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Eriocaulaceae

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Como ler uma infocaixa de taxonomiaEriocaulaceae
Eriocaulon decangulare
Eriocaulon decangulare
Classificação científica
Domínio: Eukaryota
Reino: Plantae
Superdivisão: Spermatophyta
Divisão: Magnoliophyta
Classe: Liliopsida
Subclasse: Commelinidae
Ordem: Poales
Família: Eriocaulaceae
Martynov (1820)
Géneros
Ver texto

Eriocaulaceae Martynov é uma família de plantas floríferas pertencente à ordem Poales.

As espécies da família estão amplamente distribuídas, principalmente nas regiões tropicais da América do Sul. O Brasil, por exemplo, conta com aproximadamente 600 espécies[1], correspondendo a 50% das cerca de 1.200 espécies incluídas na família[2]. Poucas espécies são encontradas em regiões temperadas. Por exemplo, juntos EUA e Canadá contam apenas com 16 espécies[3], enquanto uma única espécie (Eriocaulon aquaticum) é encontrada na Europa[4]. Já na Ásia, onde apenas o gênero Eriocaulon ocorre, a diversidade temperada é um pouco mais elevada. Por exemplo, o Japão sozinho possui 26 espécies[5].

A maioria são plantas herbáceas perenes, sendo algumas anuais. Assemelham-se com as plantas das famílias Cyperaceae e Juncaceae, também pertencentes à ordem Poales.

Muitas espécies dessa família são exploradas economicamente como "sempre-vivas". Porém, como são plantas difíceis de cultivar e de alto endemismo, o extrativismo vem colocando muitas delas em perigo de extinção. Os gêneros mais procurados de sempre-vivas são Comanthera, Eriocaulon, Paepalanthus e Syngonanthus.

O número de gêneros na família é, no momento, tema de disputa entre especialistas. O principal motivo da instabilidade é a classificação de Paepalanthus, gênero para o qual houve grande avanço da sistemática molecular recentemente, gerando evidências que desafiam as posições taxonômicas tradicionais[6][7][8]. Como resultado, há grande instabilidade nas classificações aceitas e as informações apresentadas aqui podem torna-se desatualizadas rapidamente.

A classificação aceita pela Flora do Brasil, compilada pelo Jardim Botânico do Rio de Janeiro, reconhece 18 gêneros[1]:

Já a classificação aceita pelo Plants of the World Online, compilada pelo Real Jardim Botânico de Kew [9], reconhece oito gêneros:

Essa diferença é resultado da escolha entre utilizar um conceito mais restrito ou amplo de Paepalanthus, escolha essa que tem sido motivo de forte debate na comunidade taxônomica (ver seção seguinte, Discordâncias Taxonômicas).

Gênero Actinocephalus

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Actinocephalus bongardii (St. Hilaire) Sano.

O botânico brasileiro Paulo Takeo Sano propôs em 2004, a partir de trabalho de campo intensivo e extensivo e uma análise de várias características em uma revisão da seção Paepalanthus Actinocephalus (Körn.) Ruhland, que esse grupo fosse elevado a gênero[10].

Actinocephalus (Körn.) Sano é caracterizada principalmente pela inflorescência composta de capítulos em umbelas e em ter uma distribuição geográfica restrita ao Brasil, em especial, o Cerrado. Estudos recentes com dados moleculares aumentaram o número de espécies do gênero[11].


Discordâncias taxonômicas

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A classificação da família Eriocaulaceae tem sido objeto de debates científicos há muito tempo, particularmente devido à complexidade taxonômica de Paepalanthus, um dos maiores gêneros da família. Há mais de duas décadas, estudos indicam que Paepalanthus não é monofilético, o que significa que o gênero não inclui todos os descendentes de um ancestral comum, como seria esperado em uma classificação natural.

