Dunstan

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São Dunstan
Vitral de São Dunstan
Arcebispo de Cantuária
Nascimento c. 909[1] em Baltonsborough, Mendip, Somerset, Inglaterra
Morte 19 de maio de 988 (79 anos)[1] em Cantuária, Kent, Inglaterra
Veneração por Igreja Católica
Igreja Ortodoxa[2]
Comunhão Anglicana
Canonização 1029
Principal templo Catedral de Cantuária (também a Abadia de Glastonbury), ambas destruídas
Festa litúrgica 19 de maio
Atribuições Homem segurando um par de pinças de ferreiro; com uma pomba pairando sobre a cabeça; a frente de uma tropa de anjos
Padroeiro ferreiros; ourives de ouro e prata; chaveiros; músicos
Gloriole.svg Portal dos Santos

Dunstan (em latim: Dunstanus Cantuariensis) foi um abade de Glastonbury, bispo de Worcester, bispo de Londres e arcebispo de Cantuária que foi, depois de morto, canonizado e é venerado como santo.[3] Foi o responsável por restaurar a vida monástica na Inglaterra e por reformar a Igreja inglesa. Seu biógrafo do século XI, Osberno (Osbern), ele próprio um artista e escritor, afirma que Dunstan era habilidoso "em pinturas e em formar letras", o que era comum entre os membros mais seniores do clero de sua época.[4]

Dunstan serviu como um importante ministro de estado para diversos reis ingleses. Foi também o santo mais popular na Inglaterra por quase dois séculos, principalmente por causa das histórias sobre sua grandeza, especialmente as que contam sobre sua famosa astúcia em derrotar o diabo.[5]

Primeiros anos (909–43)[editar | editar código-fonte]

Nascimento[editar | editar código-fonte]

Dunstan nasceu em Baltonsborough, Somerset,[6] filho de Heorstan, um nobre de Wessex que era irmão dos bispos de Wells e Winchester.[7] Sua mãe, Cinetrida (Cynethryth), é descrita apenas como sendo uma mulher piedosa. A "Vida de Dunstan", de Osberno, conta que um mensageiro teria milagrosamente contado a ela sobre a criança santificada que ela daria à luz:

Ela estava na igreja de Santa Maria no dia das velas quanto das as luzes subitamente se apagaram. Então, a vela que Cinetrida segurava subitamente se reacendeu e todos os presentes acenderam suas velas nessa chama milagrosa, prenunciando que o garoto "seria o ministro da luz eterna" para a Igreja da Inglaterra
 
Vida de Dunstan, Osberno de Cantuária[5].

O autor anônimo da mais antiga hagiografia de Dustan data o nascimento dele durante o reinado de Etelstano (Athelstane). Já Osberno fixou-o no "primeiro ano do reinado do rei Etelstano" (924 ou 925). Esta data, porém, não se reconcilia com outras datas da vida de Dunstan e cria muitos anacronismos óbvios. Por isso, historiadores assumem que Dunstan nasceu por volta de 910 ou antes.[8]

Da escola para a corte real[editar | editar código-fonte]

Ainda garoto, Dunstan estudou com os monges irlandeses que na época ocupavam as ruínas da Abadia de Glastonbury.[9] Relatos dão conta de seu otimismo juvenil e de sua visão de que a abadia deveria ser reconstruída. Nesta época, foi acometido de uma grave enfermidade que quase o matou e que, segundo os relatos, só foi curada por uma aparente intervenção milagrosa. Ainda bem jovem, era reconhecido por sua dedicação aos estudos e por sua maestria nas diversas artes manuais. Com o consentimento de seus pais, foi tonsurado, recebeu as ordens menores e serviu na antiga igreja de Santa Maria. Tornou-se tão conhecido por seu gosto pelos estudos que diz-se que foi convocado pelo seu tio, Etelmo, o arcebispo de Cantuária, para trabalhar com ele.[5] Dunstan foi depois nomeado para a corte do rei Etelstano.[10]

