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Guerra dos Emboabas

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(Redirecionado de Emboabas)
 Nota: Para o distrito da cidade de São João del-Rei, Minas Gerais, veja Emboabas (distrito).
Guerra dos Emboabas

Ex-voto representando a trajetória de Agostinho Pereira da Silva, desde sua saída de Portugal, passando por conflitos ligados à Guerra dos Emboabas, até receber as ordens sacras na Bahia. A peça encontra-se na Igreja e Mosteiro de Nossa Senhora do Monte Serrat em Salvador, Bahia.
Data17071709
LocalRegião aurífera da então Capitania de São Vicente ou da Capitania de Itanhaém, área correspondente à parte do atual estado de Minas Gerais
DesfechoVitória emboaba
Beligerantes
Bandeirantes oriundos das capitanias de São Vicente e Itanhaém Reino de Portugal Emboabas oriundos do Reino de Portugal (reinóis)
Reino de Portugal Emboabas vindos de outras capitanias da América Portuguesa
Comandantes
Borba Gato Reino de Portugal Manuel Nunes Viana

A Guerra dos Emboabas foi um conflito ocorrido entre 1707 e 1709 pelo direito de exploração das recém-descobertas jazidas de ouro na região das minas da então capitania de São Vicente ou da capitania de Itanhaém, correspondente a parte do atual estado de Minas Gerais, no Brasil. O confronto opôs, de um lado, os bandeirantes — responsáveis pelas primeiras descobertas auríferas e que, por isso, reivindicavam prioridade ou exclusividade na exploração — e, de outro, um grupo heterogêneo de forasteiros vindos de outras capitanias e do reino (os chamados reinóis). Os denominados paulistas tinham entre suas principais lideranças Borba Gato, enquanto os recém-chegados — pejorativamente chamados de emboabas — se articulavam em torno de figuras como Manuel Nunes Viana.[1]

Em novembro de 1708, no arraial da Cachoeira do Campo — hoje distrito de Ouro Preto — foi palco de um dos episódios mais sangrentos da disputa, ligado ao controle da extração aurífera na futura capitania de Minas Gerais. Muitos aspectos desse confronto permanecem obscuros na historiografia. Uma das interpretações sugere que o acirramento se deu quando frentes emboabas, ao avançar pela bacia do rio São Francisco conduzindo gado e mercadorias, entraram em choque com paulistas já estabelecidos na região.[2]

A Guerra dos Emboabas consolidou-se como um dos primeiros grandes conflitos internos do Brasil, evidenciando tensões entre diferentes grupos de colonos e inaugurando um padrão de disputas em torno do controle das riquezas minerais recém-descobertas.[2][3]

Etimologia

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É amplamente aceito que o termo emboaba tenha origem na antiga língua geral paulista, carregando desde então o sentido depreciativo de “forasteiro” ou “invasor”.[4][5] Apesar disso, não há consenso definitivo quanto à sua etimologia.[6]

A hipótese mais difundida, proposta pelo viajante francês Auguste de Saint-Hilaire, sugere que a palavra derivaria da associação feita pelos paulistas entre “aves de pernas peludas” (mbôab) e as botas e polainas usadas pelos estrangeiros que chegavam às minas.[7] Essa explicação, embora popular, carece de respaldo linguístico sólido e é considerada sobretudo uma dedução do naturalista, pouco familiarizado com as línguas indígenas.[6]

Outras interpretações defendem que emboaba seria derivado da corrupção de termos como amôabá, amô-abá ou aba-ambôaé-abá, significando, respectivamente, “homem diferente”, “estrangeiro” e “homem de cabelo diferente” — referência à distinção física percebida entre indígenas, europeus e africanos.[6]

Uma proposta considerada mais consistente identifica a origem em o-mboábae, termo que significaria “lançador” ou “armadilheiro” e, por extensão, “pérfido” ou “traidor”. Nesse sentido, o nome teria sido empregado pelos paulistas para designar pessoas oriundas de capitanias diversas e os reinóis que, em sua visão, tentavam usurpar de modo desleal as recém-descobertas lavras de ouro das “Minas dos Catauás”.[6] A expressão “Guerra dos Emboabas” poderia, assim, ser compreendida como “Guerra dos Invasores” ou “Guerra dos Traidores”.

