Ermida de Nossa Senhora dos Mártires (Silves)

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Disambig grey.svg Nota: não confundir com a Ermida de Nossa Senhora dos Mártires, em Évora.
Ermida de Nossa Senhora dos Mártires
Vista geral do edifício, em 2012.
Nomes alternativos Igreja de N. Sra. dos Mártires
Igreja dos Mártires da Pátria
Estilo dominante Gótico tardio
Fim da construção Século XVI
Religião Igreja Católica Romana
Diocese Diocese do Algarve
Ano de consagração Século XII
Nossa Senhora dos Mártires
Património Nacional
Classificação Logotipo Imóvel de Interesse Público
DGPC 74929
SIPA 1279
Geografia
País Portugal Portugal
Local Silves
Coordenadas 37° 11' 22.15" N 8° 26' 37.56" O
Localização do edifício em mapa dinâmico

A Ermida de Nossa Senhora dos Mártires, também conhecida como Igreja de Nossa Senhora dos Mártires ou Igreja dos Mártires da Pátria, é um edifício religioso na cidade de Silves, na região do Algarve, em Portugal. Está classificada como Imóvel de Interesse Público.[1]

História[editar | editar código-fonte]

De acordo com a tradição popular, o edifício foi construído no Século XII para servir de sepultura aos guerreiros cristãos que faleceram durante a primeira conquista da cidade de Silves aos mouros, e que por isso foram considerados como mártires.[2] A cerimónia de consagração terá sido em 1189, pelos bispos de Coimbra e do Porto, tendo o rei D. Sancho I assistido à cerimónia.[2] No entanto, não foram encontrados quaisquer indícios desse período, sendo os vestígios mais antigos no local pertencentes ao primeiro quartel do Século XVI.[2]

O edifício foi danificado pelo Sismo de 1755, tendo sido alvo de obras de remodelação ainda durante o Século XVIII, às quais provavelmente se refere a data de 1779 na fachada.[2]

A zona do adro da igreja foi utilizada como necrópole entre os Séculos XV e XVI, tendo sido encontrados vestígios de mais de uma centena e meia de indivíduos, que tinham sido sepultados de acordo com os ritos cristãos.[2] Nesta altura ainda estava em funcionamento o cemitério da , pelo que o campo em redor da Ermida dos Mártires seria principalmente utilizado para enterrar os habitantes da periferia da cidade, e talvez até nos campos agrícolas em redor.[2]

Em 4 de Outubro de 1840 ocorreu uma batalha junto da ermida, quando guerrilheiros miguelistas atacaram uma festa, fazendo seis mortos e catorze feridos.[2] Nessa altura ainda existia um clima de insegurança na região, devido à presença de guerrilheiros miguelistas, que não se renderam após o final da Guerra Civil Portuguesa, continuando as suas campanhas de terror contra as populações.[3] Apesar do clima de medo, foi organizado o Arraial da Senhora dos Mártires, junto à ermida, que conseguiu ruinir um número considerável de pessoas.[3] De forma a vigiar a festa, foram colocados dez agentes da Guarda Nacional, enquanto que em prevenção ficou um grupo de 23 soldados do Destacamento de Infantaria 25.[3] Os guerrilheiros tentaram cercar o recinto do arraial, mas foram descobertos por um popular, que deu o alerta.[3] Isto provocou o pânico entre a multidão, que procurou fugir para Silves, uma vez que nessa altura a ermida ainda estava situada nos subúrbios da cidade.[3] Os guerrilheiros abriram fogo sobre a multidão em fuga, fazendo vários mortos.[3] Os homens da Guarda Nacional, cujo número era muito inferior ao dos miguelistas, também procuraram refúgio em Silves, tendo ficado a defender a cidade enquanto que o Destacamento de Infantaria 25 saiu para atacar os guerrilheiros.[3] O saldo final deste incidente foi de seis mortos e pelo menos 14 feridos, incluindo-se entre estes últimos um agente da Guarda Nacional e um soldado da Infantaria 25.[3] A brutalidade deste ataque causou um grande terror entre as populações da região, principalmente a de Silves, que passou a dormir dentro das muralhas, onde estavam protegidos.[3] Em 6 de Janeiro de 1841, o administrador de Silves relatou ao Governador Civil que tinham sido capturados os guerrilheiros Joaquim Consciência, suposto líder do ataque no ano anterior, dois jovens que estavam armados.[3] Três dias depois, comunicou que Joaquim Consciência e um dos jovens tinham sido fuzilados no Campo da Senhora dos Mártires.[3]

Em 1886 a Feira de Todos os Santos começou a ser feita junto à ermida, tendo continuado a ser organizada ali até 1936.[2]

Já no Século XX, verificou-se uma grande expansão urbana na zona em redor da ermida, que deixou de estar num arrabalde da cidade, e passou a fazer parte do centro.[2]

