Entomofagia

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Sanduíche de lagartas de mariposa fritas, em Burkina Faso

Entomofagia é o consumo humano de insetos como fonte alimentar. Entretanto, utiliza-se também para fazer alusão ao consumo de artrópodes, como aracnideos e miriápodes [1].

Definição e principais insetos comuns na alimentação[editar | editar código-fonte]

As principais ordens consumidas são coleópteros (besouros), representando 31% do consumo ao redor no mundo, lepidópteros (borboletas e traças), representando 18%, himenópteros (abelhas, vespas e formigas), 14%, ortópteros (gafanhotos e grilos), 13%, hemiptera (insetos verdadeiros como cigarras, por exemplo), 10%, isópteros (cupins), 3%, entre outras, que representam 5% do consumo. Nessas ordens, incluem-se mais de 1900 espécies diferentes de insetos indicados ao consumo humano[2]. O consumo pode se dar enquanto o animal encontra-se nos estados ovos, larvas, pupas e adulto, porém ocorre mais comumente durante as fases larva e pupa [3].

Dentre as espécies de insetos comestíveis mais comuns na alimentação brasileira, pode-se citar a formiga tanajura, utilizada no preparo de farofas e consumida tradicionalmente no interior do estado de Minas Gerais e em alguns estados da região Nordeste, e a larva do besouro Pachymerus nucleorum, também conhecida como “larva do coquinho”, devido ao fato de habitar o interior de frutos, e seu consumo é indicado durante treinamentos de sobrevivência na selva[4].

Origem[editar | editar código-fonte]

Besouro Platycoelia lutescens com milho tostado, em prato típico do Equador.

Acredita-se que com o desenvolvimento da agricultura e da pecuária pelo homem primitivo, surgiu também a prática de ingestão de insetos. Embora menos presente no mundo ocidental, a entomofagia atualmente é bastante comum em culturas asiáticas, africanas, aborígenes australianas e americanas. Documentos históricos, incluindo uma coleta escrita por Aristóteles, indicam que gregos e romanos possuíam o hábito de comer larvas de besouros e gafanhotos, e cigarras. No livro bíblico Levítico 11:22, do Velho Testamento, há uma menção do consumo de gafanhotos, besouros e grilos. Sabe-se também do consumo, ao longo da história, de gafanhotos por argelinos, mariposas e formigas por aborígenes australianos, entre outros povos [5].

Exemplos de alguns países e a atual relação deles com a entomofagia:

  • Brasil: Em alguns estados do país a rainha da formiga do gênero Atta, chamada de içá ou tanajura é comida pura ou com farofa. Larvas de diversas espécies de besouros são consumidas por populações tradicionais;
  • Equador: Besouros conhecidos como catso blanco, são comida popular na região de Quito[6];
  • México: País das Américas que mais preserva o costume entomofágico. Comem grilos, larvas de besouros e borboletas, percevejos etc. Há criações de besouros para comer como criamos frango no Brasil;
  • China: Existem lojas especializadas em vender insetos e outras iguarias, vivas, para alimentação humana;
    Chapulines, grilos fritos, prato típico do México.
  • Tailândia: Come-se diversos insetos e outros artrópodes, como aranhas, escorpiões e lacraias;
  • Japão: Larvas de Trichoptera (um inseto que quando adulto lembra uma mariposa) coletadas nos rios, são muito apreciadas pela população. Eles ainda vendem insetos enlatados, como larvas e pupas de abelhas e gafanhotos;
  • Indonésia: Comem diversos tipos de insetos, como libélulas, larvas de abelhas condimentadas, larvas de besouros do coqueiro e muitos outros[7]
  • Austrália: Entre outros insetos, os aborígenes comem lagartas de mariposa que se criam em raízes certos vegetais;

Sustentabilidade[editar | editar código-fonte]