Dunstan logo tornou-se um favorito do rei e era invejado por outros membros da corte.[5] Um complô foi armado para fazê-lo cair em desgraça e Dunstan foi acusado de se envolver com bruxaria e magia negra.[3] O rei ordenou que ele deixasse a corte e, quando estava partindo, seu inimigos o atacaram. Dunstan foi brutalmente agredido, amarrado e atirado numa fossa.[11] Ele conseguiu rastejar para fora dali e seguiu para a casa de um amigo. De lá, viajou para Winchester e passou a trabalhar com seu tio, Alfege, o Calvo (Ælfheah ou Alphege), bispo de Winchester.[5]

O bispo tentou convencê-lo a tornar-se um monge, mas Dunstan tinha dúvidas se tinha vocação para uma vida celibatária. A resposta veio na forma de um ataque de tumores inchados que cobriram todo seu corpo. A aflição foi tão severa que se pensava tratar-se da temida lepra.[5] É mais provável, porém, que tenha sido uma forma de envenenamento sanguíneo resultante de ter sido atirado numa fossa depois de ter apanhado.[11] Seja como for, Dunstan mudou de ideia. Foi ordenado em 943 na presença de Alfege e voltou a viver como eremita em Glastonbury.[5] Nas paredes da antiga igreja de Santa Maria, construiu uma pequena cela de 1,5 x 0,75 metros e foi ali que passou a viver, estudar e trabalhar, tocando sua harpa de vez em quando.[5] Foi nesta época, de acordo com uma lenda do final do século XI, que o diabo teria tentado Dunstan que o teria segurado pelo rosto com uma pinça de ferreiro.[11]

Monge, abade e bispo (943–60)[editar | editar código-fonte]

Iluminura de um monge, provavelmente Dunstan, rezando aos pés de Cristo.

Vida como monge[editar | editar código-fonte]

Dunstan trabalhou como ourives de prata e no scriptorium na Abadia de Glastonbury. Acredita-se que foi ele o artista que desenhou a conhecida imagem de Cristo com um pequeno monge ajoelhado aos seus pés (vide imagem) no "Glastonbury Classbook", "um dos primeiros de uma série de desenhos que tornar-se-iam uma característica especial da arte anglo-saxônica de seu período".[4] Dunstan ganhou fama também como músico, iluminador de manuscritos e metalúrgico.[10] Dunstan tornou-se conselheiro de Etelfledo (Æthelflaed), sobrinha de Etelstano, e quando ela morreu, deixou-lhe uma considerável fortuna,[5] que ele utilizou depois para encorajar um reavivamento monástico na Inglaterra. Na mesma época, Heorstan, seu pai, morreu e deixou também para Dunstan sua fortuna, que tornou-se uma pessoa de considerável influência. Com a morte de Etelstano em 940, o novo rei, Edmundo, convocou-o para sua corte em Cheddar e nomeou-o ministro de estado.[3]

Novamente, o favorecimento real provocou inveja entre os cortesões e novamente os inimigos de Dunstan tiveram sucesso em seus complôs. O rei estava pronto para expulsar Dunstan.[5] Na ocasião, estavam em Cheddar enviados de um tal "Reino Oriental" — provavelmente a Ânglia Oriental — e Dunstan implorou para que eles o levassem junto quando voltassem para casa. Eles concordaram, mas a fuga jamais se realizou. Conta a história:

...o rei partiu para caçar um veado na Floresta de Mendip. Ele se separou de seus atendentes e seguiu o veado em grande velocidade na direção dos penhascos de Cheddar. O veado pulou cegamente no precipício e foi seguido pelos cães. Edmundo tentou em vão parar seu cavalo; então, percebendo que a morte era iminente, lembrou-se do tratamento duro que dispendeu a São Dunstan e prometeu se desculpar se sua vida fosse poupada. Naquele exato momento, seu cavalo parou na beirada do precipício. Agradecendo a Deus, retornou depois para seu palácio, chamou São Dunstan, pediu-lhe que o seguisse e foram direto para Glastonbury. Entrando na igreja, o rei primeiro ajoelhou-se em oração perante o altar e então, tomando São Dunstan pela mão, deu-lhe um beijo de paz, levou ao trono abacial e, com ele sentado ali, prometeu ajudá-lo em tudo na restauração do serviço divino e da observância regular
 
"Vida de São Dunstan", Osberno de Cantuária[5].