A literatura historiográfica registra ainda outra interpretação, segundo a qual emboaba designaria “pessoa que usa botas”, em contraste com os paulistas, que tradicionalmente andavam descalços.[1] Nessa leitura, o termo também possuía caráter pejorativo, aplicado aos forasteiros que afluíam às regiões mineradoras.[1]

Contexto histórico

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A descoberta de ouro no interior do Brasil, entre o final do século XVII e o início do XVIII, desencadeou profundas transformações sociais, econômicas e políticas na colônia. As primeiras jazidas identificadas pelos bandeirantes paulistas atraíram rapidamente a atenção de milhares de pessoas. Em menos de duas décadas, estima-se que cerca de 50 mil indivíduos — reinóis, sertanejos nordestinos, colonos do Rio de Janeiro, além de contingentes de escravizados indígenas e africanos — se deslocaram para a região, “fervilhando à beira dos rios e caminhos, nos sertões distantes e inóspitos”.[8] Essa migração deu origem aos primeiros arraiais mineradores, marcados por crescimento acelerado, precariedade estrutural e intensas disputas por recursos.

Os paulistas reivindicavam direitos prioritários sobre as minas, alegando terem sido os descobridores das jazidas e ressaltando o histórico papel prestado à Coroa em conflitos como a Guerra dos Palmares e a Confederação dos Cariris.[9] A abundância mineral, segundo observou o cronista André João Antonil, parecia mesmo um “castigo de Deus”, tamanha a cobiça e a desordem observadas nas minas nascentes.[10]

A descoberta do ouro e as minas coloniais

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O estabelecimento das primeiras frentes mineradoras resultou de décadas de exploração paulista no sertão. Expedições compostas por mamelucos, indígenas aliados e paulistas avançaram pelos territórios dos atuais estados de São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Rondônia, Tocantins e Goiás em busca de recursos naturais, rotas e possíveis jazidas.[11] A identificação de aluviões de ouro em regiões como os vales dos rios Rio das Velhas, Carmo e das Mortes inaugurou um ciclo econômico inédito, rapidamente documentado por cronistas como Antonil.[10]

A explosão demográfica que se seguiu trouxe desafios imediatos. O crescimento dos arraiais, a ausência de autoridades estáveis e a falta de regulamentação clara sobre a distribuição de lavras fomentaram disputas constantes entre mineradores. Paralelamente, o abastecimento tornou-se crítico: a produção local era incapaz de suprir a demanda crescente, resultando em preços exorbitantes de alimentos e bens básicos, como farinha, açúcar e carne.[2] Medidas como monopólios de açougues e contratos de gado geraram acusações de abuso de poder e favorecimento, alimentando ressentimentos.

Ao mesmo tempo, a descoberta do ouro atraiu atenção direta da Coroa Portuguesa, que buscava garantir a arrecadação do quinto e impedir o contrabando. A criação de postos de fiscalização e a tentativa de regulamentar a exploração marcaram um período de crescente intervenção metropolitana, elemento decisivo para o desencadeamento de tensões políticas locais.[3]

Paulistas e forasteiros

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A convivência entre diferentes grupos regionais tornou-se rapidamente tensa. Os denominados paulistas — ou “vicentinos” ou “itanhaenses” — defendiam a primazia na exploração das minas por se considerarem pioneiros na penetração do sertão.[12] Já os recém-chegados, oriundos sobretudo da Bahia, da Pernambuco e de Portugal, eram mais numerosos e melhor articulados com comerciantes e autoridades do litoral. Estes passaram a ser chamados pejorativamente de emboabas, termo que expressava a tensão identitária e cultural entre os grupos.[13]

