Emmanuel Milingo
Emmanuel Milingo
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|---|---|
| Ex-Arcebispo de Lusaka | |
| Milingo em uma cerimonia religiosa | |
| Hierarquia | |
| Papa | Leão XIV |
| Atividade eclesiástica | |
| Diocese | Arquidiocese de Lusaka |
| Nomeação | 29 de maio de 1969 |
| Predecessor | Adam Kozłowiecki |
| Sucessor | Adrian Mung'andu |
| Mandato | 1969 - 1983 |
| Ordenação e nomeação | |
| Ordenação presbiteral | 15 de agosto de 1958 |
| Nomeação episcopal | 29 de maio de 1969 |
| Ordenação episcopal | 1 de agosto de 1969 Kololo Terrace, Kampala por Papa Paulo VI |
| Dados pessoais | |
| Nascimento | Mnukwa, 13 de junho de 1930 (95 anos) |
| dados em catholic-hierarchy.org Categoria:Igreja Católica Categoria:Hierarquia católica Projeto Catolicismo | |
Emmanuel Milingo (Mnukwa, 13 de junho de 1930), é um ex-arcebispo católico excomungado pela Santa Sé. Foi ordenado padre em 1958 e arcebispo de Lusaka em 1969.[1] Em 1973, começa a dedicar-se às sessões de cura. Em 1983, ele deixou sua posição como Arcebispo de Lusaka após críticas por exorcismo e práticas de cura pela fé que não foram aprovadas pelas autoridades da Igreja.[2]
Em 2001, quando Milingo tinha 71 anos, ele se casou em uma cerimônia dirigida por Sun Myung Moon, o líder da Igreja da Unificação, apesar da proibição do casamento para padres ordenados.[3]
Em 24 de setembro de 2006, Milingo consagrou quatro homens como bispos sem um mandato papal. Por esse ato, Milingo incorreu em uma excomunhão latae sententiae, que foi declarada pela Sala de Imprensa da Santa Sé dois dias depois.[4][5] Em 17 de dezembro de 2009, o Vaticano anunciou que Milingo havia sido reduzido ao estado laico, tornando-o não mais um membro do clero católico.[5]
Sacerdócio e episcopado
[editar | editar código]Milingo é um Ngoni, criado na tradição guerreira. Aos 12 anos, após quatro anos como pastor de gado, fugiu para entrar em uma escola missionária. Ele era analfabeto, falava apenas Ngoni e nunca havia saído de sua aldeia; em dois anos, já falava e lia inglês e Chewa, estando pronto para prosseguir seus estudos. Até 1958, frequentou seminários em Niassalândia.[6] Ordenado presbítero em 31 de agosto de 1958.[1]
Em seguida, atuou como pároco de 1958 a 1965, com um intervalo de dois anos durante o qual obteve diplomas em sociologia em Roma e em educação em Dublin. Após isso, foi para Lusaka como assistente de comunicações da Conferência Episcopal da Zâmbia, e seu trabalho no rádio o tornou uma figura popular em todo o país. Ele também fundou a Sociedade de Auxílio da Zâmbia, um grupo de voluntários, para levar assistência médica às favelas. Ele participava diariamente das atividades do grupo, conciliando-as com suas outras responsabilidades.[6]
Milingo foi nomeado pelo Papa Paulo VI como arcebispo de Lusaka em 29 de maio de 1969, o primeiro africano eleito ao cargo. Ele foi ordenado pelo próprio papa, em 1 de agosto de 1969, em Kololo Terrace, Kampala; os principais co-consagradores foram Sergio Pignedoli, arcebispo e Secretário da Congregação para a Evangelização dos Povos, e Emmanuel Kiwanuka Nsubuga, Arcebispo de Kampala.[1]
Como arcebispo, ele começou a africanizar instituições, práticas e atitudes, o que incomodou muitos missionários estrangeiros. Ele estabeleceu conselhos de mulheres em todos os níveis e fomentou comunidades cristãs de base. Também fundou uma comunidade de irmãs, as Filhas do Redentor, que se tornou o centro de seu pensamento e trabalho na África. Muitos o consideravam paternalista e autoritário.[6]
Ele passou a dedicar cada vez mais seu tempo para a oração de cura pela fé e a batalha contra o diabo. Os doentes lotavam sua casa, formando filas nas escadas, e seus cultos de cura na catedral ficavam lotados. Ele expulsava espíritos malignos, curava os enfermos e mobilizava as pessoas. Em 1976, durante um treinamento em Ann Arbor, Michigan, Milingo se juntou ao movimento de renovação carismática católica, que então crescia em toda a Igreja, e encontrou aliados nesse movimento para seus conflitos posteriores. Ele também continuou suas reformas sociais e começou a denunciar a elite africana rica.[6]
