Elzira Dantas Machado

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Elzira Dantas Machado
Elzira Dantas, ainda jovem solteira (1882)
Portugal Primeira-Dama de Portugal
Período 1915 a 1917; 1925 a 1926
Antecessor Maria do Carmo Braga
Sucessor Maria dos Prazeres Bessa Pais
Dados pessoais
Nome completo Elzira Dantas Gonçalves Pereira Machado
Nascimento 15 de dezembro de 1865
Rio de Janeiro, Flag of Brazil.svg Brasil
Morte 22 de abril de 1942 (76 anos)
Porto, Portugal Portugal
Progenitores Mãe: Bernardina da Silva
Pai: Miguel Dantas Gonçalves Pereira
Marido Bernardino Machado (19 filhos)

Elzira Dantas Gonçalves Pereira Machado (Rio de Janeiro, 15 de dezembro de 1865Porto, 22 de abril de 1942) foi uma activista republicana, feminista, sócia da Liga Republicana dos Mulheres Portuguesas e da Associação da Propaganda Feminista, presidente do movimento de beneficência Cruzada das Mulheres Portuguesas, e esposa do ex-Presidente da República Portuguesa Bernardino Machado, sendo Primeira Dama de Portugal entre 1915 a 1917, e novamente entre 1925 a 1926.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Primeiros Anos de Vida[editar | editar código-fonte]

Nascida a 15 de Dezembro de 1865, no Rio de Janeiro, Brasil, Elzira Dantas Gonçalves Pereira Machado era filha de Miguel Dantas Gonçalves Pereira, um alto burguês, natural de Formariz, Paredes de Coura, que havia emigrado para o Brasil, em 1860, e de Bernardina Maria da Silva, uma senhora de famílias abastadas, natural do Rio de Janeiro, Brasil [1]. Elzira seria a única filha deste casamento, ao se tornar orfã de mãe com apenas seis anos. Nessa mesmo ano, viajou com o seu pai para Portugal, onde foi criada num ambiente desafogado e culto, recebendo uma educação esmerada, a cargo de preceptoras estrangeiras, como era hábito nas famílias mais abastadas da época.[2]

Crescendo durante o período da Regeneração, em menina recebeu uma educação de acordo com mentalidade da época, em consonância com a ideologia do progresso económico e de utilidade social, focando-se não só no seu futuro papel como esposa e mãe, tal como as jovens de então, como também nos estudos de várias disciplinas (línguas, filosofia, política e história) que dominou com grande intelecto. Viajou pela Europa e América do Sul, tendo-se relacionado e correspondido com numerosas personalidades, entre as quais várias escritoras feministas portuguesas, espanholas e francesas, que a sensibilizaram para a emancipação feminina e outras causas. Destacam-se Alice Pestana, Ana de Castro Osório, Maria Veleda e Carmen de Burgos, com quem manteve uma grande ligação intelectual e de amizade ao longo dos anos.[3]

A 19 de Janeiro de 1882, na freguesia de Cedofeita, Porto, com apenas 17 anos, Elzira casou com Bernardino Luís Machado Guimarães, na altura um professor universitário em Coimbra, também ele nascido no Rio de Janeiro, Brasil, filho do primeiro barão de Joane, que se tornaria, anos mais tarde, Presidente da República Portuguesa. Juntos, teriam 19 filhos[4], três dos quais falecidos ainda crianças.

Activismo Republicano e Feminismo[editar | editar código-fonte]

A união com Bernardino Machado viria a abrir portas a um novo mundo, possibilitando a Elzira contactar e conviver com outras importantes figuras masculinas ligadas à causa republicana em Portugal.

Reforçando a sua convicção nos ensinamentos feministas, e a residir em Lisboa, em 1909, começou a colaborar activamente na Liga Republicana das Mulheres Portuguesas [5], juntamente com a sua amiga, escritora e jornalista Ana de Castro Osório, as médicas Carolina Beatriz Ângelo e Adelaide Cabete e a professora e espiritualista Maria Veleda, com o objectivo de divulgar os princípios democráticos, ideais republicanos e as causas feministas à sociedade portuguesa, tais como o direito ao voto, a importância da autonomia económica da mulher em caso de viuvez ou abandono, a criação de uma legislação que protegesse as operárias e o ensino primário acessível a todos, de modo a lutar contra a iliteracia em Portugal.

Dois anos mais tarde, já na Primeira República, e com a demissão da presidente da organização Ana de Castro Osório, devido a uma diferença de opiniões com Maria Veleda, sobre a proposta apresentada ao Governo, relativa ao Código Eleitoral, Elzira abandonou a organização e juntou-se à recém criada Associação de Propaganda Feminista [6], da qual se tornou presidente em 1916. Para além destas organizações, Elzira Dantas Machado ainda colaborou na Caixa de Auxílio aos Estudantes Pobres do Sexo Feminino (1912), no Lactário da Paróquia de São José, em Lisboa, na iniciativa Obra Maternal, na sociedade editora do jornal A Semeadora, e ainda foi eleita presidente da Empresa de Propaganda Feminista e Defesa dos Direitos da Mulher.