Ambos os lados eram amplamente heterogêneos: havia paulistas pobres, grandes proprietários e antigos chefes de bandeiras; entre os emboabas, comerciantes baianos, mineradores reinóis, vaqueiros sertanejos e aventureiros. Para uns, os paulistas monopolizavam lavras e abusavam do poder local; para outros, os emboabas tentavam usurpar um patrimônio “de direito vicentino”. A disputa por lavras, abastecimento e autoridade se intensificou continuamente.[13]

Antecedentes do conflito

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As tensões tornaram-se explosivas a partir de 1706. Disputas por terrenos auríferos, brigas em arraiais e acusações de violência tornaram-se frequentes.[14] Como as lavras eram demarcadas de forma improvisada, direitos de descoberta e posse se sobrepunham, gerando emboscadas, retaliações e conflitos físicos.[15]

A crise de abastecimento agravou a rivalidade. Antonil registrou preços de alimentos até cem vezes superiores aos do litoral.[10] Medidas como o estanco dos açougues, concedido por Artur de Sá a Amaral Gurgel, ampliaram o descontentamento.[16]

A ausência de mediação eficaz levou à formação de assembleias locais, expulsões sumárias e pedidos de intervenção à Coroa. Em 1700, a própria Câmara de São Paulo solicitou o controle exclusivo da região mineradora, sem sucesso — amplificando a sensação paulista de abandono político.[3]

A violência cresceu rapidamente. Em 1707, dois chefes paulistas foram mortos por emboabas no Arraial Novo do Rio das Mortes. Confrontos adicionais em Cachoeira do Campo e na região do Rio das Mortes ampliaram o clima de insegurança. Rumores de massacres, represálias e alianças secretas circularam entre os moradores, e a sociedade mineradora dividiu-se claramente em dois blocos políticos.

Ao final de 1707, paulistas e emboabas estavam organizados como facções rivais, defendendo projetos distintos para a região das minas: os primeiros reivindicavam direitos históricos; os segundos exigiam igualdade de acesso às lavras e intervenção régia para conter a influência vicentina.[14] A eclosão da guerra, em 1708, foi percebida pelos contemporâneos como resultado inevitável de rivalidades acumuladas, insegurança jurídica e ausência de autoridade metropolitana capaz de mediar os conflitos.

O conflito

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A Guerra dos Emboabas se desenvolveu em diferentes frentes e momentos, envolvendo confrontos diretos, perseguições, emboscadas e negociações malsucedidas. O conflito foi marcado por uma escalada de violência resultante da tensão acumulada entre paulistas e emboabas nos anos anteriores, refletindo disputas pelo poder político, pelo controle das lavras e pela definição da ordem administrativa nas minas recém-formadas.[2] A fragilidade das instituições coloniais e a demora da intervenção régia contribuíram para transformar tensões cotidianas em confronto armado aberto.[3]

Principais focos de combate

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Os primeiros choques significativos ocorreram entre 1707 e 1708, quando ataques e represálias se multiplicaram nos principais arraiais mineradores:

  • Em Sabará, surgiram confrontos ligados ao controle das lavras do Rio das Velhas, envolvendo grupos ligados a Borba Gato e migrantes baianos e pernambucanos.[17]
  • Em Cachoeira do Campo, disputas por lavras e rotas de circulação culminaram em batalhas que antecederam o episódio do Capão da Traição.[18]
  • No Arraial Novo do Rio das Mortes, o linchamento de dois chefes paulistas por emboabas, em 1707, marcou um ponto de não retorno; a ausência de retaliação imediata fragilizou ainda mais a posição paulista.[19]
  • Em 1708, o desarmamento sistemático dos paulistas — justificado pelos emboabas como medida preventiva — provocou recuos sucessivos e a perda do controle sobre duas das três regiões mineradoras mais importantes.[20]
Pintura representando a Guerra dos Emboabas

Capão da Traição

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O episódio mais célebre da Guerra dos Emboabas, conhecido como Capão da Traição, permanece como símbolo da ruptura definitiva entre paulistas e emboabas.

