EE-9 Cascavel

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EE-9 Cascavel
Cavalaria (28698737404).jpg
EE-9 Cascavel do Exército Brasileiro
Tipo Veículo blindado
Local de origem Brasil
História operacional
Em serviço 1974–presente[1]
Histórico de produção
Criador Engesa
Data de criação 1970[1]
Fabricante Engesa
Custo unitário USD $500,000 (novo)[2]
Período de
produção
1974–1993[3]
Quantidade
produzida
1.715[3]
Especificações
Peso 12 t[4]
Comprimento 6,29 m (20 ft 8 in)[4]
Largura 2,59 m (8 ft 6 in)[4]
Altura 2,60 m (8 ft 6 in)[4]
Tripulação 3 (comandante, motorista, artilheiro)[1]
Motor Detroit Diesel 6V-53N 5,2 ml (Predefinição:Convert/in3) de 6 cilindros refrigerado a água[4]
212 cv (158 kW) at 2,800 rpm[4]
Suspensão Tração 6X6 Boomerang
Capacidade de combustível 360 litros [4]
Alcance
Operacional
750 km[4]
Velocidade 100 km/h[5]

O EE-9 Cascavel é um veículo blindado brasileiro de seis rodas desenvolvido principalmente para missões de reconhecimento. Ele foi projetado pela Engesa em 1970, como um substituto para o Brasil da velha frota de M8 Greyhounds.[6] O veículo foi equipado com o canhão de 37 mm do Greyhound, e, posteriormente, uma torre francesa adotada do Panhard AML-90. Seus modelos posteriores carregaram uma torre produzida pela Engesa com um canhão Cockerill Mk.3 belga de 90 mm produzido sob licença com o nome de CE-90.[1]

O Cascavel compartilha muitos componentes do EE-11 Urutu, o veículo blindado de transporte de pessoal da Engesa; ambos entraram em produção em 1974 e agora são operados por mais de 20 países na América do Sul, África e Oriente Médio.[6] Os Direitos do design também foram vendidos para os Estados Unidos através da FMC Corporation.[7] Cerca de 2.767 Cascaveis e Urutus foram fabricados antes da Engesa encerrar suas atividades em 1993.[6]

História[editar | editar código-fonte]

Desenvolvimento[editar | editar código-fonte]

No início da década de 1960, os contratos bilaterais de defesa entre o Brasil e os Estados Unidos asseguravam ao Brasil fácil acesso a equipamentos militares americanos excedentes, incluindo um número dos veículos blindados M8 Greyhound da Segunda Guerra Mundial. A indústria armamentista brasileira  limitou-se a restaurar e manter esse arsenal até 1964, quando o envolvimento americano na Guerra do Vietnã impôs restrições sobre a quantidade de tecnologia de defesa disponível para a exportação.[8] O Brasil respondeu criando um programa de substituição da importação em 1968, destinado a reproduzir os equipamentos americanos em serviço.[9] Em 1970, o Exército Brasileiro iniciou o desenvolvimento de um Greyhound atualizado conhecido simplesmente pelas suas iniciais, CRR (Carro de Reconhecimento sobre Rodas).[6] A Engesa, então uma obscura empresa de engenharia civil, assumiu o projeto, e em novembro de 1970 um protótipo foi concluído.[1] O novo EE-9 Cascavel entrou na fase de pré-produção entre os anos de 1972 e 1973.[10] As linhas de montagem do Cascavel e do EE-11 Urutu foram abertas em 1974.[1] Os cascos foram comprados pelo Exército Brasileiro, mas foi montado o mesmo canhão de 37 mm e a torre de seus antecessores Greyhounds.[11] Para competir com armamentos mais formidáveis disponíveis no mercado internacional, a Engesa também comercializou um Cascavel fortemente modificado com transmissão automática e o mesmo canhão 90 mm de baixa-pressão do Panhard AML.[4] Este modelo, destinado à exportação, atraiu o interesse de países do Médio Oriente e vinte foram adquiridos imediatamente pelo Catar.[12]

A venda do Cascavel ao Catar se provou um grande sucesso para a Engesa, e o primeiro sucesso do Brasil no comércio armamentista árabe. Abu Dhabi seguiu o exemplo com uma compra de duzentos Cascaveis em 1977. Ambos Iraque e Líbia escolheram o Cascavel ao invés do Panhard AML-90 ou do CEI-90 Sagaie,[2] com os líbios negociando 400 milhões de dólares para a entrega de duzentos Cascaveis.[12] Após a venda para a Líbia, a Engesa revelou um novo modelo de produção carregando um canhão Cockerill belga[6] fabricado sob licença com o nome de CE-90 no Brasil.[4]

Serviço[editar | editar código-fonte]