Abade de Glastonbury[editar | editar código-fonte]

Dunstan, o novo abade de Glastonbury, começou a trabalhar imediatamente na reforma,[3] com o objetivo primeiro de recriar a vida monástica e reconstruir a abadia. Ele começou estabelecendo a Regra de São Bento na abadia,[10] o que tornou-se a base de sua restauração de acordo com o autor de "Fundação dos Mosteiros por Edgar" (escrita na década de 960 ou 970) e, também com primeiro biógrafo anônimo de Dunstan (conhecido como "B."), que havia sido membro da comunidade na abadia.[12] Os relatos dos dois também estão em acordo com a natureza de seus primeiros atos como abade, com a importância de suas primeiras construções e com a inclinação beneditina de seus mais proeminentes discípulos.[5] Seja como for, nem todos os membros da comunidade de Dunstan em Glastonbury eram monges beneditinos. Na verdade, o primeiro biógrafo de Dunstan, era um clérigo que depois se juntou a uma comunidade de cônegos em Liège depois de deixar a abadia.[13]

A primeira preocupação de Dunstan foi reconstruir a Igreja de São Pedro e o claustro para re-estabelecer o isolamento monástico. Os afazeres seculares da nova casa ficaram a cargo de seu irmão, Vulfrico, "para que nem ele e nem nenhum dos monges professos precisassem sair do isolamento".[5] A escola para a juventude local foi fundada e logo tornou-se a mais famosa de sua época em toda a Inglaterra.[10]

Em menos de dois anos da nomeação de Dunstan, em 946, Edmundo foi assassinado e foi sucedido por Edredo. A política de unificação e reconciliação com a metade dana do reino, do novo governo foi apoiada pela rainha mãe, Edgiva de Kent (Eadgifu), pelo arcebispo de Cantuária, Oda e pelos nobres da Ânglia Oriental, liderados pelo poderoso ealdorman Etelstano, o Meio-Rei[9] e tinha por objetivo fortalecer a autoridade do rei. Em assuntos eclesiásticos, ela favoreceu a disseminação da observância católica, a reconstrução das igrejas, as reformas morais do clero e dos legiso e acelerou o fim da religião dos danos na Inglaterra.[11] Contra as reformas estavam os nobres de Wessex, incluindo a maior parte dos parentes de Dunstan, interessados em manter os costumes vigentes.[5] Por nove anos, a influência de Dunstan foi dominante e, neste período, ele recusou por duas vezes o cargo de bispo (de Winchester em 951 e de Crediton em 953), afirmando que seu lugar era ao lado do rei enquanto ele estivesse vivo e precisasse dele.[10]

Mudança de planos[editar | editar código-fonte]

Dunstan arrastando Eduíno para longe de Elgifu, que depois se tornaria sua esposa. O evento obrigou Dunstan a fugir para a Europa.
Gravura da "Illustrated History of England", vol. 1, de Cassell.