Segundo as narrativas tradicionais, após a derrota em Cachoeira do Campo, um contingente paulista recuou para um capão — pequena mancha de mata fechada — entre a Ponta do Morro (atual Prados) e o arraial do Pilar (atual São João del-Rei), possivelmente na antiga Fazenda do Córrego. No local, teriam planejado reorganizar as forças para ataques de tocaia.[21]

Para atrair os inimigos, paulistas teriam enviado indígenas cativos como isca. Os emboabas avançaram e foram recebidos por tiros vindos do arvoredo, sofrendo diversas baixas.[2]

A reação liderada por Bento do Amaral Coutinho foi decisiva. Reorganizando suas tropas, Bento cercou completamente o capão. Após dois dias de cerco, os paulistas, sem munição, pediram rendição. Bento teria jurado, “pela Santíssima Trindade”, que pouparia suas vidas se depusessem as armas — promessa não cumprida: cerca de 300 paulistas teriam sido mortos após a entrega.[22]

A historiografia recente debate elementos importantes do episódio:

  • o número real de mortos, possivelmente inflado nas narrativas oitocentistas;
  • a localização precisa do capão, ainda objeto de controvérsia;
  • a construção simbólica do caráter “traicionário”, interpretada como parte da memória política paulista.[3]

Apesar das divergências, o Capão da Traição consolidou-se como o episódio mais emblemático e narrativamente poderoso da guerra.

Proclamação de Nunes Viana e reação régia

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Após conquistar vantagens militares, os emboabas reuniram-se e proclamaram Manuel Nunes Viana como “governador das minas”, medida que violava diretamente as prerrogativas régias e representava tentativa de instituir uma autoridade paralela.[2]

A Coroa reagiu. O governador da capitania do Rio de Janeiro, Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho, recebeu ordens para restabelecer o controle administrativo sobre a região mineradora. No início de 1709, ao chegar às minas, destituiu Nunes Viana, dissolveu sua administração e reafirmou a autoridade régia sobre a distribuição das lavras, o policiamento e a arrecadação do quinto.[17]

Sem apoio militar, politicamente isolados e diante da presença das forças régias, os paulistas abandonaram definitivamente a disputa. Sua última tentativa de ofensiva foi derrotada no Rio das Mortes. Muitos remanescentes rumaram para o interior do continente, onde, nas décadas seguintes, participaram da abertura de novas frentes mineradoras nos atuais estados de Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.[20]

O conflito encerrou-se formalmente em 1709, abrindo caminho para a reorganização administrativa que culminou na criação da Capitania de São Paulo e Minas de Ouro no mesmo ano.

Testemunhos

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Bento Furtado Fernandes de Mendonça

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Relato clássico dos descobrimentos das Minas Gerais, a Notícia dos primeiros descobridores das primeiras minas de ouro pertencentes a estas Minas Gerais, pessoas mais assinaladas nestas empresas e dos mais memoráveis casos acontecidos desde os seus princípios, escrita pelo "coronel das três vilas" Bento Furtado Fernandes de Mendonça — falecido em 1765 e filho de um dos mais notáveis bandeirantes dos primeiros anos das minas, Salvador Fernandes Furtado — faz menção à Guerra dos Emboabas e permite inferir o clima de tensão vivido à época.[23][falta página]

[24][falta página]

O trecho revela a construção de uma memória fortemente favorável aos paulistas, apresentados como “famosos descobridores” e defensores do “bem público”, em contraste com os “ingratos filhos da Europa”, acusados de ambição desmedida e de tentativa de monopolizar contratos e negócios nas minas.