Em 2017, Mabberley [12] sugeriu uma abordagem que agrupava outros gêneros reconhecidos, como Actinocephalus, Lachnocaulon e Tonina, dentro de Paepalanthus. Essa proposta foi posteriormente adotada por Christenhusz et al. 2018[13], mas enfrentou críticas da comunidade científica. A principal controvérsia gira em torno da ausência de análises detalhadas ou revisões por pares que sustentassem robustamente a reestruturação taxonômica proposta, deixando a classificação de Paepalanthus como um tema ainda em aberto e amplamente debatido.

Em 2023, uma nova proposta de classificação foi publicada na revista Taxon, baseada em análises filogenéticas e morfológicas[14]. Este trabalho, liderado pela Dra. Caroline Andrino, da Universidade de Brasília, utilizou dados filogeneticos publicados em 2021 na revista Botanical Journal of the Linnean Society como base para a segregação de linhagens com forte suporte[6]. A classificação incorporou características morfológicas que definem cada grupo, resultando na proposição de seis novos gêneros e na elevação de duas categorias infragenéricas de Paepalanthus ao nível de gênero. Com isso, a família passou a contar com 18 gêneros.

Em 2024, foi publicado um artigo de perspectiva na revista Taxon liderada pelo botânico alemão Dr. Thomas Stützel, da Universidade de Bochum[15]. Os artigos de perspectivas são descritos pela revista Taxon como artigos curtos "desafiando ou comentando novas ideas" e cujos requerimentos editoriais são "os mesmos de um artigo científico [...]"[16]. O texto foi publicado como uma resposta direta ao trabalho de 2023 e defendeu a adoção de um conceito amplo de Paepalanthus, sinonimizando os novos gêneros de 2023 e os gêneros Actinocephalus, Lachnocaulon e Tonina dentro de Paepalanthus, conforme sugerido por Mabberley em 2017. Os principais argumentos apresentados por Stützel et al. (2024) são 1) a inconsistência das diagnoses e descrições apresentadas para os gêneros, que conflitam ou não representam todas as espécies incluídas naquele grupo, e 2) o princípio da estabilidade nomenclatural defendido pelo Cógido Internacional de Nomenclatura[17]. Nessa classificação, a família contaria com 7 gêneros.

Em 2025, Andrino, Barbosa-Silva e colaboradores publicaram o primeiro trabalho filogenômico para a família[8]. O trabalho possui uma amostragem focada em Eriocaulon e Monosperma, incluindo basicamente uma amostra de cada um dos outros gêneros e nenhuma amostra de Mesanthemum. Contudo, esse é o primeiro a incluir um número balanceado de amostras de ambas as subfamílias atualmente aceitas (i.e., Eriocauloideae e Paepalanthoideae), permitindo testar a monofilia dessas com mais certeza. Na filogenia inferida, Monosperma é recuperado como um grupo monofilético irmão de Eriocaulon + outros Paepalanthoideae, desafiando assim a monofilia de Paepalanthus sensu lato e da própria subfamília Paepalanthoideae. Esse resultado tem grandes implicações para a classificação supragenérica da família, assim como para a aceitação de um conceito amplo de Paepalanthus que englobe Monosperma. A classificação apresentada no portal Plants of the World Online[2] incorpora as evidências desse artigo de 2025 e reconhece Monosperma com segregado de Paepalanthus sensu lato.

Atualmente, plataformas renomadas, como a Flora do Brasil[1] bem como herbários internacionais de destaque, como o NYBG, MO, US, e nacionais como UB, DIAM, SPF já adotaram a classificação proposta por Andrino et al. (2023)[14]. Essa aceitação reflete a robustez das análises apresentadas e a concordância com a nova circunscrição dos gêneros dentro da família Eriocaulaceae. Contudo, plataformas renomadas como o Plants of the World Online[2] e o World Flora Online[18] e diversos herbários internacionais com o K e E, assim como nacionais como RB, OUPR e INPA não adotaram ou adotaram parcialmente o sistema. Essa diferença é um reflexo da atual cisma na comunidade taxonômica de Eriocaulaceae, com dois grupos de renomados especialistas brasileiros e estrageiros discordando a cerca da melhor maneira de classificar as espécies da família.

