve o coração, que é como os céus, e o fígado, onde as paixões entram e se enrolam como sobre um "chão de bosta" (dunghill's soil, no original). Byron, quando interpelado por seu grande amigo e editor, John Murray, sobre o motivo dessa imagem tão baixa num épico, que deveria se querer elevado, respondeu: "querer um poema perfeito, é desejar uma noite que seja só estrelas”.[8]


Canto III[editar | editar código-fonte]

Don Juan e Haidée (Don Juan and Haidée). c. 1833 (óleo sobre tela) - Alexandre Marie Colin (1798 - 1875) - coleção privada.

Este Canto abre com uma digressão a respeito do amor e do casamento. Na sequência, é narrado o retorno de Lambro, o pai pirata de Haidée, que todos julgavam ter morrido, numa espécie de sátira do retorno de Ulisses a Ítaca. Há uma longa narrativa das comemorações que Juan e Haidée celebram na ilha, no estilo de um catálogo épico: o banquete, as virgens dançando, as crianças brincando, os sufis, os pratos, as frutas, o sorvete, um anão, as vestimentas de Haidée e Juan, a henna que ela usa, e, enfim, o poeta do jantar. Ao falar do poeta, Byron aproveita a deixa para ironizar novamente Robert Southey. O poeta do banquete, em seguida, entoa uma canção, que ficou conhecida como "As Ilhas da Grécia" (The Isles of Greece): com métrica, ritmo, estrutura estrófica distintos, essa canção é um hino pela independência da Grécia, que se encontrava escravizada pelo Império Otomano. A canção foi traduzida interinamente (com métrica e esquema rímico que mal lembram o original), por Péricles Eugênio da Silva Ramos.


Tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos[9]
Canto III, 1. Canto III, 1.
The Isles of Greece, the Isles of Greece!

Where burning Sappho loved and sung,

Where grew the arts of War and Peace,

Where Delos rose, and Phoebus sprung!

Eternal summer gilds them yet,

But all, except their Sun, is set.

As ilhas da Grécia, as ilhas da Grécia!

Onde a ardente Safo amou e cantou,

Onde a arte da guerra e a da paz cresceram,

E Delos surgiu, que a Apolo abrigou!

Um eterno verão as doura ainda,

Mas tudo, exceto o sol, já descambou.


Já no fim do Canto, encontram-se mais digressões; ora a respeito da risível vaidade da Glória, ora sátira a respeito dos lake poets, seguida por um trecho lírico em louvor do pôr do sol, a hora do Ave-Maria. Esta digressão romântica de Byron foi traduzida por Francisco Otaviano, poeta e tradutor brasileiro do período Romântico; um trecho é:


Tradução de Francisco Otaviano[10]
Canto III, CVII., CVIII. Canto III, CVII,, CVIII.
Oh, Hesperus! thou bringest all good things —

Home to the weary, to the hungry cheer,

To the young bird the parent's brooding wings,

The welcome stall to the o'erlaboured steer;

Whate'er of peace about our hearthstone clings,

Whate'er our household gods protect of dear,

Are gathered round us by thy look of rest;

Thou bring'st the child, too, to the mother's breast.


Soft Hour! which wakes the wish and melts the heart

Of those who sail the seas, on the first day

When they from their sweet friends are torn apart;

Or fills with love the pilgrim on his way

As the far bell of Vesper makes him start,

Seeming to weep the dying day's decay;

Is this a fancy which our reason scorns?

Ah! surely Nothing dies but Something mourns!

Tudo o que há de mais grato, a ti devemos,

ó Héspero: - ao romeiro fatigado

dás a hospedagem: - a cansado obreiro,

a refeição da tarde; - ao passarinho,

a asa da mãe; - ao boi, o aprisco:

toda a paz que se goza em torno aos lares,

o quente, o meigo aninho dos penates,

descem contigo à hora do repouso,

tu coas n'alma o doce da saudade;

moves o coração, que a vez primeira

sai da terra natal, deixa os amigos,

e anda à mercê das ondas do oceano:

enterneces, enfim, o peregrino

ao som da torre, cuja voz sentida

como que chora o dia moribundo


Por fim, o narrador reconhece que sua digressão foi longe demais e encerra assim o Canto III.