Em 955, o rei Edredo morreu e a situação imediatamente mudou. Eduíno (Eadwig), o filho mais velho de Edmundo, ascendeu ao trono, mas era um jovem teimoso e inteiramente devotado aos nobres reacionários. De acordo com uma lenda, a disputa com Dunstan começou no dia da coroação de Eduíno, quando ele faltou a um encontro com os nobres. Quando Dunstan finalmente se encontrou com o jovem monarca, este estava cavalgando com uma nobre chamada Elgifu (Ælfgifu) e a mãe dela e se recusou a voltar com o bispo. Furioso, Dunstan arrastou Eduíno de volta e forçou-o a renunciar a garota chamando-a de "meretriz". Depois, percebendo que havia provocado a fúria do rei, Dunstan fugiu para a aparente segurança de seu claustro, mas Eduíno, incitado por Elgifu, com quem ele se casou, seguiu-o e saqueou o mosteiro.[5]

Embora Dunstan tenha conseguido escapar, percebeu que sua vida corria perigo. Ele fugiu da Inglaterra e cruzou o canal em direção aos Flandres, onde se viu numa terra onde não falava a língua e não conhecia os costumes.[10] O conde de Flandres, Arnulfo I, recebeu-o com grandes honras e o alojou na Abadia de Monte Blandin (Blandijnberg), perto de Gante.[5] Este era um dos centros do renascimento beneditino na região e Dunstan conseguiu pela primeira vez praticar a estrita observância, um movimento iniciado na Abadia de Cluny no início do século. Seu exílio não foi por muito tempo, porém. Antes do fim de 957, mercianos e nortúmbrios se revoltaram contra Eduíno e o expulsaram, escolhendo seu irmão, Edgar, como rei do país ao norte do rio Tâmisa.[9] A região sul permaneceu fiel a Eduíno. De imediato, os conselheiros de Edgar chamaram de volta Dunstan,[10] que foi consagrado bispo pelo arcebispo, que, logo após a morte de Cenvaldo (Coenwald) no final de 957, nomeou-o para aquela sé.[14]

No ano seguinte, a sé de Londres também ficou vaga e foi conferida a Dunstan, que acumulou as duas funções.[3][14] Em outubro de 959, Eduíno morreu e Edgar foi imediatamente aceito como monarca em Wessex. Um dos atos finais do falecido rei havia sido nomear um sucessor para o arcebispo Oda, que havia morrido em 2 de junho de 958. Primeiro ele escolheu Elfsige (Ælfsige) de Winchester, mas ele morreu de frio atravessando os Alpes na viagem a Roma para buscar seu pálio. Em seguida, Eduíno nomeou Birtelmo (Byrhthelm), o bispo de Wells. Logo que assumiu, Edgar reverteu a decisão afirmando que Britelmo não estava conseguindo governar sua diocese de forma adequada[5] e o cargo foi passado a Dunstan.[10]

Arcebispo de Cantuária (960–78)[editar | editar código-fonte]

Dunstan coroando o rei Edgar da Inglaterra.
Vitral na Abadia de Bath.

Dunstan viajou para Roma em 960 e recebeu seu pálio do papa João XII. Durante a viagem, Dunstan foi tão caridoso em suas doações que não deixou praticamente nada para si e seus atendentes. Seu supervisor reclamou, mas Dunstan parece ter sugerido que eles deviam confiar em Jesus Cristo.[3]

Na viagem de volta, Dunstan imediatamente recuperou seu posto como o virtual primeiro ministro do reino. Por conselho seu, Elfstano (Aelfstan) foi nomeado para a Diocese de Londres e Osvaldo (Oswald) para a de Worcester. Em 963. Etelvoldo (Æthelwold), o abade de Abingdon, foi nomeado para a sé de Winchester. Com a ajuda deles e com o apoio incondicional do rei Edgar, Dunstan avançou rapidamente com suas reformas.[3] Os monges em suas comunidades foram ensinados a viverem num espírito de auto-sacrifício e Dunstan fez cumprir ativamente a lei do celibato sempre que possível.[15] Ele proibiu ainda a simonia — a venda de cargos eclesiásticos por dinheiro — e acabou com o costume de clérigos nomeando parentes para cargos em suas jurisdições (nepotismo). Mosteiros foram construídos e, em algumas grandes catedrais, monges substituíram os cônegos seculares; onde isso não aconteceu, também eles foram obrigados a viver de acordo com a regra beneditina. Os padres paroquiais foram compelidos a se qualificarem para suas funções; foram instados a ensinarem aos seus paroquianos não apenas as verdades da fé cristã, mas também profissões que os ajudassem a progredir.[11] O estado também passou por reformas[10]: a ordem foi mantida por todo o reino e lei era respeitada. Bandos treinados policiavam o norte e uma marinha protegia a costa dos raides vikings. O nível de paz que permeava o reino não tinha paralelos na memória dos súditos do rei.[5]