As Forças Armadas da Líbia usaram seus Cascaveis com êxito contra tanques egípcios (provavelmente T-54/55 ou T-62) durante a Guerra Líbia–Egito em 1977.[13] Os Cascaveis líbios também entraram em ação no Chade, onde engajaram AML-90s da Legião Estrangeira francesa e Fuzileiros franceses.[14] Um número desconhecido destes Cascaveis foi tarde doado para a Frente Polisário[15] e Togo,[16] enquanto outros permaneceram em serviço até a Guerra Civil Líbia de 2011.[17]

Governo de Transição da Unidade Nacional (GUNT) de Chade recebeu cinco Cascaveis da Líbia em 1986.[18] Durante o Conflito entre Chade e Líbia, 79 Cascaveis líbios foram apreendidos ou recuperados na Faixa de Aouzou pelas Forças Armadas de Chade, que continuam a mantê-los guardados em depósito.[19]

EE-9 Cascavel destruído nas areias do Norte da Arábia Saudita em 28 de fevereiro de 1991, durante a Operação Tempestade no Deserto.

Durante a Guerra Irã-Iraque, os Cascaveis foram operados por guarnições iraquianas perto do Golfo pérsico. Os carros blindados foram frequentemente capazes de destruir tanques iranianos mais pesados e veículos de combate de infantaria no terreno plano e arenoso em que foram utilizados.[20] Mais tarde, ataques aéreos da coalizão destruíram vários Cascaveis ao norte da Cidade do Kuwait, durante a Operação Tempestade no Deserto.[21] Após a invasão do Iraque em 2003, os veículos remanescentes foram condenados à sucata; no entanto, os americanos fizeram a restauração de 35 deles em 2008 e os presenteou para o Novo Exército Iraquiano.[22]

Zimbabwe adquiriu noventa EE-9 Cascaveis em 1984 como um substituto para o Eland Mk7.[18] Pelo menos um esquadrão Cascavel foi enviado a Moçambique durante a Guerra Civil Moçambicana para proteger as relações comerciais de Harare com a Província do Tete. Os Cascaveis forneceram escolta armada para os comboios e patrulharam as ruas para antecipar ataques de insurgentes da Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO).[23] Durante a intervenção de Zimbabwe na Segunda Guera do Congo, aviões Ilyushin Il-76 foram usados para o transporte aéreo de doze Cascaveis até o Aeroporto de N'djili.[24] Após isso os veículos foram usados para engajar tropas ruandesas avançando em Kinshasha.[25] Alguns deles foram abandonados por tropas zimbabuanas no Congo após serem sabotados durante o reparo,[26] enquanto outros quatro foram capturados por facções rebeldes.[27]

O EE-9 Cascavel foi acolhido por muitos exércitos devido ao seu design simplificado e a utilização de componentes já onipresentes na indústria civil.[28] Seu baixo custo quando comparado a outros veículos blindados ocidentais o torna uma compra atrativa, particularmente para nações em desenvolvimento. No auge da Guerra Fria, a natureza estritamente comercial das vendas da Engesa—desprovida de qualquer restrição política de fornecedores—também foi uma alternativa aceitável aos exércitos tanto da OTAN quanto do Pacto de Varsóvia.[28]

Descrição[editar | editar código-fonte]

Todos os EE-9 Cascaveis têm um layout semelhante—o motorista fica sentado à frente do veículo à esquerda, as torres ficam normalmente acima do centro, com o motor e a transmissão na parte de trás.[1] O Cascavel Mk II tem uma torre manual, mas todas as variantes posteriores têm giro elétrico.[4] O Cascavel Mk III é equipado com um canhão Engesa CE-90 de 90 mm que atira munições High Explosive (HE), High Explosive Anti-Tank (HEAT) ou High Explosive Squad Head (HESH). Uma metralhadora coaxial de 7.62 mm também é montada à esquerda do canhão.[29] O CE-90 tem uma elevação de +15° e uma depressão de -8°.[1] Ele não é estabilizado e possui um rudimentar sistema de controle ótico de fogo, que foi atualizado com um telêmetro laser no Brasil.[4] Os últimos Cascaveis produzidos foram equipados com pneus run-flat e uma central reguladora de pressão dos pneus, acessível pelo compartimento do motorista.[1]

Variantes[editar | editar código-fonte]