Em 1912, partiu para o Rio de Janeiro, com os seus filhos e marido, agora a desempenhar as funções de Ministro de Portugal (nome dado então aos embaixadores), voltando dois anos depois a Portugal, quando este decidiu candidatar-se à presidência da República. [7]

Elementos da Cruzada das Mulheres Portuguesas e o seu estandarte, 1916

Em 1915, Bernardino Machado foi eleito o 3º Presidente da República Portuguesa, e por associação Elzira Dantas Machado tornou-se Primeira Dama. Durante esse período, continuou a trabalhar com o mesmo dinamismo, empenho e devoção nas suas causas sociais e políticas, dando, pela primeira vez em Portugal, visibilidade ao papel de Primeira Dama na sociedade portuguesa.[8]

Com o eclodir da Primeira Grande Guerra e a participação de Portugal no conflito, em 1916, fundou a organização de beneficência feminista Cruzada das Mulheres Portuguesas (CMP), antecedida pela Comissão Feminina "Pela Pátria" (1914), com o intuito de não só auxiliar as famílias e os soldados mobilizados para integrar o Corpo Expedicionário Português, como também de formar enfermeiras, que pretendessem ir para a frente de combate, auxiliando os feridos em hospitais militares portugueses e de campanha na frente europeia e africana, numa prova de verdadeiro esforço de guerra, entre tantas outras iniciativas. O núcleo fundador da Cruzada contava, no seu primeiro ano, com 80 sócias, sendo estas, na sua maioria, senhoras pertencentes às famílias dos ministros e parlamentares do governo, assim como algumas ilustres médicas, jornalistas, escritoras, professoras, e outras com carreiras intelectuais. Alguns membros da família da Primeira Dama, incluindo quatro das suas filhas (Elzira Severina, Maria Francisca, Joaquina Mariana e Jerónima Rosa Dantas Machado), tornaram-se em alguns dos mais reconhecidos rostos do movimento de beneficência, fazendo parte dos quadros da organização, com uma presença diária bastante activa nas várias iniciativas, muitas vezes enveredando também nos próprios cursos e trabalhando nos hospitais. Num artigo publicado pela revista semanal Ilustração Portuguesa, sobre as jovens enfermeiras formadas nas suas escolas, três das suas filhas são fotografadas com vestes de enfermeiras.

Primeiro Exílio[editar | editar código-fonte]

Retrato de Bernardino Machado e Elzira Dantas Machado com três das suas filhas (da esquerda para a direita: Maria Francisca, Rita e Joaquina)

Em Dezembro de 1917, a Junta Revolucionária Sidonista destituiu o seu marido do cargo de Presidente da República, forçando Elzira e Bernardino a fugirem com os seus filhos e filhas para França. Apesar das circunstâncias, nesse mesmo ano, Sidónio Pais decidiu conceder à Cruzada das Mulheres Portuguesas a grã-cruz da Ordem Militar da Torre e Espada, e condecorou Elzira Dantas Machado, que não pode comparecer com receio de ser presa pelas forças sidonistas, com a grã-cruz da Ordem de Cristo, pelo seu trabalho humanitário, social e solidário.

Durante o exílio, o casal fixou-se inicialmente em Paris[9], contudo com o prolongar da sua difícil situação, Bernardino Machado começou a viajar para várias cidades no norte e sul de França em busca de apoio político para a sua causa, encontrando-se com altas individualidades francesas e inglesas. Elzira nunca deixou o seu lado, tomando também parte na discussão sobre o estado do país[10] e pouco tempo depois, decidiu renunciar ao cargo de presidente da Cruzadas das Mulheres Portuguesas (CMP), por sentir não lhe ser possível gerir, proteger e ajudar a sua organização de tão longe. Em assembleia-geral, a CMP respondeu nomeando-a presidente honorária.

Em Abril de 1918, mudaram-se para Hendaye, na Aquitânia, onde a a sua filha Maria Francisca viria a falecer inesperadamente, vítima da pneumónica, com 29 anos de idade. Este evento marcou toda a família, de forma bastante profunda, levando Bernardino a escrever o livro "Maria" (1921)[11], como testemunho de vida e memória da sua amada filha, e Elzira a afastar-se da esfera pública e de grandes eventos sociais. Sendo Maria Francisca um dos rostos mais conhecidos das Cruzada das Mulheres Portuguesas e membro da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, a sua morte foi noticiada com pesar em diversos jornais portugueses.

Oito meses depois, com o homicídio de Sidónio Pais, a 14 de Dezembro de 1918, e o fim da ditadura da República Nova, o casal aguardou em vão pela chamada de Portugal para o cumprimento do mandato presidencial, desconhecendo que poucos queriam Bernardino Machado de volta, preferindo antes a eleição de João do Canto e Castro. Tendo finalmente em conta as circunstâncias de então, o seu marido decidiu renunciar ao cargo, através de carta enviada, recebendo autorização para regressar com a sua família a Portugal somente em Agosto do ano seguinte.

De volta a sua casa em Portugal, nos seguintes anos, Elzira dedicou-se à sua família, tornando-se cada vez mais recatada, longe da vida social de antes, sem no entanto cessar as suas actividades solidárias.

