Ecologismo libertário

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

O ecologismo libertário, também conhecido como anarquismo verde, é um campo de teorias e práticas anarquistas e libertárias focado na relação entre humanos e não-humanos, no diagnóstico e solução da crise ecológica, na organização econômica, e nos conflitos socioambientais em geral, como também na dimensão biológica e ecológica da liberdade. Apesar da problemática ambiental ter surgido propriamente em torno da metade do século XX, o interesse dos libertários por questões relacionadas remonta à formação dessa corrente dentro do movimento socialista - como, por exemplo, na questão agrária e na organização revolucionária dos camponeses e trabalhadores agrícolas, no lugar do desenvolvimento e da industrialização na economia socialista (debatido já na AIT),[1] nas escalas da organização econômica e sua relação com o federalismo, e na emergência da inteligência e complexidade na biologia e ecologia (debatido já em Piotr Kropotkin, na teoria do Apoio Mútuo). O ecologismo libertário tornou-se mais explícito e articulado contemporaneamente, sendo uma presença na filosofia ambiental através da ecologia social, nos debates sobre o Decrescimento (economia), na ecologia política[2], e nos movimentos de libertação animal.

História[editar | editar código-fonte]

As teorias e debates sobre a crise ecológica, e a própria formação dessa categoria de ambiente, são canonicamente atribuidas ao meio intelectual e político da década de 1960 e 70, tendo como marco literário e jornalístico a obra de Rachel Carson, Silent Spring. Nesse contexto, o campo emergente da filosofia ambiental veio à ser identificada no mundo anglófono com a ética ambiental como também com a ecologia profunda enquanto corrente exemplar do movimento. À esse contexto é atribuida o pioneirismo da crítica ao mecanicismo cartesiano, ao dualismo metafísico e ao antropocentrismo. Essa genealogia, porém, é contestada por autores que apontam a existência de uma crítica prévia, já estabelecida no século XIX, dessas elaborações filosóficas canônicas, contendo inclusive manifestações proto-ambientalistas. Entre esses críticos pioneiros figuram alguns anarquistas, começando por Bakunin e seu evolucionismo naturalista, que será mais tarde refinado por gerações seguintes de teóricos e militantes anarquistas.[3]

Para o autor anarquista Brian Morris, a 'onda ecológica' da década de 1960 era já uma 'segunda onda', da mesma maneira que ocorreu com o feminismo, e não a súbita emergência do paradigma 'ecológico'.[4] Essa primeira onda já se engajava com uma preocupação ecológica diante de fenômenos como a erosão do solo, a diminuição da biodiversidade, o esgotamento dos bens naturais, como também a crescente poluição, contaminação e doenças no ambiente urbano degradado pelo capitalismo industrial. A formação do anarquismo se deu, portanto, imersa nesse proto-ambientalismo do século XIX, e possuia inserção nos meios de 'retorno à terra', com figuras de tendência libertária como Leo Tolstoy, William Morris e Edward Carpenter. Estavam também profundamente influênciados como os efeitos da teoria da seleção natural para o lugar do humano no ordem ecológica.[4]

Kropotkin e o Apoio Mútuo[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Piotr Kropotkin

O geógrafo Piotr Kropotkin é frequentemente tomado como ponto de partida para uma reflexão ecológica libertária, devido ao seu engajamento crítico com a teoria da seleção natural, com as ideias evolucionistas, e suas consequências sociais. Em sua publicação de 1902, Mutualismo: Um Fator de Evolução, Kropotkin critica as concepções de evolução centradas na competição, e contrapõe à isso a importância da simbiose e da solidariedade dentro e fora das categorias de espécie.[5]

Historiadores das ciências biológicas traçam a origem da teoria moderna da simbiose às reações por parte de socialistas e anarquistas à emergência da economia de mercado no século XIX. O termo mutualismo vem das sociedades de ajuda mútua fundadas na França após a revolução [Boucher 1985a, 17]. Mutualismo significa "diferentes tipos de organismos ajudam uns aos outros" [Boucher 1985a, 2]. Entre os primeiros proponentes de uma visão simbiótica estava o Príncipe Kropotkin, um aristocrata russo, anarquista e socialista. Kropotkin escreveu um livro intitulado Apoio Mútuo, cujo proposito era contestar a ideia Darwinista de sobrevivência do mais adequado[6]