Um Cascavel Mk I em um museu no Rio de Janeiro.
  • Cascavel Mk I: Popularmente conhecido como Cascavel Magro pelo pequeno anel da torre, esse foi o modelo de produção inicial da Engesa e entrou em serviço apenas com o Exército Brasileiro. Foi equipado com a torre do M8 Greyhound e transmissão manual.[4] Sua característica predominante foram seus dois conjuntos de pneus traseiros ligados por uma articulada suspensão Boomerang, o que contribuiu para a tração traseira.[1]
  • Cascavel Mk II: Popularmente apelidado de Cascavel Gordo pelo grande anel de sua torre, este foi o primeiro modelo de exportação da Engesa e entrou em serviço com o Catar, a Bolívia, a Arábia Saudita e a Líbia. Era equipado com uma torre H-90 do Panhard AML-90 e transmissão automática.[4]
  • Cascavel Mk III: É um EE-9 Cascavel Mk II melhorado, com motor a diesel e uma torre produzida pela Engesa com o novo canhão CE-90 de 90 mm. Um protótipo antiaéreo carregando dois canhões automáticos de 25mm também foi testado, mas não foi aprovado.[30] A maioria dos Cascavel Mk I foram atualizados para este modelo.[4]
  • Cascavel Mk IV: Primeiro modelo de produção a ser equipado com o pneu run-flat o regulador da pressão do pneu. Também teve um sistema de controle de fogo mais integrado.[4]
  • Cascavel Mk V: Versão do EE-9 Cascavel Mk IV equipado com um motor a diesel Mercedes-Benz OM52A de 190 cv (142 kW). Essa foi a última variante oferecida pela Engesa para comércio.[4]
  • EE-9U Cascavel MX-8: Versão modernizada pela Equitron para o Exército Brasileiro e os demais usuários do Cascavel. É equipado com um motor MTU/Mercedes eletrônico de 300 cv (220 kW) com sobrealimentação mediante turbocompressor e intercooler. A suspensão boomerang recebeu melhorias no rendimento, o sistema de freio de disco é completamente novo e o desenho dos gases de escape do motor também, expulsando o ar para cima e não para trás, assim reduzindo a assinatura térmica do carro. Também proporciona um muito elogiado sistema de ar condicionado para a tripulação. Integra visão noturna para o motorista e os sistemas de tiro. A torre recebeu o sistema eletro-hidráulico de rotação e elevação do tubo (back-up por sistema manual) similar ao que é utilizado no tanque Leopard da alemã KMW, além de também receber os sistemas de telêmetro laser, térmico e infravermelho da holandesa Orlaco, selecionados pelo comandante e/ou atirador através de um joystick e teclas associadas, e aumento da capacidade de munição na torre. Na parte externa, foram instalados dois lançadores de mísseis anti-tanque (ATGM), que podem ser dimensionados para receber tanto sistemas como o MSS-1.2 (integrando o telêmetro laser do veículo) quanto mais sofisticados como o Attaka russo e o Spike israelense (com sistema autônomo de aquisição e guiagem de alvos).[31]

Operadores[editar | editar código-fonte]

Mapa com operadores do Cascavel em azul e ex-operadores em vermelho
EE-9 Cascaveis da 9ª Divisão do Iraque, em 2008

Atuais operadores[editar | editar código-fonte]

Ex-operadores[editar | editar código-fonte]

Veja também[editar | editar código-fonte]

Série da Engesa[editar | editar código-fonte]

Veículos de função, desempenho e era comparáveis[editar | editar código-fonte]

Notas e citações[editar | editar código-fonte]

Citações
  1. a b c d e f g h i j Foss 2000, p. 348.
  2. a b UPI 1980.
  3. a b c Martins 1994, p. 142.
  4. a b c d e f g h i j k l m n o p q r s Chant 2013, p. 29.
  5. AIPD 1999, p. 213.
  6. a b c d e Ogorkiewicz 2015, p. 218.
  7. Neto 1991, p. 87.
  8. Neto 1991, p. 85.
  9. Hurrell 2014, p. 159.
  10. Bastos 2004, p. 43.
  11. Bastos 2004, p. 42.
  12. a b Hurrell 2014, p. 303.
  13. Elliot 1987, p. 229.
  14. Grandolini & Cooper 2015, p. 37.
  15. a b Damis 1983, p. 99.
  16. a b Bastos 2006, p. 38.
  17. a b Cordesman 2011, p. 34.
  18. a b c d e f g h i j k l m n o p q SIPRI 2009.
  19. a b Bastos 2006, p. 39.
  20. College 1985, p. 11.
  21. Tucker-Jones 2014, p. 30.
  22. a b Rosencrans 2008.
  23. Emerson 2014, p. 342.
  24. Cooper 19 October 2013, p. 25.
  25. Cooper 19 October 2013, p. 32.
  26. Cooper 19 October 2013, p. 57.
  27. a b Staff 2011.
  28. a b Gupta 1997, p. 143.
  29. Bastos 2006, p. 41.
  30. Godoy 1986, p. 309.
  31. Caiafa 2016.
  32. a b Foss 2000, p. 349.
  33. HRW 2007.
  34. Martin 2013.
  35. Cordesman 2004.
  36. Bastos 2006, p. 37.
Fontes Online
Jornais e artigos de revista
Bibliografia