Borba Gato

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Estátua em bronze de Manuel de Borba Gato, de Nicola Rollo, no Museu do Ipiranga, em São Paulo

O relato mais extenso sobre os acontecimentos saiu da pena do superintendente Borba Gato, que escreveu ao governador Fernando Martins Mascarenhas de Lencastre em 29 de novembro de 1708, das minas do Rio das Velhas. Na carta, Borba Gato descreve o clima de motins, a atuação de Manuel Nunes Viana e as dificuldades em manter a arrecadação régia:

Esse documento encontra-se na Biblioteca Nacional de Lisboa, Arquivo de Marinha e do Ultramar, docs. 3212 a 3225 do Rio de Janeiro, e é frequentemente citado como fonte primária importante para a compreensão da Guerra dos Emboabas.[2]

João da Veiga da Costa

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João da Veiga da Costa, mestre de campo do Terço dos auxiliares das capitanias da vila de Nossa Senhora da Conceição de Itanhaém, escreveu em 19 de abril de 1719 um testemunho sobre o clima de temor e as migrações de paulistas após o conflito, destacando o papel de Rafael da Silva e Souza na tentativa de garantir a continuidade da mineração sob proteção régia.[25][falta página]

O texto enfatiza o medo generalizado, a ameaça de novos levantes e a importância de agentes locais na mediação entre colonos e autoridades emboabas.

Bento do Amaral Coutinho

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Estátua em Caeté em homenagem à liderança de Manuel Nunes Viana na Guerra dos Emboabas

Datada de 16 de janeiro de 1709, uma carta escrita por Bento do Amaral Coutinho no arraial de Ouro Preto e enviada a Fernando Martins Mascarenhas de Lencastre relata a perspectiva emboaba sobre os conflitos e descreve os paulistas como agressores planejando ataques em larga escala aos arraiais de Ouro Preto e Antônio Dias.[18]

O documento contribui para compreender como parte dos emboabas elaborava a justificativa moral e política de suas ações, enfatizando o perigo representado pelos paulistas e o caráter “preventivo” de certas medidas.

Junta no Rio de Janeiro

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Em 16 de janeiro de 1709, uma junta realizada no Rio de Janeiro avaliou a gravidade da situação nas minas e decidiu pelo envio do governador Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho à região, apesar de restrições anteriores da Coroa ao deslocamento de governadores-regentes sem ordem expressa. O termo da junta destaca o risco de “total ruína” das minas e da arrecadação da Fazenda Real caso o conflito não fosse contido:[17]

O governador decidiu, portanto, partir em 2 de março, após cerca de um mês de preparativos para a jornada, realizada em condições difíceis de clima, transporte e logística, o que reforça a percepção da gravidade do conflito para a administração colonial.

Consequências

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Mapa do Brasil após a Guerra dos Emboabas

A derrota paulista e a intervenção direta da Coroa ao final da Guerra dos Emboabas provocaram transformações profundas na administração colonial, na configuração territorial das capitanias e nas dinâmicas sociais da região mineradora. O conflito marcou o fim do predomínio político paulista nas Minas e inaugurou uma fase de centralização régia, reflexo da importância econômica estratégica da região aurífera.[2][17][3]

Entre as medidas imediatas adotadas pela administração portuguesa estiveram:

  • a regulamentação da distribuição das lavras e dos critérios de partilha entre mineradores;
  • a normatização e intensificação da cobrança do quinto;
  • a cisão da antiga Capitania de São Vicente e a criação da Capitania de São Paulo e Minas de Ouro (3 de novembro de 1709), diretamente subordinada à Coroa;
  • a elevação de São Paulo à categoria de cidade, transformando-a na sede da nova capitania;
  • a fundação das vilas de Vila Rica (1711), Sabará (1711) e São João del-Rei (1713), estruturando o sistema administrativo da região mineradora;
  • a pacificação forçada das Minas Gerais e a imposição de controle régio sobre a fiscalização, o policiamento e o ordenamento das lavras.