Em 973, habilidade de governo do estado de Dunstan atingiu o ápice quando ele oficiou a coroação do rei Edgar. A cerimônia foi realizada em Bath e planejada não como uma iniciação, mas como a culminação de seu reino (o que por si só deve ter envolvido um grande esforço diplomático prévio).[16] O serviço religioso em si, criado por Dunstan e celebrado com um poema na "Crônica Anglo-Saxônica", é a base da moderna cerimônia de coroação britânica.[16] Houve uma segunda coroação simbólica depois, um passo importante pois outros reis das ilhas Britânicas vieram oferecer alianças a Edgar em Chester.[17] Seis reis, incluindo os da Escócia e de Strathclyde, declaram sua fé de que poderiam ser aliados do rei em terra e no mar.

Edgar morreu dois anos depois e foi sucedido por seu primogênito, Eduardo (II), "o Mártir".[10] Porém, sua ascensão foi disputada por sua madrasta, Elfrida (Ælfthryth), que desejava ver no trono seu próprio filho, Etelredo (Æthelred). Por influência de Dunstan, Eduardo foi escolhido e coroado em Winchester.[3] A morte de Edgar, porém, encorajou os nobres reacionários e de imediato houve um calculado ataque contra os monges, que eram os protagonistas da reforma. Por toda Mércia, eles foram perseguidos e pilhados de suas posses. A causa deles, porém, foi defendida pelo poderoso Etelvino (Aethelwine), o ealdorman da Ânglia Oriental, o que colocou o reino em sério risco de uma guerra civil. Três encontros do Witan foram convocadas para resolver as disputas, em Kyrtlington, em Calne e em Amesbury. Na segunda ocasião, o piso do salão onde estava reunido o Witan cedeu e todos, exceto Dunstan, que se segurou numa viga, desabaram para a sala abaixo e muitos morreram.[5]

Anos finais (978–88)[editar | editar código-fonte]

Em março de 978, o rei Eduardo foi assassinado no Castelo de Corfe, provavelmente a mando de sua madrasta, e Etelredo, o Despreparado, tornou-se o rei. Sua coroação, realizada no primeiro domingo depois da Páscoa, 31 de dezembro de 978, foi o último evento de estado que Dunstan compareceu.[5] Quando o jovem rei fez seu costumeiro juramento de governar bem, Dunstan falou-lhe diretamente na forma de um aviso solene. Criticou o ato violento pelo qual tornou-se rei e profetizou os infortúnios que logo afligiriam o reino,[16] o que imediatamente acabou com toda influência que ele tinha na corte.[10] Dunstan se retirou para Cantuária e passou a lecionar na escola catedrática.[3]

São Dunstan pregando uma ferradura no diabo, uma lenda popular na Idade Média.
Gravura na "The True Legend of St. Dunstan and the Devil".