Dessa maneira, Kropotkin localiza a origem da colaboração social no continuum da vida biológica, sendo uma força no desenvolvimento da complexidade ecológica, deslocando as interpretações competitivas, eugenistas e reacionárias do darwinismo social de sua época. O federalismo deveria igualmente se adequar às possibilidades da terra, e principalmente às escalas mais adequadas ao seu cultivo, articulando cadeias produtivas curtas ou longas de acordo com as necessidades específicas dos produtos.[5] O pensamento de Kropotkin, por outro lado, é já um desenvolvimento substâncial do evolucionismo naturalista presente em Bakunin, enfatizando a complexa relação dialética entre a dimensão natural e social da vida humana, como também a atitude ética e estética do humano para com a natureza, além do interesse econômico. Presente também nesses autores era uma prévia da concepção de 'bioregiões' como categorias relevantes para determinar as escalas da organização econômica. [7]

Élisée Reclus[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Élisée Reclus

Élisée Reclus, outro geógrafo notório tanto na disciplina quanto na tradição libertária, também se destaca por suas considerações sobre a relação entre sociedade e natureza. Para José Maria Ferreira, Reclus foi um dos precursores da ecologia libertária por ter pensado que:

O progresso civilizatório da espécie humana implica um equilíbrio ecossistêmico com todas as espécies animais e vegetais. Esse equilíbrio passa pela domesticação e a aprendizagem com todas as espécies animais e vegetais, não as olhando nem as entendendo como espécies externas à espécie humana, mas internas aos desígnios de emancipação social.[5]

Reclus era vegetariano, e elaborou o conceito de Grande Família para aproximar a existência humana dos outros seres a que estamos ligados. Ele via no capitalismo um impulso para a coisificação e desvalorização dos seres não-humanos.[8]

Ecologia social[editar | editar código-fonte]

Murray Bookchin é uma figura muito importante para a ecologia libertária, como também para o ambientalismo e a filosofia ambiental em geral, ainda que sua radicalidade política e polêmicas com as grandes correntes do movimento, como a ecologia profunda, tenham motivado sua marginalização dentro das genealogias canônicas.[9] O autor já publicava, no mesmo ano que o marco literário-ambiental Silent Spring, seu livro Our Sintetic Environment (Nosso Ambiente Sintético), sob o pseudônimo de Lewis Herber. Para Janet Biehl, o livro de Bookchin havia trabalhado os mesmos problemas ao mesmo tempo que debatia sobre suas raízes políticas e econômicas, indo além de Carson, ainda assim, o livro foi eclipsado pelo best seller.[10] Ao longo de sua vida, o pensador libertário continuaria à criticar as formulações ortodoxas do socialismo autoritário de sua época, que ele apontava como eurocentricos e economicistas, enquanto também fazia um balanço crítico dos modos libertários de organização, afirmando, por exemplo, o definhamento do sindicalismo revolucionário. Alternativamente, ele propunha o que denominou de ecologia social como estratégia organizativa para o presente, colocando a problemática ambiental e os modos de interação com os seres não-humanos no centro das preocupações sociais e revolucionárias. Essa ecologia social se articulava com sua proposição municipalista de organização por local de moradia e território.[11] Sua magnum opus, A Ecologia da Liberdade, busca articular uma síntese de variadas influências, como a filosofia de Aristóteles, Diderot, Goethe, e Hegel; da tradição Marxista, especialmente os autores da teoria crítica como Marcuse, Theodor Adorno e Horkheimer; a tradição anarquista como apresentada em Bakunin e Kropotkin, e anarco-feminista da obra de Louise Michel e Emma Goldman; como também a 'ecologia social' de Lewis Mumford, René Dubos e Erwin Gutkind. O termo 'ecologia social', inclusive, é tomado emprestado do arquiteto e urbanista de origem germanica-judaica Erwin Gutkind.[12]

Pesquise por Bookchin, frase que se tornou meme na internet

Bookchin já expressava essa sua sintese da filosofia da natureza do naturalismo evolucionista ou dialético com a filosofia da revolução social libertária no seu ensaio seminal de 1964, intitulado "Ecologia e Pensamento Revolucionário". Esse ensaio elaborava sobre sua exposição anterior das raízes da crise ambiental em 1962, no livro Our Sintetic Environment (Nosso Ambiente Sintético), sob o pseudônimo de Lewis Herber, onde Bookchin já associava temas ambientais - a poluição atmosférica, como também dos rios e corpos d'água; a limitação da agricultura industrial diante dos efeitos colaterais e perversos dos pesticidas e fertilizantes artificiais; a destruição da biodiversidade; o problema dos compostos químicos na alimentação humana, e seus efeitos sobre a saúde; a degradação da vida urbana em razão da favelização, da crise do transporte, da super-concentração e poluição; os perigos inerentes à energia nuclear; e enfim a produção do aquecimento global em razão do uso de combustíveis fósseis e da emissão correspondente de gases do efeito estufa. A presciência e abrangência do pensamento ecológico em Bookchin é frequentemente subestimada ou negada.[13] E buscava, sobre tudo isso, demonstrar a origem social e política da crise, o capitalismo, e criticava as explicações misantrópicas de outras correntes ambientalistas que não distinguiam a existência de diferentes formações sociais humanas na história, e insistiam consequentemente em reificar uma noção de 'humanidade' que ele considerava acritica e superficial. Para Bookchin, em Nosso Ambiente Sintético, a crise ecológica:

resulta não da ganância meramente, mas de um sistema orientado ao mercado onde tudo é reduzido à mercadoria... e em que toda a dinâmica econômica é centrada na acumulação do capital. Portanto, a sociedade predominante é inerentemente anti-ecológica.[14]

Diante disso, Bookchin não promove o primitivismo nem concepções redutivas de tecnologia, mas afirma a necessidade de reorganizar a economia e restaurar a técnica para novos propósitos e escalas humanas. Ele permaneceu um crítico da total rejeição da técnica como é manifesto no anarcoprimitivismo. Essas ideias tiveram repercussão nas práticas e orientações do movimento curdo revolucionário, em particular na liderança do PKK, Abdullah Öcalan, e formam uma influência vigente nos modos de autogestão em Rojava.[15]

Crítica da Ecologia Profunda[editar | editar código-fonte]

A notória distinção feita por Arne Naess sobre a ecologia rasa em contraposição à profunda não é muito diferente da crítica que Murray Bookchin faz ao 'ambientalismo' enquanto um termo para a seção reformista do movimento ecológico, interessada mais na manutenção da estabilidade 'natural' em vista da permanência da atual economia capitalista de exploração de recursos. A ecologia profunda, conhecida por aglutinar uma coleção de 'influências' que vão de 'espiritualidades orientais', ao 'animismo primitivo' e figuras como Gandhi, também costumava incluir, inicialmente, Kropotkin e Bookchin.[16] Não obstante, ao longo da década de 1980, Bookchin se tornou mais explicitamente crítico com o movimento ambientalista e feminista marjoritário, publicando críticas da 'ecologia mística' que ele encarava com desapreço, considerando-a como um mero conjunto de pedaços para um culto atavistico New age.[16] Bookchin começou à fazer comentários cada vez mais explícitos sobre as afirmações misantrópicas e racistas de adeptos da ecologia profunda.

Em um congresso do movimento verde estadunidense, organizado em Amherst, Massachusetts, em Junho de 1987, Bookchin aproveitou sua fala para lançar um ataque à ecologia profunda, que foi mais tarde publicado em texto sob o título de Ecologia Social versus Ecologia Profunda: Um Desafio para o Movimento Ecológico.[17] Em sua fala Bookchin distingue três tendências no movimento - os 'eco-tecnocratas' (dos quais ele é crítico); a ecologia social (sua própria abordagem); e a ecologia profunda, que ele criticou duramente por seu ecletismo desorientador, pelo biocentrismo que levava à misantropia, pelo absorção de um espiritualismo, e pelo seu 'neo-malthusianismo' implícito cheio de possibilidades perversas.[18]

Bookchin era especialmente incomodado com a tendência da ecologia profunda de advogar um novo tipo de 'pecado original' em que uma 'humanidade' indiferenciada é vista como uma força destrutiva que ameaça a própria sobrevivência da vida na terra. Isso tem como efeito, ele argumenta, divorciar a crise ecológica e os problemas ecológicos da vida social - especificamente as corporações capitalistas, o Estado burocrático, ou qualquer outra forma de dominação social - e atribuir esses problemas à uma 'humanidade' coletiva que polui o meio ambiente, popula em excesso a terra, devora os recursos naturais, e destrói as áreas silvestres. Enquanto uma espécia biológica motivada por ganância e vontade de destruir (um 'Homo devastans'), o homem tem a responsabilidade maior pela crise ecológica. Dessa maneira, Bookchin argumentou, os ecologistas profundos tendem à obscurecer completamente as raízes sociais dos problemas ecológicos.[18]

Anarquismo vegano[editar | editar código-fonte]

Símbolo do veganarquismo.[19]

Veganarquismo (Veganarchism em inglês) ou anarcoveganismo, é uma filosofia política do veganismo (mais especificamente, os direitos dos animais) e anarquismo,[20][21] a criação de uma práxis combinada que é projetada para ser um meio de revolução social.[22] Isso abrange ver o estado como desnecessário e prejudicial aos animais, tanto humanos quanto não humanos, enquanto praticando um estilo de vida vegano. Ou é percebido como uma teoria combinada, ou como ambas as filosofias sendo essencialmente as mesmas.[23] É ainda descrito como uma perspectiva antiespecista de anarquismo verde, ou uma perspectiva anarquista da libertação animal.