Segundo Exílio[editar | editar código-fonte]

Em 1925, num contexto de enorme perturbação política e social, Bernardino recandidatou-se novamente à presidência da República, vencendo por uma larga margem, contudo a crescente onda de descontentamento, gerou um novo golpe de estado, a 28 de Maio de 1926, a partir de Braga, formalmente sob a liderança do general Gomes da Costa, herói das campanhas africanas e da Primeira Guerra Mundial, e em Lisboa, por Mendes Cabeçadas. Sem alternativa, Bernardino cedeu e demitiu-se.[12]

Após o abandono do cargo de Presidente, o casal continuou a viver na sua casa de Cruz Quebrada, em Oeiras, mas por pouco tempo, sendo, em Fevereiro de 1927, expulso do território nacional por serem considerados uma ameaça para o governo e a estabilidade política. Novamente, Elzira Dantas Machado acompanha o seu marido para o exílio. Inicialmente fugiram para Vigo, seguindo-se Corunha, em Espanha, e depois Cambo-les-Bains, Paris, Bayonne, Ustaritz e Biarritz, entre outras tantas cidades, de França [13].

Em 1929, a sua filha Jerónima Dantas Machado casa em Paris, com o escritor Aquilino Gomes Ribeiro.

Quando é proclamada a República em Espanha, fixam-se com a sua família em La Guardia, na Galiza, mas o Estado Novo começara a pressionar as autoridades espanholas para conseguir o internamento dos chefes oposicionistas exilados longe da fronteira com Portugal. No Verão de 1935, o governo cedeu, obrigando-os mais uma vez a fugir, primeiro para a Corunha, depois para Madrid, Valência e finalmente Paris, onde se juntaram a familiares e amigos a viver também no exílio.

Desses anos amargurados, Elzira deixou o testemunho "Contos - Para os Meus Netos", escrito durante a sua estadia em La Guardia, em 1934.

Durante treze anos viveu longe de Portugal.

Fim de Vida[editar | editar código-fonte]

Em 1940, quando os exércitos alemães invadiram a França, em plena Segunda Guerra Mundial, Elzira e Bernardino Machado regressaram a Portugal, convictos de que o país seria chamado a intervir no conflito e que a sua contribuição poderia ser fulcral, acompanhados por um grupo de exilados políticos, entre os quais o médico, político, escritor e historiador português Jaime Cortesão. Como punição, foi-lhes imposta residência permanente no norte do Douro, não podendo-se deslocar para fora da região, sob ameaça de encarceramento. Elzira passou então a residir com o seu marido no palacete de Mantelães, em Formariz, Paredes de Coura, pertencente à sua família paterna.

A 22 de Abril de 1942, morreu no Hospital da Ordem Terceira de São Francisco, no Porto, com 76 anos.

Referências

  1. «MACHADO, Elzira Dantas Gonçalves Pereira (1865-1942)». portugal1914.org. Consultado em 11 de março de 2019 
  2. «Uma primeira dama na causa feminista». www.jn.pt. Consultado em 11 de março de 2019 
  3. Esteves, João (15 de dezembro de 2016). «Silêncios e Memórias: [1564.] ELZIRA DANTAS MACHADO [VI]». Silêncios e Memórias. Consultado em 11 de março de 2019 
  4. Feminae, Dicionário Contemporâneo. Lisboa: CIG. 2013  |nome1= sem |sobrenome1= em Authors list (ajuda)
  5. Esteves, João Gomes (1992). A Liga Republicana das Mulheres Portuguesas - uma organização política e feminista (1909 - 1919). Lisboa: ONG do Conselho Consultivo da Comissão para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres 
  6. Esteves, João Gomes (1998). As origens do sufragismo português - A Primeira Organização Sufragista Portuguesa: A Associação de Propaganda Feminista (1911 -1918). Lisboa: Editorial Bizâncio 
  7. Alves, Jorge Fernandes (1994). O percurso migratório do Conselheiro Miguel Dantas. [S.l.]: Câmara Municipal de Paredes de Coura - Gabinete de Arqueologia e Património 
  8. Roza, Elzira Machado (1991). Bernardino Machado - Protagonista de Mudança. Vila Nova de Famalicão: Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão 
  9. Roza, Elzira Machado (2001). Bernardino Machado: o Homem, o Cientista, o Político e o Pedagogo. Vila Nova de Famalicão: Câmara Municipal, Vila Nova de Famalicão 
  10. Perrot, Duby, Michelle, Georges (1991). Histoire de femmes, vol 4, Le XIXéme siècle et le XXéme siècle. [S.l.]: Plon 
  11. Portuguesa, Bibliotrónica (31 de julho de 2015). «Nova reedição: Maria, de Bernardino Machado». Bibliotrónica Portuguesa. Consultado em 1 de maio de 2019 
  12. «Museu da Presidência da República». Museu da Presidência da República. Consultado em 11 de março de 2019 
  13. Sohn, Anne-Marie (1996). Chrysalides - femmes dans la vie privée. Paris: Publications de la Sorbonne 

Ver também[editar | editar código-fonte]