A guerra também produziu efeitos demográficos e territoriais duradouros. Centenas de paulistas deslocaram-se para o interior do continente após a derrota, abrindo novas frentes de exploração que resultaram na descoberta de jazidas nos atuais estados de Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.[20] Apesar de a historiografia tradicional atribuir essa migração exclusivamente à derrota paulista, estudos recentes indicam que ela está igualmente associada à continuidade das bandeiras de captura e escravização indígena.[26]

A intensificação do controle metropolitano resultou em expressivo aumento da produção aurífera ao longo da primeira metade do século XVIII. Minas Gerais transformou-se no principal polo econômico da colônia, atingindo seu auge produtivo por volta de 1740 e o pico da arrecadação em 1760 — embora parte considerável do ouro fosse desviada pelas rotas clandestinas do rio São Francisco.[3]

A historiografia destaca ainda consequências sociopolíticas mais amplas:[2]

  • Reorganização territorial: a criação da Capitania de São Paulo e Minas de Ouro redefiniu fronteiras internas e encerrou a antiga vinculação da região à Capitania do Rio de Janeiro.
  • Centralização metropolitana: a Coroa reforçou a presença de funcionários régios, padronizou tributos e instituiu mecanismos de vigilância como casas de fundição, modificando profundamente a relação entre colonos e Estado português.
  • Reconfiguração identitária: o conflito acelerou a diferenciação entre “paulistas” e os futuros “mineiros”, consolidando identidades regionais que se desenvolveriam ao longo do século XVIII.
  • Mudanças sociais nas minas: a substituição do predomínio paulista pelo controle régio e, posteriormente, pelos grandes contratadores e comerciantes luso-brasileiros reorganizou as hierarquias sociais da região.

Influência na literatura brasileira

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A Guerra dos Emboabas exerceu influência duradoura sobre a cultura e a imaginação histórica brasileira. O conflito aparece representado em obras literárias, televisivas e historiográficas que exploram a formação das Minas Gerais e as tensões coloniais.

A narrativa ficcional mais conhecida é o romance A Muralha (1954), de Diná Silveira de Queirós, que dramatiza a expansão bandeirante e a violência dos confrontos entre paulistas e forasteiros no contexto da descoberta do ouro. A obra contribuiu para fixar elementos simbólicos associados aos paulistas, aos emboabas e ao ambiente de rivalidades do início do século XVIII.

O tema também foi adaptado para a televisão na telenovela homônima A Muralha (1968) e na minissérie de 2000, ampliando a circulação dessas narrativas no imaginário popular.

