Droga alucinógena

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Um alucinógeno, droga psicodélica, droga alucinógena ou droga alucinogénica é uma substância capaz de provocar alucinações.[1] A classificação mais consensualmente aceita para tal classe de substâncias psicoativas foi proposta por Jean Delay, que as classifica como dislépticas (modificadoras), em oposição aos lépticos (estimulantes) e analépticos (depressores). [2] É considerado efeito específico dessas substâncias alterar os sentidos, a percepção, a concentração, os pensamentos e a comunicação.

A utilização destas drogas com fins recreativos oferece sérios riscos. As drogas sintéticas, a exemplo do LSD, Anticolinérgicos e ecstasy (Metilenodioximetanfetamina) com um grau de pureza maior podem causar a confusão da noção de tempo e de espaço e causar um efeito similar ao sonho e às psicoses. Observe-se, porém, que nem todas as drogas que causam alucinações são consideradas alucinógenos, a exemplo da clássica visão dupla induzida pela intoxicação alcoólica ou por grandes doses de café tal como recentemente se constatou e foi amplamente divulgado.

As drogas alucinógenas são assim chamadas por um de seus possíveis e mais relatados efeitos, que é a propriedade de causar alucinações (falsas percepções) e visões irreais ou oníricas aos seus utilizadores. Outros nomes propostos também estão associados a efeitos atribuídos e relatados, tais como: Psicotomiméticos e Psicotogênicos, por induzir efeitos semelhantes à psicose (mais especificamente as alucinoses e alucinações); Psicodélicos, por sua propriedade de fazer aparecer ou revelar a psique oculta; Enteógeno pelo reconhecimento antropológico de que tal classe de substâncias é frequentemente utilizado nas mais diversas culturas em rituais religiosos.

Esse último efeito atribuído também decorre da associação dessas substâncias à capacidade de facilitar a concentração ou meditação, também descrita como "expansão da consciência". No conjunto de alterações da consciência detectáveis por medidas do eletroencefalograma (eeg), situa-se na faixa das frequências alfa - ou dos "sonhos lúcidos" entre a vigília plena e o sono.

No plano das interpretações psicológicas ou psicanalíticas, os alucinógenos situam-se entre os fenômenos de modificação das emoções e personalidade, sendo superficialmente descritas como uma relação entre o ego e o mundo exterior/interior, analogamente às interpretações que se dão ao satori zen–budista, efeitos da ioga ou transe das religiões de possessão africanas, gregas, indígenas, entre outras.

Na descrição da categoria Psicodislépticos, Goodman & Gilman referem-se a efeitos estimulantes e depressores simultâneos em diferentes sistemas (circuitos) de neurotransmissores ou regiões do cérebro, incluindo os anticonvulsivantes não barbitúricos e relaxantes da musculatura esquelética narcoanalgésicos e analgésicos e antitérmicos psicotogênicos.[3]

Psilocybe cubensis, um dos alucinógenos utilizados pelos antigos Toltecas

Plantas & moléculas[editar | editar código-fonte]

O inventário de plantas (e elementos ativos) com propriedades alucinógenas proposto por Hofmann (apud Fontana)[4] inclui:

Esta lista originalmente incluía a Cannabis sativa (haxixe) da Ásia: contudo, existe grande controvérsia sobre tal classificação, assim como também é controversa a inclusão da muscarina – substância derivada do cogumelo Amanita muscaria.

Quanto à ampliação dessa classificação, nesse grupo deve-se acrescentar um conjunto de outras plantas que contêm a N,N-Dimetiltriptamina, a saber: Psychotria viridis (Chacrona, Chacruna), utilizada em combinação com a B. caapi por diversos grupos indígenas da Amazônia; a Virola calophylla (V. theidora, V. rufula, V. colophylla); o Epena, também da Amazônia; a Jurema (Mimosa hostilis ou M. nigra); do nordeste brasileiro; sapos do gênero Bufos (Bufo alvarius; Bufo marinus ou Cururu) que contenham a bufotenina em suas secreções: a bufotenina corresponde a uma variação molecular da dimetiltriptamina. Observe-se também que alguns autores discordam quanto à identidade da planta que seria o ololiuhqui dos astecas/toltecas, que contém ácido lisérgico: são comuns referências a Rivea coribosa e a Ipomoea violácea (glórias-da-manhã). Essa última também é utilizada em preparados homeopáticos do tipo floral.