Os impactos ecológicos pelo maior consumo de insetos consistem em diminuição da emissão de gases de efeito estufa (em até 100 vezes), redução da poluição da água e menor área de uso da terra com baixa contaminação ambiental. Os valores para gasto de água de algumas espécies de insectos deverá ser muito menor se em comparação com a de carne bovina, que consiste a 22.000 litros de água utilizados em 1 kg de carne produzida além dos 43.000 litros utilizados para insumos indiretos de água, como forragem e grãos. Considerando que, por exemplo, a larva da farinha amarela e a menor larva da farinha (Alphitobius diaperinus) são resistentes à seca, podem ser criados em riachos orgânicos, e têm eficientes FCRs (taxa de conversão alimentar)[8].

Economia[editar | editar código-fonte]

Grilos fritos, no Camboja.

Vale a pena notar o impacto do desenvolvimento comercial na preferência por insetos comestíveis e preço de venda de insetos. Distribuição generalizada de insetos, alta produtividade reprodutiva taxas e ciclos de reprodução curtos são outras vantagens que sustentam seu potencial econômico. A produção de insetos é vantajosa, uma vez que não requer uma área grande. A área de terra requerida para produzir a mesma quantidade de proteína é de cerca de 1 ha para insetos, 2–3,5 ha para porco ou frango e 10 ha para gado. Insetos podem ser criados em uma ampla variedade de alimentos, incluindo resíduos biológicos e até resíduos humanos, sangue de matadouro e resíduos alimentares, representando assim uma fonte de proteína que é atrativo economicamente. Escala industrial de produção de insetos auxiliada pela criação sustentável de insetos, agricultura e tecnologias de processamento poderiam aliviar as restrições de disponibilidade, devendo diminuir ainda mais o preço de venda [8].

Nutricional[editar | editar código-fonte]

A maioria dos insetos apresentam quantidades muito altas de fosfato, sendo que 24 de 60 unidades atendem a dose di-etária recomendada para adultos. Dos 77 insetos analisados quanto ao teor de magnésio, apenas 23 insetos são suficientemente supridos por magnésio. Vale ressaltar que verdadeiros insetos (Hemiptera) e algumas espécies da ordem Orthoptera (gafanhotos, grilos, gafanhotos) são especialmente ricos em magnésio. Geralmente os insetos têm baixo teor de sódio, e aparentam conter muito mais ferro e cálcio do que carne bovina, suína e de frango. Também foi sugerido que o consumo de insetos poderia diminuir a deficiência de ferro e zinco nos países em desenvolvimento. Além disso, os insetos comestíveis contêm na maioria das vezes quantidades suficientes de manganês e cobre [9].

Pontos de atenção[editar | editar código-fonte]

Pupas de bicho-da-seda, em Bankoc, Tailandia.

Componentes antinutricionais e substâncias tóxicas presentes em insetos também devem ser levados em consideração. Há relatos de que insetos podem causar reações alérgicas. A qualidade da proteína de insetos comparada com a proteína de plantas e animais ainda deve ser analisada em ensaios alimentares.

Há relatos de casos de botulismo, parasitoses e comida contaminada por aflatoxinas devido à ingestão de insetos, mostrando também a importância da vigilância sanitária. Algumas espécies de insetos absorvem toxinas via alimentação, ou mesmo as sintetizam como mecanismo de proteção contra predadores. A ingestão desses insetos pode levar a náuseas, vômitos, problemas visuais, entre outros sintomas.

Outra questão é até onde considera-se seguro a ingestão de insetos que se alimentam de plantas de áreas tratadas com pesticidas. Neste aspecto, controle da alimentação destes insetos com plantas orgânicas resolveria a questão e eliminaria este risco.

Estudos sobre a microbiota de besouros da espécie Oryctes monoceros revelou a presença de bactérias causadoras de doenças, como Bacillus cereus, Pseudomonas aeruginosa e Staphylococcus aureus, assim como fungos e bactérias que não causam problemas a seres humanos.