Ver também

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Referências

  1. a b c CARMO JÚNIOR, Adélson de Oliveira; SOUSA, Renan Rodrigues; CARVALHO, Dárlinton Barbosa Feres. "A Guerra dos Emboabas segundo os Grandes Modelos de Linguagem (LLM)". In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, vol. XVII, 2025.
  2. a b c d e f g h i Romeiro, Adriana (2005). Revisitando a Guerra dos Emboabas: práticas políticas e imaginário nas Minas setecentistas. Modos de governar: ideias e práticas políticas no Império Português (séculos XVI a XIX). São Paulo: Alameda. pp. 392–401 
  3. a b c d e f g Furtado, João Pinto (2002). O manto de Penélope: história, mito e memória da mineração colonial. Belo Horizonte: UFMG. pp. 73–85 
  4. «Emboaba». Michaelis On-Line. Consultado em 17 de novembro de 2025 
  5. «Emboaba». Dicio, Dicionário Online de Português. Consultado em 17 de novembro de 2025 
  6. a b c d «Relatos de pesquisa – Etimologia de "emboaba"». Instituto de Estudos da Linguagem (UNICAMP). Consultado em 17 de novembro de 2025. Cópia arquivada em 24 de julho de 2024 
  7. Saint-Hilaire, Auguste de (1940). Viagem à Província de São Paulo (PDF). São Paulo: Livraria Martins 
  8. Romeiro, Adriana (4 de outubro de 2008), Amor à terra?, Revista de História da Biblioteca Nacional, consultado em 15 de março de 2010, cópia arquivada em 21 de fevereiro de 2017 .
  9. ROMEIRO, Adriana. Revisitando a Guerra dos Emboabas: práticas políticas e imaginário nas Minas setecentistas. In: BICALHO, Maria Fernanda; FERLINI, Vera Lúcia do Amaral (orgs.). Modos de governar – Ideias e práticas políticas no Império Português, séculos XVI a XIX. São Paulo: Alameda, 2005, p. 396.
  10. a b c Antonil, André João (2007). Cultura e opulência do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia. 119 páginas 
  11. HOLANDA, Sérgio Buarque de. Caminhos e fronteiras. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 145–158.
  12. HOLANDA, Sérgio Buarque de. Caminhos e fronteiras. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 158–166.
  13. a b Romeiro, Adriana (2005). Revisitando a Guerra dos Emboabas…. São Paulo: Alameda. pp. 392–397 
  14. a b Romeiro, Adriana (2005). Revisitando a Guerra dos Emboabas…. [S.l.: s.n.] 396 páginas 
  15. HOLANDA, Sérgio Buarque de. Caminhos e fronteiras…, p. 145–158.
  16. Mello, José Soares de (1979). Emboabas. São Paulo: Imprensa Oficial. p. 48 
  17. a b c d Maxwell, Kenneth (1977). A devassa da devassa: a Inconfidência Mineira — Brasil e Portugal, 1750–1808. Rio de Janeiro: Paz e Terra. pp. 37–40 
  18. a b Vasconcelos, Diogo de (1999). História antiga das Minas Gerais. Belo Horizonte: Itatiaia. pp. 218–222 
  19. Souza, Laura de Mello e (1982). Desclassificados do ouro: a pobreza mineira no século XVIII. Rio de Janeiro: Graal. pp. 57–60 
  20. a b c Boxer, Charles R. (1965). Portuguese Society in the Tropics: The Municipal Councils of Goa, Macao, Bahia, and Luanda, 1510–1800. Madison: University of Wisconsin Press. pp. 147–151 
  21. Vasconcelos, Diogo de (1999). História antiga das Minas Gerais. Belo Horizonte: Itatiaia. pp. 223–226 
  22. Boxer, Charles R. (1965). Portuguese Society in the Tropics. Madison: University of Wisconsin Press. 151 páginas 
  23. Taunay, Afonso de Escragnolle (1981). Relatos sertanistas. Belo Horizonte: Itatiaia. p. 229 
  24. Taunay, Afonso de Escragnolle (1981), Relatos sertanistas, Ed. da Universidade de São Paulo 
  25. Taunay, Afonso de Escragnolle (1981). Relatos sertanistas. [S.l.]: Itatiaia. p. 233 
  26. SOUZA, Laura de Mello e. Desclassificados do ouro: a pobreza mineira no século XVIII. Rio de Janeiro: Graal, 1982, p. 61.

Bibliografia

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  • CARMO JÚNIOR, Adélson de Oliveira; SOUSA, Renan Rodrigues; CARVALHO, Dárlinton Barbosa Feres. "A Guerra dos Emboabas segundo os Grandes Modelos de Linguagem (LLM)". In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, vol. XVII, 2025.
  • Furtado, Júnia Ferreira (2005), Bicalho, Maria Fernanda; Ferlini, Vera Lúcia do Amaral, eds., José Rodrigues Abreu e a geografia imaginária emboaba da conquista do ouro, Modos de governar – Ideias e práticas políticas no Império Português séculos XVI a XIX 1ª ed. , São Paulo: Alameda .
  • MELLO, José Soares de. Emboabas. São Paulo: Governo do Estado de São Paulo, 1942.
  • MIRANDA, Ana. O Retrato do Rei. São Paulo: Companhia das Letras, 1991.
  • RIBEIRO, Berta. O índio na história do Brasil. São Paulo: Global, 1987.
  • ROMEIRO, Adriana. Paulistas e emboabas no coração das Minas: ideias, práticas e imaginário político no século XVIII. Belo Horizonte: UFMG, 2008.

Ligações externas

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