De acordo com a semelhança química, os psicodislépticos têm sido classificados, ainda que provisoriamente, em cinco categorias: indólicos, feniletilaminas, anestésicos dissociativos (especialmente em função de pesquisas com ketamina), anticolinérgicos (especialmente os muscarínicos) e canabinoides já referidos.[5]

Efeitos colaterais[editar | editar código-fonte]

Estudos antropológicos ou etnofarmacológicos com resultados consistentes sobre a utilização ritual e efeito dessas plantas ainda são incipientes. Mesmo os estudos de psicofarmacologia ainda não produziram resultados definitivos. Os relatos de psicose são escassos e se contrapõe às frequências observadas nas populações que tradicionalmente fazem uso dessas substâncias. Estima-se, para a esquizofrenia, por inquéritos epidemiológicos, uma incidência em torno de 1% em populações urbanas das Américas.

O mesmo pode ser dito quanto à segurança de uso para gestantes: quanto ao seu potencial mutagênico e teratogênico, há referência à diminuição da quantidade e mobilidade de espermatozoides e da fertilidade feminina com o uso de maconha (Cannabis sativa) (uma planta que, para muitos autores, não deveria ser incluída nessa categoria de substâncias). Há referências a efeito clastogênico (quebra de cromossomos) em pesquisas com LSD in vitro e aumento do número de abortos.[6] [7] Deve-se ressaltar que esses estudos são isolados e que não há quaisquer estatísticas massivas para comprová-los.

Mecanismos de ação[editar | editar código-fonte]

A semelhança das substâncias psicodélicas com a Serotonina (5-HT) e Noradrenalina (NA) tem sido a maior pista para explicação do seu efeito. O LSD e a Psilocibina têm, em comum, a semelhança do núcleo indoletilamina da 5-HT. A Mescalina é um derivado da feniletilamina, que, por sua vez, figura na NA. Contudo, por ciclização, isto é, fechamento da cadeia lateral, a mescalina pode gerar um composto semelhante a 5-HT.[8] [9]

Estudos bioquímicos do composto da B. caapi e P. viridis presentes na bebida dos remanescentes indígenas do império inca (a Ayahuasca, ou Hoasca, como é conhecida no Brasil) apontam uma interação entre os inibidores da monoamina-oxidase I-MAO e o composto indólico.

Farmacologia do DMT/Efeito ayahuasca[editar | editar código-fonte]

A N,N-Dimetiltriptamina (DMT) foi sintetizada pela primeira vez em 1931 (Manzke), isolada de duas plantas distintas por investigadores independentes, em 1946 (Gonçalves) da Mimosa hostilis e em 1955 (Fish, Jonson and Horning) da Piptadenia peregrina.

O efeito da Jurema, Chacrona e outras plantas pode ser atribuído à presença da N,N-DMT ou N,N-dimethyltryptamine (C12H16N2).[10] [11]

Estudando rapés epena (paricá) de uso mágico medicinal entre tribos do norte da Amazônia (Tukano, Waika, Araibo, Piaroa e Surara), Holmsted e Lindgren (1967) revelaram a presença de triptaminas (5 Metoxi-N,N, Dimetiltriptamina [5Meo-DMT] e N,N-Dimetiltrptamina [DMT]) e, apenas em uma amostra (o paricá dos Piaroa da região do Orinoco, na Venezuela), encontraram, além do N,N-DMT e do 5-Meo-DMT, a bufoteína 5-OH-DMT, junto com o alcaloide beta-carbolínico harmina. Na época, observaram que essa composição molecular de triptaminas e betacarbolinas atua sinergicamente para o efeito psicoativo: "as betacarbolinas são inibidoras da monoamina-oxidase e podem potencializar a ação de indóis simples."[12] Nessa concepção, não basta a presença do anel indólico para se obter o efeito psicodélico ou psicodisléptico dos rituais xamânicos.