Em 11 de Maio de 1958, um artigo no jornal Novidades criticou o avançado estado de degradação a que tinha chegado a ermida, e propôs que fosse ascendida a Monumento Nacional.[2] Na sequência desta denúncia, o Ministério das Obras Públicas e a Direcção Geral de Edifícios e Monumentos Nacionais iniciaram o processo para a classificação do edifício, que culminou com a publicação do Decreto n.º 44075, de 5 de Dezembro de 1961, que lhe atribuiu a categoria de Imóvel de Interesse Público.[2] Ao mesmo tempo, o edifício foi alvo de extensas obras.[2]Também durante o Século XX, dois retábulos barrocos que estavam na Sé de Silves foram transportados para a ermida.[2]

Em 2005, foram feitas escavações arqueológicas na Rua D. Afonso III, que permitiram a descoberta de várias estruturas que aparentam ser da época islâmica, como muros, aterros e canalizações, e vários vestígios funerários, de período indeterminado.[4]

Em Outubro de 2019, a autarquia de Silves apresentou a Rota das Ermidas, um percurso turístico e cultural que ligava dez ermidas no concelho, incluindo a de Nossa Senhora dos Mártires.[5]

Descrição[editar | editar código-fonte]

Vista do altar da Ermida.
Vista da entrada da Ermida.

O edifício apresenta uma composição típica dos finais do gótico, com uma planta simples e de forma geométrica.[2] A cabeceira está sobreelevada em relação ao corpo da igreja, e está coroada com merlões de forma chanfrada, elemento arquitectónico mais habitual no Alentejo do que no Algarve, onde o único outro exemplo é a Igreja da vila da Luz, no concelho de Lagos.[2] A cabeceira possui dois conjuntos distintos de gárgulas, sendo duas animalescas e as restantes em forma de bombarda, demonstrando as alterações artísticas introduzidas durante o Período joanino.[2]

A fachada principal, no estilo típico dos finais do Barroco, é rasgada por um portal de verga recta, onde foi inscrita a data de 1779, ladeado por duas janelas com molduras de quatro lóbulos.[2] Em cima do portal está um óculo, de forma semelhante à das janelas.[2]

Possui uma só nave, que termina num arco triunfal quebrado, composto por três arquivoltas, sendo a do lado da nave de forma torsa, que são suportadas por colunas embebidas.[2] Os capitéis apresentam uma forma simples, no tipo de base invertida, e estão decorados com motivos vegetais, no estilo arcaico.[2] A capela-mor tem uma abóbada de cinco chaves, apresentando uma forma de estrela com quatro pontas.[2] As chaves estão decoradas com desenhos do Sol e da Lua, que são considerados símbolos marianos, uma Cruz de Cristo, e um camaroeiro, emblema da Rainha D. Leonor.[2] Este último símbolo demonstra que a rainha teria patrocinado a igreja, uma vez que a cidade fazia parte da Casa das Rainhas desde 1491.[2] O historiador Manuel Ramos avançou a teoria de que as mísulas, as pequenas chaves e as nervuras, de perfil fino, tiveram origem na Década de 1520.[2] Na capela-mor, também se destaca o retábulo, no estilo maneirista.[2] No interior da ermida situam-se outros dois retábulos, que vieram da Sé de Silves.[2]

No pavimento da nave estavam dispostas várias lápides tumulares do período medieval, embora não tenham sido encontrados quaisquer vestígios arqueológicos nos locais onde se encontravam, pelo que poderiam ter sido parte de um templo primitivo, construído após 1189.[2]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. «Ponte Velha de Silves classificada como Monumento de Interesse Público». Barlavento. 15 de Maio de 2020. Consultado em 30 de Junho de 2020 
  2. a b c d e f g h i j k l m n o p q r s t u v w x y z aa «Ermida de Nossa Senhora dos Mártires». Câmara Municipal de Silves. Consultado em 30 de Junho de 2020 
  3. a b c d e f g h i j k JÚDICE, Pedro Mascarenhas (Abril de 1916). «Antiguidades do Algarve (Elementos para a sua história)» (PDF). Alma Nova. Ano II (4). p. 88-89. Consultado em 30 de Junho de 2020 – via Hemeroteca Digital de Lisboa 
  4. citar web|titulo=Silves - Rua Afonso III|obra=Portal do Arqueólogo|publicado=Direcção Geral do Património Cultural|url=https://arqueologia.patrimoniocultural.pt/index.php?sid=sitios&subsid=2689909%7Cacessodata=2 de Julho de 2020}}
  5. BRAVO, Paula (14 de Outubro de 2019). «Rota das Ermidas e Nova Sinalética para o Património». Terra Ruiva. Consultado em 30 de Junho de 2020 
O Commons possui uma categoria contendo imagens e outros ficheiros sobre a Ermida de Nossa Senhora dos Mártires

Ligações externas[editar | editar código-fonte]


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