Os jesuítas, que há muito serviam como missionários, opunham-se veementemente às novas abordagens. Além disso, os bispos zambianos também estavam preocupados. As acusações concentraram-se no ministério de cura, que atraía mais de mil pessoas a cada missa na catedral. Milingo foi acusado de heresia, bruxaria e desvio de dinheiro. Em 1979, Milingo foi forçado a cessar os serviços de cura e, em 1982, foi enviado a Roma para repouso e exames psiquiátricos. Os médicos liberaram Milingo, mas a essa altura ele já era uma figura controversa demais para retornar ao seu país.[6]
Ele serviu como arcebispo de Lusaka até 6 de agosto de 1983, data de sua renúncia à sé.[1] Ele vivia em Roma desde então.[3] Apesar de tudo, o Papa João Paulo II o protegia e lhe deu um cargo menor no Pontifício Conselho para os Migrantes e Viajantes. Com isso, Arcebispo Milingo continuou realizando um culto mensal em Roma, atraindo multidões.[6] Além das curas e exorcismos, ele se tornou conhecido ao gravar discos de sucesso nas décadas de 1980 e 1990, e cantar em canais de televisão de todo o mundo.[7][8]
Conflitos com a Santa Sé
[editar | editar código]Casou-se em 27 de maio de 2001 com a acupunturista coreana Maria Sung. O casamento realizou-se em Nova York, no Hotel Hilton, em uma cerimônia coletiva presidida pelo reverendo Moon, fundador da Igreja da Unificação, que também escolheu a noiva para Milingo. Após o casamento, Milingo disse a jornalistas que não temia a excomunhão. "Deus ainda está comigo. Amo minha igreja."[3]
O Vaticano lhe aplicou a "pena medicinal de suspensão", conforme os cânones 1044 § 1, n. 3; 1394 § 1 do Código de Direito Canônico.[5] Em julho de 2001, o Cardeal Joseph Ratzinger, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, emitiu uma Admoestação Canônica Pública, advertindo oficialmente Milingo a separar-se de Sung e a interromper os contatos com Moon e a Igreja da Unificação.[9]
Vários meses depois foi recebido por João Paulo II em Castel Gandolfo, o que propiciou seu retorno à congregação católica. Ele renunciou ao casamento e reafirmou sua fidelidade à Igreja.[7][8] Foi-lhe permitido retomar, de forma limitada, seu ministério de cura fora de Roma.[8]
Quando voltou à cena em 2006, ele afirmou que Maria continuava sendo sua esposa.[7] Segundo o Vaticano, Milingo, agora vivendo nos Estados Unidos,[10] estava liderando grupos que defendiam a abolição do celibato clerical e concedeu inúmeras entrevistas à imprensa, "em flagrante desobediência às repetidas intervenções da Santa Sé, causando grave descontentamento e escândalo entre os fiéis".[5] Em 2006, ele fundou a organização "Padres Casados Já!", que exige a mudança das regras católicas sobre o celibato.[4]
Foi excomungado pelo Vaticano em 26 de setembro de 2006, por ter feito a ordenação como bispos de quatro sacerdotes americanos casados, que, além disso, eram excomungados e suas ordenações não reconhecidas pelo Vaticano.[8] Os quatro homens eram George Augustus Stallings, de Washington, Peter Paul Brennan, de Nova York, Patrick Trujillo, de Newark, e Joseph Gouthro, de Las Vegas, filiados ao grupo dissidente Sínodo das Igrejas Velhas Católicas; eles também se juntaram à "Padres Casados Já!".[4]
Após conhecer a reação do Vaticano, Stallings, um dos novos bispos, disse que para Milingo a excomunhão "não vale nem o pedaço de papel na qual foi escrita", e assegurou que o arcebispo continuará trabalhando em favor dos sacerdotes casados e que considera as ordenações dos bispos "válidas". Segundo o porta-voz de Milingo, ele aceitaria discutir com o Vaticano se aceitassem sua proposta e lhe concedesse uma prelazia pessoal.[7]
Milingo declarou que continuará a exercer as funções de arcebispo, independentemente do que o Vaticano diga. Em uma coletiva de imprensa, ladeado pelos homens que ele consagrou como bispos, destacou que recebeu a autoridade para consagrar bispos quando foi consagrado pelo papa Paulo VI. Ele também denunciou o celibato clerical, afirmando: "(Os apóstolos) estabeleceram líderes espirituais nas comunidades da igreja orando e impondo as mãos sobre eles", e "eles não buscavam mandatos, mas as necessidades das comunidades. Eu fiz o mesmo".[11]
Conforme a lei canônica católica, conforme declarado em um artigo do Religion News Service:
"Como bispo, Milingo tem tecnicamente a autoridade para ordenar outros bispos. Mas, segundo as normas da Igreja, apenas os bispos autorizados pelo Papa são considerados bispos em plena comunhão com a Igreja. As quatro consagrações são tecnicamente “válidas”, mesmo que não sejam “lícitas”, de acordo com o padre Philip Goyret, professor de teologia dogmática com especialização em direito canônico na Pontifícia Universidade da Santa Cruz, em Roma. Isso significa que o Vaticano não pode negar a autoridade inerente dos bispos recém-empossados, mesmo que não os considere em comunhão formal com o Papa Bento XVI."[11]
Diante de tais atitudes, a Santa Sé declarou em 17 de dezembro de 2009:
"Ao agir dessa forma, incorreu na pena de excomunhão latae sententiae (Cânon 1382), declarada pela Santa Sé em 26 de setembro de 2006 e ainda em vigor. Infelizmente, o Arcebispo Milingo não demonstrou o arrependimento desejado para retornar à plena comunhão com o Sumo Pontífice e os demais membros do Colégio Episcopal. Ao contrário, persistiu no exercício ilícito de atos inerentes ao ofício episcopal, cometendo novos crimes contra a unidade da Santa Igreja. Especificamente, nos últimos meses, o Arcebispo Milingo realizou diversas outras ordenações episcopais. A prática desses graves crimes, recentemente comprovada, deve ser considerada como prova da persistente contumácia do Arcebispo Emmanuel Milingo. A Santa Sé, portanto, viu-se obrigada a impor-lhe a pena adicional de demissão do estado clerical."[5]
Por isso, ele perdeu seu estado clerical.[12] Assim, caso Milingo realizasse novas ordenações, elas seriam não apenas ilícitas, mas também inválidas.[8]
Em 2012, foi nomeado Terceiro Patriarca da África da Igreja Católica Apostólica Ecumênica da Paz, durante uma cerimônia ocorrida na Barlsarstone Park School, em Lusaka. Antes disso, nos Camarões, já havia sido realizada uma cerimônia semelhante, patrocinada por cinco igrejas. Como patriarca, Milingo ficou encarregado da África Meridional, com as aprovações da Velha Igreja Católica, Igreja Católica Ortodoxa, Igreja Liberal da Espanha, Igreja Carismática do Brasil, Independente Catholic Church e outras de diferentes países, principalmente dos Estados Unidos.[13]
Referências
- ↑ a b c d «Protestant Mister Emmanuel Milingo [Catholic-Hierarchy]». www.catholic-hierarchy.org. Consultado em 26 de novembro de 2025
- ↑ Minnema, Lourens (2008). Coping with Evil in Religion and Culture: Case Studies (em inglês). [S.l.]: Rodopi. Consultado em 29 de abril de 2025
- ↑ a b c «Vaticano ameaça arcebispo-exorcista africano de excomunhão». www1.folha.uol.com.br. 17 de julho de 2001. Consultado em 27 de novembro de 2025
- ↑ a b c CNA. «Vatican: Archbishop Milingo and four others excommunicated». Catholic News Agency (em inglês). Consultado em 29 de abril de 2025
- ↑ a b c d e «COMUNICATO DELLA SALA STAMPA DELLA SANTA SEDE: DIMISSIONE DALLO STATO CLERICALE DI EMMANUEL MILINGO». web.archive.org. 17 de dezembro de 2009. Consultado em 29 de abril de 2025
- ↑ a b c d e f «MILINGO, Emmanuel, Zambia, Catholic». www.dacb.org. Consultado em 27 de novembro de 2025. Cópia arquivada em 27 de setembro de 2007
- ↑ a b c d «Milingo esgota a paciência do Papa e é excomungado». noticias.uol.com.br. 26 de setembro de 2006. Consultado em 26 de novembro de 2025
- ↑ a b c d e Jr, John L. Allen (17 de dezembro de 2009). «The last act in the Milingo story?». National Catholic Reporter (em inglês). Consultado em 1 de abril de 2025
- ↑ «Library : Notification Regarding Archbishop Emmanuel Milingo - Catholic Culture». www.catholicculture.org. Consultado em 27 de novembro de 2025. Cópia arquivada em 14 de setembro de 2012
- ↑ «Bispo que ordenou homens casados é excomungado». www.bbc.com. Consultado em 27 de novembro de 2025
- ↑ a b Cho, Timothy Isaiah (14 de novembro de 2006). «Renegade Archbishop Rejects Excommunication». RNS (em inglês). Consultado em 1 de abril de 2025
- ↑ Folha Online. «Vaticano retira estado clerical de ex-arcebispo Emmanuel Milingo». Consultado em 17 de dezembro de 2009
- ↑ Jonas (20 de setembro de 2012). «A última manifestação de Milingo». ihu.unisinos.br. Consultado em 27 de novembro de 2025