Apenas mais três atos públicos dele são conhecidos. Em 980, Dunstan se juntou a Elfero da Mércia (Aelfere) na translação solene das relíquias do rei Eduardo II, que passou a ser conhecido como Santo Eduardo, o Mártir, de seu túmulo em Wareham para um santuário na Abadia de Shaftesbury. Em 984, depois de uma visão de Santo André, convenceu o rei Etelredo a nomear Alfege (Ælfheah) como bispo de Winchester sucedendo a Etelvoldo. Em 986, Dunstan induziu o rei, depois de doar-lhe 45 kg de prata, a encerrar a perseguição à sé de Rochester.[5]

O retiro de Dunstan em Cantuária consistiu de longos períodos, de dia e de noite, recluso em oração solitária, além do comparecimento regular à missa e o cumprimento do ofício diário. Ele visitou os santuários de Santo Agostinho de Cantuária e Santo Etelberto de Kent (Æthelberht) e há relatos de visões de anjos que cantaram para ele cânticos celestes.[5] Dunstan trabalhou muito para melhorar o bem estar temporal e espiritual de seu povo, construir e reformar igrejas, fundar escolas, julgar disputas, defender as viúvas e órfãos, promover a paz e fazer cumprir o respeito pela pureza[9]. Neste período, Dunstan praticou suas habilidades artísticas, fabricando sinos e órgãos e corrigindo livros da biblioteca da catedral. Encorajou e protegeu estudiosos europeus que vinham à Inglaterra e lecionou na escola da catedral. Na vigília da dia da Ascensão de 988, relata-se que ele teria visto anjos que o avisaram que morreria em três dias.[5] No dia da festa, Dunstan rezou a missa e pregou três vezes para o povo: na liturgia da Palavra, na benção e depois do "Agnus Dei". Neste último, anunciou sua morte iminente e despediu-se desejando o bem da congregação.[18] Naquela tarde, escolheu o lugar de seu túmulo e foi dormir. Suas forças rapidamente se esvaíram e na manhã de sábado, 19 de maio, fez reunir o clero. A missa foi celebrada em sua presença, recebeu a Extrema Unção e o viático e morreu. Suas últimas palavras foram, segundo os relatos, "Ele criou um memorial de suas maravilhosas obras, sendo um Senhor misericordioso e gracioso: Ele deu alimento aos que O temem".[5]

O povo inglês o aceitou como santo logo em seguida. Dunstan foi formalmente canonizado em 1029 e, no Sínodo de Winchester do mesmo ano, a festa de São Dunstan tornou-se de observância solene obrigatória por todo o Reino da Inglaterra.[5]

Legado[editar | editar código-fonte]

Dunstan foi o santo favorito do povo inglês até que São Tomás Becket o superou séculos depois. Seu túmulo estava localizado na Catedral de Cantuária, mas quando o edifício todo foi destruído pelo fogo em 1074, suas relíquias foram transladas pelo arcebispo Lanfranco para um novo túmulo ao sul do altar-mor da reconstruída catedral.[5]

Os monges de Glastonbury reivindicavam que, durante o saque de Cantuária pelos danos em 1012, o corpo de Dunstan teria sido levado para a segurança da abadia. Esta história foi provada falsa pelo arcebispo Guilherme Warham, que abriu o túmulo em Cantuária em 1508 e encontrou nele as relíquias de Dunstan intactas. Porém, ainda no mesmo século, todo o santuário foi destruído durante a Reforma Inglesa.[5]

Uma história muito popular na Idade Média relata como São Dunstan pregou uma ferradura no casco do diabo quando foi-lhe solicitado que trocasse as ferraduras do cavalo dele. A dor foi enorme e Dunstan só concordou em retirar a ferradura e soltar o diabo depois que ele prometeu nunca mais entrar numa casa onde houvesse uma ferradura acima da porta.[19] É desta lenda que surgiu o talismã da ferradura da sorte.