Um estudo investigou aspectos microbiológicos de três espécies de insetos frescos, processados e armazenados, e observou a formação de esporos bacterianos. Tratamentos com refrigeração e com calor mostraram retardar este processo, embora se façam necessários maiores estudos acerca disso para garantir a segurança alimentar [9].

Tabu cultural[editar | editar código-fonte]

Insetos como comida-de-rua, na Alemanha.

Existe um grande preconceito em relação ao uso de insetos como fonte de alimentos. A falta de aceitação do próprio consumidor, aliada à ideia de que apenas ingere-se insetos em momentos de fome e escassez de alimentos caracteriza-se como a principal barreira. Em muitas culturas, o sabor que o inseto possui, variando de acordo com a dieta do mesmo e com a forma de cocção, é de extrema importância.

Espécies de lagartas, mariposas e formigas tecelãs são consideradas iguarias, atingidos elevados preços no mercado. Um outro fator que tem interferido neste hábito é a globalização e ocidentalização de culturas asiáticas. O crescimento da indústria alimentícia tem feito populações orientais preferirem alimentos ultra processados por conta de seu baixo custo e praticidade [10][11].

Propriedades nutricionais[editar | editar código-fonte]

Considerando os teores médios das diferentes ordens de insetos, os principais componentes dos insetos são a proteína e a gordura, seguidos pelo extrato livre de nitrogênio (NFE) e a cinza.

A qualidade da proteína em relação às necessidades humanas é medida pelos perfis de aminoácidos e digestibilidade. Na Nigéria, quatro espécies populares de insetos comestíveis (Imbrasia belina, Rhynchophorus phoenicis, Oryctes rinoceronte, Macrotermes bellicosus) contêm todos os aminoácidos essenciais, com quantidades relativamente elevadas de lisina, treonina e metionina, que são os principais aminoácidos em dietas à base de cereais e leguminosas [11][9].

Alimento do futuro?[editar | editar código-fonte]

Conteúdo nutricional, baseado na matéria seca, de alguns alimentos insetos utilizados como fontes de alimentos, em porcentagem (%)

As taxas de conversão alimentar (FCRs), definida como a necessidade alimentar por unidade de ganho de peso, são particularmente importantes, uma vez que com o aumento da procura de carne há uma demanda mais do que proporcional para grãos e alimentos ricos em proteínas. FCRs variam muito dependendo da classe de animais e das práticas de produção usadas para produzir a carne.

A proporção de peso comestível difere consideravelmente entre animais convencionais e insetos. A porcentagem de peso comestível para frango e suína (ambos com 55% do peso vivo) é maior do que carne bovina (40%). Grilos no último estágio ninfal podem ser comidos inteiros, mas quando ingeridos como um lanche, alguns preferem que as pernas (17% do peso total) sejam removidas, e, pelo fato do quitinoso exoesqueleto (3%) ser indigesto, o percentual de peso comestível chega a 80%. Nos números acima, pode-se calcular o FCR do peso comestível, mostrando os grilos a serem duas vezes mais eficiente que os frangos, 4 vezes mais eficiente que os porcos e 12 vezes mais que os bovinos. Estes cálculos também podem ser feitos para eficiência de proteína. Isso seria útil se o conteúdo de proteína fosse muito diferente para gado e grilos, mas não é: aves de porco, carne de porco e carne bovina apresentam valores de 200, 150 e 190 g de proteína por quilograma de peso comestível, respectivamente, enquanto que para ninfas de críquete e adultos, estes números são 154 e 205 g, respectivamente. Logo, é muito provável que os grilos sejam os alimentos mais eficientes se tratando em massa corporal comestível quando comparados com os animais convencionais [12].