Veganarquistas, normalmente, veem dinâmicas opressivas e interligadas no seio da sociedade (de estatismo, racismo e sexismo a supremacia humana)[24] e redefinem o veganismo como uma filosofia radical que vê o Estado como prejudicial para os animais.

Ideologicamente, é um movimento em defesa dos seres humanos, dos animais e da liberação da Terra, tudo isto sendo considerado como parte da mesma luta. Aqueles que acreditam no veganarquismo podem ser contra ou a favor de mudanças em relação ao tratamento dos animais, apesar de não definirem metas para mudanças dentro da lei.[25] [26]

A filosofia foi popularizada por Brian A. Dominick em Libertação Animal e Revolução Social e, mais tarde promovido pela banda anarcopunk The Virus usando um zine chamado 'Veganarchy', simbologia anarquista, e o preso político Jonny Ablewhite.[27] A ideologia é, por vezes, referida como o veganismo radical, de total libertação, revolução total. No entanto, nem todos os que acreditam nestes termos se consideram veganarquistas.[28]

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. Dos Santos 2021, p. 86.
  2. M’Gonigle 1999, p. 16.
  3. Morris & 2017 370.
  4. a b Morris & 2017 372.
  5. a b c Dos Santos 2021, p. 88.
  6. Watkins 1998, p. 96.
  7. Morris & 2017 371.
  8. Dos Santos 2021, p. 89.
  9. Morris & 2017 375.
  10. Targa, p. 5.
  11. Dos Santos 2021, p. 94.
  12. Morris & 2017 376.
  13. Morris & 2017 377.
  14. Morris & 2017 378.
  15. Dos Santos 2021, p. 95.
  16. a b Morris & 2017 388.
  17. Morris & 2017 389.
  18. a b Morris & 2017 390.
  19. Veganarchy symbol; popularised by Brian A. Dominick's 'Animal Liberation and Social Revolution' pamphlet in 1995. The front cover combined the 'V' from vegan with the anarchist 'A' symbol from anarchism
  20. Alberwite, Jonny. Why Veganism if for the Common Good of All Life, Animal Liberation Front Supporters Group Newsleter April 2009, p7-8.
  21. Veganarchy.net. Veganarchy: Issue 1 Arquivado em 27 de julho de 2011, no Wayback Machine., July 2009.
  22. Dominick, Brian. Animal Liberation and Social Revolution: A vegan perspective on anarchism or an anarchist perspective on veganism, third edition, Firestarter Press, 1997, inside page.
  23. Dominick, Brian. Animal Liberation and Social Revolution: A vegan perspective on anarchism or an anarchist perspective on veganism, third edition, Firestarter Press, 1997, inside page.
  24. Dominick, Brian. Animal Liberation and Social Revolution: A vegan perspective on anarchism or an anarchist perspective on veganism, third edition, Firestarter Press, 1997, page 8.
  25. Dominick, Brian. Animal Liberation and Social Revolution: A vegan perspective on anarchism or an anarchist perspective on veganism, third edition, Firestarter Press, 1997, page 8.
  26. Dominick, Brian. Animal Liberation and Social Revolution: A vegan perspective on anarchism or an anarchist perspective on veganism, third edition, Firestarter Press, 1997, page 8.
  27. Roots of compassion. Veganarchist - unisex t-shirt, 2009.
  28. Dominick, Brian. Animal Liberation and Social Revolution: A vegan perspective on anarchism or an anarchist perspective on veganism, third edition, Firestarter Press, 1997, page 9.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Português[editar | editar código-fonte]

Inglês[editar | editar código-fonte]

  • Watkins, John P. (1998). «Towards a Reconsideration of Social Evolution: Symbiosis and its implications for economics». Journal of Economic Issues. 32 (1). Consultado em 16 de julho de 2022 
  • Price, Andy (2012). «Capítulo 12: Social Ecology». In: Kinna, Ruth. The continuum companion to anarchism. [S.l.]: Continuum. pp. 100–110 
  • Morris, Brian (2017). «Capítulo 13: Anarchism and Environmental Philosophy». In: Jun, Nathan J. Brill's Companion to Anarchism and philosophy. [S.l.]: Brill. pp. 369–400