Canto IV[editar | editar código-fonte]

Novamente o Canto inicia com digressões. Augusto de Campos traduziu apenas a primeira estrofe do Canto IV.


Tradução de Augusto de Campos[4]
Canto IV, I. Canto IV, I.
Nothing so difficult as a beginning

In poesy, unless perhaps the end;

For oftentimes when Pegasus seems winning

The race, he sprains a wing, and down we tend,

Like Lucifer when hurled from Heaven for sinning;

Our sin the same, and hard as his to mend,

Being Pride, which leads the mind to soar too far,

Till our own weakness shows us what we are.

Nada é mais difícil que o começo

Em poesia, a menos que se trate

Do final, porque quando eu já pareço

Ganhar o páreo, eis que uma asa bate

E eu caio como Lúcifer e desço;

Nosso pecado sobre nós se abate -

O orgulho, que nos faz subir ao alto

Até que a falta corte o nosso salto.


O narrador descreve, em seguida, o sono de Haidée e Juan, e também o sonho que Haidée tem. Em meio ao sonho, ela vê Juan, desfalecido, e seu rosto se desfigura, e, num momento de vigília, o rosto de Juan revela ser o rosto de Lambro, pai de Haidée. Juan levanta, pega a espada, mas num assovio os homens de Lambro chegam e acertam Juan, que é tirado de cena desmaiado e ensanguentado. Haidée sofre um AVC e não fala mais com ninguém, num estado de torpor. Após doze dias, Haidée morre, levando consigo um filho de Don Juan.

Juan, quando acorda, se vê em alto-mar, indo ser vendido como escravo em Constantinopla. No porão onde se encontra, há uma trupe de músicos e atores que foram vendidos pelo próprio empresário como escravos. No fim do canto, podem ser vistas mais das digressões sistemáticas que o narrador perpetra na história. Em meio a essas digressões, Byron ironiza a "Sociedade da Meia Azul", conjunto de mulheres que se reuniam na Inglaterra para discutir literatura. Péricles Eugênio da Silva Ramos traduziu cinco dessas estrofes, dando o título da sua tradução desse trecho de "Os Graus do Azul"[9] .


Canto V[editar | editar código-fonte]

Juan é comprado pela sultana Gulbeyaz, para servir de escravo sexual. Para isso, precisa entrar no harém disfarçado de mulher. Há uma longa descrição do harém e dos aposentos reais de Gulbeyaz.

Fontes[editar | editar código-fonte]

Pope, Shakespeare, Samuel Butler com Hudibras. (acrescentar).

Mito de Don Juan[editar | editar código-fonte]

Don Juan é a outra face do Fausto. Ambos os mitos surgem e se insurgem no cristianismo: um quer alcançar a plenitude através da sabedoria, o outro, por meio da satisfação sexual. Representam as duas maiores cobiças humanas. Fausto faz um pacto com Mefisto; Don Juan vai para o inferno ainda em vida, isto é, antes de morrer (o chão se abre e ele é sugado para dentro da terra). Essa é a versão clássica do mito, como se vê em O Convidado de Pedra e o Burlador de Sevilha, de Tirso de Molina.

O tratamento que Byron confere ao mito é bastante diferente: seu épico não começa in medias res, como é comum na estrutura épica, mas começa a narrativa pela infância de Juan. Don Juan não seduz nenhuma mulher na obra byroniana. É um jovem inocente lançado pelo destino a toda sorte, que vai sendo paulatinamente corrompido pelos vícios das sociedades, às quais o autor critica como moralista, influenciado por suas leituras de Montaigne. Ao contrário do mito tradicional, nada é dito do "convidado de pedra" na versão de Byron; entretanto, no canto décimo sétimo, é Juan que vai como convidado para jantar e acaba recebendo a visita do fantasma do monge negro... seria mesmo um fantasma? ou uma mulher, a versão feminina de Juan, uma sedutora contumaz, que chega para seduzir o rapaz?