Referências  [editar | editar código-fonte]

  1. FOOD AND AGRICULTURE ORGANIZATION OF THE UNITED NATIONS. Which insects?. Disponível em: <http://www.fao.org/edible-insects/en/>. Acesso em: 22 mai. 2018.
  2. FOOD AND AGRICULTURE ORGANIZATION OF THE UNITED NATIONS. Insects for food and feed. Disponível em: <http://www.fao.org/edible-insects/en/>. Acesso em: 22 mai. 2018.
  3. ROMEIRO, Edenilze Teles; OLIVEIRA, Israella Dias De; CARVALHO, Ester Fernandes. Insetos como alternativa alimentar: artigo de revisão. Contextos da alimentação, São paulo, v. 4, n. 1, p. 40-61, set. 2015. Disponível em: <http://scielo.br/pdf/inter/v17n3/1518-7012-inter-17-03-0503.pdf http://www3.sp.senac.br/hotsites/blogs/revistacontextos/wp-content/uploads/2015/10/54_ca_artigo_ed_vol_4_n_1_15_2.pdf>.Acesso em: 22 mai. 2018.
  4. HOSPITAL DAS CLÍNICAS. Recomendado pela ONU, consumo de insetos na dieta já ocorre no Brasil. Disponível em: <http://www.hospitaldasclinicas.com.br/recomendado-pela-onu-consumo-de-insetos-na-dieta-ja-ocorre-no-brasil/>. Acesso em: 22 mai. 2018.
  5. BLOG DO SOBREVIVENCIALISMO. História do consumo de insetos. Disponível em: <http://blogdosobrevivencialismo.blogspot.com.br/2014/08/historia-do-consumo-de-insetos.html>. Acesso em: 22 mai. 2018.
  6. Smith & Paucar-Cabrera, Andrew (2009). «Taxonomic review of Platycoelia lutescens Blanchard (Scarabaeidae: Rutelinae: Anoplognathini) and a description of the use of this species as food by the people of the Ecuadorian highlands.». Annals of the Entomological Society of America. Consultado em 5 de janeiro de 2019
  7. PLANETA INSETO - SECRETARIA DE AGRICULTURA E ABASTECIMENTO, INSTITUTO BIOLÓGICO (IB). Algumas curiosidades. Disponível em: <http://www.planetainseto.com.br/curiosidades/>. Acesso em: 22 mai. 2018.
  8. a b WATERHOUSE, D. et al. Transforming insect biomass into consumer wellness foods: a review. Food research international, Burlington, v. 89, parte 1, p. 129-151, nov. 2016. Disponível em: <https://ac.els-cdn.com/s0963996916304264/1-s2.0-s0963996916304264-main.pdf?_tid=2d886435-92e9-442c-91e6-21eb4bd94cff&acdnat=1525364951_d13538fc104ea2151c46e90cf45e4d72>.Acesso em: 22 mai. 2018.
  9. a b c RUMPOLD, Birgit A.; SCHLÜTER, Oliver K.. Nutritional composition and safety aspects of edible insects. Molecular nutrition & food research, Weinheim, v. 57, n. 5, p. 802-823, mai. 2013. Disponível em: <https://onlinelibrary.wiley.com/doi/epdf/10.1002/mnfr.201200735>.Acesso[ligação inativa] em: 22 mai. 2018.
  10. CHEUNG, Thelma Lucchese; MORAES, Marília Soares. Inovação no setor de alimentos: insetos para consumo humano. Interações, Campo grande, v. 17, n. 3, p. 503-515, jul./set. 2016. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=s1518-70122016000300503>.Acesso[ligação inativa] em: 22 mai. 2018.
  11. a b CORREIA, S. et al. Insetos edíveis - a fonte proteica do futuro. Agrotec, Porto, v. 16, p. 70-73, set. 2015. Disponível em: <https://www.researchgate.net/publication/319234203_insetos_ediveis_a_fonte_proteica_do_futuro>.Acesso em: 22 mai. 2018.
  12. HUIS, Arnold Van. Potential of insects as food and feed in assuring food security. Annual review of entomology, Wageningen, v. 58, n.11, p. 563-583, jan. 2013. Disponível em: <https://www.annualreviews.org/doi/pdf/10.1146/annurev-ento-120811-153704>.Acesso em: 22 mai. 2018.