Livro das Eriocaulaceae

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Capa do livro O Mundo das Eriocaulaceae: sempre-viva chuveirinhos e capim-dourado.The world of Eriocaulaceae: everlastings, piperworts, and golden grass.

As Eriocaulaceae são plantas fascinantes, especialmente populares na América do Sul, onde compõem paisagens típicas e icônicas com sua beleza única e diversidade encantadora.

Em 2024, foi lançado o livro "O mundo das Eriocaulaceae: sempre-vivas, chuveirinhos e capim-dourado" (The World of Eriocaulaceae: Everlastings, Pipeworts, and Golden Grass), uma obra bilíngue apresentada durante o 74º Congresso Nacional de Botânica do Brasil. Este livro reúne o trabalho de 16 pesquisadores de diversas instituições ao redor do mundo em capítulos que exploram diferentes aspectos da família Eriocaulaceae. Organizado pelas especialistas Dra. Caroline Oliveira Andrino e Dra. Fabiana Nepomuceno da Costa, a obra combina rigor científico com uma linguagem acessível, tornando-se uma leitura cativante para cientistas, amantes da natureza e o público em geral.

Além de apresentar informações detalhadas sobre a diversidade e distribuição dessas plantas, o livro também se debruça sobre o importante uso das Eriocaulaceae por comunidades tradicionais. Essas conexões culturais e ecológicas destacam o valor dessas plantas não apenas para a ciência, mas também para os modos de vida locais. Repleto de fotografias deslumbrantes capturadas por olhares atentos e lentes experientes, o livro oferece um passeio visual e informativo pelas paisagens que abrigam essas plantas extraordinárias, apresentando espécies de diferentes partes do mundo.