Traduções e estudos[editar | editar código-fonte]

Traduções em português[editar | editar código-fonte]

  • J. Luz - traduziu a canção "O Monge Negro", cerca de dez estrofes
  • Francisco Otaviano - traduziu "O Crepúsculo da Tarde", cerca de sete estrofes
  • João Vieira - tradução em prosa, apenas do que concerne à narrativa de Don Juan, não traduzindo as digressões, que são a maior parte da obra.
  • Péricles Eugênio da Silva Ramos - traduziu os trechos "As Ilhas da Grécia", cerca de quinze estrofes, e "Intensidades do Azul", cerca de cinco estrofes.
  • Décio Pignatari - traduziu cerca de cinquenta trechos de vários Cantos, entre oitavas inteiras e apenas versos.
  • Augusto de Campos - traduziu cem oitavas, isto é, oitocentos versos
  • Roberto Schraam - traduziu a Dedicatória, aproximadamente quinze estrofes
  • Lucas Zaparolli de Agustini - Canto I., II., III., IV. e V., aproximadamente sete mil versos

Estudos em língua portuguesa[editar | editar código-fonte]

AGUSTINI, Lucas de Lacerda Zaparolli de. O pé em que anda o Byron coxo no Brasil da tradução: com Don Juan. Tradução em Revista, v. 14, n. 1, p. 188-207, jan./jun. 2013b.[11]

AGUSTINI, Lucas de Lacerda Zaparolli de. Don Juan de Lord Byron: estudo descritivo das traduções, tradução, comentários e notas. 2015. Dissertação (Mestrado em Estudos da Tradução) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2015. Disponível em: <http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8160/tde-01032016-161149/>. Acesso em: 2016-03-04.[12]

LACERDA, Daniel. Lord Byron - Poeta crítico: as di(trans)gressões metalinguísticas em Don Juan. 2008. 214 f. Tese – Universidade Federal do Paraná. Curitiba, 2008.[13]

ZEMBRUSKI, Soeli Staub. A Tradução da Ironia em Don Juan de Lord Byron: uma análise dos fragmentos traduzidos ao português do Brasil. 2013. 212 f. Tese (Doutorado em Estudos da Tradução) – Programa de Pós-Graduação em Letras, Universidade Federal de Santa Catarina.[14]

Referências Bibliográficas[editar | editar código-fonte]

  1. English 151-03 Byron's 'Don Juan' notes, Gregg A. Hecimovich
  2. «Don Juan - Byron». Project Gutenberg. Consultado em 2016-02-10. 
  3. «Don Juan, Byron, Edição Coleridge, Ver Introdução.». Project Gutenberg. Consultado em 2016-02-10. 
  4. a b Campos, Augusto de (2009). Byron e Keats - entreversos [S.l.: s.n.] ISBN 978-85-268-0844-7. 
  5. PIGNATARI, Décio. 31 Poetas 214 Poemas – Do Rigveda e Safo a Apollinaire. São Paulo: Ed. Unicamp, 2007.
  6. Zaparolli de Agustini, Lucas (2015-12-12). «Don Juan de Byron por Lucas Zaparolli de Agustini». Escamandro - poesia crítica tradução. Consultado em 2016-02-10. 
  7. «Tradução de lorde Byron por Lucas Zaparolli de Agustini». www.mallarmargens.com. Consultado em 2016-02-16. 
  8. Byron, Lord. «Don Juan of Lord Byron». Gutemberg. Consultado em 2016-02-16. 
  9. a b Poesia de Lorde Byron Art Editora [S.l.] 1989. ISBN 89-0788 Verifique |isbn= (Ajuda).  |nome1= sem |sobrenome1= em Authors list (Ajuda)
  10. Otaviano, Francisco. «Crepúsculo da tarde». Consultado em 2016-02-23. 
  11. Agustini, Lucas Zaparolli de (2013-07-10). «O pé em que anda o Byron coxo no Brasil da tradução: com Don Juan» (PDF). Tradução em Revista (Puc-Rio). Consultado em 2016-02-23. 
  12. Agustini, Lucas de Lacerda Zaparolli de (2015-11-27). «Don Juan de Lord Byron: estudo descritivo das traduções, tradução, comentários e notas». Biblioteca Digital - USP. Consultado em 2016-03-08. 
  13. Lacerda, Daniel (2008). «As di(trans)gressões metalinguísticas em Don Juan» (PDF). Universidade Federal do Paraná. Consultado em 2016-02-23. 
  14. Zembruski, Soeli (2013). «A tradução da ironia em Don Juan de Lord Byron.» (PDF). Universidade Federal de Santa Catarina. Consultado em 2016-02-23. 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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