Dunstan é o padroeiro dos ourives (de prata e ouro), pois trabalhou como ferreiro, pintor e joalheiro. Sua festa é celebrada em 19 de maio.[3]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Dunstan de Cantuária
(959–988)
Precedido por: Angl-Canterbury-Arms.svg
Arcebispos de Cantuária
Sucedido por:
Birtelmo 27.º Etelgaro


Referências

  1. a b Lapidge, "Dunstan [St Dunstan] (d. 988)"
  2. «Ὁ Ἅγιος Δουνστάνος Ἀρχιεπίσκοπος Καντουαρίας. 19 Μαΐου. ΜΕΓΑΣ ΣΥΝΑΞΑΡΙΣΤΗΣ» (em grego). Sinaxarion.org 
  3. a b c d e f g h i j Bunson, Matthew; Bunson, Margaret; Bunson, Stephen (1998). Our Sunday Visitor's Encyclopedia of Saints. Huntington, IN: Our Sunday Visitor Publishing. ISBN 0-87973-588-0  Erro de citação: Código <ref> inválido; o nome "osv" é definido mais de uma vez com conteúdos diferentes
  4. a b Alexander, Jonathon (1992). Medieval Illuminators and their Methods of Work. New Haven, CT: Yale University Press. 9 páginas. ISBN 0-300-05689-3  Erro de citação: Código <ref> inválido; o nome "ja" é definido mais de uma vez com conteúdos diferentes
  5. a b c d e f g h i j k l m n o p q r s t u v w x y z aa Wikisource-logo.svg "St. Dunstan" na edição de 1913 da Enciclopédia Católica (em inglês)., uma publicação agora em domínio público
  6. Dunning, Robert (1983). A History of Somerset. Chichester: Phillimore & Co. ISBN 0-85033-461-6 
  7. Green, John Richard (1895). History of the English People, Volume I (of 8) Early England, 449–1071; Foreign Kings, 1071–1204; The Charter, 1204–1216. London: MacMillan. ISBN 1-4346-0693-7 
  8. Lapidge, Michael, "Dunstan" in Lapidge et al. (eds), The Blackwell Encyclopedia of Anglo-Saxon England. Blackwell, Oxford, 1999. ISBN 0-631-15565-1
  9. a b c d «St Dunstan». Catholic Online. Catholic Online. Consultado em 1 de julho de 2007  Erro de citação: Código <ref> inválido; o nome "co" é definido mais de uma vez com conteúdos diferentes
  10. a b c d e f g h i j k The Oxford Dictionary of the Christian Church by F. L. Cross (Editor), E. A. Livingstone (Editor) Oxford University Press, USA; 3 edition p.514 (13 March 1997) Erro de citação: Código <ref> inválido; o nome "ODCC" é definido mais de uma vez com conteúdos diferentes
  11. a b c d e «St Dunstan». Catholic Community – Woking. st-dunstans.org. Consultado em 1 de julho de 2007 
  12. Whitelock, Dorothy (1979). «'An Old English Account of King Edgar's Establishment of the Monasteries'». English Historical Documents. 1: 920 
  13. Winterbottom, Michael (2011). The Early Lives of St Dunstan. Oxford: Oxford University Press. p. lxix. ISBN 9780199605040 
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  15. Hollister, C. Warren (1966). The Making of England p.61. [S.l.]: Heath 
  16. a b c Churchill, Winston (1966). The Birth of Britain p.134. [S.l.]: Dodd, Mead  Erro de citação: Código <ref> inválido; o nome "wsc" é definido mais de uma vez com conteúdos diferentes Erro de citação: Código <ref> inválido; o nome "wsc" é definido mais de uma vez com conteúdos diferentes
  17. Schama, Simon (200). A History of Britain I. [S.l.]: BBC Books. 65 páginas 
  18. «Biography: St. Dunstan». Mission St. Clare. Consultado em 2 de agosto de 2007 
  19. Edward G. Flight, ilustrado por George Cruikshank (1871). «The True Legend of St. Dunstan and the Devil» (em inglês). Project Gutenberg 

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Fontes primárias[editar | editar código-fonte]