Referências

  1. a b c «Eriocaulaceae in Flora e Funga do Brasil. Jardim Botânico do Rio de Janeiro.». Flora e Funga do Brasil. Consultado em 28 de novembro de 2024 
  2. a b c «Eriocaulaceae Martinov | Plants of the World Online | Kew Science». Plants of the World Online (em inglês). Consultado em 28 de novembro de 2024 
  3. Kral, Robert (1966). «Eriocaulaceae of Continental North America North of Mexico». SIDA, Contributions to Botany (4): 285–332. ISSN 0036-1488. Consultado em 28 de novembro de 2024 
  4. «Eriocaulon L. | Plants of the World Online | Kew Science». Plants of the World Online (em inglês). Consultado em 28 de novembro de 2024 
  5. Oi, Jisaburo; Oi, Jisaburo; Meyer, Frederick G.; Meyer, Frederick G.; Walker, Egbert H.; Walker, Egbert H. (1965). Flora of Japan : in English : combined, much revised and extended translation. Washington: Smithsonian Institution 
  6. a b Andrino, Caroline O; Sano, Paulo T; Inglis, Peter W; Hensold, Nancy; Costa, Fabiane N; Simon, Marcelo F (1 de janeiro de 2021). «Phylogenetics of Paepalanthus (Eriocaulaceae), a diverse Neotropical monocot lineage». Botanical Journal of the Linnean Society (em inglês) (1): 34–52. ISSN 0024-4074. doi:10.1093/botlinnean/boaa070. Consultado em 24 de outubro de 2025 
  7. Trovó, Marcelo; De Andrade, Maria José Gomes; Sano, Paulo Takeo; Ribeiro, Patrícia Luz; van den Berg, Cássio (janeiro de 2013). «Molecular phylogenetics and biogeography of Neotropical Paepalanthoideae with emphasis on Brazilian Paepalanthus (Eriocaulaceae): Evolution of Paepalanthoideae». Botanical Journal of the Linnean Society (em inglês) (1): 225–243. doi:10.1111/j.1095-8339.2012.01310.x. Consultado em 24 de outubro de 2025 
  8. a b Andrino, Caroline Oliveira; Barbosa-Silva, Rafael Gomes; Siniscalchi, Carolina; Baleeiro, Paulo César; da Costa, Fabiane Nepomuceno; Dabydeen, Leeann; Missagia, Rafaela; Jobson, Richard W.; Plunkett, Gregory M. (2025). «Phylogenomic evidence reveals non-monophyly of Paepalanthoideae (Eriocaulaceae) and challenges the broad concept of Paepalanthus». TAXON (em inglês) (5): 1054–1066. ISSN 1996-8175. doi:10.1002/tax.13359. Consultado em 24 de outubro de 2025 
  9. «Eriocaulaceae Martinov | Plants of the World Online | Kew Science». Plants of the World Online (em inglês). Consultado em 24 de outubro de 2025 
  10. Sano, Paulo Takeo (2004). «Actinocephalus (Körn.) Sano (Paepalanthus sect. Actinocephalus), a new genus of Eriocaulaceae, and other taxonomic and nomenclatural changes involving Paepalanthus Mart.». TAXON (em inglês) (1): 99–107. ISSN 1996-8175. doi:10.2307/4135493. Consultado em 24 de outubro de 2025 
  11. Andrino, Caroline Oliveira; Sano, Paulo Takeo; da Costa, Fabiane Nepomuceno (21 de dezembro de 2021). «Taxonomic Re-evaluation of Actinocephalus (Eriocaulaceae) in Light of New Morphological and Molecular Evidence». Systematic Botany (em inglês) (4): 929–934. ISSN 0363-6445. doi:10.1600/036364421X16370109698641. Consultado em 24 de outubro de 2025 
  12. Mabberley, David J. (22 de junho de 2017). Mabberley's Plant-book: A Portable Dictionary of Plants, their Classification and Uses 4 ed. [S.l.]: Cambridge University Press 
  13. Christenhusz, Maarten J. M.; Fay, Michael F.; Byng, James W., eds. (2018). Ehoarn Bidault, John Eric Burrows, Florian Jabbour, Vincent Merckx, Greg Stull, Plant Gateway (Firm). «Plant Gateway's the global flora: a practical flora to vascular plant species of the world. Series 3] Part 1 / edited by M.J.M. Christenhusz, M.F. Fay, J.W. Byng ; [with contributions by Ehoarn Bidault (Burmanniaceae), John E. Burrows (Myrtaceae), Florian Jabbour (Ranunculaceae), Vincent S.F.T. Merckx (Burmanniaceae, Triuridaceae), Greg Stull (Icacinaceae): Special edition GLOVAP nomenclature». Bradford, United Kingdom: Plant Gateway Ltd. ISBN 978-0-9929993-6-0 
  14. a b Andrino, Caroline Oliveira; Costa, Fabiane Nepomuceno; Simon, Marcelo Fragomeni; Missagia, Rafaela Velloso; Sano, Paulo Takeo (junho de 2023). «Eriocaulaceae: A new classification system based on morphological evolution and molecular evidence». TAXON (em inglês) (3): 515–549. ISSN 0040-0262. doi:10.1002/tax.12915. Consultado em 8 de janeiro de 2025 
  15. Stützel, Thomas; Trovó, Marcelo; Echternacht, Lívia; Coan, Alessandra Ike; de Lima Silva, Arthur; Watanabe, Maurício Takashi Coutinho; Hensold, Nancy (2024). «In support of a broad concept of Paepalanthus (Eriocaulaceae)». TAXON (em inglês) (5): 1117–1129. ISSN 1996-8175. doi:10.1002/tax.13221. Consultado em 24 de outubro de 2025 
  16. «Author Guidelines - TAXON». Wiley Online Library (em inglês). Consultado em 24 de outubro de 2025 
  17. «The International Code of Nomenclature for algae, fungi, and plants». www.iaptglobal.org (em inglês). Consultado em 24 de outubro de 2025 
  18. «Eriocaulaceae Martinov». www.worldfloraonline.org (em inglês). Consultado em 24 de outubro de 2025. Cópia arquivada em 20 de fevereiro de 2025 

Ver também

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Ligações externas

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