Psicotomiméticos e serotonina[editar | editar código-fonte]

LSD, Psilocibina e Mescalina variam quanto ao tempo de ação, produzem tolerância e tolerância cruzada e não produzem dependência fisiológica: as duas últimas estão associadas a vômitos como efeito colateral. Esse último efeito pode estar relacionado à alta concentração de 5HT (90% do disponível no organismo) encontrada nas células enterocromafins do trato gastrointestinal ou a uma ainda não bem conhecida interferência nos centros de vômito e postura do bulbo.

Em grandes doses, esse neuro-hormônio é sedativo. Sua ação depressiva, entretanto, é bloqueada pela clorpromazina (Himwich). É antagonizado pelo LSD, o que levou à elaboração de teorias serontoninérgicas sobre a esquizofrenia. Contudo, outros antagonistas da serotonina não são alucinógenos (Himwich, Barron et all). Observe-se que, posteriormente, foi descoberto, como assinala Cohen (1964),[13] que há substâncias psicodélicas que não têm qualquer antagonismo com a serotonina, a exemplo da psilocibina e psilocina, que são estruturalmente semelhantes à serotonina (Cohem, 1964 o.c. p. 231).

Há pesquisas que diferenciam os efeitos do LSD e Psilocibina nos diversos receptores da 5-HT e estudos com pontes radioligantes e experimentos funcionais apontam para o efeito agonista dessa classe de substâncias sobre a serotonina (receptores 5-HT1a e 5-HT2).[14]

Segundo Graeff,[8] o LSD combina-se também com receptores da Dopamina, reforçando, por sua vez, as hipóteses dopaminérgicas da esquizofrenia, pois diversos agentes antipsicóticos antagonizam competitivamente com a dopamina.

A depressão e os Distúrbios Obsessivos-Compulsivos (DOC) também estão associados aos níveis de serotonina e ambos os quadros psicopatológicos têm sido tratados (farmacologicamente) de modo - nem sempre - eficiente com bloqueadores de recaptação sináptica (fluoxetina) que aumentam a serotonina ativa. O surgimento e a explosão de vendas de novos antidepressivos/antipsicóticos demonstram que há certo fracasso no tratamento de milhares de casos.

Representação em 3D da molécula de LSD

Pesquisas neuroetológicas associam os níveis desse neurotransmissor ao comportamento de liderança e agressividade. As funções da serotonina e seus diversos sítios receptores, portanto, permanecem como o grande enigma para explicação do efeito psicodélico.

O sucesso da utilização de substâncias alucinógenas no tratamento de depressão, alcoolismo e outras drogadições tem explorado a compreensão dos sistemas bioquímicos referidos, além dos efeitos psicossociais do contexto (set) de sua utilização ritual.