  • Autor "B.", Vita S. Dunstani, ed. W. Stubbs, Memorials of St Dunstan, Archbishop of Canterbury. Rolls Series. London, 1874. 3–52. Partes do texto foram traduzidas para o inglês por Dorothy Whitelock em English Historical Documents c. 500–1042. 2nd ed. London, 1979. Estas foram superadas por uma nova edição e tradução de Michael Lapidge e Michael Winterbottom, The Early Lives of St Dunstan, Oxford University Press, 2012. (em inglês)
  • Adelardo de Gante, Epistola Adelardi ad Elfegum Archiepiscopum de Vita Sancti Dunstani, carta de Adelardo ao arcebispo Alfege de Cantuária (1005&nash;1012) sobre a Vida de São Dunstan, ed. W. Stubbs, Memorials of St Dunstan, Archbishop of Canterbury. Rolls Series 63. London, 1874. 53–68. Está também na nova edição e tradução de Michael Lapidge e Michael Winterbottom, The Early Lives of St Dunstan, Oxford University Press, 2012. (em inglês)
  • Wulfstan de Winchester, The Life of St Æthelwold, ed. e tr. M. Lapidge e M. Winterbottom, Wulfstan of Winchester. The Life of St Æthelwold. Oxford Medieval Texts. Oxford, 1991. (em inglês)
  • Reliquiae Dunstanianae, ed. W. Stubbs, Memorials of St Dunstan, Archbishop of Canterbury. Rolls Series. London, 1874. 354–439. (em inglês)
  • Fragmenta ritualia de Dunstano, ed. W. Stubbs, Memorials of St Dunstan, Archbishop of Canterbury. Rolls Series. London, 1874. 440-57. (em inglês)
  • Osberno de Cantuária, Vita sancti Dunstani e Liber Miraculorum Sancti Dunstani, ed. W. Stubbs, Memorials of St Dunstan, Archbishop of Canterbury. Rolls Series. London, 1874. 69–161. (em inglês)
  • Eadmer, Vita S. Dunstani e Miracula S. Dunstani, ed. e tr. Bernard J. Muir e Andrew J. Turner, Eadmer of Canterbury. Lives and Miracles of Saints Oda, Dunstan, and Oswald. OMT. Oxford, 2006. 41–159 e 160–212; ed. W. Stubbs, Memorials of St Dunstan, archbishop of Canterbury. Rolls Series 63. London, 1874. 162–249, 412–25. (em inglês)
  • An Old English Account of the King Edgar's Establishment of the Monasteries, tr. D. Whitelock, English Historical Documents I. Oxford University Press, 1979. (em inglês)

Fontes secundárias[editar | editar código-fonte]

  • Lapidge, Michael (2004). «Dunstan [St Dunstan] (d. 988)». Oxford Dictionary of National Biography (em inglês). Oxford University Press. Consultado em 2 de agosto de 2007 
  • Dales, Douglas, Dunstan: Saint and Statesman, Cambridge: Lutterworth Press, 1988/2013. (em inglês)
  • Duckett, Eleanor. Saint Dunstan of Canterbury (1955). (em inglês)
  • Dunstan, St. Encyclopedia of World Biography, 2nd ed. 17 vols. Gale Research, 1998. (em inglês)
  • Knowles, David. The Monastic Orders in England (1940; 2d ed. 1963). (em inglês)
  • Ramsay, Nigel St Dunstan: his Life, Times, and Cult, Woodbridge, Suffolk, UK; Rochester, NY: Boydell Press, 1992. (em inglês)
  • Sayles, G. O., The Medieval Foundations of England (1948; 2d ed. 1950). (em inglês)
  • Guilherme de Malmesbury, Vita sancti Dunstani, ed. e tr. Bernard J. Muir and Andrew J. Turner, William of Malmesbury. Lives of SS. Wulfstan, Dunstan, Patrick, Benignus and Indract. Oxford Medieval Texts. Oxford, 2002; ed. W. Stubbs, Memorials of St Dunstan, Archbishop of Canterbury. Rolls Series. London, 1874. 250–324. (em inglês)
  • John Capgrave, Vita sancti Dunstani, ed. W. Stubbs, Memorials of St Dunstan, Archbishop of Canterbury. Rolls Series. London, 1874. 325-53. (em inglês)

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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