Referências

  1. FERREIRA, A. B. H. Novo dicionário da língua portuguesa. 2ª edição. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 1986. pp. 94, 1 411.
  2. Delay J , Deniker P . Caractéristiques psycho-physiologiques des médicaments neuroleptiques. Psychotropic drugs . Amsterdam: Elsevier ; 1957, p. 485 - 501
  3. Goodman; Gilman. As bases farmacológicas da terapêutica. RJ Guanabara Koogan, 1985
  4. Fontana, Alberto E. et all. Psicoterapia com LSD e outros alucinógenos. SP, Mestre Jou 1969
  5. Formigoni, Maria Lúcia O.S. (ed). SUPERA – Sistema para detecção do uso abusivo e dependência de substancia psicoativas. Efeitos de substancia psicoativas. Módulo 2 (5º ed). Brasilia Secretaria Nacional de Polítcas Sobre Drogas, 2014
  6. Goth, Andres. Farmacologia médica. RJ, Guanabara Koogan, 1975
  7. Mota Paulo Armando. Genética médica. RJ Guanabara Koogan, 1977
  8. a b Graeff, Frederico G. Drogas psicotrópicas e seu modo de ação. SP, EPU / EDUSP, 1984
  9. Barron, F.;Murray E.J.; Bunnell, S. As drogas alucinógenas. In Psicobiologia, as bases biológicas do comportamento, textos do Scientific American. SP Polígono, 1970
  10. Ott, Jonathan. Pharmahuasca, anahuasca and vinho da jurema: human pharmacology of oral DMT plus harmine. Yerbook for Ethnomedicine 1977/98 http://www.melt2000.com/loudtruth/entheosphere/articles/0024.html - 23 de março de 2004
  11. Gaujac, Alain. Estudos sobre o psicoativo N,N-dimetiltriptamina (DMT) em Mimosa tenuiflora (Willd.) Poiret e em bebidas consumidas em contexto religioso. Salvador, Ba, Universidade Federal da Bahia Tese Doutorado, Instituto de Química, 2013 Disponível no NEIP Consulta 2015
  12. Holmstedt B.;e Lindgren, J.E.. Chemical constituents and pharmacology of South American snuffs in: Holmstedt B. et all (org). Ethnopharmacology Search for Psicoative drugs. Washington DC, Gov Printing Office, 1967 apud Ott, J. Farmahuasca, anahuasca e jurema preta: farmacologia humana da DMT via oral combinada com harmina. In: Labate; Araújo (orgs.). O Uso Ritual da ayhuasca. Campinas,SP, Mercado das Letras - FAPESP, 2002
  13. Cohen, Sidney. The Beyond Within, The LSD Story. (1964) / A droga alucinante, história do LSD. (Tradução Dr. Ramiro da Fonseca) Lisboa, Edição "Livros do Brasil"
  14. Brito, G.S. Farmacologia Humana da hoasca (chá) preparado de plantas alucinógenas usado em contexto ritual no Brasil. In Labate, B.C.; araújo, W.S. O uso ritual da ayahuasca.SP, Mercado de Letras / Fapesp, 2002

Bibliografia adicional[editar | editar código-fonte]

  • Bailly, J.C.; Guimard (org) A experiência alucinógena (Mandala). RJ, Civilização Brasileira, 1969
  • Carneiro, Henrique. As plantas sagradas na história da América. VARIA HISTORIA, nº 32 / Jan.2011 Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas - Fafich / Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG
  • Cashman, John. LSD. SP, Perspectiva, 1966
  • Grof, Stanislav. Variedades das experiências transpessoais: observações da psicoterapia com LSD in Weil, P. (org) Experiência Cósmica e Psicose – Pequeno tratado de psicologia transpessoal v. IV. RJ, Vozes, 1978
  • Himwich. H.E. As novas drogas psiquiátricas. In Psicobiologia, as bases biológicas do comportamento, textos do Scientific American. SP Poligno, 1970
  • King Michael W. Neurotransmissores: Diversidade e Funções. Revista Cérebro & Mente. SP Universidade Estadual de Campinas, 2000
  • Labate, Beatriz C.; Goulart, Sandra L. (orgs.) O uso ritual das plantas de poder. SP, Mercado das Letras / FAPESP, 2005
  • Litter, Manuel Compêndio de farmacologia. Buenos Aires, El Ateneo, 1974
  • McGuirre, M.; Raleigh, M. Pesquisa sobre fisiologia do poder U. Califórnia, Science Digest/ Revista Veja setembro de 1983
  • Needleman j. Lewis D. No caminho do autoconhecimento, as antigas tradições do oriente e os objetivos e métodos da psicoterapia. SP, Pioneira, 1982
  • Nickell, P. V. and Uhde, T. W. (1994), Dose-response effects of intravenous caffeine in normal volunteers. Anxiety, 1: 161–168. Abstract Jul. 2014
  • Ramos, A. O.; Vassilieff. Psicofarmacologia: um desafio para pesquisadores. Ars Curandi (42-54) fevereiro de 1971
  • Rios, Marlene Dobkin de. Uma teoria transcultural del uso de los alucinógenos de origem vegetal. América Indígena, (291-304) Vol XXXVII nº 2, abril-junio, 1977
  • Sargant, William. A conquista da mente, fisiologia da conversão e da lavagem cerebral. SP, IBRASA, 1968
  • Sargant, William. A possessão da mente, uma fisiologia da possessão do misticismo e da cura pela fé. RJ, Imago, 1975
  • Weil, Andrew. Drogas e estados superiores da consciência. SP/RJ Ground/ Global Ed. 1986

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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